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Armas no quarto do bebê

Desde Descartes e Kant imaginou-se a construção de um planeta novo, ao estilo do Ocidente, ignorando três quartos do planeta não cristão, e exaltou-se até às estrelas a sapiência humana. A história, entretanto, continuamente desfaz essa imagem magnificadora da “razão”, e do conhecimento. Machado de Assis já dizia: “Tem razão quem tem o chicote na mão…” Hoje, professores fazem curso de tiro e buscam certificados para portar armamentos e intimidar seus alunos. O debate sobre as armas de fogo nos Estados Unidos deu uma guinada com a decisão de dezenas de professores de fazer aulas de tiro, depois que outro jovem, em Newtown, Connecticut, pegou as armas da família e matou 27 crianças e adultos e, em seguida, suicidou-se. Seria diferente, se fossem os professores seus matadores?
 
A duras penas, mesmo a contragosto, urge admitir que somos humanos. O ser-humano, homem/mulher, é supercomplexo. Comparece na história como “homo sapiens”, mas somos mais conhecidos como “homo demens”, disse Edgar Morin.  Há duzentos mil anos, já falante, o ser humano fazia das suas. Societário e trabalhador, desde quarenta mil anos atrás, já inventava a posse privada e a escravidão, das quais nunca nos livramos. Em “Uma Odisseia no Espaço”, Stanley Kubrich mostra a era em que homens primitivos descobriram o uso da arma para matar e garantir a propriedade particular. Quando descobriremos que também somos portadores de afeto, cuidado, solidariedade, tolerância, inteligência, criatividade, arte, poesia e êxtase diante da beleza e compromisso com a vida?
 
No lapso otimista do gênero ocuparíamos todo o Planeta, já sairíamos dele voando e rumando para o céu infinito em naves espaciais. Mas nossas contradições fazem-nos morder a língua toda vez que exaltamos essas qualidades humanas, já pensando em exterminar criaturas de outros planetas, se houverem. Não basta o que já fizemos com o Novo Mundo, no holocausto das civilizações pré-colombianas?
 
Lembrando Duns Scotus, na Idade Média: “o homem tem a vocação do infinito”. Mas adotamos a violência e o privatismo capitalista, e nos comprometemos com os assassinos de crianças, consentindo e entregando-nos naturalmente ao abreviamento de suas vidas. O lado da demência, da crueldade, dos massacres, dos extermínios em massa, de tantas culturas, etnias, acompanha a demolição de valores construídos em vários milhares de anos. E parece que se quer fazer tudo isso de uma vez, com a tecnologia avançada dos dias de hoje.
 
Nossa arrogância faz-nos esquecer de que só no século 20 foram chacinados em guerras 200 milhões de pessoas, lembrava Hobsbawn. Cristãos estão envolvidos nisso até o pescoço, mesmo os engravatados dos conselhos internacionais, ou com “clergyman” abençoando armamentos e tanques de guerra. A violência humana excede à de qualquer outra espécie, inclusive dos tiranossauros, dragões pré-históricos proverbiais e simbólicos da destrutividade. A demência não é ocasional. Configura uma desordem originária. Não é por acaso que vemos no nosso irmão um inimigo, e nos armamos até os dentes para derrotá-lo. Caim com a palavra.
 
Ninguém, contudo, conheceu melhor o sentido de gerar-se um Salvador. Maria cria e alimenta a criança, enquanto medita, ensina a humildade e a coragem para os enfrentamentos dos acontecimentos catastróficos e a dissolução que irrompem até a superfície da história. Maria já estava comprometida com o movimento em prol das causas libertadoras de Deus, desde que o menino era gerado em seu ventre, protegendo-o. Entre elas o combate à violência sistêmica que escolhe a criança e os jovens como vítimas preferenciais, porque são fracos e indefesos (… “ele será o Príncipe da Paz, mas Herodes quer exterminá-lo”). São os adultos que portam armas, matam ou induzem a matar. Para que servem armas, senão para isso? E não foi Herodes que as inventou.
 
O que precisa ser visto, e ouvido, como Maria nos ensinará, quando Jesus, o menino perseguido desde o berço, lhe chama a atenção para a realidade. Maria conservava todas aquelas coisas em seu coração (Lc 2.41-52). Aqui, nos reportaremos à sabedoria da mãe que silencia e ouve enquanto observa as realidades que cercam o menino sobrevivente do massacre na Natalidade. Os significados da revelação libertadora da presença do Reino de Deus estão naquele que foi chamado pelo Credo Cristão de “fruto do ventre de Maria”. Se nascido hoje, já enfrentaria tiroteios, balas perdidas e criaturas que aprenderam as lições da sociedade violenta.
 
Tragédia na rotina de uma escola da periferia do Rio de Janeiro onde um ex-aluno, aprendiz da violência, atirou contra crianças que assistiam às primeiras aulas do dia, matou 12 delas, feriu outras 13 antes de cometer suicídio, acompanha a tendência herodiana estimulada pela mídia, que torna o fato um espetáculo inescrupuloso nos detalhes, sem explicar as origens da pulsão da violência potencializada por ela mesma. O massacre causou comoção no Brasil. E professores pensam em fazer aulas de tiro. Recomeçará o ciclo interminável da violência incontrolável dentro das escolas.
 
A quebra de tabus é verdadeira, mas o esquecimento dos fatos simbólicos que marcam nosso tempo, o modismo da falsa liberdade, democracia para matar, pulverização de ideais que transformariam as sociedades e as pessoas em verdadeiros seres humanos e comunidades solidárias, dão o tom banal da presença da morte na orquestração desafinada mostrada no cotidiano. O ritmo desconexo do nosso tempo é capaz de defender armas, serpentinas nos muros, cercas eletrificadas, vigília eletrônica em residências – e até nos banheiros das escolas –, em suspeita permanente sobre as intenções dos nossos filhos e netos. Nunca entrarei numa casa dessas, a não ser para desligar a eletricidade e ajudar a recolher as armas… Faz pouco tempo, houve o plebiscito para se proibir o uso comum de armamentos. Refletindo a violenta sociedade brasileira, teve um retumbante “não” da população.    
 
Defensores de armas e armamentos em casa, na escola, no trabalho, ignoram que uma pessoa morre a cada minuto como resultado da violência armada, e que não bastam convenções para evitar que armas negociadas ilicitamente apareçam em zonas de conflito e alimentem guerras e atrocidades. Como essa medida alcançará os lares das frequentes vítimas, residências tornadas em fortaleza e casa de armamentos?
 
Quartos de bebês terão armas, no futuro, se a violência continuar em ascensão, à custa do uso “democrático” das armas. Tirar armas de delinquentes e deixá-las nas mãos de “cidadãos de bem” não apagará o sinal de Caim (Gn 4.11-15) nas testas dos violentos habituais. Mesmo os que vão às urnas dos plebiscitos hipocritamente democráticos. O ano de 2012 não foi diferente. Infeliz ano velho!
 
Em tempo 
Derval Dasilio lançou em dezembro o livro Jaime Wright – O Pastor dos Torturados que conta a história do pastor presbiteriano que denunciou as injustiças na época da ditadura militar no Brasil.
 
Leia mais
 
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

/ ultimatoonline / opiniao / redencao-politica

  • 01 de outubro de 2012
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  • Comentário: #1

    Myron Pires

    Brasília – DF

  • Espadas são mencionadas na bíblia. Jesus falou delas e nos advertiu sobre o seu uso, cujo resultado poderia ser a perpetuação de ciclos de violência. O apóstolo Paulo também nos fala do uso legítimo da espada, através de agentes do Estado.
    Espadas, hoje, são as armas de fogo. Seu uso é legítimo para a defesa de cidadãos pelas forças de proteção (polícias) ou auto-defesa da vida e da integridade humana e material. Estados soberanos também se armam, em grande escala, para a defesa de sua própria soberania e sobrevivência da sociedade que lhe compete defender.
    Concluir que qualquer cristianismo, que se chame de verdadeiro, deva se opor ao uso da força legítima, é o mesmo que acreditarmos que o doador de vida não nos permite que esta seja devidamente protegida.
    No final, precisamos mesmo é saber se estaremos mais protegidos com um “desarmamento” unilateral (só dos cidadãos de bem) ou se existem alternativas mais realistas.
  • Respostas do autor: Pires: Conheço a Bíblia razoavelmente. Não podemos negar, é violência do primeiro ao último livro. Se Paulo legitima a violência (um equívoco sobre Rm 13?), estaria oferecendo ao estado o direito de cortar a sua própria cabeça(fato histórico no ano de 65 D.C.)? Estaria “profetizando” sobre o direito do estado cristão sobre todos (Teodósio, 385 DC), de vida e de morte? Legitimaria as Cruzadas da Idade Média, as Guerras Cristãs dos 100 Anos (estados protestante X estados católicos)? Aprovaria, no séc.20, as Guerras Mundiais (I e II), cristãos contra cristãos? Tal tese não tem sustenção bíblica, pois o cristianismo tem início com um ato de violência do estado contra o cidadão insurgente e inconformado, na pessoa do Filho do Homem, o qual foi torturado e morto pelo Estado Romano, sob a convocação do Estado da Judéia. Sua tese não é cristã, mas seria aprovada por cristãos como Thomas Hobbes, Hitler, Mussolini, Franco, George Bush, Garrastazu Médice  ou Ernesto Geisel.  Má companhia, portanto.
  • Pires II – Quanto a Romanos 13, só um raciocínio pagão, brutal, acompanharia a exegese do texto pinçado sobre o uso lícito de armas. O texto se refere á obediência civil.Sob julgamento e a espada — Paulo ainda acreditava que sua inocência prevaleceria, e que magistrados justos, cientes da regência ética que guiava os primeiros cristãos, seriam naturalmente justos –. Ele sobreviveria por causa da justiça. Acreditava (inocentemente) que a justiça provém de Deus, e que as autoridades, mesmo pagãs, obedeceriam ao imperativo do amor e do dever da justiça. De fato, insistia na responsabilidade das autoridades perante Deus. Elas têm a “espada” (o símbolo permanece nas portas e salões dos tribunais até o dia de hoje). A confiança foi imediatamente rompida,  cristãos foram torturados, mortos, com o assentimento dessas mesmas autoridades. Os termos devem ser lidos sob a forma condicional: o governante é ministro de Deus para o bem de quem é honrado e honesto, consequentemente constituído para o “castigo do perverso”.  O dever da justiça em contraste com a (inadimissível) injustiça. As autoridades também são julgadas por sua impiedade, sugere o texto (Derval Dasilio).

Redenção política?

 
A rigor, ainda vivemos sob a democracia abstrata dos filósofos da antiguidade: democracia só para as elites dominantes e os “bem-postos” da sociedade. Igrejas, transformando altares em palanque político, treinando fieis para o uso da urna, como vimos em recentes eleições, integrando o mundo das instituições ricas, de um modo geral antidemocráticas, compartilhando privilégios constitucionais na isenção de impostos sobre arrecadações compulsórias ou espontâneas (igrejas são grandes vendedoras e consumidoras de produtos “religiosos”), enquanto suas lideranças evangélicas apresentam-se como magnatas, usando dinheiro eclesiástico1. O seminarista ou o jovem evangélico já diz: “Quero ser como ele…”, referindo-se a um destes líderes. 2 
 
Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador midiático, mais se tende a adotar um tom banal. “Se alguém se dirige a uma pessoa, em razão da vulnerabilidade intelectual, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de sentido crítico”, dirá Noam Chomsky. Comunicadores do (anti)evangelho midiático vão ao fundo da questão, com profundo conhecimento na manipulação dos atavismos existentes na natureza da própria humanidade. A ganância em primeiro lugar, antes do sexo e do poder. 
 
O Evangelho, porém, faz gerar novos símbolos que se contraporão às formas de linguagem e aos modelos que sustentam a sociedade consumista, juntamente com os valores desumanos a que recorrem para justificar a competição desigual galopante. 
 
O Evangelho remete à esperança que nos mantém na ante-sala daquela casa transformado em centro teológico, o “seminário” em Cafarnaum (Marcos 9.30-37), aprendendo com Jesus a lição: “Não há nada no mundo que possa contra o homem que canta denunciando a miséria”, disse alguém. Existem coisas profundas e belas nas relações entre homens e mulheres do mundo inteiro, sejam quais forem as suas religiões, ideologias e culturas. A misericórdia, o cuidado e a compaixão pelos despoderados, pequenos, oprimidos e abandonados, são patrimônio da humanidade inteira e símbolo do grande amor de Deus pelos órfãos e viúvas, os desamparados de todas as eras.
 
O que Jesus revelava era um paradoxo, dos inúmeros de sua pregação em Marcos. O senso comum recusa suas palavras, enquanto sustenta a escalada de privilégios na sociedade, favorecendo o “bem-posto”, o próspero ou o rico. Ou as loterias garantidoras de privilégios. Jesus identificava a acolhida de Deus aos empobrecidos, despojados de dignidade, fracos, com o acolhimento que devemos dar às crianças. Sujeitos que não têm direitos, dignidade, cidadania, nem quem olhe por eles. Os últimos na escala social, os desprezados, “improdutivos”, levados em conta na chegada do Reino de Deus. Informa o Evangelho.
 
Marcos reúne numa só instrução uma série de sentenças de Jesus, conservadas e transmitidas pelas gerações e tradições primitivas da Igreja. Os socialmente humildes, sem poder econômico, sem-terra, sem-emprego, sem-teto, sem-defesa nas causas levadas aos tribunais.3
 
Acolher Jesus é ouvir os que não têm voz, título de eleitor, cartão da previdência, plano de saúde, escola de qualidade, teto para morar ou um bicicleta velha; é receber o diferente em sua condição, sexual, racial, social. Os depreciados desse mundo mereceram a atenção de Jesus, segundo o evangelho, por isso não podemos ser diferentes do Mestre. Se Jesus opta pelos vulneráveis, por que escolheremos outro caminho, como o da política partidária, buscando os fins da comunhão de fé atrelada em vantagens eleitorais? 
 
É a graça de Deus que redime o mundo? No Brasil, é a política. Conceito complexo, fugidio, abstrato, face à realidade da população pobre socialmente desassistida, faminta, doente, ignorada no partir do bolo da prosperidade econômica repartido com quem já tem muito. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo que está no poder que assume o papel de redentor. Provisoriamente, claro, pela alternância. Cabe, porém, a negação das mulheres violadas, crianças morrendo como moscas, jovens vitimados por morte violenta aos 18 ou 20 anos, povos indígenas roubados em seus direitos ancestrais, imigrantes ilegais como sobras à margem do crescimento econômico pretendido.
 
Dissemos com Drummond de Andrade: “vai ser gauche na vida”, e o mesmo poeta já descobria que “no caminho tinha uma pedra”, que é o espírito do capitalismo egoísta que não nos abandona. Falta democratizar as riquezas que certamente existem neste país. Afinal, não somos a “sexta potência econômica mundial”? O fenômeno da padronização de consumidores e eleitores repercute de forma decisiva sobre os empobrecidos e os despoderados. O vestuário, a utilização dos meios de transporte, o lazer, a proteção e seguridade social, a habitação, a escola, o sistema de saúde, demonstram o quão distantes estão os empobrecidos dos recursos disponíveis e da distribuição dos bens sociais. E vamos às urnas.

Notas
1. Revista Veja, 03/06/2012. Expoente de denominação com mais de 8 milhões de fiéis, exibindo Rolex de 100 mil reais, fala de seus bens: mansões e apartamentos dentro e fora do Brasil, jatinho, carro blindado importado, etc., defendendo a legitimidade da religião da ganância; em seguida comparece na mídia defendendo candidato político.
 
2. Revista Ultimato, set./out. 2010. Perguntava-se aos jovens evangélicos sobre a personalidade mais admirável. A resposta foi Silas Malafaia em primeiro lugar, Jesus Cristo em quinto.
 
3. A Gazeta, 20/05/2011. Despejo em Barra do Riacho, Aracruz, ES. Governo autoriza batalhão de 400 soldados e carros de choque da PM para desocupar área de empresa multinacional; hoje, os responsáveis pelo massacre social de milhares comparecem aos palanques de candidatos, eletrônicos ou não, escondendo quem são os heróis dos ricos e poderosos, do judiciário corrupto que vende sentenças, e do eleitorado sem memória
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

Sobre Derval Dasilio

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