CONFUSÕES ENTRE ESTADO LAICO E RELIGIÃO


Derval. black withe“Quero agradecer ao movimento gay. Quanto mais tempo perderem com o Feliciano, maior será a bancada evangélica em 2014” (Silas Malafaia, Folha de São Paulo,7/4/2013).


“O histórico da presença evangélica nas mídias não-religiosas no Brasil revela a hegemonia católico-romana que vem pouco a pouco sendo diminuída, por conta do espaço que os evangélicos vêm conquistando na esfera pública. Enquanto católicos sempre apareceram para expressar sua fé nas datas clássicas do calendário religioso e para se manifestar sobre temas amplos” (Magali C. Nascimento).

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No Brasil, quando presenciei o feriado nacional, aos catorze anos, para guardar o dia do suicídio de Getúlio Vargas; a renúncia de Jânio Quadros, naquela imagem inesquecível, dos pés invertidos no aeroporto, sem saber se fica ou se embarca ao exílio provisório; a queda ou derrubada do avião do ditador Gen. Castelo Branco, depois do golpe de 31 de março; e os discursos estúpidos do Gen. Costa e Silva; e o abismo da corrupção política do presidente Collor, enquanto solicitava panos pretos nas janelas, em sinal de luto contra sua destituição; a eleição de uma mulher – ineditismo incrível num país machista – ao cargo político mais elevado da nação, não tenho o menor pudor em dizer que vivemos num país com pouca compreensão dos significados da democracia moderna. No entanto, a democracia avança, malgrado princípios religiosos conservadores e esforços para retornar à Constituição Imperial, onde a Religião ocupava o patamar do quarto poder. Poder moderador.

O teólogo Júlio Zabatiero, estudioso da linguagem religiosa, dos bons, discute os debates em torno das compreensões distintas da ideia de “laicidade” e “laicismo”, tema que convida a mergulhar na mente política de evangélicos e simpatizantes da autoridade moral da religião sobre o Estado: “A laicidade pretendida, porém, se ampliará para além da questão da separação do Estado em relação à religião, passa a incorporar a separação do Estado em relação aos demais tipos de doutrinas abrangentes, políticas, éticas, filosóficas, científicas”. Tudo certo, mas no Brasil, cuja anarquia na abordagem desses temas poderia resumir-se num “papo etílico” – isso mesmo: discussão de política tomando “chopp” num bar frequentado por intelectuais bem agasalhados nos dias frios, sob a garoa paulistana, nos Jardins –, observaríamos uma linguagem com sotaque elitista e anárquico.

Pois aqui, diferente da Europa, ou dos EUA e Canadá, as histórias serão outras. E os reflexos do iluminismo alemão, que, além de Hegel consagram Karl Marx, espargem luz sobre realidades extraordinariamente diferentes. Será que o “princípio da laicidade”, no Brasil, se estende ao campo das liberdades do cidadão, passando pelo caráter protetor da sociedade diante do poder do Estado? Lá, eles costumam falar desses assuntos sem Calvino e sem Lutero na algibeira. Não dão a mínima… Nos EUA, sob a análise cortante de Max Weber, quanto à ética protestante impregnada do capitalismo, depois pela Revolução Industrial, e suas profundas consequências, mostra-se que o aprendizado sobre a questão da laicidade deveria passar por princípios eternos que envolvem direitos humanos e cidadania. E salve J-J Rousseau e Voltaire, que inspiraram as “revoluções políticas” contra o Estado absolutista fundamentado por Machiavel ou Thomas Hobbes. Estes protegiam os estados monárquicos religiosos.

No Brasil – talvez o único país do mundo ocidental, onde um parlamentar se apresenta aberta e explicitamente “contra” ou como “revisionista” dos Direitos Humanos, para satisfazer grupos autoritários da sociedade –, um político evangélico, preparando-se para as eleições de 2014, ocupa a presidência de uma comissão parlamentar que deveria, por princípio, defender a cidadania laica não-privilegiada. Faz o inverso.

Podemos também observar as confusões na discussão sobre temas vinculados à laicidade. O político pentecostal se dirige a dois públicos com identidade autoritária: o religioso e o civil, reivindicadores da cidadania privilegiada. A laicidade tem sido descrita como uma espécie de “carta branca” do Estado às instituições religiosas, como se as instituições religiosas estivessem isentas da Lei. É nesse momento que começa o “quiproquó”, estabelece-se uma confusão entre liberdade de expressão e opiniões discriminatórias livres. Porque na economia as igrejas pentecostais de mercado nem precisam driblar o fisco, protegidas pela Constituição. A criação de empresas de fachada para cuidar da economia eclesiástica é um fato consagrado.

Quanto à liberdade de culto, igrejas vêm se tornando diretórios políticos, e lideranças eclesiásticas cabos eleitorais. O púlpito político está na agenda. Sem nenhum pudor religioso. Isso, porém, não é permitido à sociedade civil. Ao partido “civil” exige-se registro em diretório político, e somente este credencia afiliados para candidatarem-se, ou falar em nome de seus partidos. Há igualdade?

O favorecimento ou privilégio concedido ao candidato religioso torna-se uma afronta à cidadania laica. O candidato político religioso, inclusive, tem nos pastores cabos eleitorais espontâneos que falam a milhões de eleitores em seu nome. Já foram observados pastores instruindo a “boca-de-urna” sem credenciamento. Tal coisa é vedada a outro candidato que se apresenta dentro da sociedade civil.

Assim, a noção de laicidade pouco a pouco se auto-define como a falsa neutralidade do Estado desejável, em relação a todos os tipos de “doutrinas” que configuram a identidade das pessoas-cidadãs: religiosas, culturais, onde novos conceitos de cidadania explodem à revelia da autoridade do Estado e da Religião. O assunto “cidadania diferenciada e cidadania insurgente” entrou no roteiro político recente com toda a força. Se ser religioso é ser eleitor privilegiado, ingressamos num campo minado onde é preciso caminhar com extremo cuidado. O detector dos instrumentos letais contra a democracia igualitária, contra os interesses do bem comum; contra os danos nas políticas do coletivo, é a própria democracia.

Por enquanto, mesmo conspurcada por exceções e privilégios da Religião, a Constituição Federal pode ser evocada, com relativa segurança. Mas não esqueçamos: estamos no Brasil. Aqui, a convivência religiosa passa por terreiros, centros espíritas e templos católicos ou evangélicos. Uma dialética multicolorida da ordem e da desordem, do lícito e do ilícito, do festivo e do sério (vejamos o Carnaval e o futebol), do verdadeiro e do falso, domina o cotidiano tupiniquim nas sociedades civis e religiosas. Nesse ponto, quanto à autoridade moral da religião, como diria Caetano Veloso, a questão do estado laico “é… mas não é” um problema resolvido. E estamos conversados. Ou não?

Leia mais
Religião e Política, sim. Igreja e Estado, não

Derval Dasilio Livros publicados: O Dragão que habita em nós, 2010; Jaime Wright – O Pastor dos Torturados, 2011; Pedagogia da Ganância, 2013 (publicados pela Metanoia Editora).

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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5 respostas a CONFUSÕES ENTRE ESTADO LAICO E RELIGIÃO

  1. Eduardo diz:

    “Nada disso define o verdadeiro Natal brasileiro, mesmo com peru assado no forno a lenha, uma vez que o culto protestante, ou evangélico, do Natal, ignora a marca concreta da miscigenação cultural e racial que transparece, principalmente, nas festas de fim de ano.” (Derval – último parágrafo).

    Existe um VERDADEIRO Natal? Quero crer que à pergunta feita segue a resposta, “mesmo com o peru assado no [sic] a lenha…”, a pergunta receberá um redondo não. E por que? Porque “… protestante, ou evangélico, do [sic] Natal, ignora a marca concreta da miscigenação cultural”.

    Como o protestante ignora a miscigenação, segundo o Derval, nem peru assado no forno a lenha definiria o Natal brasileiro descrito que qualquer 60tão ou mais se lembra muito bem. Estamos falando de quando, essa de peru assado? De 1930 até a década de 70, quando muito, depois a Sadia resolveu aquela mão de obra danada e introduziu o peru agora levado ao forno a gás, o peru de Natal com um pino que como um termostato avisa quando a ave está no ponto ideal, evitando que se perca tempo e que a refeição fique excessivamente assada.

    Carne menos dura com a cachaça foi substituído pela alteração genética, por volta da década de 40, onde o bicho chega à mesa sem as dores de cabeça que a minha mãe tinha ao prepara-lo e a criançada fazia a festa vendo o bicho cambalear.

    Peru não é um bípede de origem da terra aqui. Devemos à cozinha francesa algumas tradições natalinas, entre elas, com requinte a ceia de Natal com patê de fígado de ganso e peru assado. Há aqueles que discordam e remontam aos Astecas a origem do peru, talvez, daí, o nome dado à ave como sendo originária do Peru, o país.

    Da França, porém, para a Inglaterra e de lá para os Estados Unidos, o peru deu um voo enorme, aterrizando aqui com os Protestantes. Atenção: o peru não aparece como carne servida no Natal antes do século XX. Para ser mais preciso, por volta da década de 40.

    Volto à Sadia. O peru foi introduzido no Brasil, — 20 no jogo do bicho, e como tema de música de carnaval — como aquela ave que apreciamos no Natal, pelo catarinense Atílio Fontana, fundador da Sadia. Não vou tomar tempo do leitor, mas alguém se interessado poderá recorrer ao dicionário mais universal e ao alcance de todos, a Wikipedia, e descobrirá que o galiforme conhecido como peru não é natural do Brasil.

    Pode-se dizer com segurança que a alimentação nos três primeiros séculos no Brasil era constituída, ao longo desse período por arroz, feijão, carnes de veado, anta, onça, macaco, tatu, peixes, aves, linguiça, carne secadas ao sol, farinha de mandioca e de milho, ovos, saladas de legumes, doces de frutas da região, rapadura, queijo, requeijão. Comiam também a feijoada dos miúdos de porco que o senhor da senzala, informa o antropólogo Darcy Ribeiro em “O Povo Brasileiro”.

    O peru tem sim o dedo dos americanos, mas não necessariamente dos protestantes. Esses reforçaram o uso do bicho à mesa como o tender e outros. Aliás, protestante que se preza deve quase tudo na sua linhagem histórica aos americanos, gostando ou não.

    Volto ao parágrafo inicial do Derval, acima citado. O que é o Natal brasileiro? A pergunta nasce morta. Não tem Natal brasileiro. Aliás, nada culturalmente nesse mundo que se preza tem algum valor a não ser misturado. A palavra ‘miscigenação’ eu recuso a usar, mesmo porque eu fatalmente estarei me ligando a um dos luminares brasileiros, aqui perto, Gilberto Freire que considerou que não existe esse negócio de pureza racional (e eu acrescentaria, pureza alimentar), de modo que Natal brasileiro é uma construção, a meu sentir, puramente ideológica.

    Tal qual “Natal brasileiro”, “culto protestante” ou “evangélico” também não existe. Portanto, atribuir ao culto protestante a ausência de miscigenação e é apensar um atributo a ele que quando esse ‘ele’ não existe, senão como um construto. Pode ter existido alguns rincões, como existe alguns de alemães em Santa Catarina, que cultivam tradições, inclusive a língua, onde grupos minoritários protestantes (conheci um que desapareceu em Americana, SP) cultivaram certos hábitos e tradições com o português com sotaque inglês.

    Quando ao consumo, dizer o quê, não é?
    Se ouro, incenso e mirra fossem produzidos e vendidos a preços acessíveis, cairiam no gosto da maioria. O comércio é vida! Consumismo é ideologia.

    • Respondendo ao Eduardo:
      Opinião abalizada respeita-se. Obrigado. Porém, Roberto DaMatta, antropólogo brasileiro, ensinou por 16 anos numa universidade norte-americana. No livro “Tocquevilleanas” expõe sua experiência no Brasil e nos EUA, simultaneamente, quanto às comemorações religioso/seculares. Dali tirei a história do “peru”, como é lá, e parafraseei como uma receita brasileira, já “adulterando” o “peru original” daqui (lembro-me muito bem do peru de Natal, comprado dias antes do Natal, e embebedado com cachaça para o abate; não havia nem o plástico da embalagem, nem o peru congelado temperado ao gosto dos grandes frigoríficos). Aí, o nosso peru e levado ao forno de lenha numa receita “mineira”.

      Quanto ao protestantismo “não ter influenciado” as datas festivas, boto minha mão na chapa do fogão a lenha, se alguém pretende afirmar que a cultura protestante de lá não foi transplantada para aqui, à semelhança do “christmas day”; “mothers day”; “thaksgiving day”, ao estilo dos irmãos do Norte.

      Pesquiso a história social do protestantismo brasileiro e latino-americano, daí retiro minhas conclusões sobre os costumes implantados por missionários norte-americanos, especialmente na fundação de inúmeros educandários — com competência, é preciso dizer — em concorrência com o ensino público e o ensino religioso/secular católico desde o império de D. Pedro II.

      Seria extenso, argumentar sobre estas influências. Mas elas existem, acreditamos. Se não, tenho que revolver minha própria história envolvida pela cultura protestante desde a infância. A sociedade protestante (ou evangélica) compõe, provavelmente, pouco mais de 15 % da população brasileira, nos dias de hoje. No meu entender, além do conservadorismo político (conferir evangélicos na política), é impossível, hoje, negar o “approach” protestante na cultura brasileira. Gilberto Freire (que você cita) foi batista… educado em colégio protestante. Sabia?

      • Eduardo diz:

        Gilberto Freire (que você cita) foi batista… educado em colégio protestante. Sabia?” Sabia sim. Moro aqui perto. Conheço um pouquinho da peça (sua contribuição) e até onde ele estudou no Texas.

        Imagino que você também deve saber que ele abandonou tudo isso (protestantismo) e prometeu a si mesmo jamais pisar em igreja, culto ou atividade protestante. Ao que me consta, cumpriu com fidelidade o prometido a si próprio, em pessoa e em suas obras.

        Quanto a filigrana ‘conservadorismo político’ (algo meio troncho, parece-me ou coisa requentada da década de 60-70 ou ranço acadêmico mesmo) sem qualquer qualificação como o seu ‘amarradinho protestante-cultura-brasileira’, acho deveras uma abordagem esquizofrênica: uma hora você desce a borduna nela (cultura), outra hora ao sabor de seu viés esquerdista (formação), ela vive a reboque.

        A propósito, um pouquinho de Paulo D. Siepierski em http://encipecom.metodista.br/mediawiki/images/d/da/Paulo_D_Siepierski.pdf vai lhe fazer bem ou um pouco mais, atualiza-lo sobre o Pernambucano Freyre (ou Freire) e sua obra.

        Você as vezes parece escarafunchar baús temáticos antigos mais para revelar seus badulaques íntimos do que a dimensão do universo que descobres e tiras de lá. Uma espécie de localismo, historicamente, pouco virtuoso.

    • EDUARDO diz:

      Escreva sobre os acontecimentos que sacodem o país; fale da confusão que a sua guerrilheira aprontou; indique onde o petismo levou o país à bancarrota e deixe de escrever sobre amenidades. Aliás, aqueles que amam a esquerda adoram fazer isso.

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