ELEIÇÕES 2014 – SOCIEDADE AUTORITÁRIA EXIGE RETROCESSO CONSERVADOR


Derval. black witheDesigualdade e marginalização, a nosso modo de ver, fazem parte dos recusados programas de inclusão e cidadania pluralizada, democracia igualitária, no governo de Dilma Rousseff. Aécio representará esse grupo. Falará da Petrobrás até cair de costas, das poucas empresas rentáveis que escaparam da privatização promovida por FHC. Esquecerá propositadamente a Vale do Rio Doce, as siderúrgicas antes estatais, e o elenco dos bens da nação privatizados naquele período.

Já vamos começar o segundo turno, e os argumentos referentes à “privataria” retornarão, um elenco fabuloso de submissões ao capitalismo tupiniquim caçador de recompensas. FHC, Serra, e a pretensiosa hegemonia de São Paulo, desde Ademar de Barros e tantos mais, voltarão, para ser impostos, com as mesmas propostas contra a distribuição igualitária de renda na federação. Os “injustos benefícios” da casa própria para os empobrecidos, saúde pública melhorada, auxílio para famílias à margem da economia regular, serão o contraponto à discussão sobre a privatização de universidades públicas, e voltará o debate sobre a retomada da proliferação descontrolada de faculdades privadas, a exemplo daquela havida na gestão FHC, até 2002. Sugiro uma leitura para se entender o assunto: James Holston, Cidadania Insurgente.

James Holston  oferece uma leitura esclarecedora. Mais de 20 anos lecionando nas universidades de S.Paulo, descreve o “fenômeno” do desenvolvimento da economia industrial, “tour de force” da economia paulistana, enquanto deslinda, como gente de verdade, o povo miúdo constituído de imigrantes que  fugiam da pobreza da Europa latina, antes e depois da I Guerra Mundial. Com essa gente, depois acrescida pelas populações nordestinas e asiáticas orientais, construia-se a estrutura urbana de S.Paulo.

Especialmente, a expulsão de trabalhadores e o restantes de migrantes nordestinos, e do resto do Brasil, para as periferias. A política conservadora de São Paulo não pode aceitar que esse grupo conduza as políticas públicas no país. Notadamente, quanto aos pretendidos privilégios repartidos com a sociedade toda; o intento de distribuição de renda levada aos “extremos negativos” dos “improdutivos”, os mais pobres entre os pobres, é insuportável aos políticos servidores do grande capital, na enorme “nação” paulista. Eu, pessoalmente, amo S.Paulo, e até, nos meus devaneios, fico desejando passar os últimos dias de minha velhice gozando da cultura disponível ali. Suas livrarias, seus cinemas fantásticos, seus museus e espaços culturais. Contudo, suas paisagens cinzentas não  perturbam. Porém, as humanas são instigantes.

Desde 1950, o movimento de brasileiros na direção das grandes cidades mudou o cenário objetivado pela política. Os grandes avanços da cidadania desde a promulgação da Constituição de 1988 não se dissociam das fraturas sociais que fazem do Brasil um dos campeões mundiais da desigualdade e da violência urbana, informam-nos os historiadores sociais. Quando a cidadania insurgente, essa que vai reclamar nas ruas o direito a transporte, moradia digna, saúde pública com qualidade, escolas verdadeiramente formadoras para o trabalho e a produção em repartição igualitária, nos remetemos às origens da nação moderna que é o Brasil. É em S.Paulo que vamos encontrar o melhor exemplo de diversidade, através das populações formadoras que misturam nossos ancestrais europeus mais recentes e as amostras da gente do norte brasileiro, do centro e do oeste, ainda mais próximas no tempo.

A sociedade civil é o mundo tomado por males reais, coletivos, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana, camuflados no falso repúdio e vergonha do grupo autoritário insensível à essência imunda e maligna da miséria, mas que reclama por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodada em seu conforto. Como uma sociedade — o país ocupa um lugar mundial entre as cinquenta nações onde a corrupção faz parte do cotidiano cidadão desde o camelô, o guarda de trânsito, ao chefe do legislativo — pode protestar, exigindo dos governantes o combate abstrato da corrupção?

“Corruptio optimi pessima est”, a expressão latina diz de forma breve uma grande verdade: “a corrupção dos melhores é a pior que existe” (Leonardo Boff). Vejamos, então, porque há um resíduo testemunhal da ética tomando as ruas das metrópoles, aos milhares. Somado no país inteiro, superou a casa do milhão de manifestantes num só dia. E cantava: “sou brasileiro, com muito orgulho”… Posso observar tudo isso na minha velhice.

Ali, podemos ver que a maioria dos brasileiros foi privada de direitos políticos além das urnas, excluída da propriedade fundiária legal, forçada a condições de habitação segregadas e alienada da lei. Enquanto isso, trabalhava-se para inserir o Brasil na listagem das nações do mundo desenvolvido. E o que é o desenvolvimento senão inserção social completa, inclusão, igualdade na democracia produtiva e gozo dos bens sociais? Foi em S.Paulo que se verificou a mais violenta repressão do Estado, no levante de junho, em 2013.

Os mitos recorrentes sobre a formação do país, também presentes ou subentendidos na manutenção de fronteiras sociais porosas,  entre iguais e desiguais, o legal para a sociedade privilegiada e o ilegal para os insurgentes, aqueles que reclamam a partilha dos bens econômicos e sociais; sociedade que tem contribuído decisivamente para a reprodução da desigualdade no Brasil. Então, o que é chocante, impactante, nas manifestações pacíficas de 2013? É o enfoque invertido sobre os reais problemas das urbes e do país, que políticos escamoteiam, enquanto se perpetuam e enriquecem nos cargos públicos? Repercutirá no segundo turno destas eleições? Até agora o que vimos foi a forte reação do autoritarismo social, nos debates dos candidatos que agora apoiarão Aécio Neves.

A partir dos anos 1950, porém, os brasileiros começaram um movimento em direção às grandes cidades e construíram periferias urbanas, o que ensejou a formulação de uma cidadania insurgente desestabilizadora do regime histórico de opressão, por meio de lutas por moradia, terra e vida digna. Ao longo dessa questão, também observamos as razões pelas quais a democracia resultante dessas lutas ainda permanecem, emaranhadas no sistema.  São razões entrincheirados na desigualdade absurda.

As vítimas não servem ao autoritarismo ideológico moralista da sociedade autoritária contemporânea, inclinada a defender privilégios para quem transita nas ilhas de conforto econômico, consumindo lazer de luxo, ocupando postos de trabalho com alta renda, condenando as passeatas insurgentes, enquanto finge condenar a corrupção concreta – observada em ritmo galopante. As vítimas falam e reclamam de uma democracia abstrata, de privilégios econômicos não partilhados, enquanto é negado o direito às maiorias em situação clara de desigualdade.

A manipulação da psicologia subliminar sobre o medo do poder das massas; do repulsivo e nojento, ganha espaço nas referências contra a violência nas periferias urbanas, lugares onde se localizam a pobreza indigente e as mais profundas desigualdades, não funcionou nestas eleições. Erro fundamental, igualando insurgência como manifestação “black bloc”. Mas quem não se interessa por “slogans” falso moralistas emitidos por mentes conservadoras ou fundamentalistas que dominam a sociedade hedonista, que detesta ser incomodada em seus privilégios,  que vêm às urnas?

Derval Dasilio

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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14 respostas a ELEIÇÕES 2014 – SOCIEDADE AUTORITÁRIA EXIGE RETROCESSO CONSERVADOR

  1. Eduardo diz:

    A propósito, além de você que escreve e eu que comento, vez por outra, quem mais comenta e posta, alem de ler, em seu blog?

    • derwal diz:

      Não sei, mas as estatísticas do blog mostram uma média perto de 10.000 leitores por ano. Em todo caso, ter você como leitor, se fosse o único, já me bastaria. Os artigos nos blogs de artigos litúrgicos (Teologia & Culto Cristão) são menos lidos, embora acessados em média inferior a 5.000 por ano. A WordPress, contudo, favorece-me com a divulgação automática que têm-me permitido alcance internacional satisfatório. Obrigado pelas observações. A propósito, a soma de leitores na UltimatoOnline, por ano, garantem-me média nunca menor que 10.000 acessos por ano… Convido-lhe a fazer o mesmo. Sempre fico esperando por seus artigos e escritos, além das reações.

  2. Eduardo diz:

    Digamos 12.000, sem admitir que muitos voltam lá mais de uma vez. Eu, por exemplo, para aprender a não usar raciocínios históricos distorcidos, bato ponto lá para informar-me sobre o cuidado que se deve ter para não cair do engôdo de análises com pendor da esquerda. Nada contra a sua pessoa, mas as suas teses, sim.

    Então temos que 12 mil divididos por 365 dias, você é premiado com um ‘congregação presbiterial’ de 33 membros, aproximadamente.

    Infelizmente não publico mais em ULTIMATO. Mas se você quiser, tenho lá mais de 70 artigos comentados. Nunca leste?

    Por exemplo, todos os seus artigos eu comento pelo menos umas duas vezes. Raramente publicam meus comentários. Ano passado escrevi um (último artigo) criticando o elogio rasgado de Lyndon sobre Hobsbawm e ULTIMATO recusou a publicação. E olha que eu fui em cima da tese do rapaz, nada contra a pessoa dele. A ALIANÇA EVANGÉLICA publica lá horrores, publicam tudo, mas comentários, rejeitam todos, exceto, claro, os tradicionais ‘baba-ovos’.

    Mas você sabe, não é? ULTIMATO tem ultimamente um certo viés esquerdizante. Fazer o quê, né? Fazer o quê, não, caro Derval. É da natureza!

    Com certeza parte dos 33 que leem e aprovam seus artigos (me exclua, por favor) são tipos cuja leitura da história tem um certo colorido avermelhado.

  3. Eduardo diz:

    IGREJAS EM CRISE – http://www.ultimato.com.br/conteudo/igrejas-em-crise

    “Ninguém, nem um indivíduo, nem igrejas, nem mesmo comunidades têm algum título apropriado para invadir os direitos civis e os bens terrenos dos outros, sob a desculpa da religião.” (John Locke).

    1.
    Uma IGREJA não é uma COMUNIDADE. A COMUNIDADE é uma sociedade onde os cidadãos se agrupam para terem seus direitos civis reconhecidos: a liberdade é um desses direitos.

    2.
    Questões ligadas à fé não dizem respeito ao judiciário. O ESTADO é e deve permanecer sempre laico e preocupar-se apenas com direitos civis.

    3.
    Quem se interessa pelo mundo por vir é a IGREJA. Ao GOVERNO CIVIL, os interesses civis. O mundo que virá ou a alma, é à IGREJA que interessa.

    4.
    A IGREJA é uma sociedade de voluntários. Entra quem quer; como tenda de beduíno: entra e sai como e quando quiser, ou dela é expulso, e cujo interesse é a alma e a salvação eterna. Trata-se de uma associação voluntária, portanto, quando as do ESTADO são obrigatórias. Por exemplo, ninguém é escusado de cumprir a lei, nem mesmo juiz que dá carteirada. A igreja não tem normas obrigatórios no sentido civil do termo.

    5.
    A tolerância religiosa exige que cultos diferentes convivam entre si e o ESTADO não pune pecado. Ninguém, Malafaia por exemplo, será obrigado a respeitar (Malafaia é contra) o homossexualismo entre seus membros (membresia), devendo, porém, Malafaia tolerar e concordar, civilmente, com aqueles que concordam que homossexualismo é comportamento correto. Malafaia tem mais tolerância com os homossexuais que não têm tolerância alguma com Malafaia. O magistrado não deve entrar nessa pendenga, a menos que as liberdades e direitos dos homossexuais sejam suprimidas.

    **************
    PS. Este artigo de Derval peca por não marcar os limites claros e específicos entre IGREJA e ESTADO, confundindo conceitos e estabelecendo ilações impróprias. O último parágrafo do artigo dele é uma expressão dessa confusão conceitual.

  4. Eduardo diz:

    Preferirias os conservadores como um Geraldo Alkmin ou a roubalheira do PT que ‘privatizou’ a Petrobrás?

  5. Eduardo diz:

    “Corruptio optimi pessima est”, a expressão latina diz de forma breve uma grande verdade: “a corrupção dos melhores é a pior que existe” (Leonardo Boff).

    Deve ser por isso que o ex Boff, atual Gervásio, foi chamado à chincha no Vaticano. Com o seu CARISMA E PODER, subverteria a ordem Católica com uma ideia novel que se mostrou furada ao longo do tempo. Inconformado, passou a falar de flores e pastos verdejantes. Ainda tem seguidores.

    • Como é de conhecimento público, tendo assumido o Papa Francisco, as ênfase mudaram. Leonardo Boff passou a ser um dos assessores indispensáveis de Francisco. E seus pronunciamentos refletem seguramente a teologia libertária que seguimos.

      • Corrigindo: “… as ênfases mudaram”.

      • EDUARDO diz:

        “Como é de conhecimento público, tendo assumido o Papa Francisco, as ênfase mudaram. Leonardo Boff passou a ser um dos assessores indispensáveis de Francisco. E seus pronunciamentos refletem seguramente a teologia libertária que seguimos.”

        Conhecimento público? Então o Vaticano deu agora para anunciar ao distinto público que o atual Papa (só podia ser mesmo argentino!) chamou o ex-Boff para dar pitacos! Demonstre Derval, sem ser panfletário, claro. Sua informação vale tanto quanto uma nota de 3 reais. Que lindo, não? O Boff excomungando agora dá conselhos e confabula com sua Santidade no escurinho do cinema!

        Corruptio optimi!

  6. Eduardo diz:

    “Ele é um entusiasta do Obama e acha muito positivo o que vem fazendo. Mas ao mesmo tempo diz que o processo de reaproximação é muito longo, que os EUA precisam tomar medidas concretas, pondo fim ao embargo e retirando Cuba da lista de países terroristas. Fidel ressaltou: ‘Mesmo sendo inimigos, temos que dialogar’.”

    Frei Betto, escritor brasileiro, sobre seu encontro com o ex-ditador cubano Fidel Castro, em Havana, na terça-feira (27); segundo ele, Fidel, o ‘coma-andante’ está completamente ‘lúcido’ aos 88 anos! (rs).

  7. Eduardo diz:

    Grande momento, não Derval?
    Com certeza você não concorda com essa roubalheira aí do PT.
    Mas certamente um artigo que justificaria os 10000 clicados seria bem vindo.

  8. Eduardo diz:

    ELEIÇÕES 2014 – SOCIEDADE AUTORITÁRIA EXIGE RETROCESSO CONSERVADOR

    Já pensaste em vir a público corrigir este título aí?
    A menos, claro, que a ideia da avestruz enfiando a cabeça na areia seja aquela que justificasse que as eleições realmente flagrou um grupo autoritário que está afundando o Brasil com o retrocesso não conservador, mas corruptor. E tudo com nome e valores devidamente precificados.

  9. EDUARDO diz:

    Seu artigo tem um trite porém, contra o ‘conservadorismo’ que você bateu do começo ao fim, mas não disse o que era, exceto que ideologia, vai substitui-lo com o quê? O ‘progressismo esquerdopata’. Essa turma já quebrou o país agora quer enterra-lo de vez.

    Ainda vez que o Senado deu um chega pra lá nesses ineptos em economia e generosos na letra.

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