OS EVANGÉLICOS, A POLÍTICA E A CONSTITUIÇÃO FEDERAL


derval  prto.brancoA liberdade religiosa deparou-se com inúmeros desafios, desde a monarquia, que oferecia à religião, na Constituição Imperial, parte do “poder moderador”. Hoje, o Estado laico, conforme a Constituição de 1988, vê-se ameaçado pela pretendida “maioria evangélica” (1/5 da população brasileira), buscando exceções constitucionais, privilégios e  inimputabilidade fiscal, que não se estendem à sociedade civil. Igrejas e pastores milionários – e alguns padres, cujas famílias controlam direitos dos mesmos na indústria de objetos religiosos (livros, DVDs, símbolos devocionais, etc.), shows musicais religiosos, informação, de um ou outro expoente midiático, de grande visibilidade na Tv –, arrotam poder e influência política, como vimos nas últimas eleições presidenciais. Há indicações de que movimentam, à parte das obrigações fazendárias, talvez 50 bilhões de reais por ano, somente dentro das igrejas. Sem impostos. Apóiam a quebra da ordem constitucional? Há motivos inconfessáveis, em torno do assunto, implícitos no cotidiano político do Congresso Nacional, constantemente apontado em flagrante corrupção, ou estamos falando do sexo dos anjos (1)

No momento, religiosos na liderança de grandes igrejas evangélicas, eleitos para governar denominações poderosas, declaram a plenos pulmões que pretendem o controle político do País, colocando-se como reservas morais da nação; buscando privilégios e exceções constitucionais para a religião. Ao mesmo tempo, vem a público inúmeros casos policiais e escândalos financeiros, tendo como protagonistas pastores e igrejas, no cenário evangélico. A decretação da prisão de “toda” a cúpula de uma denominação evangélica pelo Ministério Público (Operação Entre Irmãos), pastores acusados de improbidade, formação de quadrilha, enriquecimento ilícito, comparece no noticiário.

“O crime organizado tem uma lista de 100 menores para serem assassinados” (A Tribuna, 13.abr.2013). Enquanto observamos pobreza e injustiça social em níveis que extravasam a compreensão, políticos da camisa preta – antigo símbolo do fascismo integralista –, propõem a redução da maioridade penal. Como se os jovens já não fossem sumariamente punidos por adultos criminosos nas periferias das cidades. Não podendo, ou querendo, agir contra o crime do adulto, que constituem a maioria dos que chegam aos bancos dos réus, imaginam leis e decretos autoritários que alcançariam crianças, punindo precocemente adolescentes industriados pelo criminoso adulto, debelando o surto de violência do momento. Crianças e adolescentes condenados à morte social, sob extermínio sistemático do crime organizado, e sob leis que possam transferir as execuções para o Estado, serão vítimas definitivas, sob aprovação da sociedade autoritária. 

Prevenir danos biográficos psicossociais na infância, adolescência e juventude, com a criminalização da criança e do adolescente, duplamente vítima da sociedade e do crime organizado, não entra na pauta, e não entra na oratória do político pentecostal de camisa preta, em gestos que lembram o nazismo dos anos trinta. Contrariando-o, o jurista renomado diz: “o sistema carcerário não é um sucesso, de modo a que se pensasse ser um mal privar crianças e adolescentes da possibilidade de desfrutar dos benefícios do sistema. Muito pelo contrário, é péssimo. Como se pretende então incorporar um contingente de crianças e adolescentes a um sistema falido?”, informa o juiz, professor conceituado, João Batista Herkenhoff.

Como escrevi anteriormente, vai além da impotência da sociedade lidar com assuntos tão complexos, ancestrais. A pedofilia acompanha as sociedades humanas, como a prostituição infantil, desde tempos remotos, consentida nas práticas escravagistas e nos contratos matrimoniais e de concubinato, ao contrário do incesto, nas civilizações mais recentes, no Oriente ou Ocidente. A criminalidade juvenil – fenômeno urbano contemporâneo –, conforme antropólogos, é consequência dos surtos de violência contínuos que refletem a desorganização e desproteção que o jovem sofre, à margem do desenvolvimento econômico, especialmente nas periferias das cidades brasileiras.

A homossexualidade, mais que um problema moral, é uma constatação cultural, histórico-social dos sexos e dos gêneros, desde a emergência humana, talvez em 2,6 milhões de anos, através de processos biológicos consecutivos, biogênicos e sexogênicos. Políticos não conhecem isso, e levam a experiência do preconceito e da   intolerância às tribunas do Congresso, explorando o medo e as perplexidades do socialmente imponderável, nas sociedades pós-tecnológicas. Políticos evangélicos sugerem leis autoritárias sobre a homossexualidade, a criminalidade juvenil, a pedofilia, além dos dispositivos regulares da Constituição Federal e do Código Civil, para estancar a violência (2).

Evangélicos parecem querer instituir, como fizeram cidadãos católicos no Império, quatro poderes, numa grande concentração de atos e decisões que passem pelas mãos do “quarto poder moderador” da nação, a religião, reeditando o fundamentalismo religioso como instrumento da vontade evangélica, restaurando ênfases do absolutismo político imperial no Brasil.

Derval Dasilio

Livro recente: Jaime Wright – O Pastor dos Torturados

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Notas:

(1) Desde a luta contra a “etnofobia” nos EUA, com um atraso de algumas décadas, o espírito da “maioria moral religiosa” (Majoral Maiority), chega às plagas tupiniquins. Aqui, o “apartheid“, direito de ser racista, se expressa na homofobia; na negação de direitos civis e sociais igualitários às pessoas homossexuais. Fica claro que se busca também a aprovação da sociedade total, sem distinção religiosa, encurralada pela violência criminal, explorando-se a psicologia subliminar do medo, do repulsivo e do nojento. Uma receita que acompanha o “imbroglio” que pretende violentar a Constituição ganha espaço, e vai além da sociedade evangélica. Porém, a temática “criança abusada”, “adolescente ladrão e assassino”, “pessoa homossexual”, é cristalizada na política do bloco evangélico no Congresso Nacional. Está aberta a temporada no movimento “por uma constituição evangélica no Brasil”.

(2) Cresce a defesa da política “evangélica”, nas bandeiras do combate à pedofilia; nos obstáculos aos direitos igualitários, humanos e civis, para homossexuais, num pacote único. Mais recentemente, a criminalidade juvenil ganha o espaço temático preferencial, especialmente porque as eleições de 2014 estão próximas, e esses temas apresentam visibilidade imediata e impacto político garantido. Não merece a mesma atenção o crime organizado, drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição infanto-juvenil, gravidez de adolescentes, Aids, mendicância, delinquência, legislação frouxa quanto ao aliciamento e comércio internacional da criança e do adolescente. Ameaças sobre o jovem sob grave risco social não rendem votos, entre evangélicos. Querem menores na prisão, desde 14 ou 16 anos.

 

 

 

 

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POLÍTICOS EVANGÉLICOS NO CONGRESSO NACIONAL


derval  prto.brancoUm colega duvidava da presença honesta de evangélicos na política. Foi “sempre” assim? Não. Lysâneas Maciel permanece como referência a bons políticos evangélicos na ocasião da reforma constitucional, confundindo-se com grandes nomes nacionais. Até a formação dos “blocos evangélicos”, depois da ditadura militar, não havia essa ideologia corporativa absurda. Por isso defendem Feliciano. Por serem “evangélicos”, e representarem, dizem eles, um seguimento de 32% da população brasileira, que reclama privilégios e exceções constitucionais, além de se acharem no direito de pressionar a “nação permissiva” em nome da “religião moral”. Mas a adoção de leis autoritárias sobre criminalidade juvenil, orientação sexual, pedofilia, homoafetividade, entre outros aspectos, camuflam uma realidade ampla, extensa, que representa o ingresso sem volta da sociedade brasileira na “era do vazio”, como diria G. Lipovetsky. É tempo de “medo”, de violência e insegurança pública.

Nos nossos dias, trocou-se o cenário bucólico das cidades do interior por outro, dos espigões de concreto, estruturas metálicas, ruas e avenidas asfaltadas, câmeras para vigiar desde o cidadão honesto ao que pratica um assalto num banco ou num supermercado. A violência se dissolve na paisagem poluída, enquanto sobem as taxas de agressões físicas, reconhecendo-se que o culto à força cresce em nível exponencial. Até algumas décadas, a violência física era atribuída à embriaguez, e a mídia se alimentava atacando os botequins. Ali ocorriam “cenas de sangue”, dava até samba, como cantou Emílio Santiago, na canção de Paulo Vanzolini que ninguém esquece.

Hoje, o crack, a cocaína, drogas populares, recebem a condenação, como parte da violência e como referência à quebra de normas sociais. Cidades como o Rio de Janeiro, que foi a capital da pátria até o fim da minha adolescência – e este autor experimentava o primeiro emprego em Brasília, sonho de Niemayer –, sucumbem à violência. Tornam-se capitais da corrupção ou do crime organizado. A população tem medo. Dali, evangélicos pentecostais pretendem ditar sua “hegemonia moral” sobre o resto do País, e reavivar moralmente a nação.

A repulsa pelas condutas violentas, por outro lado, além da catarse, encontra culpados ideais no sistema de governo, acompanha a disseminação dos valores da sociedade hedonista que não quer ser incomodada, imersa na intensa propaganda em favor do consumo supérfluo, turismo, música, shows, festivais, futebol, espetáculos que camuflam a realidade assustadora das desigualdades. Então, o que é chocante, impactante, é o enfoque invertido sobre os reais problemas das urbes. Vai repercutir nas urnas. As vítimas não servem ao autoritarismo ideológico moralista. A manipulação da psicologia subliminar sobre o medo, o repulsivo e nojento, ganha espaço: “criança abusada”; “adolescente ladrão e assassino”, “rejeição ao homoafetivo”. Quem não se interessa por esses “slogans” falso-moralistas? 

Vai além da impotência da sociedade lidar com assuntos tão complexos. A pedofilia acompanha as sociedades humanas, como a prostituição infantil, desde tempos remotos, consentida nas práticas escravagistas e nos contratos matrimoniais e de concubinato, ao contrário do incesto. A criminalidade juvenil – fenômeno urbano, concordam antropólogos e sociólogos –, é consequência dos surtos de violência contínuos que refletem a desorganização e consequente desproteção que o jovem sofre, à margem do desenvolvimento econômico, especialmente nas periferias da cidade. Resultado da ganância darwiniana do todo social, que exclui o mais fraco. Esses políticos conhecem isso, experiência que vem dos púlpitos evangélicos, explorando o medo e as perplexidades do socialmente imponderável .

No Congresso, um deputado, pastor evangélico, foi presidente da Comissão do Narcotráfico – acusado, e até admitiria posteriormente ter recebido favores do crime organizado; envolvido na “operação sanguessuga” –, saiu para a eleição ao senado com “absoluta” aprovação do eleitorado evangélico. O outro assume a presidência da Comissão de Direitos Humanos, representando a bancada evangélica, com o mesmo propósito. Retornamos ao tempo em que a justiça civil não tomava conhecimento tanto da violência intra-familiar quanto da sevícia, abuso sexual, trabalho forçado, e escravidão do adulto e da criança. Nesse espaço cabe a receita legalista secreta, sob medo subliminar, nojo e repulsa, para condimentar a questão. Têm em comum plataformas como o “combate à pedofilia”, enquanto misturam no prato básico, autoritário, questões da homoafetividade e a criminalidade juvenil.

O exemplo de que a redução da maioridade penal para 14 ou 16 anos – como defendem parlamentares evangélicos – combate o crime precoce, afasta da violência, das drogas, é desmentido pelos próprios fatos: adolescentes e jovens envolvidos com o crime são originários de famílias extremamente violentas, segundo analistas comportamentais. Definitivamente, os parlamentares ignoram os fatores que originam a violência na sociedade. A juventude, além de tudo, é carente de direitos fundamentais quanto à saúde, escola de qualidade, saneamento básico, habitação e trabalho condigno, que o Estatuto (ECA), como lei, não resolve por inteiro. Isso não rende votos. Políticos evangélicos propõem a revogação da Constituição, em sua propaganda eleitoral e nas comissões das quais participam.

O jogo da democracia é duro, áspero como uma lixa aplicada às consciências libertárias… Tem jeito? Tem. E tudo começa no voto. Quem elege esses deputados, aparentemente, faz isso conscientemente. E o que esperam deles? Eis o nó que ninguém desata. É preciso protestar, sim. O aperfeiçoamento da democracia, no entanto, é demorado. Creio que eleições distritais de dois em dois anos, cartões eleitorais digitais, máquinas em lugares públicos ou privados, seria um avanço democrático. Políticos seriam julgados por um eleitorado geral. Prazos mais curtos para os mandatos parlamentares; mandatários sujeitos a confirmação periódica ou rejeição do eleitorado, ajudariam muito no processo eleitoral. O voto religioso teria de ser condenado e abolido. Ele é antidemocrático. A Constituição já faz a sua parte, não admitindo o mesmo. Mas esta sociedade quer isso?   

Derval Dasilio

[Livro recente: JAIME WRIGHT – O PASTOR DOS TORTURADOS]

Publicado – OPINIÃO – ULTIMATO ONLINE (06.Abr.2013)

Os artigos publicados na Ulimato Online são identificados  digitalmente,  em Índice próprio: [VER] z-derval-p-orelha-livro-jaime-w

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SER PASTOR, REALISMO TEOLÓGICO SUFOCANTE


SER PASTOR, REALISMO TEOLÓGICO SUFOCANTE

Júlio Zabatiero* reflete sobre a vida dupla do pastor (ou do padre), que não sabe se é “sacerdote” ou “ovelha”. Crenças comuns nas igrejas falseiam o sentido da função, e dão-lhe uma sacralidade que o ministro não tem. Adaptando-se às imposições da crença comum, seus pressupostos sobre o que um pastor deve ser, sufoca-se a teologia que ele aprendeu. Nega-se a ele uma “vida teológica” verdadeira. O tempo e o espaço separam-no da vocação teológica, e ele se entrega. Ou não se entrega… “O trabalho do pastor não é transformar a igreja, não é consertar os seus erros, não é levar a verdade aos confusos leigos, não é promover uma ‘nova e derradeira Reforma’ (ou Revolução eclesiástica). O  trabalho da pastora é cuidar dos fiéis? Cuidar é trabalho da pastora, ou do pastor, ou de  ambos? Antes de responder, seu trabalho é aprender a lidar com a diversidade sem reduzi-la a hábitos ‘universais’ de linguagem”. E aqui, o mestre da semiótica bíblica, com livros publicados sobre o assunto, deita sua fala experiente, em décadas de formação vocacional teológica.

Ser pastor…

julio zabatiero_nTrinta e cinco anos ensinando teologia. Embora a cada ano as turmas se renovem, algumas perguntas sempre se repetem. Uma delas: como aplicar na igreja tudo o que aprendemos? Por trás desta útil e inocente pergunta há muitas ansiedades. Dentre elas, talvez a mais comum e importante seja: há uma diferença tão grande entre o que se estuda na Faculdade de Teologia e o que se vive na igreja, como conciliar esses dois mundos? No fundo, no fundo, mesmo quando não consegue expressar, a maioria dos estudantes de teologia desconfia da viabilidade prática do estudo teórico. Imaginam que, no final das contas, irão aprender a pastorear apenas na igreja, na prática, prática que irá enfim se provar verdadeira e comprovar a inutilidade das belas teorias estudadas no bacharelado. Permitam-me oferecer uma resposta possível à pergunta.

Em primeiro lugar, e falando francamente: o que se estuda na Faculdade de Teologia não é para ser “aplicado” na igreja. A mera noção de que teoria é algo que pode ser “aplicado” revela um dualismo epistêmico e metafísico insustentável. Dualismo epistêmico? Palavras misteriosas que traduzem o senso comum: “na prática, a teoria é outra”. O senso comum e o senso acadêmico, neste caso, estão ambos errados, até porque são duas versões para a mesma incompreensão. Teoria e prática não são duas realidades opostas, são os dois lados da mesma moeda, são as duas dimensões da ação intencional, são as duas metades do todo. O fato de estarem separadas no tempo e espaço durante o período da formação acadêmica não pode ser elevado a uma condição permanente essencial.

Durante o curso, a teoria estudada não deve ser recebida e apreendida como a verdade que revela a falsidade das crenças e práticas eclesiais. Seria mero trocar seis por meia dúzia, e eu já cansei de ver essa história: ingressante “fundamentalista”; torna-se crítico, progressista na Faculdade; volta ao primeiro amor no pastorado. Moral da história: não aprendeu nada, o tempo de curso teológico foi desperdiçado. Teoria não é “verdade” é desafio de aprendizado, proposta de reflexão, possibilidade de auto-conhecimento, abertura para o discernimento. Prática e tradição eclesiásticas também não são a “verdade”, são hábitos acumulados, teorias esquecidas, práticas reprisadas. A prática não é “laboratório”, é lugar de repetição, mas não de replicação de experimentos. Em outras palavras: não adianta copiar o modelo de igreja bem-sucedido do vizinho. Na prática, a prática é outra. 

Em segundo lugar, e falando candidamente: o trabalho do pastor não é transformar a igreja, não é consertar os seus erros, não é levar a verdade aos confusos leigos, não é promover uma nova e derradeira Reforma (ou Revolução). (Você ficou confuso? Cuidar é trabalho  pastoral, do pastor, ou pastora, ou de ambos? Antes de responder, seu trabalho é aprender a lidar com a diversidade sem reduzí-la a hábitos “universais” de linguagem). Todas as atividades formais e informais do pastorado têm como único objetivo, como única natureza, como verdadeira essência (ai de mim! usando tais termos tão metafísicos): cuidar das pessoas. Quem ama, cuida. Nem todos os que cuidam, porém, amam.

Uma pista para rejuntar teoria e prática: estudamos teorias na Faculdade de Teologia para, na hora H, perceber e construir a diferença entre: “cuidar e controlar”, “cuidar e vigiar”, “cuidar e dominar”. “Ah! Agora estou vendo por que o prof. insistiu em ler Foucault com a gente” (diria eu, imagino, um ex-estudante consciente, formado há algum tempo. Hoje em dia, a leitura preferida seria Agamben, “Foucault” italianizado e atualizado). Cá entre nós: a maioria dos pastores controla, vigia e domina ao invés de cuidar. E não estou me referindo apenas aos Malas da vida, estou falando de você mesmo, de pastoras e pastores “normais”, que “dão a vida pelo rebanho”. Se você tivesse estudado comigo, também teria lido Habermas, e a distinção entre “ação comunicativa” e “ação estratégica” cairia no seu colo e dominaria a sua oração de confissão de pecado pastoral. Se você pastorear estrategicamente, jamais será capaz de cuidar, apenas de controlar, vigiar e dominar.

Em terceiro lugar, e falando nua e cruamente: pastorado é tempo-espaço de prática e estudo teórico simultâneos (Nota do editor: aqui está o resumo e a essência desse texto). Na prática, refletindo teoricamente, a teoria se aperfeiçoa, e a prática se renova. Novos hábitos de pensamento e ação são construídos pela comunidade crente. Pela “comunidade”, é isso mesmo, “cara”. Ou a comunidade renova seus hábitos, ou o próximo pastor da igreja irá “consertar” todos os seus erros, e a comunidade continuará trocando de teoria na prática, sucessivamente, toda vez que trocar na prática, a teoria do pastor. Achou confuso? Traduzindo para o velho hábito de linguagem: “tal pastor, qual igreja”. Eis o maior pecado do trabalho pastoral: fazer a igreja à sua imagem e semelhança. 

Por que o maior? Por que é idolatria. Lendo Foucault, Agamben, Habermas (ou nenhum destes, mas vários outros – desde que bem escolhidos), pode-se questionar a prática, por exemplo, do sacerdócio clerical e desenvolver pistas para pensar e praticar o sacerdócio universal não-clerical. Conhecendo boas teorias, toda aquela coisa bonita de “dons espirituais” do Novo Testamento pode ser repensada e reinventada na teoria e na prática do ministério pastoral não-dominador, não vigilante, não-dominador. Conhecendo boas teorias e renovando os hábitos pessoais, pastores e pastoras podem aprender (eu acho que consegui aprender…) a diferençar pessoas de ovelhas. Você ainda não havia “sacado”?

“Pastor” e “ovelha” são apenas metáforas. As pessoas que estão sob seu cuidado pastoral são pessoas em sua totalidade: agem, sofrem, sentem, pensam. Não são “ovelhas” que obedientemente seguem o pastor pelos pastos verdejantes.
E você? Você não é pastor. Você é parceiro das pessoas que compõem a comunidade de quem você cuida. Parceiro! Se você não tiver preguiça, encontrará nessa única e simples palavrazinha uma nova teoria e uma nova prática eclesiais-pastorais.

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* O Dr. Júlio Zabatiero é um dos mais destacados teólogos biblistas no Brasil. Vários livros publicados, entre eles Bíblia, Literatura e Linguagem, Paulus, 2011, como co-autor, juntamente com João Leonel. Tem atuado como docente, educador teológico, na Faculdade Teológica Sul-Americana (FTSA), na Escola Superior de Teologia (EST – IECLB), e na Faculdade Unida (FU). Em Londrina-Pr, São Leopoldo-RG e Vitória-ES, respectivamente.

VIDEO – Rubem Alves – Eles falam sobre o educador – Ele fala de si mesmo.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=MUl2QU_z3mI

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Vinoth Ramachandra


Imprescindivel. Recomendo   Derval Dasilio

vinothramachandra.wordpress.com

Why do men like President Assad of Syria cling on to power while knowing that they will soon only be ruling over rubble? Arrogance in politics is compounded of ignorance, willful blindness, and fan…

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JAIME WRIGHT – O PASTOR DOS TORTURADOS


livro jaime wright

Saiba como presidentes da República, desde FHC, Luis Inácio da Silva (Lula) e Dilma Rousseff (exilados, perseguidos, torturados) foram alcançados pela atuação mundial do pastor Jaime Wright (brasileiro, paranaense) em favor da libertação política, sob a ditadura militar imposta pelo golpe de 1964 — que durou 21 anos — e do retorno à democracia ao Brasil. Entenda o cenário onde Paulo Freire construiu a “Pedagogia do Oprimido”; a canção de Aldir Blanc “O Bêbado e a Equilibrista”, nos mínimos detalhes, além do encantamento filosófico e poético que ainda hoje nos emociona, por sua força libertária.
Quem não sabe disso poderá tomar conhecimento do que sofreram seus pais e avós, poucas décadas atrás, e como a fé desses herois mudou o Brasil, trazendo de volta a “esperança equilibrista”, por uma nação livre, democrática, respeitadora do direito à vida e direitos humanos, fundamentais. Convidamos vc a ler este livro, que a METANOIA lançou antes do Natal, em maravilhoso tempo de esperança no Advento. (Contatos para venda e distribuição: Lea Carvalho – Facebook)

SINOPSE (LIVRARIA CULTURA)

Jaime Wright, brasileiro, pastor presbiteriano ecumênico, começou a procurar pelo irmão, Paulo Stuart Wright – deputado cassado, sequestrado e morto clandestinamente pela ditadura militar. Aproximando-se de familiares de presos políticos participou do projeto Clamor, clandestino, que defendeu perseguidos políticos no Brasil e países da América Latina, com financiamento ecumênico intermediado diretamente pelo Conselho Mundial de Igrejas. Ajudou a reunir os documentos que deram origem ao relatório Brasil- Nunca Mais, que revelou a extensão da repressão política no Brasil, cobrindo um período que vai de 1961 a 1979, identificando e denunciando os torturadores do regime militar, bem como desvelando as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

PRÉ-LANÇAMENTO:

Arquivo Nacional (SalãoNobre), 19 de dezembro/2012                                                                                                                                                                          Consta na instituição acima, para consultas, na seção História Recente do Brasil

Praça da República, 175 – Centro
Rio de Janeiro

Opinião do Leitor

JAIME WRIGHT

O PASTOR DOS TORTURADOS

Formato: Livro

Autor: DASILIO, DERVAL

Editora: METANOIA EDITORA

Assunto: BIOGRAFIAS – POLITICA

Especificações Tecnicas

ISBN: 8563439286

ISBN-13: 9788563439284

Idioma: português

Encadernação: Brochura

Dimensão: 21 x 14 cm

Edição:

Ano de Lançamento: 2012

Número de páginas: 248

Sinopse

Jaime Wright, brasileiro, pastor presbiteriano ecumênico, começou a procurar pelo irmão, Paulo Stuart Wright – deputado cassado, sequestrado e morto clandestinamente pela ditadura militar. Aproximando-se de familiares de presos políticos participou do projeto Clamor, clandestino, que defendeu perseguidos políticos no Brasil e países da América Latina, com financiamento ecumênico intermediado diretamente pelo Conselho Mundial de Igrejas. Ajudou a reunir os documentos que deram origem ao relatório Brasil- Nunca Mais, que revelou a extensão da repressão política no Brasil, cobrindo um período que vai de 1961 a 1979, identificando e denunciando os torturadores do regime militar, bem como desvelando as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

Opinião do Leitor

En la turbulenta historia que ha marcado los últimos cincuenta años en América Latina, el Rvdo. Jaime Wright se destaca como pastor y defensor de los derechos humanos.  En toda la región, personas comprometidas con la justicia vieron en Don Jaime un importante ejemplo de justicia y ternura, de corage y compromiso.  Hizo un destacado aporte a la reflexión teológica y la práctica pastoral de comunidades cristianas que buscaban discernir un camino de fidelidad al Evangelio en momentos áltamente conflictivos.

Con el correr de los años, trascendió públicamente el papel jugado por “Don Jaime”* en la documentación de los abusos cometidos por el régimen militar, de la forma trágica en que su propia familia había experimentado estos abusos, y de su compromiso pastoral, acompañando a las víctimas de la tortura.

En este libro, Derval Dasilio nos ha prestado un importante servicio al iluminar más la vida y la práctica de Jaime Wright, el pastor.  Su ejemplo permanece para futuras generaciones.
Dennis.Smith@pcusa.org

*O pastor Jaime Wrigh foi chamado por D.Paulo Evaristo Arns, Arcebisbo de S.Paulo, “meu bispo para assuntos ecumênicos”. Por mais de 10 anos, trabalharam juntos nos projetos Brasil: Nunca Mais e Clamor.

Dennis A. Smith

Buenos Ayres – dec.19. 2012

DERVAL DASILIO – ÍNDICE DOS ÚLTIMOS ARTIGOS

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OPINIãO

O pastor dos torturados

 
A história social do protestantismo brasileiro é contada por especialistas, antropólogos e sociólogos da religião. Porém, dada à abordagem individualista, particular, própria das nossas denominações, no mais das vezes, se conta essa história a partir de um ponto de vista defensivo, ou ufanista, comprometendo a verdade sobre personagens, dentro das igrejas evangélicas, que jamais abdicaram de suas responsabilidades cidadãs. No princípio, contaminado por esse bacilo corporativista, destaquei Jaime Wright como divisor de águas no protestantismo. Muito pouco para um vulto de tal grandeza ecumênica.

OPINIãO

O mal por trás das tragédias


É um escândalo da razão quando o psicólogo entrevistado informa aos telespectadores que deve aceitar a tragédia sem procurar culpados, como parte da terapia do luto individual ou social, na recente tragédia de Santa Maria. Antes, a repórter tinha denominado “fatalidade” a tragédia de fato anunciada da qual fazia cobertura. Problemas com o vocabulário? Menos ainda se aceitaria a “terapeuta do luto” que explica com técnica didática fria, sem sentimentos ou considerações sobre as causas criminosas da tragédia; sem aludir à casa de espetáculos, seus proprietários e exploradores; sem responsabilizar governantes e fiscais venais, depois da morte de quase três centenas de jovens num curral sem saída, sufocados por uma fumaça negra e asfixiante. Discorrendo com habilidade professoral sobre “as quatro etapas da terapia do luto”.
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Artigos anteriores

Armas no quarto do bebê
Infeliz ano velho. Nossa arrogância faz-nos esquecer de que só no século 20 foram chacinados em guerras 200 milhões de pessoas [Derval Dasilio]
Natal Coca-Cola
Generosidade periódica dos presentes obrigatórios confunde-se com a sacralização do consumo. A exclusão é o alimento das injustiças [Derval Dasilio]
Deus não está mais aqui…
A igreja dos nossos dias quer visibilidade enquanto se entrega a projetos egoístas, símbolo de privilegiados que desejam subir sozinhos a escada de Jacó [Derval Dasilio]
Redenção política?
Eleições 2012. É a graça de Deus que redime o mundo? No Brasil, é a política onde apenas quem está no poder assume o papel de redentor [Derval Dasílio] 
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Jesus ostenta um poder reverso à corrente demoníaca do servilismo, conformismo, quietismo e fatalismos religiosos, por Derval Dasílio
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Morte, inferno e salvação não podem ficar restritos a repetições doutrinais. Deus está nos procurando e dando-se a conhecer através da realidade humana, por Derval Dasílio
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Os cuidados com o ser humano e o mundo criado estão na pauta da espiritualidade ecológica, em absoluta prioridade. Por Derval Dasílio
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Não importam os cultos, em todas as formas vigentes no Brasil a corrupção consentida vigora entre nós. A farra dura o ano inteiro, por Derval Dasílio
Religião é dinheiro? 

“Há mansões nesse lindo país”. O hino evangélico é levado ao pé da letra por pastores que compram casas luxuosas na Flórida e no Brasil, por Derval Dasílio
O Evangelho e o falso moralismo

Se o olhar teológico do Evangelho está nos sem poder, dobrados pelas circunstâncias, o falso moralista é o mais inexpugnável dos inimigos da justiça, por Derval Dasílio
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Deus não está mais aqui…


OPINIãO

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Deus não está mais aqui…

Do jeito que vão as coisas, em breve veremos placas honestas nas portas das igrejas: “Deus partiu sem previsão para voltar”. E começo a pensar em Nietsche, quando escreveu “Zaratustra”. O cenário da igreja é lúgubre, ambiente de corvos em árvores secas e vermes emergindo da terra, seguindo o costume da Europa Nórdica de construir cemitérios junto às igrejas. Como se estas tivessem as respostas finais sobre angústia da vida e da morte. As roupas litúrgicas negras vestem ministros seguidores da reta doutrina enquanto enterram fieis com orações solenes, liturgias e réquiens infindáveis para poderosos aristocratas. Crítica ácida do filósofo aos representantes das igrejas cristãs, e à religião dominante.
 
Nietsche pronuncia: “Deus (na igreja) está morto!”, (Gott ist tot). Deus permanece morto. E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós, os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu de mais sagrado e poderoso até agora sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? Refiro-me ao enterro de Deus nos cemitérios das igrejas cristãs que perderam a força transformadora do mundo e se acomodaram em suas doutrinas petrificadas. Nem Lutero escapou de sua crítica.
O protestantismo histórico vem aceitando passivamente a insignificância do papel estatístico e funcional que lhe cabe para mostrar o que se compreende como “Igreja de Deus”. Os valores que circulam sobre o Deus ético da fé bíblica são fluidos e dispersivos. 
 
A tradição mais antiga da igreja cristã remonta a Abraão. A assembleia do povo ainda nômade já buscava o lugar de Deus no mundo (ba-makon). O acesso a Deus começa com um reconhecimento, por mais assombroso e incompreensível que pareça, de que Deus não está nem no passado, nem no presente e nem no futuro. A tenda do encontro, no entanto, é o mundo (Ex 33,21): “Eis que há um lugar em mim” (hine makon iti). Isto é, a tenda é o lugar genérico. “Deus está no mundo, embora não seja do mundo” (Nilton Bonder). Voltemos ao Gênesis (28,10). Jacó foge de seu irmão. Deslocando-se de Bersheba para Haran, cansado, no fim da tarde, ao por do sol, deita-se para repousar e é capturado pela importância do lugar (va-ifga ba-makon). Esse é o lugar (ba makon há-há). 
 
Pois bem, o sonho da igreja de Deus começa aqui. Jacó sonha e vê uma escada onde sobem e descem anjos. Ele acorda empolgado: “Certamente há Deus neste lugar e eu não o penetrava” (André Chouraqui, diz que o uso do verbo “yaddah” também tem o sentido de “saber”, além do comum “penetrar” sexualmente). Um ambiente extraordinário, sabores e sensações fantásticas, memórias da natureza que não podem ser sentidas pela percepção bruta, emocional ou carismática. 
 
Quando se percebe que para produzir algo relevante para a coletividade precisamos obter autorização de quem não produz nada, que o dinheiro da igreja deve fluir em diaconias e isso não acontece, que atos de compaixão e misericórdia nos tornam apóstatas de uma fé abstrata ou extremamente materialista, que muitos ficam ricos pelo suborno e influência das consciências de fieis, que se abandona a evangelização e discipulado bíblico em favor de espetáculos divertidos para o povo hipnotizado pela ganância, que as leis do país protegem igrejas materialistas já protegidas pelo corporativismo religioso (quando é que teremos uma CPI para evangélicos corruptos?), que o roubo no altar é aprovado e recompensado com o voto político e que a honestidade se converte em sacrifício da ética, então podemos afirmar, sem temor de errar, que esta igreja está condenada a ser abandonada permanente por Deus. Sem data para voltar.
 
Pensando como G. Brakemaier, “quando os interesses eclesiásticos começam a misturar-se com a mesquinhez e o egoísmo narcisista da coletividade, para legitimar privilégios religiosos a um determinado grupo, quando se transmuda a igreja em curral midiático, temos, de novo, o reino das trevas impondo-se ao Reino de Deus”. Exatamente como Lutero e os reformadores protestantes denunciaram.  Isso implica no que falta às comunidades cristãs, que é o aprendizado da fé no evangelho pregado por Jesus. Amor, tradução de compaixão, de ternura para com o sofredor; de misericórdia, na identificação e vivência com o oprimido e suas lutas, de solidariedade na busca e exigência de justiça para todos. E Jesus diz para essa igreja autêntica: “Estou convosco!”.
 
Ultimamente, a igreja gananciosa, soft, divertida, carismática, pretende ocupar o lugar da igreja que se retirou de onde deveria estar (cf. o sonho de Jacó, acima). É símbolo da desordem na linguagem e também do desinteresse quanto à Bíblia e seus conteúdos (Comunhão: Preferências evangélicas, set.2012), símbolo do desespero da própria igreja dos nossos dias, que quer visibilidade imagética enquanto se entrega a projetos egoístas e individualistas, símbolo de privilegiados que desejam subir sozinhos a “escada de Jacó” deixando para trás o povo que procura Deus para curar suas feridas. Enquanto se afastam da vida vivida, se veem enredados em escândalos infindáveis de corrupção e não enxergam nada de trágico em tudo que expressa a igreja dos nossos dias. Mas o pior ainda está por vir…
Derval Dasilio
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).
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Armas no quarto do bebê

Desde Descartes e Kant imaginou-se a construção de um planeta novo, ao estilo do Ocidente, ignorando três quartos do planeta não cristão, e exaltou-se até às estrelas a sapiência humana. A história, entretanto, continuamente desfaz essa imagem magnificadora da “razão”, e do conhecimento. Machado de Assis já dizia: “Tem razão quem tem o chicote na mão…” Hoje, professores fazem curso de tiro e buscam certificados para portar armamentos e intimidar seus alunos. O debate sobre as armas de fogo nos Estados Unidos deu uma guinada com a decisão de dezenas de professores de fazer aulas de tiro, depois que outro jovem, em Newtown, Connecticut, pegou as armas da família e matou 27 crianças e adultos e, em seguida, suicidou-se. Seria diferente, se fossem os professores seus matadores?
 
A duras penas, mesmo a contragosto, urge admitir que somos humanos. O ser-humano, homem/mulher, é supercomplexo. Comparece na história como “homo sapiens”, mas somos mais conhecidos como “homo demens”, disse Edgar Morin.  Há duzentos mil anos, já falante, o ser humano fazia das suas. Societário e trabalhador, desde quarenta mil anos atrás, já inventava a posse privada e a escravidão, das quais nunca nos livramos. Em “Uma Odisseia no Espaço”, Stanley Kubrich mostra a era em que homens primitivos descobriram o uso da arma para matar e garantir a propriedade particular. Quando descobriremos que também somos portadores de afeto, cuidado, solidariedade, tolerância, inteligência, criatividade, arte, poesia e êxtase diante da beleza e compromisso com a vida?
 
No lapso otimista do gênero ocuparíamos todo o Planeta, já sairíamos dele voando e rumando para o céu infinito em naves espaciais. Mas nossas contradições fazem-nos morder a língua toda vez que exaltamos essas qualidades humanas, já pensando em exterminar criaturas de outros planetas, se houverem. Não basta o que já fizemos com o Novo Mundo, no holocausto das civilizações pré-colombianas?
 
Lembrando Duns Scotus, na Idade Média: “o homem tem a vocação do infinito”. Mas adotamos a violência e o privatismo capitalista, e nos comprometemos com os assassinos de crianças, consentindo e entregando-nos naturalmente ao abreviamento de suas vidas. O lado da demência, da crueldade, dos massacres, dos extermínios em massa, de tantas culturas, etnias, acompanha a demolição de valores construídos em vários milhares de anos. E parece que se quer fazer tudo isso de uma vez, com a tecnologia avançada dos dias de hoje.
 
Nossa arrogância faz-nos esquecer de que só no século 20 foram chacinados em guerras 200 milhões de pessoas, lembrava Hobsbawn. Cristãos estão envolvidos nisso até o pescoço, mesmo os engravatados dos conselhos internacionais, ou com “clergyman” abençoando armamentos e tanques de guerra. A violência humana excede à de qualquer outra espécie, inclusive dos tiranossauros, dragões pré-históricos proverbiais e simbólicos da destrutividade. A demência não é ocasional. Configura uma desordem originária. Não é por acaso que vemos no nosso irmão um inimigo, e nos armamos até os dentes para derrotá-lo. Caim com a palavra.
 
Ninguém, contudo, conheceu melhor o sentido de gerar-se um Salvador. Maria cria e alimenta a criança, enquanto medita, ensina a humildade e a coragem para os enfrentamentos dos acontecimentos catastróficos e a dissolução que irrompem até a superfície da história. Maria já estava comprometida com o movimento em prol das causas libertadoras de Deus, desde que o menino era gerado em seu ventre, protegendo-o. Entre elas o combate à violência sistêmica que escolhe a criança e os jovens como vítimas preferenciais, porque são fracos e indefesos (… “ele será o Príncipe da Paz, mas Herodes quer exterminá-lo”). São os adultos que portam armas, matam ou induzem a matar. Para que servem armas, senão para isso? E não foi Herodes que as inventou.
 
O que precisa ser visto, e ouvido, como Maria nos ensinará, quando Jesus, o menino perseguido desde o berço, lhe chama a atenção para a realidade. Maria conservava todas aquelas coisas em seu coração (Lc 2.41-52). Aqui, nos reportaremos à sabedoria da mãe que silencia e ouve enquanto observa as realidades que cercam o menino sobrevivente do massacre na Natalidade. Os significados da revelação libertadora da presença do Reino de Deus estão naquele que foi chamado pelo Credo Cristão de “fruto do ventre de Maria”. Se nascido hoje, já enfrentaria tiroteios, balas perdidas e criaturas que aprenderam as lições da sociedade violenta.
 
Tragédia na rotina de uma escola da periferia do Rio de Janeiro onde um ex-aluno, aprendiz da violência, atirou contra crianças que assistiam às primeiras aulas do dia, matou 12 delas, feriu outras 13 antes de cometer suicídio, acompanha a tendência herodiana estimulada pela mídia, que torna o fato um espetáculo inescrupuloso nos detalhes, sem explicar as origens da pulsão da violência potencializada por ela mesma. O massacre causou comoção no Brasil. E professores pensam em fazer aulas de tiro. Recomeçará o ciclo interminável da violência incontrolável dentro das escolas.
 
A quebra de tabus é verdadeira, mas o esquecimento dos fatos simbólicos que marcam nosso tempo, o modismo da falsa liberdade, democracia para matar, pulverização de ideais que transformariam as sociedades e as pessoas em verdadeiros seres humanos e comunidades solidárias, dão o tom banal da presença da morte na orquestração desafinada mostrada no cotidiano. O ritmo desconexo do nosso tempo é capaz de defender armas, serpentinas nos muros, cercas eletrificadas, vigília eletrônica em residências – e até nos banheiros das escolas –, em suspeita permanente sobre as intenções dos nossos filhos e netos. Nunca entrarei numa casa dessas, a não ser para desligar a eletricidade e ajudar a recolher as armas… Faz pouco tempo, houve o plebiscito para se proibir o uso comum de armamentos. Refletindo a violenta sociedade brasileira, teve um retumbante “não” da população.    
 
Defensores de armas e armamentos em casa, na escola, no trabalho, ignoram que uma pessoa morre a cada minuto como resultado da violência armada, e que não bastam convenções para evitar que armas negociadas ilicitamente apareçam em zonas de conflito e alimentem guerras e atrocidades. Como essa medida alcançará os lares das frequentes vítimas, residências tornadas em fortaleza e casa de armamentos?
 
Quartos de bebês terão armas, no futuro, se a violência continuar em ascensão, à custa do uso “democrático” das armas. Tirar armas de delinquentes e deixá-las nas mãos de “cidadãos de bem” não apagará o sinal de Caim (Gn 4.11-15) nas testas dos violentos habituais. Mesmo os que vão às urnas dos plebiscitos hipocritamente democráticos. O ano de 2012 não foi diferente. Infeliz ano velho!
 
Em tempo 
Derval Dasilio lançou em dezembro o livro Jaime Wright – O Pastor dos Torturados que conta a história do pastor presbiteriano que denunciou as injustiças na época da ditadura militar no Brasil.
 
Leia mais
 
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

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  • 01 de outubro de 2012
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  • Comentário: #1

    Myron Pires

    Brasília – DF

  • Espadas são mencionadas na bíblia. Jesus falou delas e nos advertiu sobre o seu uso, cujo resultado poderia ser a perpetuação de ciclos de violência. O apóstolo Paulo também nos fala do uso legítimo da espada, através de agentes do Estado.
    Espadas, hoje, são as armas de fogo. Seu uso é legítimo para a defesa de cidadãos pelas forças de proteção (polícias) ou auto-defesa da vida e da integridade humana e material. Estados soberanos também se armam, em grande escala, para a defesa de sua própria soberania e sobrevivência da sociedade que lhe compete defender.
    Concluir que qualquer cristianismo, que se chame de verdadeiro, deva se opor ao uso da força legítima, é o mesmo que acreditarmos que o doador de vida não nos permite que esta seja devidamente protegida.
    No final, precisamos mesmo é saber se estaremos mais protegidos com um “desarmamento” unilateral (só dos cidadãos de bem) ou se existem alternativas mais realistas.
  • Respostas do autor: Pires: Conheço a Bíblia razoavelmente. Não podemos negar, é violência do primeiro ao último livro. Se Paulo legitima a violência (um equívoco sobre Rm 13?), estaria oferecendo ao estado o direito de cortar a sua própria cabeça(fato histórico no ano de 65 D.C.)? Estaria “profetizando” sobre o direito do estado cristão sobre todos (Teodósio, 385 DC), de vida e de morte? Legitimaria as Cruzadas da Idade Média, as Guerras Cristãs dos 100 Anos (estados protestante X estados católicos)? Aprovaria, no séc.20, as Guerras Mundiais (I e II), cristãos contra cristãos? Tal tese não tem sustenção bíblica, pois o cristianismo tem início com um ato de violência do estado contra o cidadão insurgente e inconformado, na pessoa do Filho do Homem, o qual foi torturado e morto pelo Estado Romano, sob a convocação do Estado da Judéia. Sua tese não é cristã, mas seria aprovada por cristãos como Thomas Hobbes, Hitler, Mussolini, Franco, George Bush, Garrastazu Médice  ou Ernesto Geisel.  Má companhia, portanto.
  • Pires II – Quanto a Romanos 13, só um raciocínio pagão, brutal, acompanharia a exegese do texto pinçado sobre o uso lícito de armas. O texto se refere á obediência civil.Sob julgamento e a espada — Paulo ainda acreditava que sua inocência prevaleceria, e que magistrados justos, cientes da regência ética que guiava os primeiros cristãos, seriam naturalmente justos –. Ele sobreviveria por causa da justiça. Acreditava (inocentemente) que a justiça provém de Deus, e que as autoridades, mesmo pagãs, obedeceriam ao imperativo do amor e do dever da justiça. De fato, insistia na responsabilidade das autoridades perante Deus. Elas têm a “espada” (o símbolo permanece nas portas e salões dos tribunais até o dia de hoje). A confiança foi imediatamente rompida,  cristãos foram torturados, mortos, com o assentimento dessas mesmas autoridades. Os termos devem ser lidos sob a forma condicional: o governante é ministro de Deus para o bem de quem é honrado e honesto, consequentemente constituído para o “castigo do perverso”.  O dever da justiça em contraste com a (inadimissível) injustiça. As autoridades também são julgadas por sua impiedade, sugere o texto (Derval Dasilio).

Redenção política?

 
A rigor, ainda vivemos sob a democracia abstrata dos filósofos da antiguidade: democracia só para as elites dominantes e os “bem-postos” da sociedade. Igrejas, transformando altares em palanque político, treinando fieis para o uso da urna, como vimos em recentes eleições, integrando o mundo das instituições ricas, de um modo geral antidemocráticas, compartilhando privilégios constitucionais na isenção de impostos sobre arrecadações compulsórias ou espontâneas (igrejas são grandes vendedoras e consumidoras de produtos “religiosos”), enquanto suas lideranças evangélicas apresentam-se como magnatas, usando dinheiro eclesiástico1. O seminarista ou o jovem evangélico já diz: “Quero ser como ele…”, referindo-se a um destes líderes. 2 
 
Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador midiático, mais se tende a adotar um tom banal. “Se alguém se dirige a uma pessoa, em razão da vulnerabilidade intelectual, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de sentido crítico”, dirá Noam Chomsky. Comunicadores do (anti)evangelho midiático vão ao fundo da questão, com profundo conhecimento na manipulação dos atavismos existentes na natureza da própria humanidade. A ganância em primeiro lugar, antes do sexo e do poder. 
 
O Evangelho, porém, faz gerar novos símbolos que se contraporão às formas de linguagem e aos modelos que sustentam a sociedade consumista, juntamente com os valores desumanos a que recorrem para justificar a competição desigual galopante. 
 
O Evangelho remete à esperança que nos mantém na ante-sala daquela casa transformado em centro teológico, o “seminário” em Cafarnaum (Marcos 9.30-37), aprendendo com Jesus a lição: “Não há nada no mundo que possa contra o homem que canta denunciando a miséria”, disse alguém. Existem coisas profundas e belas nas relações entre homens e mulheres do mundo inteiro, sejam quais forem as suas religiões, ideologias e culturas. A misericórdia, o cuidado e a compaixão pelos despoderados, pequenos, oprimidos e abandonados, são patrimônio da humanidade inteira e símbolo do grande amor de Deus pelos órfãos e viúvas, os desamparados de todas as eras.
 
O que Jesus revelava era um paradoxo, dos inúmeros de sua pregação em Marcos. O senso comum recusa suas palavras, enquanto sustenta a escalada de privilégios na sociedade, favorecendo o “bem-posto”, o próspero ou o rico. Ou as loterias garantidoras de privilégios. Jesus identificava a acolhida de Deus aos empobrecidos, despojados de dignidade, fracos, com o acolhimento que devemos dar às crianças. Sujeitos que não têm direitos, dignidade, cidadania, nem quem olhe por eles. Os últimos na escala social, os desprezados, “improdutivos”, levados em conta na chegada do Reino de Deus. Informa o Evangelho.
 
Marcos reúne numa só instrução uma série de sentenças de Jesus, conservadas e transmitidas pelas gerações e tradições primitivas da Igreja. Os socialmente humildes, sem poder econômico, sem-terra, sem-emprego, sem-teto, sem-defesa nas causas levadas aos tribunais.3
 
Acolher Jesus é ouvir os que não têm voz, título de eleitor, cartão da previdência, plano de saúde, escola de qualidade, teto para morar ou um bicicleta velha; é receber o diferente em sua condição, sexual, racial, social. Os depreciados desse mundo mereceram a atenção de Jesus, segundo o evangelho, por isso não podemos ser diferentes do Mestre. Se Jesus opta pelos vulneráveis, por que escolheremos outro caminho, como o da política partidária, buscando os fins da comunhão de fé atrelada em vantagens eleitorais? 
 
É a graça de Deus que redime o mundo? No Brasil, é a política. Conceito complexo, fugidio, abstrato, face à realidade da população pobre socialmente desassistida, faminta, doente, ignorada no partir do bolo da prosperidade econômica repartido com quem já tem muito. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo que está no poder que assume o papel de redentor. Provisoriamente, claro, pela alternância. Cabe, porém, a negação das mulheres violadas, crianças morrendo como moscas, jovens vitimados por morte violenta aos 18 ou 20 anos, povos indígenas roubados em seus direitos ancestrais, imigrantes ilegais como sobras à margem do crescimento econômico pretendido.
 
Dissemos com Drummond de Andrade: “vai ser gauche na vida”, e o mesmo poeta já descobria que “no caminho tinha uma pedra”, que é o espírito do capitalismo egoísta que não nos abandona. Falta democratizar as riquezas que certamente existem neste país. Afinal, não somos a “sexta potência econômica mundial”? O fenômeno da padronização de consumidores e eleitores repercute de forma decisiva sobre os empobrecidos e os despoderados. O vestuário, a utilização dos meios de transporte, o lazer, a proteção e seguridade social, a habitação, a escola, o sistema de saúde, demonstram o quão distantes estão os empobrecidos dos recursos disponíveis e da distribuição dos bens sociais. E vamos às urnas.

Notas
1. Revista Veja, 03/06/2012. Expoente de denominação com mais de 8 milhões de fiéis, exibindo Rolex de 100 mil reais, fala de seus bens: mansões e apartamentos dentro e fora do Brasil, jatinho, carro blindado importado, etc., defendendo a legitimidade da religião da ganância; em seguida comparece na mídia defendendo candidato político.
 
2. Revista Ultimato, set./out. 2010. Perguntava-se aos jovens evangélicos sobre a personalidade mais admirável. A resposta foi Silas Malafaia em primeiro lugar, Jesus Cristo em quinto.
 
3. A Gazeta, 20/05/2011. Despejo em Barra do Riacho, Aracruz, ES. Governo autoriza batalhão de 400 soldados e carros de choque da PM para desocupar área de empresa multinacional; hoje, os responsáveis pelo massacre social de milhares comparecem aos palanques de candidatos, eletrônicos ou não, escondendo quem são os heróis dos ricos e poderosos, do judiciário corrupto que vende sentenças, e do eleitorado sem memória
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

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