IGREJAS E CIDADES DOENTES


É importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder autoritário, a sociedade excludente, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da partilha dos bens comuns, e contra a desigualdade. E também para denunciar o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares para a religião.
derval-pint2Empenho na justiça para com o próximo; compromisso em atos solidários quase impossíveis, face às desgraças sociais; resistência aos poderes demoníacos, especialmente os que se manifestam na política e na economia; sofrimento diante da violência; da fome, do desemprego, do assassinato de inocentes, dos conflitos comuns nos meios onde crentes vivem, especialmente nas favelas e periferias sob o desamparo dos poderes públicos, no sentido testemunhal que Jesus, no Novo Testamento; refere-se ao envolvimento com a causa do Reino de Deus (o Reino nada tem a ver com isenções religiosas diante de problemas observados nas realidades existentes, econômicas, políticas, religiosas.
A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, Aids, dengue, para além das representações figurativas. Por exemplo, quais das nossas famílias não têm vítimas da violência, das doenças sociais, do drogadismo criminoso ou farmacológico, alcoolismo, tabagismo, consumismo? Violência intra-familiar, crime político, crime organizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade do nosso tempo. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.
O Estado brasileiro construiu um emaranhado para criar complicações invencíveis, num estratagema que, seguramente, privilegia grupos da sociedade que ofuscam problemas, neutralizam ações insurgentes, reivindicatórias da distribuição de recursos para a população dos desprotegidos jurídica e socialmente. Uma herança proveniente do colonialismo, passando pelo império escravagista, e atravessando o século da república num esforço fulgurante para manter privilégios de classe e excluir ao máximo grau as possibilidades de cidadania igualitária das classes trabalhadoras.
O problema da droga é parte da problemática da cidade ou da metrópole. Mais de 3/4 da população brasileira habita nas cidades. E, nelas, metade da população luta para alcançar direito e cidadania igualitários. A complexidade aumenta com o problema da droga atingindo em cheio toda a sociedade, sem distinção entre grupos privilegiados e desfavorecidos. Porém, o seguimento objetivado para responder pelo crime e pela anomia é aquele, instalado nas periferias. Devemos considerar que a droga é problema para a saúde pública; medicina psiquiátrica, psicologia clínica comunitária, pedagogia escolar e serviço social, juntas, com responsabilidades interdisciplinares.
No entanto, a sociedade elitizada, sob o pressuposto do gozo de direitos a uma cidadania privilegiada, diferenciada – ciosa na manutenção de seu suposto status social economicamente protegido –, localiza o problema da droga e do crime organizado na periferia, fazendo vista grossa aos capitães do narcotráfico, que ocupam condomínios de luxo nos endereços onde estão os imóveis mais caros do país. É ali, nos endereços nobres, apartamentos de luxo, que as drogas mais caras são consumidas a granel, na clandestinidade. Por acaso, a polícia, a justiça que trata do narcotráfico, não sabe disso?
Igrejas, por sua própria natureza, não possuem o instrumental complexo exigido para a abordagem do problema, ou até mesmo do assunto, uma vez que os preconceitos e as pressões pendem para classificar a situação de dependentes de drogas como uma situação moral e religiosa. Acertam, porém, os que apontam a questão: as igrejas não são responsáveis pelo problema social da droga. E só… No restante, equivocadamente, repetem-se as mesmas opiniões de sempre: “droga é assunto de polícia”.
Não é sem fundamento a crítica que se faz da igreja e da religião sem justiça, nos dias de hoje. Ela é absurda, colonialista, contra a ciência, contra a liberdade, contra o progresso da humanidade, nos desdobramentos da ética dos direitos fundamentais, do cuidado com a coletividade, além do outro, o próximo. A religião é criminosa, porque entregou-se ao mercado, aos negócios ilegais e escusos, à sonegação fiscal, abrigando quadrilhas (cf. inúmeros processos contra lideranças pentecostais – algumas em prisão domiciliar –, pelo ministério público, em todo o país); é dogmática, porque se impõe por princípios pétreos e inarredáveis, defendendo privilégios e exceções constitucionais; é contra a responsabilidade social, ao afastar-se, isentando-se das lutas travadas para humanizar a política e a economia. A religião pentecostalista que supervaloriza o homem abstrato, supostamente espiritual, por um lado é, também, paradoxalmente pragmática. É patológica, pois influencia doenças do comportamento, em todo lugar, desde as profundezas da alma religiosa gananciosa, fanática ou obsessiva na obtenção de bens ou de resultados numéricos.
Em sua teologia egocêntrica, falta ênfase na evangelização da missão de Deus, com ação na sociedade por justiça e solidariedade. Falta denúncia, efetividade ética, compromisso com a coletividade, exigência de políticas públicas corretivas da violência, e da miséria. Falta cidadania, dignidade social reclamada para todos. Mas é frequente a omissão do evangelho bíblico da gratuidade, da misericórdia divina, da solidariedade e compaixão de Deus, que alcançam o homem e a mulher vitimados pelo sofrimento das desigualdades, das opressões concretas ou espirituais, constantes num mundo impiedoso, sem fé e sem esperança no reinado de Deus.
É uma teologia habituada a sonegar obrigações cidadãs, sem esperança de um mundo transformado. Por desconsiderar as necessidades concretas da vida. E outros atributos, defeitos morais, que merecem atenção à parte: é racista, homofóbica, repressiva, fechada, supersticiosa… Como nos livraremos dessas críticas?
O Evangelho é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o Bem a força histórica do Mal. Sugere como Paulo Freire, que “a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as estruturas da opressão”. Para os seguidores de Cristo e suas comunidades era importante não dar murro em ponta de faca. “Hipócritas, vocês sabem reconhecer os aspectos da terra e do céu (realidades terrenas), e não sabem interpretar a conjuntura presente (políticas públicas)?”
Lucas fala de espíritos pervertidos (cf. 6,42), literalmente, hipócritas desse tempo, o tempo de Jesus. Tempo de salvação, que é fácil de ser reconhecido, pois os sinais são claros (Lc 7,22; 11,20). Saibamos reconhecê-los. O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas: aos que lutam com os problemas da saúde pública; aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores – representantes da sociedade excludente –, flageladores de homossexuais, crianças, mendigos e doentes mentais.
“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação, sugere o evangelho da Quaresma e da Páscoa. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo, orientador, no discipulado da fé. Defesa da vida é a proposta da fé, na direção das plenitudes; na justiça e na igualdade.
Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural, a consciência madura revela que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino, a justiça, a dignidade (dignitatis = direitos iguais), para homens e mulheres, sejam quais forem, sob constante humilhação e negação na sociedade. Oferece Deus, em seu amor que se expressa na gratuidade e solidariedade no sofrimento. A sociedade humana reclama salvação, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte (droga, desproteção jurídica, política, enfermidades sociais, etc.). Os códigos sociais dominantes, de espaço e lugar, estabelecem privilégios para poucos enquanto punem e humilham pobres e doentes, relegando-os a uma cidadania de terceira classe. Todas as mortes são produzidas desse modo. Investir na salvação é uma resposta da fé em Jesus Cristo.
Derval Dasilio

(Livro em preparo: POBREZA, DROGAS, VIOLÊNCIA, PROBLEMA INTESTINAL DA IGREJA E SOCIEDADE)

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A sociedade civil apoiou o golpe de 1964?


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A sociedade civil apoiou o golpe de 1964?


OPINIãO

A sociedade civil apoiou o golpe de 1964?

“Estávamos conversando, Jaime Wright e eu, sobre as consequências do golpe militar, quando um disse para o outro, não sei mais quem tomou a palavra: – Isso tudo vai ser esquecido na próxima geração, como foi esquecido tudo o que o Getúlio praticou no tempo dele – e foram horrores” (Dom Paulo Evaristo Arns).

O general Newton Cruz, mandatário e executor da repressão, tem a melhor frase, quando perguntado sobre esse tempo: “Ditadura militar? Que ditadura militar… se a própria sociedade civil pediu”? Como requerer dignidade e solidariedade ao regime autoritário que se entregara sem medo ou respeito às práticas mais bárbaras registradas na história da humanidade? Tortura, abdusão, banimento, sequestro político, assassinato e desaparecimento dissimulado – sem falar da limitação da liberdade de imprensa –, liberdade de ir e vir, que ocorria sob a justificativa de “livrar o Brasil do comunismo”.

O triunfo do poder totalitário parecia irrevogável em nosso país. Pessoas comuns ao regime, perseguidos por professarem ideologias de resistência, sequestrados, torturados, desde o golpe de 1964, experimentaram “tecnologias” de apagamento ideológico em laboratórios experimentais clandestinos, em numerosos casos com morte ou anulação física irreparáveis. Uma geração inteira (21 anos de fascismo) conheceu a força da sociedade autoritária, tendo à frente seus representantes armados com poder absoluto sobre a nação. Nenhuma instituição, civil ou militar, podia dizer-se politicamente neutra.

Na linha de frente no confronto com a ditadura, apresentavam-se aos presidentes militares, no regime de exceção, democracia e liberdades civis cerceadas, para reclamar direitos de pessoas e famílias atingidas pelo rolo compressor da polícia política da ditadura, encastelada no DOPS, no DOI-Codi, no SNI, no CENIMAR, na Polícia Federal e na Polícia Civil. Comandados diretamente dos salões presidenciais, da sede do governo federal, e dos governos estaduais, estas organizações de policiamento ideológico eram também reforçadas por confrarias e grupos de extermínio brotados na sociedade civil. Esquadrões da morte atuavam de norte a sul, coniventemente.

Ando de ônibus frequentemente. Preparando-me para este artigo, ouvia dois idosos comentando as passeatas reivindicatórias dos últimos dias, em minha cidade, enquanto associavam assassinatos, assaltos à mão armada, no mesmo plano: “A ditadura precisa voltar”. Um pastor pentecostal, líder de juventude evangélica, proclama seu saudosismo autoritário: “Durante o regime militar, tínhamos os melhores colégios, hospitais, casas populares; não havia maconha, crack, nem vagabundo te assaltando em cada esquina”.

Mas, as situações reais eram outras. No judiciário, juízes, promotores, desembargadores, serviam espontaneamente à ditadura. Alguns até integrando “scuderies” como a “Le Coq”, famosa por seus compromissos mafiosos e influência no governo e Assembleia Legislativa. Mendigos, homossexuais, crianças ou menores infratores, bandidos comuns, eram vítimas exemplares do autoritarismo assassino. Um secretário do governo, em meu Estado, metralhava dissidentes numa das praças da capital. Escapando de um atentado promovido pelo governo local, mais tarde, um deles foi eleito governador.

Nas igrejas, lideranças e notórios vultos insuflavam os fiéis à delação, quando não o faziam orgulhosamente com “carteira” de informante, no sentido de denunciarem crentes com “tendências ao comunismo”. Referindo-se às questões fundamentais, que envolviam interesses e defesa de grupos sociais oprimidos, desprotegidos, sem vez e sem voz, esmagadas por sistemas civis ciosos por impor a “autoridade do governo fascista”.

Através das solicitações, pedidos de “vistas”, que faziam advogados do projeto coordenado por Jaime Wright (pastor presbiteriano paranaense), “Brasil: Nunca Mais”, confirmam o cuidado com o “futuro” dos processos e papeis no judiciário fascista. Seriam incinerados, como se viu posteriormente, enquanto ocorreria, “legalmente”, o “silenciamento” sobre torturadores e torturados. Prudentemente, 1 milhão de páginas foram reproduzidas. Em seguida, microfilmadas. Fez o transporte para o exterior dos arquivos do Supremo Tribunal Militar (STM) – muitas vezes pessoalmente –, copiados em prazos legais mínimos de 24 horas em uma sala alugada e equipada com copiadoras, em Brasília.

Jaime Wright, representando de resistência eclesiástica minoritária, estava ciente também das imperfeições e fraquezas da democracia, especialmente no comportamento da sociedade brasileira, ambígua, escorregadia em questões éticas essenciais, com a Anistia e a abertura democrática. Criticou os abusos comuns. Entrevistado pelo Jornal da USP, Jaime passou o recado, além de repudiar a violência do Estado: “uma violência cometida pelo mais forte contra o mais fraco”, disse. Lembrou, em outro momento, que o governo brasileiro “fala muito e faz pouco”, motivo por que se demitira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, governo FHC, que integrava a convite do secretário José Gregori. “A tortura continua sendo praticada sem que se faça nada para coibir esse abuso”, destacou o pastor, repetindo uma denúncia que vinha das práticas das ditaduras de Vargas, aprimoradas desde o Golpe de 1964.

A condenação moral que terminou se abatendo sobre os torturadores não pode ser classificada. Depois de ter se tornado uma ênfase do estado militar e de ter vitimado e consumido com milhares de pessoas, a tortura tornou-se uma realidade em si mesma e, como tal, gerou efeitos não previstos, não controlados e, sobretudo, não desejados pelos próprios vencedores da “guerra suja”. Não se poderá afirmar que eles permaneceram completamente impunes.

Além das penas morais que sobre eles recaíram, houve uma espécie de “punição suave” no processo lento e claudicante, até chegarmos aos pronunciamentos recentes da Comissão Nacional da Verdade. O isolamento paulatino dos oficiais diretamente envolvidos na repressão política, como reclamavam expoentes da repressão, chega ao fim. Alguns deles, orgulhosos, mostram-se até satisfeitos por estarem sendo lembrados, em sua participação.

O cinismo é impressionante, quando declara ainda hoje: “…não havia tortura no regime inaugurado em 1964, era preciso fazer o que fizemos, para salvar o Brasil”. Lamentavelmente, porém, expoentes políticos civis, sustentadores do Congresso Nacional durante a ditadura, jamais irão a julgamento público. Não escaparão, contudo, do julgamento da História. Para sempre.

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Um enigma para Nicodemos


OPINIãO

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  • 11 de março de 2014

Um enigma para Nicodemos

(João 3.1-17)
“Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais: /ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. /Nossos ídolos ainda são os mesmos,/ e as aparências não enganam não. /Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” (Belchior).O diálogo com Nicodemos altera a “lógica” comum do evangelho: diálogo e testemunho sobre a fé autêntica. Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da primeira discussão: a “fé” que depende de milagres. A “fé” que exige sinais não corresponde à fé num mundo novo possível, sob o governo de Deus. E Jesus propõe uma mudança radical, não um novo conceito de renovação da fé. Não uma renovação, mas uma inovação: começar tudo do zero! Do nada. Desaprender o catecismo! Nascer de novo. Começar como um nascituro, abraçar uma natureza nova (natus, “nascido” procede de “natura”, no latim).Nicodemos quer conversar logicamente, como um cartesiano dos dias atuais, utilizando o argumento e da prova. Em pauta a “gnosis”, o conhecimento. A salvação pelo conhecimento. Não é possível, diria Jesus. É preciso desmontar a doutrina vigente, parafuso por parafuso, e construir tudo de outra maneira. Existencialmente, como diria Heidegger, hoje. O Deus de Jesus está sempre fora do lugar que queremos (u-topos). Ele habita nos sonhos de liberdade e convive com quem imagina ser possível um mundo novo: “vejo vir vindo no vento, o cheiro da nova estação…” (Belchior).

Estamos discutindo os graus de intensidade e estabilidade da fé (João 3.1-17). Uma fé incipiente, primária, pode ser dominada pela necessidade de sinais, milagres. Internamente, o eixo se desloca para a insegurança e a deficiência da consciência humana, uma vez que falta o essencial, que é a “confiança interior plena” (“emmunah” no hebraico e “pisteuo” no grego). “Deus não vê como os homens, estes veem a aparência. O Senhor vê o coração”, isto é: Deus vê o íntimo do homem e das coisas (Pv 15.11; 1 Sm 16.7; Sl 139.1-4).

Perguntas importantes, implícitas, ou subentendidas: “O que eras antes do nascimento? Qual o lugar de onde vens? Que fazes, agora, para dar sentido à tua origem?” Importa não paramos os questionamentos sobre o sentido da vida, desde o primeiro sopro. Conhecendo as nossas origens, os lugares existenciais desde o início, inevitavelmente conheceremos nosso fim e quem realmente somos. (“Pois ele conhece a nossa origem, sabe que viemos do pó” – Sl 103,14). Portanto, é “necessário nascer de novo!”, é preciso tomar uma nova consciência.

A razão diz que o homem está só no universo, pode apenas contar consigo mesmo. A fé, de outro modo, dirá que há um Tu, um Deus solidário e dialogante, que perpassa nossa existência, constantemente. Não estamos sós na imensidão do tempo. No portal da eternidade está escrito um nome: Deus, Energia presente no universo inteiro, muito além e muito acima das realidades sujeitas às ilusões do conhecimento empírico.

Deus é um companheiro de jornada, no escalar de picos elevados e no mergulho em abismos profundos. Algo que só a fé e o amor percebem. Todos os seres vivos podem testemunhar esta Energia criadora. Os pássaros cantam ao amanhecer, os grilos e as cigarras no entardecer. Oram, em exaltação de bem-estar e reconhecimento agradecido pela existência (Nilton Bonder). Os Salmos falam desse Deus: “Tudo que é vivo exalta o Criador”!

Aqui está, praticamente, uma discussão rabínica, dirigida ao Thalmud ou à Torah: “be-reshit” e “en arché”, no princípio! Uma entrada no mundo temporal. Mas há algo de novo no recomeço de nossos atos, na origem dos pensamentos, de nossas sensibilidades quanto ao sentimento de estar-no-mundo? O que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, de uma reforma no ser primal? O que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, um devaneio libertário (Bachelard)?

A proposta de Jesus a Nicodemos é radical: ver tudo de novo, desde a origem, colocar-se em uma situação peculiar diante da vida: o rosto de Deus está no próximo, como disse Emmanuel Lévinas. Há um Tu, um Deus solidário e dialogante, que perpassa nossa existência, constantemente. E, em Mateus (25), Jesus responde à pergunta “onde te vimos?”: “o próximo era eu” (quando me vestistes, destes-me de beber e de comer, me agasalhaste, me visitaste quando doente ou na prisão). A fraternidade, solidariedade, partilha; o cuidado com o próximo, permite ver a face de Deus.

O inverso está na desconfiança, na indiferença, no desprezo ou no abandono do outro e da outra. Jesus responde rigorosamente à objeção de Nicodemos. Desde o Êxodo, ainda no exílio, a função “principal” do Espírito é uma indicação de liberdade criadora. Quem nasce desse Espírito/Vento novo, experimenta o que Edu Lobo ensina na canção: “O vento vira e, do vendaval surge o vento bravo… / como um sangue novo; / como um grito no ar. / Correnteza de rio / que não vai se acalmar./ Não vai se acalmar!”. Enquanto a Criação for humilhada; enquanto o homem não descobrir sua importância junto aos demais, no mistério da Criação; enquanto houver opressão, desigualdade, no mundo criado, não haverá respostas suficientes quanto ao descontentamento de Deus com o homem e a mulher que não aceitam abraçar uma nova natureza. Em Cristo. 

É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância” (2013) e “O Dragão que Habita em Nós” (2010). Contatos: Editora Ultimato (Facebook).

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JOÃO DIAS DE ARAÚJO


ImagemMENSAGEM DA MODERADORA DA IPU
(IGREJA PRESBITERIANA UNIDA DO BRASIL)

A IPU ESTÁ DE LUTO

Morreu domingo passado (09 de fevereiro de 2014), em Feira de Santana (BA), aos 83 anos de idade, nosso querido pastor Reverendo João Dias de Araujo. Parece que depois que sua esposa e companheira de uma vida inteira faleceu em setembro de 2013, João Dias achou a vida sem graça sem sua Ithamar, e o câncer, já tratado anteriormente, voltou com a força de um furacão.

A imagem que temos deste pequeno-grande homem está sempre associada à de Ithamar. Nos encontros e assembleias da Igreja o casal marcava sua presença, revelando um cuidado recíproco traduzido em pequenos gestos de carinho. Amor tão grande, que trouxe frutos através dos filhos do casal. Nosso abraço carinhoso a cada um(a).

Foi na pequena cidade chamada (na época) de Ponte Nova, atualmente conhecida como Wagner, no sertão da Bahia, que nossas vidas se cruzaram pela primeira vez. Foi o Rev João Dias que me batizou, ele pastor da Igreja Presbiteriana da cidade, e meu pai, Rev Jaime Wright, missionário brasileiro que dirigia a escola presbiteriana da cidade, o Instituto Ponte Nova.

João e Jaime iniciaram seus ministérios juntos, e suas vidas se cruzaram em diversos momentos. João escolheu o caminho da teologia e da poesia, utilizando estas ferramentas para influenciar tantas gerações. Jaime escolheu o caminho da justiça social, promovendo ações como a “reforma agrária presbiteriana” no Vale do rio São Francisco (BA).

Quando a ditadura (militar e eclesiástica) se implantou no Brasil, tanto João quanto Jaime foram perseguidos. João escreveu “Inquisição sem Fogueiras”, Jaime o traduziu para o inglês, e eu fiz o desenho da capa da primeira edição. João e Jaime participaram ativamente de órgãos ecumênicos nacionais e internacionais.

João e Jaime deram a sua contribuição para a IPU: João nos deu a letra do Hino Oficial da IPU, “Que estou fazendo se sou Cristão?”, foi Moderador, teólogo e pastor; Jaime foi o primeiro Secretário Geral que a IPU teve, criou o boletim informativo “Traço de União” e deixou sua marca na administração da Igreja.

Jaime nos deixou há 15 anos, marcando na história sua luta em defesa dos Direitos Humanos ; João nos deixa agora, marcando na história sua contribuição para o movimento ecumênico mundial através de suas reflexões e ações teológicas.

João, “meu padrim”, como eu carinhosamente o chamava, vamos sentir saudades da sua lucidez, sua disponibilidade, sua simpatia, seu amor cristão. Dê um abraço a todos que estão aí, fazendo festa pela sua chegada no céu. Um abraço carinhoso de sua “afilhada” e Moderadora desta Igreja que eu você amamos.

Anita Sue Wright Torres

Fevereiro de 2014

OBITUÁRIO – JOÃO DIAS DE ARAÚJO

Facebook  (e Twitter) – 12 de fevereiro de 2014 às 10:03

João Dias (1930-2014) foi fundador, entre outros pioneiros do ecumenismo, da IPU (Igreja Presbiteriana Unida do Brasil). Ramo ecumênico do presbiterianismo histórico brasileiro, igreja nacional ligada ao Conselho Nacional de Igrejas – CONIC (Católicas, Luteranas, Anglicanas, Ortodoxas), Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), Associação de Igrejas Presbiterianas – Reformadas da América Latina (AIPRAL). Jamais concorreu a um cargo político, nem se comprometeu com partidos políticos, embora tenha lutado tenazmente na resistência à ditadura militar (1964-1985); empenhou-se na reforma constitucional no retorno à democracia; assumiu com o rev. Jaime Wright (Secretário Geral da IPU), a luta pelos Direitos Humanos e Cidadania (insurgente), enquanto fundava a CEDITER, dedicada às questões da posse da terra e direitos dos povos indígenas.

Principais bandeiras da IPU (Igreja Presbiteriana Unida do Brasil), entre as propostas de autoria de João Dias — e dos demais combatentes ecumênicos, dentro dessa igreja nacional –, durante 35 anos de ministério pastoral e ensino teológico, assessoria teológica à IPU e ao CONIC: comunhão com igrejas cristãs, indistintamente; interesse no diálogo com religiões afro-brasileiras, compromisso com a democracia plena: economia, sociedade, raças, pobreza, políticas públicas, etc.; ênfase na participação solidária com os despoderados e marginalizados, cidadãos sem vez e sem voz; combatente do neoliberalismo e do capitalismo; colaboração eclesiástica diaconal e ecumênica; interesse ético de combate ao racismo, à homofobia, à exclusão social e defesa dos direitos humanos e cidadania insurgente; luta em defesa de sem-terras, povos indígenas, autóctones pré-cabralianos; esforço por manter o culto não-pentecostalizado e liturgia contemporânea ecumênica.                                                                                              /ultimatoonline / noticias / faleceu-autor-de-que-estou-fazendo-se-sou-cristao

NOTíCIAS – UltimatoOnline

  • 12 de fevereiro de 2014

Faleceu autor de “Que estou fazendo se sou cristão?”

Faleceu neste domingo (09/02), às 14h, aos 83 anos, o Reverendo João Dias de Araújo, vítima de câncer. Ele foi sepultado na segunda-feira (dia 10), em Feira de Santana, BA.O Rev. João foi um dos fundadores da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) e colaborador de organismos ecumênicos mundiais, tais como Conselho Mundial de Igrejas, Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas (CMI), Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), Aliança de Igrejas Presbiterianas e Reformadas da América Latina (AIPRAL) e Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).

Para o teólogo e pastor da IPU, Derval Dasilio, “João Dias registrou um momento dos mais importantes do protestantismo e da opção calvinista e ecumênica, realçando o papel do grande mestre da Reforma Protestante, matriz do ecumenismo que conhecemos e aplaudimos, hoje. Significativamente, seu livro [“Inquisição sem fogueiras”] rebela-se contra a religiosidade ‘equidistante’, no protestantismo, sem engajamento aparente, político e social – porém, aliado da ditadura militar, a quem evangélicos, na grande maioria, aplaudiram e abençoaram”.

Dentre os livros publicados encontra-se “A Inquisição Sem Fogueiras” e “Sê Cristão Hoje”. De sua autoria, o hino “Que estou fazendo?” (nº 297) Foi muito criticado por conservadores, por sua oposição ao Regime Militar:

Que estou fazendo?

1. Que estou fazendo se sou cristão,
Se Cristo deu-me o seu perdão?
Há muitos pobres sem lar, sem pão,
Há muitas vidas sem salvação.
Mas Cristo veio pra nos remir
O homem todo, sem dividir:
Não só a alma do mal salvar,
Também o corpo ressuscitar.

2. Há muita fome no meu país,
Há tanta gente que é infeliz,
Há criancinhas que vão morrer,
Há tantos velhos a padecer.
Milhões não sabem como escrever,
Milhões de olhos não sabem ler:
Nas trevas vivem sem perceber
Que são escravos de um outro ser.

3. Que estou fazendo se sou cristão,
Se Cristo deu-me o seu perdão?
Há muitos pobres sem lar, sem pão,
Há muitas vidas sem salvação.
Aos poderosos eu vou pregar,
Aos homens ricos vou proclamar
Que a injustiça é contra Deus
E a vil miséria insulta os céus.
_______________
Com informações do site da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.

O HINO QUE ABALOU O PROTESTANTISMO BRASILEIRO COM SUA MENSAGEM

PARTITURA: QUE ESTOU FAZENDO SE SOU CRISTÃO?

FACEBOOK – 12 de fevereiro de 2014 às 19:55

Guardei a autorização de João Dias de Araújo (1930-2014) para publicar esta partitura, em julho de 1999. Publico-a “in memoriam”, com créditos ao excelente e atualizado Hinário Para o Culto Cristão, Bompastor Editora, 1997 (JUNTA DE EDUCAÇÃO E PUBLICAÇÕES DA CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA). Os autores são: João Dias de Araújo e Décio Emerique Lauretti. O ritmo e a melodia se inspiraram na música regional nordestina. Nesse caso, uma ciranda em Ré Menor.

Derval Dasilio

décio emmerick e J.dias 2003

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CONFUSÕES ENTRE ESTADO LAICO E RELIGIÃO


Derval. black withe“Quero agradecer ao movimento gay. Quanto mais tempo perderem com o Feliciano, maior será a bancada evangélica em 2014” (Silas Malafaia, Folha de São Paulo,7/4/2013).


“O histórico da presença evangélica nas mídias não-religiosas no Brasil revela a hegemonia católico-romana que vem pouco a pouco sendo diminuída, por conta do espaço que os evangélicos vêm conquistando na esfera pública. Enquanto católicos sempre apareceram para expressar sua fé nas datas clássicas do calendário religioso e para se manifestar sobre temas amplos” (Magali C. Nascimento).

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No Brasil, quando presenciei o feriado nacional, aos catorze anos, para guardar o dia do suicídio de Getúlio Vargas; a renúncia de Jânio Quadros, naquela imagem inesquecível, dos pés invertidos no aeroporto, sem saber se fica ou se embarca ao exílio provisório; a queda ou derrubada do avião do ditador Gen. Castelo Branco, depois do golpe de 31 de março; e os discursos estúpidos do Gen. Costa e Silva; e o abismo da corrupção política do presidente Collor, enquanto solicitava panos pretos nas janelas, em sinal de luto contra sua destituição; a eleição de uma mulher – ineditismo incrível num país machista – ao cargo político mais elevado da nação, não tenho o menor pudor em dizer que vivemos num país com pouca compreensão dos significados da democracia moderna. No entanto, a democracia avança, malgrado princípios religiosos conservadores e esforços para retornar à Constituição Imperial, onde a Religião ocupava o patamar do quarto poder. Poder moderador.

O teólogo Júlio Zabatiero, estudioso da linguagem religiosa, dos bons, discute os debates em torno das compreensões distintas da ideia de “laicidade” e “laicismo”, tema que convida a mergulhar na mente política de evangélicos e simpatizantes da autoridade moral da religião sobre o Estado: “A laicidade pretendida, porém, se ampliará para além da questão da separação do Estado em relação à religião, passa a incorporar a separação do Estado em relação aos demais tipos de doutrinas abrangentes, políticas, éticas, filosóficas, científicas”. Tudo certo, mas no Brasil, cuja anarquia na abordagem desses temas poderia resumir-se num “papo etílico” – isso mesmo: discussão de política tomando “chopp” num bar frequentado por intelectuais bem agasalhados nos dias frios, sob a garoa paulistana, nos Jardins –, observaríamos uma linguagem com sotaque elitista e anárquico.

Pois aqui, diferente da Europa, ou dos EUA e Canadá, as histórias serão outras. E os reflexos do iluminismo alemão, que, além de Hegel consagram Karl Marx, espargem luz sobre realidades extraordinariamente diferentes. Será que o “princípio da laicidade”, no Brasil, se estende ao campo das liberdades do cidadão, passando pelo caráter protetor da sociedade diante do poder do Estado? Lá, eles costumam falar desses assuntos sem Calvino e sem Lutero na algibeira. Não dão a mínima… Nos EUA, sob a análise cortante de Max Weber, quanto à ética protestante impregnada do capitalismo, depois pela Revolução Industrial, e suas profundas consequências, mostra-se que o aprendizado sobre a questão da laicidade deveria passar por princípios eternos que envolvem direitos humanos e cidadania. E salve J-J Rousseau e Voltaire, que inspiraram as “revoluções políticas” contra o Estado absolutista fundamentado por Machiavel ou Thomas Hobbes. Estes protegiam os estados monárquicos religiosos.

No Brasil – talvez o único país do mundo ocidental, onde um parlamentar se apresenta aberta e explicitamente “contra” ou como “revisionista” dos Direitos Humanos, para satisfazer grupos autoritários da sociedade –, um político evangélico, preparando-se para as eleições de 2014, ocupa a presidência de uma comissão parlamentar que deveria, por princípio, defender a cidadania laica não-privilegiada. Faz o inverso.

Podemos também observar as confusões na discussão sobre temas vinculados à laicidade. O político pentecostal se dirige a dois públicos com identidade autoritária: o religioso e o civil, reivindicadores da cidadania privilegiada. A laicidade tem sido descrita como uma espécie de “carta branca” do Estado às instituições religiosas, como se as instituições religiosas estivessem isentas da Lei. É nesse momento que começa o “quiproquó”, estabelece-se uma confusão entre liberdade de expressão e opiniões discriminatórias livres. Porque na economia as igrejas pentecostais de mercado nem precisam driblar o fisco, protegidas pela Constituição. A criação de empresas de fachada para cuidar da economia eclesiástica é um fato consagrado.

Quanto à liberdade de culto, igrejas vêm se tornando diretórios políticos, e lideranças eclesiásticas cabos eleitorais. O púlpito político está na agenda. Sem nenhum pudor religioso. Isso, porém, não é permitido à sociedade civil. Ao partido “civil” exige-se registro em diretório político, e somente este credencia afiliados para candidatarem-se, ou falar em nome de seus partidos. Há igualdade?

O favorecimento ou privilégio concedido ao candidato religioso torna-se uma afronta à cidadania laica. O candidato político religioso, inclusive, tem nos pastores cabos eleitorais espontâneos que falam a milhões de eleitores em seu nome. Já foram observados pastores instruindo a “boca-de-urna” sem credenciamento. Tal coisa é vedada a outro candidato que se apresenta dentro da sociedade civil.

Assim, a noção de laicidade pouco a pouco se auto-define como a falsa neutralidade do Estado desejável, em relação a todos os tipos de “doutrinas” que configuram a identidade das pessoas-cidadãs: religiosas, culturais, onde novos conceitos de cidadania explodem à revelia da autoridade do Estado e da Religião. O assunto “cidadania diferenciada e cidadania insurgente” entrou no roteiro político recente com toda a força. Se ser religioso é ser eleitor privilegiado, ingressamos num campo minado onde é preciso caminhar com extremo cuidado. O detector dos instrumentos letais contra a democracia igualitária, contra os interesses do bem comum; contra os danos nas políticas do coletivo, é a própria democracia.

Por enquanto, mesmo conspurcada por exceções e privilégios da Religião, a Constituição Federal pode ser evocada, com relativa segurança. Mas não esqueçamos: estamos no Brasil. Aqui, a convivência religiosa passa por terreiros, centros espíritas e templos católicos ou evangélicos. Uma dialética multicolorida da ordem e da desordem, do lícito e do ilícito, do festivo e do sério (vejamos o Carnaval e o futebol), do verdadeiro e do falso, domina o cotidiano tupiniquim nas sociedades civis e religiosas. Nesse ponto, quanto à autoridade moral da religião, como diria Caetano Veloso, a questão do estado laico “é… mas não é” um problema resolvido. E estamos conversados. Ou não?

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Religião e Política, sim. Igreja e Estado, não

Derval Dasilio Livros publicados: O Dragão que habita em nós, 2010; Jaime Wright – O Pastor dos Torturados, 2011; Pedagogia da Ganância, 2013 (publicados pela Metanoia Editora).

 

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PERU NO FOGÃO DE LENHA


O Natal e o Ano Novo deixaram de ser o que eram, até poucas décadas atrás. Ingressaram no calendário de feriados comuns, abandonando o conceito de feriado-ritual dos quais alguns maduros, e possivelmente todos os velhos, ainda se lembram. Não há muitas notícias sobre esse assunto, no Brasil imperial ou colonial. Nesse caso, o protestantismo, que chega pelos fogão a lenha33meados do século 19, vem trazendo costumes que remontam às tradições anglo-saxônicas. Costumes que vieram com a chegada aos EUA dos puritanos à Nova Inglaterra, por volta da instalação da revolução americana, ou republicana. Missionários americanos, aqui, também traziam suas tradições. Se proibiam protestantes de ter bíblias, construir templos, os cemitérios lhes eram negados nos sepultamentos. Mas não impediam os costumes que traziam (Gedeon Alencar).  

Assim, a contribuição protestante se introduzira com o Natal (Christmas), e o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day). De quebra, vieram os domingos dedicados ao Mothers Day, mais tarde. Seja como for, estas festas evocam a estação das compras, ou as homenagens intermediárias consumistas dos dias das mães e dos pais, paganizando-se em definitivo o calendário de festas. As porteiras dos shoppings e lojas são abertas. Milhões de reais são transformados em presentes, e não menos na substituição de eletrodomésticos e do guarda-roupa pessoal.

Sem destacar as diferenças entre lá e cá, estas datas são celebradas de maneiras bem diferentes. A começar pela introdução do “papai noel”, em suas vestes de inverno. Lá, no frio, moram os povos mais ricos do planeta. A formalidade nas roupas cerimoniosas; os ornamentos da mesa dos comensais, talheres, pratos e toalhas; a oração na distribuição dos alimentos; o ritual com discursos dos chefes de família. As diferenças entre católicos e protestantes, uma tolerância momentânea, faz com que todos pareçam professar a mesma religião. Mas não professam. Do mesmo modo que evangélicos pentecostais, lá, se diferenciam dos protestantes originais.

Não importa se somos católicos, protestantes, evangélicos, pentecostais, espíritas, candobleistas, umbandistas. Santos de terreiro, médiuns, padres, pastores, pais de santo, esquecem-se das diferenças e comemoram estas festas do modo mais arreligioso possível. Aparentemente, a confusão interna não perturba. As idealizações da propaganda governamental, mostrando gaúchos, sertanejos, índios, seringueiros, operários metalúrgicos, vaqueiros, agricultores, juntos como povo; as Cataratas do Iguaçu, o Pão de Açúcar, o Pelourinho, o Cristo Redentor, a Floresta Amazônica, são imagens que não escondem flores e velas deixadas na praia, na passagem do ano. Domínio de Iemanjá, e os participantes, em grande número, sem distinção de credo, comparecem vestidos de branco. Se não são uma mentira, as imagens da propaganda do Brasil pouco revelam da verdadeira paisagem humana brasileira em sua diversidade e sincretismo espetaculares (Gedeon Alencar).

Quanto ao peru, é possível assar no forno comum, mas ele será mais saboroso se for usado o forno de lenha.  Você acende a lenha uma hora antes de colocar o baita.  É essencial fazer uma boa brasa para assar o bicho, antes embebedado com cachaça. Peru bêbado, no abate, é bom para amaciar a carne. Antes de levá-lo ao forno, porém, tempere-o adequadamente. O calor do fogo é mais seco.  As achas de lenha incandescente, a brasa, deixam a carne levemente defumada.  Tome cuidado em não queimar as pontas das coxas.  Sirva o peru com batatas assadas inteiras, farofa na manteiga mineira, molhadinha, e ovos cozidos. Pode botar uns torresminhos, rodelas de cebola, que pega bem.

Aqui, tudo muda, a partir do peru com farofa, a mistura de lombo e carne assada variadas – se bobear pinta um churrasco –, muita cerveja e litros de refrigerantes borbulhando nos copos descartáveis. Quanto menos talheres, pratos, copos para lavar, melhor. E nada de orações, musicas folclóricas de tradições européias ou norte-americanas. Sem aderir, ainda, às tendências musicais do momento, rola samba e batucada o tempo todo. 

Se no protestantismo existia um diálogo profundo com a vontade divina, na comida cerimonial do Natal, perdeu-se, na intimidade que brasileiros têm com as misturas mulatas, tornando a comida uma evocação digna do mito das três raças (branco, índio e negro). Aqui comparecem acarajés, vatapás, moquecas, rabadas, buchadas de bode, pato ao tucupi, tacacá, pirão, angu, cozidos, dobradinhas, pamonhas, milho assado, papas… e tutu de feijão com torresmo. Prevalece a comensalidade relacional, na partilha de hábitos de origem.

A présence africaine, como diria o antropólogo Levy-Strauss, nos símbolos da nação brasileira, segue-se como inevitável. O catolicismo popular, as tradições indígenas, as memórias do povo afro, o ethos brasileiro, além da unidade artificial das paisagens brasileiras, quando mostradas por governantes que pretendem “entender” o Brasil. Tom Jobim dizia que o Brasil não é um país para principiantes.

Nada disso define o verdadeiro Natal brasileiro, mesmo com peru assado no forno a lenha, uma vez que o culto protestante, ou evangélico, do Natal, ignora a marca concreta da miscigenação cultural e racial que transparece, principalmente, nas festas de fim de ano. É servido? Feliz Ano Novo!

Derval Dasilio

Livro recente: Pedagogia da Ganância

 

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