SER PASTOR, REALISMO TEOLÓGICO SUFOCANTE


SER PASTOR, REALISMO TEOLÓGICO SUFOCANTE

Júlio Zabatiero* reflete sobre a vida dupla do pastor (ou do padre), que não sabe se é “sacerdote” ou “ovelha”. Crenças comuns nas igrejas falseiam o sentido da função, e dão-lhe uma sacralidade que o ministro não tem. Adaptando-se às imposições da crença comum, seus pressupostos sobre o que um pastor deve ser, sufoca-se a teologia que ele aprendeu. Nega-se a ele uma “vida teológica” verdadeira. O tempo e o espaço separam-no da vocação teológica, e ele se entrega. Ou não se entrega… “O trabalho do pastor não é transformar a igreja, não é consertar os seus erros, não é levar a verdade aos confusos leigos, não é promover uma ‘nova e derradeira Reforma’ (ou Revolução eclesiástica). O  trabalho da pastora é cuidar dos fiéis? Cuidar é trabalho da pastora, ou do pastor, ou de  ambos? Antes de responder, seu trabalho é aprender a lidar com a diversidade sem reduzi-la a hábitos ‘universais’ de linguagem”. E aqui, o mestre da semiótica bíblica, com livros publicados sobre o assunto, deita sua fala experiente, em décadas de formação vocacional teológica.

Ser pastor…

julio zabatiero_nTrinta e cinco anos ensinando teologia. Embora a cada ano as turmas se renovem, algumas perguntas sempre se repetem. Uma delas: como aplicar na igreja tudo o que aprendemos? Por trás desta útil e inocente pergunta há muitas ansiedades. Dentre elas, talvez a mais comum e importante seja: há uma diferença tão grande entre o que se estuda na Faculdade de Teologia e o que se vive na igreja, como conciliar esses dois mundos? No fundo, no fundo, mesmo quando não consegue expressar, a maioria dos estudantes de teologia desconfia da viabilidade prática do estudo teórico. Imaginam que, no final das contas, irão aprender a pastorear apenas na igreja, na prática, prática que irá enfim se provar verdadeira e comprovar a inutilidade das belas teorias estudadas no bacharelado. Permitam-me oferecer uma resposta possível à pergunta.

Em primeiro lugar, e falando francamente: o que se estuda na Faculdade de Teologia não é para ser “aplicado” na igreja. A mera noção de que teoria é algo que pode ser “aplicado” revela um dualismo epistêmico e metafísico insustentável. Dualismo epistêmico? Palavras misteriosas que traduzem o senso comum: “na prática, a teoria é outra”. O senso comum e o senso acadêmico, neste caso, estão ambos errados, até porque são duas versões para a mesma incompreensão. Teoria e prática não são duas realidades opostas, são os dois lados da mesma moeda, são as duas dimensões da ação intencional, são as duas metades do todo. O fato de estarem separadas no tempo e espaço durante o período da formação acadêmica não pode ser elevado a uma condição permanente essencial.

Durante o curso, a teoria estudada não deve ser recebida e apreendida como a verdade que revela a falsidade das crenças e práticas eclesiais. Seria mero trocar seis por meia dúzia, e eu já cansei de ver essa história: ingressante “fundamentalista”; torna-se crítico, progressista na Faculdade; volta ao primeiro amor no pastorado. Moral da história: não aprendeu nada, o tempo de curso teológico foi desperdiçado. Teoria não é “verdade” é desafio de aprendizado, proposta de reflexão, possibilidade de auto-conhecimento, abertura para o discernimento. Prática e tradição eclesiásticas também não são a “verdade”, são hábitos acumulados, teorias esquecidas, práticas reprisadas. A prática não é “laboratório”, é lugar de repetição, mas não de replicação de experimentos. Em outras palavras: não adianta copiar o modelo de igreja bem-sucedido do vizinho. Na prática, a prática é outra. 

Em segundo lugar, e falando candidamente: o trabalho do pastor não é transformar a igreja, não é consertar os seus erros, não é levar a verdade aos confusos leigos, não é promover uma nova e derradeira Reforma (ou Revolução). (Você ficou confuso? Cuidar é trabalho  pastoral, do pastor, ou pastora, ou de ambos? Antes de responder, seu trabalho é aprender a lidar com a diversidade sem reduzí-la a hábitos “universais” de linguagem). Todas as atividades formais e informais do pastorado têm como único objetivo, como única natureza, como verdadeira essência (ai de mim! usando tais termos tão metafísicos): cuidar das pessoas. Quem ama, cuida. Nem todos os que cuidam, porém, amam.

Uma pista para rejuntar teoria e prática: estudamos teorias na Faculdade de Teologia para, na hora H, perceber e construir a diferença entre: “cuidar e controlar”, “cuidar e vigiar”, “cuidar e dominar”. “Ah! Agora estou vendo por que o prof. insistiu em ler Foucault com a gente” (diria eu, imagino, um ex-estudante consciente, formado há algum tempo. Hoje em dia, a leitura preferida seria Agamben, “Foucault” italianizado e atualizado). Cá entre nós: a maioria dos pastores controla, vigia e domina ao invés de cuidar. E não estou me referindo apenas aos Malas da vida, estou falando de você mesmo, de pastoras e pastores “normais”, que “dão a vida pelo rebanho”. Se você tivesse estudado comigo, também teria lido Habermas, e a distinção entre “ação comunicativa” e “ação estratégica” cairia no seu colo e dominaria a sua oração de confissão de pecado pastoral. Se você pastorear estrategicamente, jamais será capaz de cuidar, apenas de controlar, vigiar e dominar.

Em terceiro lugar, e falando nua e cruamente: pastorado é tempo-espaço de prática e estudo teórico simultâneos (Nota do editor: aqui está o resumo e a essência desse texto). Na prática, refletindo teoricamente, a teoria se aperfeiçoa, e a prática se renova. Novos hábitos de pensamento e ação são construídos pela comunidade crente. Pela “comunidade”, é isso mesmo, “cara”. Ou a comunidade renova seus hábitos, ou o próximo pastor da igreja irá “consertar” todos os seus erros, e a comunidade continuará trocando de teoria na prática, sucessivamente, toda vez que trocar na prática, a teoria do pastor. Achou confuso? Traduzindo para o velho hábito de linguagem: “tal pastor, qual igreja”. Eis o maior pecado do trabalho pastoral: fazer a igreja à sua imagem e semelhança. 

Por que o maior? Por que é idolatria. Lendo Foucault, Agamben, Habermas (ou nenhum destes, mas vários outros – desde que bem escolhidos), pode-se questionar a prática, por exemplo, do sacerdócio clerical e desenvolver pistas para pensar e praticar o sacerdócio universal não-clerical. Conhecendo boas teorias, toda aquela coisa bonita de “dons espirituais” do Novo Testamento pode ser repensada e reinventada na teoria e na prática do ministério pastoral não-dominador, não vigilante, não-dominador. Conhecendo boas teorias e renovando os hábitos pessoais, pastores e pastoras podem aprender (eu acho que consegui aprender…) a diferençar pessoas de ovelhas. Você ainda não havia “sacado”?

“Pastor” e “ovelha” são apenas metáforas. As pessoas que estão sob seu cuidado pastoral são pessoas em sua totalidade: agem, sofrem, sentem, pensam. Não são “ovelhas” que obedientemente seguem o pastor pelos pastos verdejantes.
E você? Você não é pastor. Você é parceiro das pessoas que compõem a comunidade de quem você cuida. Parceiro! Se você não tiver preguiça, encontrará nessa única e simples palavrazinha uma nova teoria e uma nova prática eclesiais-pastorais.

_______

* O Dr. Júlio Zabatiero é um dos mais destacados teólogos biblistas no Brasil. Vários livros publicados, entre eles Bíblia, Literatura e Linguagem, Paulus, 2011, como co-autor, juntamente com João Leonel. Tem atuado como docente, educador teológico, na Faculdade Teológica Sul-Americana (FTSA), na Escola Superior de Teologia (EST – IECLB), e na Faculdade Unida (FU). Em Londrina-Pr, São Leopoldo-RG e Vitória-ES, respectivamente.

VIDEO – Rubem Alves – Eles falam sobre o educador – Ele fala de si mesmo.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=MUl2QU_z3mI

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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3 respostas a SER PASTOR, REALISMO TEOLÓGICO SUFOCANTE

  1. Júlio Zabatiero, em artigo publicado na revista Novos Diálogos, fez um balanço de sua carreira de teólogo, a qual procuro resumir aqui. Eis o que escreveu:

    Uma trajetória espiritual & teológica inacabada

    É uma prática comum entre acadêmicos fazer um balanço da carreira durante a sua década dos cinquenta. Talvez porque nessa década cheguemos a uma encruzilhada do pensamento: por um lado, a maturidade intelectual foi alcançada; por outro, novos desafios se apresentam (não sou daqueles que consideram a maturidade o ponto final, vejo-a como uma transição). Um balanço, então, pode ser útil para decidir os rumos a seguir. Sendo assim, faço aqui um primeiro esboço desse balanço pessoal e acadêmico, iniciando pela dimensão acadêmica.

    1. A dimensão acadêmica da trajetória

    Primeira fase: do conservadorismo à teologia da missão integral (1976-1990). Em 1976 ingressei no bacharelado em teologia da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Como qualquer jovem batista naquele tempo, a vocação para o ministério pastoral ou missionário tinha a supremacia. Sequer pensava na possibilidade na carreira de professor ou teólogo. Como sempre gostei de ler e estudar, no bacharelado não houve mudanças e pouco a pouco fui assumindo a tarefa de ensino como meu ministério. Em meados dos anos 1980 tomei conhecimento da Fraternidade Teológica Latino-Americana e integrei o grupo de pessoas que a reativou no Brasil. Até então, era um teólogo evangélico conservador, embora não levasse muito a sério as polêmicas sobre infalibilidade da Escritura, fidelidade doutrinária e exclusividade da salvação nas igrejas evangélicas. Para mim, a teologia era uma extensão da doutrina e não imaginava que a reflexão teológica pudesse ocorrer em um espaço crítico de liberdade e discernimento. O contato e o trabalho com a FTL-Brasil me permitiram avançar para uma compreensão mais ampla da vocação do povo de Deus. Mediante o diálogo entre a teologia da missão integral e a da libertação, construí minha visão da missão como ação integral do povo de Deus e da natureza da teologia como atividade crítica, interdisciplinar e contextual. Contextualidade profética passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa primeira fase.

    Segunda Fase: da teologia da missão integral à integralidade da teologia e missão (1990-2000). Ao longo dos anos 1990 me dediquei ao estudo da teoria hermenêutica e do método teológico. A Teologia da Missão Integral (TMI) e a Teologia da Libertação (TdL) estavam na base dessa transição. Em ambas o modo de ler a Bíblia era um ponto fundante da diferenciação entre uma teologia latino-americana e uma teologia meramente reprodutora dos padrões norte-atlânticos. A vivência nas igrejas evangélicas, como pastor e professor de teologia no seminário da IPI em Londrina, e na pastoral bíblica ecumênica como “biblista”, manteve unidas a vida e a pesquisa. As mediações sociológica e antropológico-cultural na hermenêutica latino-americana se tornaram meu objeto privilegiado de estudo e, embora praticasse uma exegese sócio-cultural, o exame teórico da natureza do sentido me encaminhou em direção à linguística e à semiótica greimasiana.

    Por outro lado, a insatisfação com o elemento político-ideológico nas TMI e TdL me fizeram estudar a teoria da ação habermasiana, pós-marxista, em busca de compreensão mais adequada da vida social. Nessa década realizei meus estudos de mestrado e doutorado na EST, fundamentais para a gestação de um paradigma sêmio-discursivo na leitura da Bíblia e na elaboração da teologia. Como consequência do diálogo com a semiótica de Greimas e com a teoria da ação comunicativa de Habermas, passei a refletir sobre o estatuto da teologia e seu método, levando o modelo sêmio-discursivo para além da fronteira exegética, inserindo-o na metodologia teológica. Passei a ver minha tarefa como teólogo como a elaboração de um paradigma teórico-metodológico que escapasse das armadilhas da Modernidade e, em modo multidisciplinar, trouxesse a questão da integralidade do campo da missão para o campo da reflexão. Integralidade passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa década.

    Terceira Fase: da integralidade à discursividade da vida, missão e teologia (2000-2008). Nesta terceira fase me dediquei à consolidação dos estudos da fase anterior. O exercício do magistério teológico na Faculdade Teológica Sul-Americana e na Escola Superior de Teologia foi fundamental para que eu pudesse testar as possibilidades concretas de um novo paradigma exegético-teológico. Em certo sentido, os estudantes dessas escolas foram as felizes cobaias desse empreendimento. Minha pergunta básica era: o novo paradigma é apenas fruto de uma discussão teórica, ou uma possibilidade concreta, que pessoas sem a minha trajetória de estudos poderiam entender e adotar como relevante em sua vida e missão? A reação positiva da maioria dos estudantes e o rico debate com colegas docentes nas duas escolas teológicas em que lecionei nesse período foram fundamentais para a consolidação do novo paradigma sêmio-discursivo em minha atividade teórica e prática. A partir das noções de semiose e ação, passei a analisar todas as dimensões da vida, e, em função dessa análise, tanto teórica como vivencial, incorporei o paradigma em minha vida pessoal, ministerial e acadêmica. A filosofia de cunho pós-metafísico ou pós-fundacional, inspirada no pragmatismo norte-americano, passando por autores como Rorty, Habermas, Vattimo, Foucault, Putnam, Brandom e outros ofereceu o guarda-chuva conceitual mais amplo que a teoria semiótica demandava – bem como manteve indissolúvel o vínculo entre prática e teoria. Prática discursiva passou a ser a palavra-chave de meus esforços nessa época.

    Quarta Fase: da discursividade prática à discursividade complexa (2008…). Em 2008 sai de São Leopoldo e fui para Vitória, trabalhar na Faculdade Unida, onde agora coordeno o Mestrado em Ciências das Religiões. Toda a minha pesquisa anterior a esta data apontava, mesmo quando eu ainda não o percebia, para mais uma mudança paradigmática – o foco deveria recair sobre a religião enquanto atividade humana, e não apenas sobre o cristianismo. A questão da corporeidade, presente no paradigma da discursividade passou a ocupar um espaço maior, agora sob a noção da complexidade evolutiva do cosmos, e da participação humana em um processo vital muito mais amplo do que o sócio-histórico, até então, foco da minha atividade acadêmica. Na fase anterior destaquei a insuficiência dos paradigmas modernos de exegese (histórica) e teologia (dogmática-racional) e desenvolvi o sêmio-discursivo. Agora meu esforço de pesquisa, em pleno andamento, se dirige a uma compreensão cósmica da prática religiosa humana – tanto na perspectiva da longuíssima duração evolutiva, quanto na das durações históricas do desenvolvimento psico-sócio-cultural. Essa ampliação de foco demanda, consequentemente, a ampliação do olhar paradigmático, de modo que pela via do conceito de semiosfera (escola de Tartu, Iuri Lotman), os estudos cognitivos e evolutivos estão sendo incorporados ao paradigma semiótico. Demanda adicional é a da revisão ontológica sob o modelo pós-metafísico de filosofar, revisão esta que me fez voltar a atenção para a filosofia francesa contemporânea, especialmente Deleuze e Badiou, com seus esforços de construção de uma nova ontologia filosófica em diálogo com as ciências em geral e a matemática. Discursividade complexa tem se tornado, até agora, a palavra-chave nesta fase.

    Um fio condutor? Se fosse procurar por um fio condutor nesse processo de construção e revisão de minha prática cristã e do meu pensamento acadêmico, esse fio poderia ser descrito como a busca da compreensão dos modos de ser e agir de Deus na sua criação, conforme testemunhados na tradição cristã e nas religiões monoteístas abraâmicas. Essa busca me obrigou a ampliar o horizonte da pesquisa e incorporar os dados e sentidos provenientes de outras tradições religiosas e a questionar a própria concepção de deus que se tornou dominante na teologia cristã ocidental – o teísmo metafísico. Todos os estudos e esforços de construção paradigmáticos que realizei em minha carreira estiveram a serviço da busca espiritual que tem sustentado minha vivência como ser humano. O outro lado da moeda do agir de Deus são os seus efeitos sobre a criação e o ser humano – usando uma palavra da tradição judaico-cristã: salvação. Assim, para concluir esta dimensão deste breve esboço, posso dizer que eu mesmo, como pessoa em busca de salvação, tenho sido a principal cobaia de minhas pesquisas.

    Primeira fase: tornando-me evangélico (1964-1985). Como a maioria dos brasileiros, nasci em um lar católico, mas não praticante. Apesar de eu ter estudado um ano em colégio católico, nunca tive a igreja como parte da minha vida. Em 1964, em meio às crises de sentido da adolescência, comecei a frequentar reuniões evangélicas e me converti, tornando-me membro da igreja batista de água branca — onde congregavam algumas primas, sobrinhas-netas de minha tia Ana que, evangélica, me despertou a curiosidade em conhecer a igreja. Minha conversão ocorreu em um culto de adolescentes e jovens da igreja e, imediatamente, me uni ao grupo chamado Nova Canção, uma “equipe” que através da música, pintura e pregação fazia trabalhos evangelísticos nas praças e em igrejas. Assim, missão sempre foi a marca de minha espiritualidade, mesmo quando eu nem tinha ideia do que era missão ou espiritualidade. Ingressei naturalmente no curso de teologia da faculdade teológica batista de São Paulo, imaginando ser a obra missionária minha vocação. Logo fui percebendo que ensino e teologia seriam o meu caminho e durante o curso de teologia ingressei na Missão Jovens da Verdade, como professor do seminário do JV em Arujá, onde ensino, vida cristã e missão formavam um vínculo indissolúvel.

    Segunda Fase: tornando-me teólogo brasileiro (1986-1999). Minha mudança para Londrina, onde assumi a função de professor do seminário da IPIB em tempo integral foi marcada por conflitos e amizades. Ao adotar o ideário de uma teologia brasileira, da missão integral, da ecumenicidade, (1) fui oficiosamente nomeado herege na faculdade batista da qual saí por falta de opção concreta de ministério; (2) na SETE, tensões com a SEPAL, a organização missionária à qual a SETE pertencia, que estavam prejudicando o missionário que fundou a sociedade, nos levaram, de comum acordo, à minha saída; (3) na FTL encontrei o espaço de liberdade para fazer teologia, sem juízos nem cobranças, mas com responsabilidade e amizade. Em Londrina, vivi em um ambiente muito agradável de trabalho, com a amizade estando acima das questões institucionais; com liberdade para pensar e ensinar — mesmo em um seminário denominacional! Foi então que me transferi para a IPIB onde tive minhas principais experiências pastorais, todas em igrejas pequenas ou de periferia, com uma única exceção, a do trabalho informal com a primeira IPIB de Londrina. No Seminário, como professor em tempo integral, lecionei disciplinas de todas as áreas do currículo, o que me obrigou a ser multidisciplinar na leitura e na reflexão. O convívio com colegas docentes e com os estudantes (a maioria também de tempo integral) me permitiu manter indissolúvel o vínculo entre espiritualidade, missão e reflexão. Foi um tempo de consolidação teológica e pessoal — os filhos crescendo, a carreira se firmando, o compromisso com a igreja mantido.

    Músicas que podem ajudar a sintetizar este período? “Deus, somente Deus” (em gravação de VPC) indica minha adesão incondicional a um único soberano e juiz, porque todos os demais autonomeados soberanos e juízes não o são, e porque Deus exerce sua soberania e juízo de modo incondicionalmente amoroso: “Deus, somente Deus, Os seus mistérios pode revelar. Os seu desígnios, quem jamais Um dia conheceu. Pois Deus, somente, é Deus”. “Caçador de Mim” (em gravação de Milton Nascimento), que entendo como celebração da identidade nômade: “Nada a temer senão o correr da luta. Nada a fazer senão esquecer o medo. Abrir o peito à força, numa procura. Fugir às armadilhas da mata escura”. “Quanta” (Gilberto Gil), celebração da complexidade e da fragilidade do conhecimento e da arte dos humanos, minúsculos habitantes do cosmos: “Sei que a arte é irmã da ciência. Ambas filhas de um Deus fugaz. Que faz num momento. E no mesmo momento desfaz. Esse vago Deus por trás do mundo. Por detrás do detrás”. Ou, se você preferir um poeta bíblico: “Verdadeiramente tu és um Deus que te ocultas” (Is 45,15).

    Sem sofisticação argumentativa, ofereço uma resposta: (a) a brasilidade da teologia não está no referencial teórico, mas no chão da espiritualidade, no compromisso político com o Brasil enquanto sujeito em construção e, especialmente, nas canções que definem o tom da teologia; (b) a brasilidade da teologia não se opõe à universalidade dos modos de pensar, de modo que não importa a origem geográfica de autores e autoras com quem se dialoga, mas do modo como se dialoga e do lugar a partir do qual se dialoga; e (c) finalmente, para provocar (coisa que gosto de fazer, sempre bem-humoradamente), quem não enxerga a brasilidade (ou a latino-americanidade) em minha teologia precisa trocar os óculos!
    (Resumo: Derval Dasílio)

    TMI – Teologia da Missão Integral
    TdL – Teologia da Libertação

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