IGREJAS E CIDADES DOENTES


É importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder autoritário, a sociedade excludente, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da partilha dos bens comuns, e contra a desigualdade. E também para denunciar o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares para a religião.
derval-pint2Empenho na justiça para com o próximo; compromisso em atos solidários quase impossíveis, face às desgraças sociais; resistência aos poderes demoníacos, especialmente os que se manifestam na política e na economia; sofrimento diante da violência; da fome, do desemprego, do assassinato de inocentes, dos conflitos comuns nos meios onde crentes vivem, especialmente nas favelas e periferias sob o desamparo dos poderes públicos, no sentido testemunhal que Jesus, no Novo Testamento; refere-se ao envolvimento com a causa do Reino de Deus (o Reino nada tem a ver com isenções religiosas diante de problemas observados nas realidades existentes, econômicas, políticas, religiosas.
A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, Aids, dengue, para além das representações figurativas. Por exemplo, quais das nossas famílias não têm vítimas da violência, das doenças sociais, do drogadismo criminoso ou farmacológico, alcoolismo, tabagismo, consumismo? Violência intra-familiar, crime político, crime organizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade do nosso tempo. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.
O Estado brasileiro construiu um emaranhado para criar complicações invencíveis, num estratagema que, seguramente, privilegia grupos da sociedade que ofuscam problemas, neutralizam ações insurgentes, reivindicatórias da distribuição de recursos para a população dos desprotegidos jurídica e socialmente. Uma herança proveniente do colonialismo, passando pelo império escravagista, e atravessando o século da república num esforço fulgurante para manter privilégios de classe e excluir ao máximo grau as possibilidades de cidadania igualitária das classes trabalhadoras.
O problema da droga é parte da problemática da cidade ou da metrópole. Mais de 3/4 da população brasileira habita nas cidades. E, nelas, metade da população luta para alcançar direito e cidadania igualitários. A complexidade aumenta com o problema da droga atingindo em cheio toda a sociedade, sem distinção entre grupos privilegiados e desfavorecidos. Porém, o seguimento objetivado para responder pelo crime e pela anomia é aquele, instalado nas periferias. Devemos considerar que a droga é problema para a saúde pública; medicina psiquiátrica, psicologia clínica comunitária, pedagogia escolar e serviço social, juntas, com responsabilidades interdisciplinares.
No entanto, a sociedade elitizada, sob o pressuposto do gozo de direitos a uma cidadania privilegiada, diferenciada – ciosa na manutenção de seu suposto status social economicamente protegido –, localiza o problema da droga e do crime organizado na periferia, fazendo vista grossa aos capitães do narcotráfico, que ocupam condomínios de luxo nos endereços onde estão os imóveis mais caros do país. É ali, nos endereços nobres, apartamentos de luxo, que as drogas mais caras são consumidas a granel, na clandestinidade. Por acaso, a polícia, a justiça que trata do narcotráfico, não sabe disso?
Igrejas, por sua própria natureza, não possuem o instrumental complexo exigido para a abordagem do problema, ou até mesmo do assunto, uma vez que os preconceitos e as pressões pendem para classificar a situação de dependentes de drogas como uma situação moral e religiosa. Acertam, porém, os que apontam a questão: as igrejas não são responsáveis pelo problema social da droga. E só… No restante, equivocadamente, repetem-se as mesmas opiniões de sempre: “droga é assunto de polícia”.
Não é sem fundamento a crítica que se faz da igreja e da religião sem justiça, nos dias de hoje. Ela é absurda, colonialista, contra a ciência, contra a liberdade, contra o progresso da humanidade, nos desdobramentos da ética dos direitos fundamentais, do cuidado com a coletividade, além do outro, o próximo. A religião é criminosa, porque entregou-se ao mercado, aos negócios ilegais e escusos, à sonegação fiscal, abrigando quadrilhas (cf. inúmeros processos contra lideranças pentecostais – algumas em prisão domiciliar –, pelo ministério público, em todo o país); é dogmática, porque se impõe por princípios pétreos e inarredáveis, defendendo privilégios e exceções constitucionais; é contra a responsabilidade social, ao afastar-se, isentando-se das lutas travadas para humanizar a política e a economia. A religião pentecostalista que supervaloriza o homem abstrato, supostamente espiritual, por um lado é, também, paradoxalmente pragmática. É patológica, pois influencia doenças do comportamento, em todo lugar, desde as profundezas da alma religiosa gananciosa, fanática ou obsessiva na obtenção de bens ou de resultados numéricos.
Em sua teologia egocêntrica, falta ênfase na evangelização da missão de Deus, com ação na sociedade por justiça e solidariedade. Falta denúncia, efetividade ética, compromisso com a coletividade, exigência de políticas públicas corretivas da violência, e da miséria. Falta cidadania, dignidade social reclamada para todos. Mas é frequente a omissão do evangelho bíblico da gratuidade, da misericórdia divina, da solidariedade e compaixão de Deus, que alcançam o homem e a mulher vitimados pelo sofrimento das desigualdades, das opressões concretas ou espirituais, constantes num mundo impiedoso, sem fé e sem esperança no reinado de Deus.
É uma teologia habituada a sonegar obrigações cidadãs, sem esperança de um mundo transformado. Por desconsiderar as necessidades concretas da vida. E outros atributos, defeitos morais, que merecem atenção à parte: é racista, homofóbica, repressiva, fechada, supersticiosa… Como nos livraremos dessas críticas?
O Evangelho é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o Bem a força histórica do Mal. Sugere como Paulo Freire, que “a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as estruturas da opressão”. Para os seguidores de Cristo e suas comunidades era importante não dar murro em ponta de faca. “Hipócritas, vocês sabem reconhecer os aspectos da terra e do céu (realidades terrenas), e não sabem interpretar a conjuntura presente (políticas públicas)?”
Lucas fala de espíritos pervertidos (cf. 6,42), literalmente, hipócritas desse tempo, o tempo de Jesus. Tempo de salvação, que é fácil de ser reconhecido, pois os sinais são claros (Lc 7,22; 11,20). Saibamos reconhecê-los. O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas: aos que lutam com os problemas da saúde pública; aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores – representantes da sociedade excludente –, flageladores de homossexuais, crianças, mendigos e doentes mentais.
“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação, sugere o evangelho da Quaresma e da Páscoa. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo, orientador, no discipulado da fé. Defesa da vida é a proposta da fé, na direção das plenitudes; na justiça e na igualdade.
Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural, a consciência madura revela que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino, a justiça, a dignidade (dignitatis = direitos iguais), para homens e mulheres, sejam quais forem, sob constante humilhação e negação na sociedade. Oferece Deus, em seu amor que se expressa na gratuidade e solidariedade no sofrimento. A sociedade humana reclama salvação, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte (droga, desproteção jurídica, política, enfermidades sociais, etc.). Os códigos sociais dominantes, de espaço e lugar, estabelecem privilégios para poucos enquanto punem e humilham pobres e doentes, relegando-os a uma cidadania de terceira classe. Todas as mortes são produzidas desse modo. Investir na salvação é uma resposta da fé em Jesus Cristo.
Derval Dasilio

(Livro em preparo: POBREZA, DROGAS, VIOLÊNCIA, PROBLEMA INTESTINAL DA IGREJA E SOCIEDADE)

Sobre Derval Dasilio

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