Casos de Polícia: Igrejas Evangélicas Investigadas


ULTIMATO – OPINIãO

Religião é dinheiro?

 
“Há mansões nesse lindo país”. O hino evangélico foi levado ao pé da letra quando pastores passaram a adquirir casas luxuosas na Flórida e no Brasil. Condomínios de luxo, prédios em bairros nobres, compõem o patrimônio da corrupção. Não só, porque dízimos e ofertas geram proventos de milhões para os parentes dos dirigentes e laranjas eclesiásticos que levam dinheiro para contas no exterior. Uma família milionária distribui as benesses a privilegiados (A Gazeta, ES – 08/fev/2012).  
 
Nas semanas que antecedem a Páscoa de 2006, em Vitória (ES), diante das câmeras, um líder era preso pela Polícia Federal, juntamente com um suplente de senador, do bloco evangélico no Congresso Nacional (A Gazeta 8/mar/2006). Era trancafiado enquanto exibia um exemplar da Bíblia diante das câmeras. A acusação era de roubo ao erário e formação de quadrilha, estava ligado a um senador também evangélico. “Usam-se igrejas como fachadas, e como negócios religiosos”, sugeria o jornal. Também na Quaresma, 2012, no mesmo estado e região, a Igreja Cristã Maranata e a Assembleia de Deus  passam por investigação policial e pelo Ministério Público Federal pelos mesmos motivos.
 
Para os novos evangélicos, “religião é dinheiro”, enquanto cometem abusos (evidentemente consentidos) contra a comunidade de fieis. O momento é identificado como “grandes igrejas, grandes negócios”. É possível conceber passivamente, sem indignação, a existência de “profissionais da santidade” – pessoas destacadas e separadas para a busca pessoal do “estado de perfeição espiritual”, como querem os evangélicos dessas denominações? Preocupações com a honestidade civil, cidadania, justiça e a solidariedade para com os fracos, desaparecem enquanto a “graça” materializada em moeda sonante é distribuída por mãos levianas? O “perdão” eclesiástico, obtido em prestações, dízimos e ofertas compulsórias, cessa quando o fiel para de pagar, ou ele tem que se endividar mais para continuar no sistema?
 
A polícia investiga o enriquecimento ilícito na Igreja Cristã Maranata, a partir de denúncias vindas de descontentes dentro da mesma. A direção do império evangélico, tentando abafar o assunto, protocolou uma ação na justiça de valor extremamente baixo. Traindo a cúpula, agindo em proveito próprio, o administrador do caixa único foi “descoberto” e acusado na justiça de um desvio de pouco mais de 2 milhões de reais. Uma auditoria externa, porém, para o acerto de contas interno, teria constatado um valor superior a 20 milhões somente nos últimos dois anos. A ação corria em segredo de justiça, mas vazou. A tv e a imprensa escrita publicam os desdobramentos da denúncia pública, desmentindo seguidamente as declarações oficiais da igreja em matérias pagas.  
 
O Ministério Público passa a investigar a denominação. Um caso de polícia, na procura de criminosos espertalhões (que se defendem contratando raposas especializadas no crime organizado há anos). Seria uma tarefa relativamente fácil para a polícia, uma vez que o centralismo da direção numa mesma família milionária permitiria constatar, por meios legais, a fonte de enriquecimento de cada um de seus membros, e expressivos registros patrimoniais à custa dos fieis. Contratados pela cúpula, parentes chegam a ter proventos de 4 milhões (Gazeta Online 12/fev/2012). No “baixo-clero”, porém, não há salários. Como mariposas em torno do alto clero, um rebanho denominacional dos maiores do país é orientado a recusar a “infâmia da imprensa sensacionalista”. Mas esta fornece provas chocantes, de que a denominação evangélica funcionaria como um banco clandestino.  
 
As perguntas estão no ar: por que o pastor vice-presidente não foi expulso de imediato, descoberto com a boca na botija, como se faz com fieis que cometem infidelidades e desvios bem menores? O vice-presidente seria um arquivo vivo, detentor de informações que envolvem o grupo diretor por inteiro? Se a igreja arrecada perto de 500 milhões por ano, prestações de financiamentos internos (habitação, veículos, planos de saúde etc.), dízimos e ofertas, sem distinção, por que se preocuparia com uma ninharia de 2 milhões desviados? O esquema envolve quantos, dos quase três mil pastores do movimento, e apoiadores políticos, congressistas, deputados e vereadores locais? Como, por anos a fio, a corrupção das lideranças teria passado despercebida, levando-se em conta a movimentação milionária através dos anos, sem o conhecimento das demais lideranças? Onde entra o Banco Central e a Constituição Federal? Seria possível uma comparação à prática comum no pentecostalismo dos últimos 40 anos, no Brasil, em negócios religiosos “livres” de obrigações fazendárias? Investigarão também a Assembleia de Deus, denunciada por uma fraude espetacular, na Grande Vitória (ES)?
 
O movimento neoevangélico pentecostal surgiu há quatro décadas, exatamente no momento em que denominações históricas (iniciadas por volta de 1850/70, século 19), começavam a rachar. Igrejas batistas, congregacionais, metodistas, presbiterianas, episcopais anglicanos, pertencentes ao período conhecido como “protestantismo de missões” – denominado histórico –, são atingidas pelas primeiras divisões pentecostais a partir de 1960. A Assembleia de Deus inaugurara o movimento pentecostal em 1910, e juntamente com a Congregação Cristã do Brasil (1912), construiu-se à parte das missões protestantes norte-americanas.
 
Bem-sucedido, o pentecostalismo anárquico, sem vínculo denominacional, das últimas quatro décadas – centenas de “igrejas de dono”, ou famílias –, também comprometeu a identificação “evangélica” e “pentecostal” por inteiro. As denominações evangélicas históricas, até o momento, têm passado ao largo da corrupção sistemática nesse cenário. Mais temas para a pesquisa da história social do protestantismo. O último censo do IBGE (2010) aponta, por estimativa, 31% de crentes evangélicos, hoje, no Brasil. Apenas 5% dos evangélicos brasileiros pertencem ao protestantismo histórico não-pentecostal. 
 
A partir da Assembleia de Deus (a AD mais recente, fique claro, é ligada visceralmente à comunidade assembleiana nacional), Igreja Universal do Reino de Deus; Igreja Internacional da Graça, Igreja Internacional do Poder de Deus, Igreja Batista da Lagoinha, Comunidade Sara Nossa Terra, Renascer em Cristo etc, apareceu o prefixo “neo” para os pentecostais dos afluentes das últimas décadas. Impérios eclesiásticos se formam, com uma movimentação financeira gigantesca que o fisco não alcança, controlados por famílias, ou clãs evangélicos, desde a fundação. Juntas, superam a maioria dos estados brasileiros, em arrecadação ou imposto religioso.
 
O movimento pentecostal da Maranata é discreto e contundente, diferente das denominações midiáticas, exuberantes, recentes. Sua ênfase na santidade e avivamento esconde o verdadeiro objetivo a alcançar? Sem dúvida, é um sucesso empresarial, entre outras. Aparentemente, estas denominações são altamente organizadas, e de eficiência inegável na arrecadação, conforme os números e nas estatísticas. Escândalos permanentes e recentes, porém, mostram a face oculta desse movimento vitorioso.
 
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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9 respostas a Casos de Polícia: Igrejas Evangélicas Investigadas

  1. Outra conclusão dos promotores é de que a administração de toda a estrutura da igreja está centralizada no Presbitério, localizado em Vila Velha/ES. De lá parte todo o comando administrativo e espiritual seguido com rigor pelos pastores nos mais de cinco mil templos no Brasil e exterior.

    É também no Presbitério que está o caixa único da igreja, que recebe os recursos oriundos do dízimo de todos os templos. A Maranata não informa quanto arrecada por mês, mas sabe-se que é a segunda em número de evangélicos no Estado e uma das que mais cresce no país. Foi dessa conta que os recursos foram desviados.

    A Gazeta
    Clique na imagem para ampliar

    A investigação indica que os autores do desvio podem ter praticado fraudes que caracterizam estelionato, e que o crime seria semelhante ao dos dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus, vista pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) como “uma organização criminosa que se valia da estrutura da igreja e de empresas vinculadas para arrecadar vultuosos valores, ludibriando os fiéis”.

  2. Prezado pastor. Li o seu texto sobre a ‘legitimidade da IPU’ e achei ótimos os seus comentários que explicam melhor as vinculações entre os missionários, o Destino Manifesto, a questão escravista, etc. Ao final do texto, há uma informação de que ele faz parte de um livro seu publicado em 2010. Onde podemos encontrar e comprar o livro? Grato pela atenção, Cláudio Souza.

  3. IPU – PESQUISA SOBRE O PROTESTANTISMO ECUMÊNICO
    Cláudio, é este livro? Se for, comunique-se comigo aqui mesmo (blog), com endereço eletrônico
    destacado, que lhe enviarei o “projeto” do livro em PDF. Por favor, acrescente a informação, no pedido:
    – Publicação interna do Centro de Estudos Teológicos R. Shaull – IPU / PVTR.
    – Compromisso de obedecer ao texto publicado em PDF (o livro ainda não foi impresso).
    Só isso.

    Use também, se quiser, meu email derwal@intervip.com.br
    Fico muito contente por seu interesse. É muito agradável saber que há pesquisadores sérios interessados
    na história científica do protestantismo brasileiro.
    Abraços,
    Derval Dasilio

  4. Juranda diz:

    Todas as igrejas do mundo fazem o contrário do que foi determinado pela vontade Do Senhor Criador dos ceus e da terra pois,nas escrituras sagradas,10% de todos os dízimos que os irmãos devolvem à casa do Senhor foram determinados para (ajuda de custos dos ministros da casa do Senhor,ou seja para a manutenção dos serviços dos sacerdotes,pastores,iluminação,etc Num18:26-31.Mas os pastores e sacerdotes nunca darão ao povo esse direito.Antes esses pastores e sacerdotes querem cobrar de Deus pelos seus caros serviços como pastores consagrados,etc.Cada um cuide de si.Essa tirania contra Deus e contra o povo tem causado escassez de viveres,secas,desastres naturais e calamidades em todas as partes do mundo.O Senhor Deus criador dos céus e da terra,não está contente com essas igrejas tiranas.
    Os 90% restantes de todos os dízimos foram determinados pelo mesmo Senhor criador dos céus e da terra para alimentação ou seja para(mantimentos)de todo o povo Mal3:10-1.
    Em Mt23:23 O Sr Jesus disse que seria um(dever)da igreja e um direito universal de todos pra todos.Mateus 25:36-46
    A verdadeira igreja do Senhor Jesus,foi por Ele organizada desde os tempos antigos para cuidar dos orfãos,das viuvas,dos necessitados,e de todos quantos a Ele se chegue,pois o pastor não veio ser servido mas servir. Tiago 2:24.

    • Anónimo diz:

      Concordo com vc, quanto aos abusos na igreja, como já escrevi. Porém, as citações bíblicas não conferem. Malaquias não era cristão, e sim judaíta (professava o judaísmo iniciado 450 a.C., aproximadamente…). Dirige sua mensagem para os judeus na diáspora e provavelmente aos judaítas orientados para o templo em Jerusalém… o mesmo de quem Jesus fala, condenando-o: “não ficará pedra sobre pedra”, certamente destruído no ano 70 da Era Cristã.Não é admissível qualquer relação da Igreja inicial com o Templo referido por Malaquias. Nenhum apóstolo ensinou sobre a veracidade dessa afirmação. Ela é insustentável. Malaquias defende o Judaísmo em torno do Templo judeu.

      Mateus 23 versa sobre outro assunto, que é a hipocrisia. Também se dirige aos religiosos judeus, e não aos cristãos, que viriam depois, conduzidos pelos apóstolos. Tiago (2:23-24) piora as coisas (Tiago não cita Cristo uma única vez em toda a carta… seus escritos só foram reconhecidos 300 anos depois de Jesus e dos apóstolos), porque afirma “que sacrifícios no altar de nada servem (o dízimo é sacrifício, ou imposto religioso, aqui condenado); as obras humanas tão somente justificam a fé, que vem antes do dízimo ou qualquer outro sacrifício material”. Em Tiago, deve-se ler “obras” como “comportamento ético”. Nesse caso, desejáveis porque confirmam a verdade fé.

      Antes que prossigamos sobre assunto, o cenário dessas citações é restrito à Palestina ou Oriente Médio, nos dias de hoje. O resto do mundo não está em questão, e a Igreja, como o Cristianismo, ainda não existiam.
      Abraços cordiais,
      Derval

  5. Josias diz:

    Para atenuar os desvios dos dízimos e ofertas dos fiéis pelos seus líderes, entendo como necessária uma fiscalização acirrada sobre a contabilidade das igrejas e da declaração de imposto de renda dos líderes.

    • Anónimo diz:

      Concordo. Mas ainda é pouco. Num país laico, igrejas separadas do Estado, os deveres devem ser iguais. Igreja deve declarar arrecadação, seja ela qual for, e pagar imposto. Não é uma questão de lucro tributado, mas de justiça fiscal. Como está, nada mais claro do que o Estado exigir o silêncio dos privilegiados. Quem não paga impostos não pode criticar o Estado.

  6. Anónimo diz:

    uma coisa e certa a obra e do espirito santo de deus, mas ,e realizada por homens eos homens falham mas deus nunca falha e seu espirito tudo ver tudo sabe e por isso que nada nesta obra fica encoberto, gloria deus ,devemos viver igreja corpo de cristo mas cristo revelado se e que voceis que jugao e joga pedra sabem o que e palavra revelada a pas do senhor para todos amem

    • Resposta: Seria bom, se não estivéssemos tratando do pentecostalismo e das igrejas evangélicas atuais… A verdade só pode ser contestada nos tribunais, conforme o processos que correm na justiça. Não são poucos. O que escrevi foi: A partir da Assembleia de Deus (a AD mais recente, fique claro, é ligada visceralmente à comunidade assembleiana nacional), Igreja Universal do Reino de Deus; Igreja Internacional da Graça, Igreja Internacional do Poder de Deus, Igreja Batista da Lagoinha, Comunidade Sara Nossa Terra, Renascer em Cristo etc, apareceu o prefixo “neo” para os pentecostais dos afluentes das últimas décadas. Impérios eclesiásticos se formam, com uma movimentação financeira gigantesca que o fisco não alcança, controlados por famílias, ou clãs evangélicos, desde a fundação. Juntas, superam a maioria dos estados brasileiros, em arrecadação ou imposto religioso.

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