PEDAGOGIA DA GANÂNCIA (LANÇAMENTO)


Derval Dasilio
05:00
Para: Derval Dasilio, Derval Dasilio

Corrupção, protestos e o espaço público 

Derval. black witheJovens das igrejas protestantes ecumênicas estiveram na organização das marchas que tomaram as metrópoles brasileiras no meio do ano, e levaram mais de um milhão de brasileiros às ruas e avenidas para protestar contra o Estado irresponsável, a corrupção política, o abuso do sistema econômico parasitário e atrelado às políticas governamentais. A sociedade autoritária reprovou-os. Conheço alguns dos jovens que estiveram nas manifestações de junho de 2013. E as vielas, ruas, avenidas da cidade, reclamam os seus direitos, hoje, da mesma maneira. O que é chocante, impactante, nas manifestações pacíficas no meio do ano (2013), por direitos políticos e cidadania crítica, também ocupando assembleias legislativas estaduais e municipais?

O enfoque invertido sobre os reais problemas das urbes e do país, que políticos escamoteiam, enquanto se perpetuam nos cargos públicos, motivam os manifestantes. A geração que imita as oligarquias tradicionais, autoritárias, mereceu a rejeição da juventude, dos maduros e dos velhos. E ela trouxe às ruas e avenidas o protesto, à revelia do Estado — sem pedir licença à religião -, porque os espaços públicos são privatizados sistematicamente, câmaras vigiam quem busca o direito, a liberdade e a justiça.

São espaços em direção e funções de interesses políticos, comerciais e de consumo, neste momento. Até o lazer é privatizado. Descobriram os jovens, porém, que esse espaço deve ser público, gratuito, coletivo e democrático. Foi nele que ocorreu o “plebiscito espontâneo” da sociedade oprimida por políticas públicas que se entregaram à ganância e ao consumismo irresponsável. Homens e mulheres deram o aviso. Querem gozar do espaço público livremente, viver, divertir-se, amar e sonhar sem ter que pagar aos que tomaram e privatizaram seu lugar natural.

Muitos dos manifestantes apontam superficialmente, de modo abstrato, a culpa dos governantes, sem atinar para as raízes e as causas dos desvios democráticos, como a generalização da pobreza sem assistência habitacional, escolar, hospitalar; transporte público a custos desproporcionais aos ganhos dos trabalhadores, enquanto o Estado camufla sua incompetência para gerenciar empresas a serviço da ganância, inclusive instituições financeiras e seus lucros exorbitantes, porquanto escorcham a população. Acreditariam os manifestantes na responsabilidade implícita do seu voto nesses governantes?

É nesse espaço, também, que se expõem as raízes e as causas dos desvios do poder público desfocado, e da religião, ignorante de suas funções cidadãs: a generalização da pobreza sem assistência habitacional, escolar, hospitalar; transporte a custos desproporcionais, enquanto o Estado camufla sua incompetência para gerenciar e controlar empresas privadas que o servem, devorando ou desumanizando o cotidiano das pessoas comuns. Inclusive igrejas evangélicas pentecostais, instituições financeiras, bancos e seus lucros exorbitantes, independentes e livres de controle, porquanto escorcham a população com ajuda governamental.

A sociedade civil é o mundo tomado por males reais, coletivos, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana, camuflados no falso repúdio e vergonha do grupo autoritário insensível à essência imunda e maligna da miséria, mas que reclama por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodado em seu conforto. Como sociedade — o país ocupa um lugar mundial entre as nações onde a corrupção faz parte do cotidiano cidadão desde o camelô, o guarda de trânsito, ao chefe do legislativo –, o Brasil está na 69ª posição entre os países mais corruptos, crescendo assim no ranking mundial (mais recentemente, subiu para a 73a. posição; nesse ritmo, nos próximos anos, atingiremos índices semelhantes ao da Índia, no topo das nações mais corruptas do planeta).

Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios – estes no 20º lugar, segundo a Transparência Internacional. Deve-se protestar, exigindo dos governantes o combate abstrato da corrupção? “Corruptio optimi pessima est“. A expressão latina consegue sintetizar uma grande verdade: “a corrupção dos melhores é a pior que existe”. Eles existem, mas devem ser cobrados, do contrário irão mais cedo ou mais tarde para a vala tradicional onde transitam com desenvoltura juízes, empresários e políticos inimputáveis (do ponto de vista do senso comum).

Em nosso livro (Pedagogia da Ganância – Jovens Ecstasy Fast Food), está expressa nossa confiança na reação da juventude à “ideologia do consumo”, além do senso comum. Nos aspectos quanto à vida pessoal — ser um ser humano pleno, filosoficamente –, abordamos a vida religiosa de jovens católicos e evangélicos, seguimento expressivo — com apoio em pesquisas recentes, no campo religioso e público –, o sequestro da alma jovem, obrigando-a a submeter-se à sociedade autoritária, ao consumismo irresponsável, e principalmente a destruição das utopias libertárias. Os jovens estão abertos a um mundo novo, diferente do mundo corroído por ideologias que dispersam a mente,  fazendo com que a juventude jogue no lixo sua grande potencialidade para mudar o mundo e o valores corrompidos da sociedade dos nossos dias. Nosso desafio é apontar os fechamentos que se impõem e indicar as chaves para abrir estas fechaduras.

Derval Dasilio
Livro: PEDAGOGIA DA GANÂNCIA – MATANOIA EDITORA – 2013
Jovens – Esctasy – Viagra e Fast Food

Nota
1. A Gazeta, 04/11/2013.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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Uma resposta a PEDAGOGIA DA GANÂNCIA (LANÇAMENTO)

  1. Advento sitiado

    Atualizando a parábola do rico e do pobre, ou o confronto de João Batista com Herodes, banquetes, ceias, e comemorações de fim de ano, uma festa para a massificação do consumo e desperdício está em andamento, e ao mesmo tempo se exibe uma falsa privacidade. Ninguém pode mais concordar com Hegel, filósofo muito interessante. É uma pena! Dizia que “a privacidade nos ajuda a viver num mundo sem compaixão”. Hoje, esse conceito não funciona mais. Para muitos não há mais um mundo privado para reflexão, agimos “como um cão que volta ao seu vômito” (Lc 16,19-31). De que vale a privacidade num mundo assim? A cultura utilitarista predomina, como objetos comprados, descartáveis, “use e jogue fora”, os valores de uma ética de partilha e solidariedade são atirados no lixo sem o menor pudor.

    O Advento e a Natalidade do Senhor nada significam, hoje. O problema, no entanto, são os valores veiculados em substituição aos tradicionais sobre amor, solidariedade, compaixão e cuidado com o outro. Ideias voyeuristas expõem o ser humano como mercadoria barata, afirmando isoladamente a falta de importância das mesmas. Vive-se uma cultura sitiada pelo dinheiro (Jurandyr Freire), nas festas de fim de ano. Uma geração inteira encontra-se dopada, quando se encarrega de adotar e veicular os “novos valores” sem nenhum controle. A compulsão do evangelical business não deve ser desprezada. A juventude evangélica, “diante do trono” gospel, sabe muito bem que estamos falando da cultura do dinheiro. Aderimos ao tema mundial “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Fim de papo.

    Consumo rápido, fast-food: molho de tomate, hamburguer, são alimento e sangue dessa nova cultura. Jovens evangélicos abraçam o gospel como religião emocional salvadora. São inaugurados bares e boates gospel, para o compartilhamento cultural do novo jeito de ser “crente moderno”. Jovens de outras tendências, possivelmente não-religiosos, extasiados, adeptos confessos da cultura rock, marcam os costumes das novas gerações com piercings, tatuagens, uso “quase livre” de drogas estimulantes, para vários fins, como os comprimidos de ecstasy e viagra para a inapetência geral. Vale tudo, enquanto são convidados a esquecer a História, as lutas pelas liberdades civis e direitos fundamentais do homem e da mulher. O passado não interessa, o presente justifica tudo. Comamos e bebamos, aproveitemos, porque amanhã… não interessa…

    Poucas décadas atrás, o anseio de liberdade devido às ditaduras e a sustentação de totalitarismos em todos os quadrantes, a precarização do ensino, o desemprego, a ausência de liberdades civis, cidadania, direitos humanos, levava os jovens às ruas. Quem imagina jovens apaixonados por festivais gospel, e encontros carismáticos, “marchas-com-jesus”, frequentadores de shoppings, nas ruas reivindicando direitos fundamentais para a sociedade toda? A obsessão consigo mesmos se manifesta menos no ardor do gozo da juventude que no medo da velhice, da doença, na panacéia oferecida como remédio para aproveitar bem o tempo em atividades que dão prazer ao corpo, a qualquer custo, menos que os prazeres da alma e do espírito (Gilles Lipovetsky).

    Há inquietações, no entanto. Tudo deveria inquietar e desassossegar. O terrorismo e seus estragos na paz mundial que nunca chega, a fome global, a poluição urbana, a ausência da socialização das riquezas monetárias (nunca tantas pessoas tiveram tanto dinheiro, bens, posses, possibilidades que envolvem o direito à propriedade ilimitada), a violência nas periferias das metrópolis, a fragilidade do corpo diante de enfermidades antigas e recentes (o drogadismo farmacológico, entre outras). A compulsão consumista equivale às demais compulsões pelo álcool, pelas drogas leves ou pesadas, pelo sexo, pelo jogo, pelo trabalho sem repouso.

    Entre os etariamente maduros, também, todos ficam felizes. No Natal, nas comemorações com parentes e amigos, falaremos de moral, ciência, religião, política partidária, esportes, amor, filhos, saúde, alimentação saudável, esteira rolante, eletrocardiograma, mamografia, ultrasom, próstata, colonoscopia, medicina de ponta, e mesmo assim chega o dia inevitável em que se vai para o caixão. “E virá a próxima geração de idiotas, que também falará sobre a vida e o que é apropriado para se viver bem. Meu pai se matou, os jornais o deixavam deprimido. E você pode culpá-lo com o horror, a corrupção, a ignorância, a pobreza, o genocídio, o aquecimento global, o terrorismo, os valores morais imbecis e os imbecis armados até os dentes”? (Woody Allen). Levar gol contra acaba cansando… Contudo, os temas do Advento não devem ser esquecidos.

    Derval Dasilio

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