REVISTA – TEOLOGIA E SOCIEDADE


A ÁGUA, A TERRA, PARAÍSO E INFERNO ECOLÓGICOS 

Por Derval Dasilio (Um dos articulistas)

Urge uma nova Antropologia, bem como uma nova Teologia, capaz de restaurar o ser humano no conjunto da obra da Criação (Luis Carlos Susin). Uma nova racionalidade que integre as ciências, inclusive a teologia e outros  tipos de razão, é bem-vinda. A humanidade e a criação total agradecerão. A cordialidade, que começa quando você segura a porta do elevador para o vizinho entrar; permite ao idoso a ao deficiente os primeiros lugares no transporte público, ou os ajuda a atravessar a rua; o cuidado com os que não podem subir as escadarias das igrejas, nem podem ir à missa ou ao culto, é igual ao cuidado que se deve ter com o mundo criado. Sem dúvida, estão na pauta em prioridade absoluta da Teologia.

Revista Teologia e Sociedade – n.8 – Outubro, 2011 – Editora Pendão Real, S.Paulo – R$ 10,00

Organizador: Eduardo Galasso


Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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6 respostas a REVISTA – TEOLOGIA E SOCIEDADE

  1. Anónimo diz:

    A ÁGUA, A TERRA, PARAÍSO E INFERNO ECOLÓGICOS
    Derval Dasilio*

    A linguagem das águas não são metáforas, mas uma linguagem poética direta que os regatos e rios sonorizam com estranha fidelidade e paisagens mudas. As águas ruidosas ensinam os pássaros e os homens a cantar, a falar, a repetir, que há uma continuidade entre a palavra da água e a palavra humana (Gaston Bachelard).

    No princípio, a terra era sem forma e vazia, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das águas (Gen 1,1).

    INTRODUÇÃO

    A Bíblia é uma coletânea de fatos e palavras que, conforme a fé das comunidades judaicas e cristãs, contêm uma revelação do amor de Deus pela humanidade. Nem o mundo foi criado por acaso, nem o homem. É um ser criado em permanente busca de identidade e sentido. A narrativa bíblica também não levanta questionamentos sobre a existência do ser Criador, sua origem, e razões que o levaram a criar o cosmo sob leis naturais rígidas, onde o pressuposto é que cada astro, cada estrela, cada componente funciona como um relógio movido por uma máquina, e um combustível inesgotável e perpétuo. A observação desse Universo não confirma o determinismo pretendido. E nem mesmo o pragmatismo consumista pós-tecnológico.

    A religião é um fenômeno antropológico extraordinário. Todas as religiões têm começo e origem, bem como sua cosmologia e antropologia. Nos primórdios imemoriais, nas eras mais recentes, na antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, os modos de organização, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a religião nunca se dissocia dos meios de produção econômica na organização do mundo, e das relações obrigatórias que ocorrem com os agentes que o transformam. Humanizando-o ou degradando-o. As crenças que envolvem a religião não podem ser somente objeto de ciências naturais, astrofísica, geologia e paleontologia. Com a palavra a Teologia, se ela quiser.

    Narrativas supra-históricas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o Divino. Este é um ponto. O mundo do sagrado não coincide com o mundo da ciência. Mas, quando a narrativa é sacralizada, como ocorre no biblicismo fundamentalista, ou na falsa ortodoxia criacionista, excessivamente frequentes, o resultado será estruturado numa religião autoritária, com poder religioso especializado, restrito a uma hierarquia inteiramente respaldada na objetividade e finalidade da religião. A fé, elemento transcendente, é dispensável nesse momento. Do mesmo modo, o pensamento afirmativo sobre uma força transcendente, que paira sobre a vida do cosmo inteiro, perde sua importância quanto à concepção. O texto bíblico, história da salvação, é substituído pela doutrinação e pela falsa ortodoxia. A Teologia, porém, não pode ser doutrinária, devendo ser, em primeiro lugar, o “locus” onde se desvenda continuamente a salvação do homem e do Universo. A Natureza e o Homem mesclam-se sob o interesse da Teologia.

    Com Andrés Queiruga, devo convencer-me de que as aparências, os significados do momento atual, inundado de informações científicas e de teorias sobre o cosmo, ou o planeta Terra, devem ser reavaliados. Severamente. A cosmovisão primitiva foi corrompida ao extremo, e nós somos os agentes racionais que dela nos distanciamos e, quando olhamos para traz, embora exista considerável diversidade de manifestações míticas, culturas conservadas dos muitos povos que interpretaram suas origens nos muitos lugares deste Planeta, não vejo porque não ouvirmos as vozes que vêm de lá. A essência de um mito não é regida pela razão.
    ____
    *Pastor, pesquisador, escritor, teólogo e professor no CFT-RS (Centro de Formação Teológica R.Shaull, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil).

    Os sentimentos nele contidos, porém, refletem uma comunhão que abrange tanto os seres humanos como os demais seres da natureza. Tanto animados como inanimados. Natureza e mundo humano se fundem e se inter-relacionam. Humanos se vêem como humanos, animais se vêem como animais. E os elementos como a Água e a Terra, “como se vêem”? Se gemem, porque são violentados, podemos ouvir os seus gemidos? (Walter Saas, 2011).

    O homem que habita este planeta, alcançado instrumentalmente pela ciência; o espaço sideral, sob a astrofísica moderna, esbarra no mistério da fé nos limites deste universo. Os problemas da origem continuam pertinentes, exigindo análises que se mostram insuficientes a cada vez que são apresentadas, requerendo cada vez mais conhecimentos. Não há números nem teorias satisfatórias. Nem mesmo as teorias das fontes sobre a Bíblia nos deixam contentes, quanto ao conhecimento do homem, do mundo e do próprio Deus ali representado de formas variadas, ambíguas e contraditórias (antropomorfismos). Uma vez que os novos conhecimentos sobre a história remota do planeta e dos homens e mulheres do mundo bíblico (pois não é mais possível ignorar outros universos culturais, civilizações antigas ou ancestrais). Homens e mulheres que nele habitam, vistos unilateralmente, do ponto de vista das muitas heranças culturais dos povos deste Planeta, analisados sob pontos de vista meramente ocidentais, resultam na constatação de fracassos históricos continuados.

    Um século depois da Reforma Protestante, quando o famoso filósofo Descartes “re-inaugura” o racionalismo filosófico que vai marcar a Idade Moderna, reabre-se uma concepção estranhamente importante para se entender o homem: “penso, logo existo”! Aqui é necessária uma pequena digressão dedicada a este termo: racionalismo, que precisa ser explicado. Não há racionalismo, hoje, sem o atributo científico que ele encerra. As ciências modernas são firmadas no “racionalismo”. Ou deveríamos dizer racionalidade? Uma palavra grega dominante, logos, é a chave da filosofia da antiguidade; “logos” é essencialmente o uso da razão e da lógica. Portanto, racionalismo é o pensamento filosófico que admite a origem do conhecimento sendo determinado por “princípios inatos”, supostamente, ou por algum a priori, ainda que se possa condicionar a validade do uso desses princípios à disponibilidade de dados empíricos. Parece não haver novidade nisso, mas há. Especialmente quando a Teologia embarca no veículo da Razão para explicar os fenômenos que envolvem a história da fé.

    A Filosofia se revoluciona por causa de um objeto aparentemente insignificante: o homem, na história do pensamento, já falara nestes termos sobre si mesmo. Sócrates, Platão, Aristóteles, desenvolveram um modo de pensar as questões da existência humana a partir de um método de discussão sobre o valor das coisas, ou realidades, se você quiser assim. Além disso, passaram a definir as formas de conhecimento separando-as das ilusões, ou meras suposições, especulações ou elucubrações. Enfim, existem várias maneiras de conhecer, ou de outro modo: há graus de conhecimento a serem considerados em toda parte que o busca.

    René Descartes e Francis Bacon retomam as descobertas de Sócrates, Platão e Aristóteles, para questionarem o conhecimento verdadeiro através da análise das causas, das formas, e dos preconceitos que temos sobre o conhecimento. O método de Descartes passou a ser conhecido como “dúvida metódica”, conforme já se expôs exaustivamente. Ela pressupõe que um indivíduo antes de aceitar qualquer afirmação, deve pensar por si mesmo, duvidar de sua autenticidade, pondo-a à prova. “Eu penso, logo não sou um batráquio, um aracnídio ou um mero mamífero; eu existo e sei que sou um ser humano e tenho direito à verdade sobre mim e sobre o universo no qual habito. Sou alguém que faz história; alguém capaz de fazer escolhas; sou um ser que é dono de seu destino, se sou capaz de usar a razão; não necessito que especuladores e que religiosos dogmáticos (teólogos?) me digam sobre a realidade objetiva do mundo e das coisas” (D.Dasílio, Dragão que habita em nós, O, 2010). A razão instrumental, símbolo da racionalidade necessária, será abandonada, em favor da liberdade anárquica? Esqueceremos Kant?

    Em 1654, reagindo favoravelmente ao pensamento metafísico-religioso vigente – Descartes dizia que a razão ensina a duvidar de certezas, científicas ou não; essa é a famosa “dúvida metódica”, citada à exaustão por muitos, um método para avaliar as coisas, sejam elas quais forem, a partir do juízo de valor –, o bispo irlandês James Ussher publica, no momento, o que se considerava o grande trabalho de sua vida. Grande erudito, debruça-se sobre os escritos bíblicos e tinha a apresentar ao mundo o fruto de sua longa pesquisa: “o mundo foi criado a 26 de outubro do ano 4004 a.C., às 9:00 horas da manhã”. Outros não concordavam, porém, no ambiente científico. O astrônomo polonês Johannes Havelius contestava-o afirmando que a data certa era 24 de outubro de 3963 a.C., às 18:00 horas. Nesses dias, o grande cientista e astrônomo Kepler diria que os dois estavam redondamente errados… o correto seria a data de 27 de abril de 4997 a.C., e ponto final. Absurdos fundamentalistas? Eis o tipo de interpretação que faz essa associação entre narrativa e ciência (não sei se criacionistas modernos podem tornar a Bíblia um manual de ciências naturais, astrofísica, geologia e paleontologia, mesmo com grande erudição, enquanto intercalam teorias que vêm de Newton, chegando a Einstein e Max Planck para justificarem suas teses).

    Então, não é o método cartesiano que nos guiará, quando a sensibilidade ecológica adquire importância especial para a Teologia. Se esta for entendida como ciência histórica da fé. As aparências, voltamos a dizer, fazem parte do deslumbramento científico existente. Mesmo a Teologia não se livra dessas luzes artificiais. A profundidade dos temas ecológicos, na reflexão sobre “um mundo novo possível”, envolve-se com um mistério inesgotável e profundo. Enriquece a Teologia. A experiência religiosa libertária é revigorada. É preciso, portanto, aproveitar essas energias sem medo de esgotá-las. A salvação e libertação do mundo, no século presente dependem da reflexão sobre as nossas origens e o destino que pretendemos dar ao planeta Terra, devolvendo ao Espírito a orientação da salvação (Romanos 12,2).

    1.0 – A ÁGUA, A TERRA, PARAÍSO E INFERNO

    Através da história de antigas comunidades que formaram o povo de Israel, Deus revelou o seu projeto de vida e amor para o mundo inteiro. Por isso, o que mais chama a atenção na Bíblia é como Deus escolheu pessoas e comunidades empobrecidas e oprimidas para nelas revelar a força do seu amor maternal. Nesse espírito, a primeira página da Bíblia conta que Deus criou o céu e a terra. O ouvinte ao qual se destina a narrativa é o israelita exilado, estrangeiro, pobre e excluído da cultura econômica dominante.

    Mas, na história, a primeira coisa que os israelitas descobriram de Deus foi que ele é libertador. Foi para salientar que Deus é capaz de libertar os seus da escravidão que os profetas e profetizas disseram: “Ele pode nos libertar, já que nos criou” (Cf. Is 40 e 41). O primeiro capítulo do Gênesis foi escrito para lavradores e trabalhadores agrícolas e pastoris, artesãos, deportados na Babilônia (século VI antes de Cristo; preferimos não usar o designativo judeu, porque o período de reconstrução nacional, e o próprio judaísmo formativo, não são avaliados aqui). Este relato é releitura de outra narrativa mais antiga, de alguns séculos antes. Teria sido reunida por grupos de escribas sacerdotais, para comunidades que viviam na terra árida da Judéia anterior ao exílio:

    “Eis a origem dos céus e da terra. No dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus, não havia ainda na terra nenhuma planta do campo, nenhuma erva do campo tinha brotado, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, nem havia ninguém para lavrar a terra. Entretanto, um vapor (de água) subia do solo e regava toda a face da terra. E Deus formou a humanidade do pó da terra. Soprou-lhe nas narinas o espírito (hálito ou fôlego) da vida e o ser humano tornou-se alma vivente. Então, o Senhor Deus plantou um jardim, da banda do oriente, no Éden; e pôs ali a humanidade que tinha formado. E o Senhor Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida, bem como a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Do Éden saiu um rio para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. (…) O Senhor Deus tomou a humanidade e a pôs no jardim do Éden para lavrar e guardar (o jardim)” (Cf. Gn 2,1-10.15). Nesta tradução parafraseada acompanhamos o estilo hebraico para referir-se à Humanidade e a Criação por inteiro (Shöekel).

    A referência é que o homem, numa visão menos pessimista sobre o “pecado de origem”, deve responder perante Deus sobre a guarda dos bens naturais do mundo criado. Esse modo de narrar a criação provém de comunidades que viviam regiões áridas. Para estas, a primeira obra de Deus para criar foi garantir a chuva sobre a terra e irrigar uma região quase desértica.

    O fato de o rio que descia do paraíso dividir-se em quatro braços é uma alusão aos quatro pontos cardeais. É a água irrigando toda a terra e tornando-a fecunda, criativa. Em uma região árida como a terra da Bíblia, cada fonte, cada olho d’água, cada poço, é quase um milagre. Toda fonte é sinal forte da bênção divina, um presente do amor sobrenatural.

    Na antiguidade remota, o povo venerava as fontes como algo divino. Cada fonte tinha um espírito divino que dava características próprias à fonte ao povo que dela se beneficiava, e podia ser ali adorado (Marcelo Barros, 2003). Na Bíblia, a primeira imagem do Espírito de Deus é a da “ventania divina” (rûah) soprando sobre as águas primordiais do cosmos (Gn 1,1). O Espírito e o vento novo, experimenta-se o que ensina na canção: “… o vento vira e, do vendaval, /Surge o vento bravo… / Como um sangue novo, / Como um grito no ar / Correnteza de rio / Que não vai se acalmar…/ Não vai se acalmar!” (Edu Lobo). A água movimentada, isto é, com espírito, sopro, ventania, é água viva e santa. Toda fonte é sagrada.

    1.1 – A DIVINDADE DAS ÁGUAS

    No início, israelitas acreditavam na divindade das águas. No entanto, os profetas da Bíblia nunca disseram: “a água é uma divindade”, mas muitos textos bíblicos falam da água como lugar de forte manifestação divina: “Tu, Senhor, és para nós fonte de água viva” (Jr 2). Imaginemos caboclos ribeirinhos da Amazônia, ou do estuário do rio São Francisco, lendo os textos originais do Gênesis, interpretando-os de acordo com seu modo peculiar de vida, desde a herança pré-colombiana. A oposição do Ser Humano à Natureza na civilização judaico-cristã estaria aqui? No afã de dominar as águas, construir represas e produzir energia industrial, dessacralizando a Natureza, constitui-se uma índole hermenêutica de destruição necessária para um certo “desenvolvimento”? Desde as primeiras incursões exploradoras do Novo Mundo, a resposta é afirmativa (Darcy Ribeiro, 2007).

    Contrariando essa índole, nos comentários da Torah, o primeiro e mais frequente símbolo da Palavra de Deus é a Água. A Bíblia e a tradição judaica, sob a geografia mesopotâmica e palestina (Mario Liverani, 2008), associam continuamente a Água à Lei de Deus. A Água representa o conhecimento da Palavra de Deus. O povo bíblico fez da água um símbolo para a sua oração, de modo mais importante que outros povos: “Tal qual o cervo brama pelas águas correntes, minh’alma anseia por ti, ó Deus!” (Sl 42,1). Inúmeros salmos associam a água com a Palavra de Deus, a sede com o desejo de intimidade com Deus; o rito de lavar as mãos com a purificação interior e o mergulho em uma vida nova. E os profetas também anunciaram o Messias de Deus como fonte de águas vivas (Zacarias 14,9).

    Entendia-se que a água como elemento divino poderia ser benéfica, mas que existem também “águas destruidoras”, que transmitem algum mal. Estas águas, tanto “as de baixo” que vêm da terra, como “as do alto” que descem da chuva, são águas boas, em oposição às águas do mar e do abismo, águas “más”. Estas fontes fazem parte da promessa de Deus para o seu povo: “O Senhor teu Deus te fará entrar em um bom país, uma terra cheia de torrentes, de fontes e de águas subterrâneas que jorram na planície e na montanha…” (Dt 8,7-8).

    O poço, escavado para encontrar água, é algum lençol, uma fonte subterrânea, água que se busca para dessedentar pessoas e animais. A analogia sálmica confirma: “sonda-me ó Deus, e conhece o meu coração” (Sl 139,23). Por compreenderem os poços como sinais da presença de Yahweh no meio do povo, os patriarcas faziam dos poços lugares das alianças seladas em nome de Deus. Era em redor dos poços que se acertavam os casamentos. Matriarcas de Israel casaram-se por causa de “um poço”: Rebeca foi pedida em casamento por Isaac na beira de um poço (Gn 24,11 ss); Raquel conheceu seu marido Jacó na beira de um poço (Gn 24,15-22). Também Séfora conheceu Moisés e começou um romance com ele à beira de um poço (Ex 2,16 ss). Conforme a Bíblia Hebraica, Yahweh fez uma aliança de proteção e amor com o povo árabe à beira de um poço. E a tradição deste poço é venerada pelos judeus, pelos cristãos e pelos islamitas, até os dias de hoje.

    2.2 – ABRAÃO BEBEU DO POÇO DO QUAL A SAMARITANA DEU ÁGUA A JESUS

    Conforme o Evangelho de João, na beira do poço, a samaritana diz a Jesus: “Serias maior do que o nosso patriarca Jacó que nos deu esse poço do qual ele mesmo bebeu, assim como seus filhos e seus rebanhos?” (Jo 4,12) Provavelmente, ela se referia a uma tradição judaica que comentava o texto do Gênesis 26,15-22. Contava que Jacó, no tempo em que partiu de Beershéba, tinha feito cinco milagres. “O quarto desses milagres foi que a água jorrou e o poço transbordou, continuando assim, por todo o tempo em que o patriarca esteve em Haran”.

    O motor da vida é a esperança de um mundo transformado, a utopia, o futuro que desejamos. Tudo depende de nossa visão, do sonho. Se nossa vista capta somente o que é imediato e rasteiro ao nosso redor, ou se não é capaz de penetrar na realidade da promessa divina e descobrir que ali há algo de profundo e elevado (esperança!), não entendemos nada da Bíblia. Abraão é a figura que melhor expressa a fé, no Primeiro Testamento, como em Hebreus 11, no Segundo. Deixar tudo, romper com tudo, e ir em busca da “terra que eu (ainda) te mostrarei”, sem segurança, sem saber o que lhe seria reservado, só confiando na Palavra de Deus, é o que estabelece a relação que podemos retirar da leitura sobre a fé e o novo nascimento, no Evangelho.

    Como símbolo “de um novo começo”, para tornar a fé mais significativa em nossa vida hoje, o texto nos remete ao “pai dos que têm fé”. No sentido de ver realidades transformadas. As três religiões “abraâmicas”, judaísmo, cristianismo e islamismo, nos remetem também ao “pai dos crentes”, Abraão. É preciso mostrar essa relação como religiões irmãs que dialogam, colaboram entre si e se amam, no sentido da transformação do mundo violento num projeto de paz (Gn 12,1-4a). Quanto à paz na Natureza, falta diálogo, também, quanto a este assunto, com as demais religiões? Se falta, não menos surpreendente é sua ausência no interior do próprio cristianismo.

    2.2.1 – JESUS, A ÁGUA E O SER EM MUDANÇA PROFUNDA

    O diálogo com Nicodemos altera a lógica comum do evangelho (João 3): diálogo e testemunho. Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da primeira discussão: a fé que procura milagres, que exige sinais. Mas Jesus propõe uma mudança radical, não um novo conceito de renovação da fé. Não uma renovação, mas uma inovação: começar tudo do zero! Do nada. Desaprender o que nos passa o catecismo! Nascer de novo. Começar como um nasciturno, abraçar uma natureza nova (natus, nascido procede de natura, no latim). O tema se desloca para “razão” e “fé”. Nicodemos quer conversar logicamente, no uso da razão, do argumento e da prova, está em pauta a gnosis, conhecimento humano.

    A salvação pelo conhecimento? Não é possível, diria Jesus. É preciso desmontar a doutrina vigente, racionalizada, parafuso por parafuso, e construir tudo de outra maneira. Para compreender o desafio de Deus, imprevisível, irônico quanto ao saber humano, enquanto ele “acha” que pode definir o princípio e o fim da história humana. É preciso rasgar os projetos humanos, chutar as latas de lixo doutrinário, e debruçar-nos de novo sobre a prancheta, e ouvir sobre um futuro libertador. O Deus de Jesus está sempre fora do lugar que queremos impor, ou onde o queremos encontrar (u-topos). Ele habita nos sonhos de liberdade e convive com os que imaginam ser possível um mundo novo.

    2.3 – A ÁGUA, A FÉ E OS MILAGRES

    Estamos discutindo sobre os graus de intensidade e estabilidade da fé (João 3,1-17). Uma fé incipiente pode ser dominada pela necessidade de sinais, milagres. Nos aspectos externos, pode parecer que estes apresentam segurança. Mas a questão permanece: se faltam sinais e milagres, o que sobrará dessa fé? Superficialmente, a autenticidade irrompe na discussão. Internamente, o eixo se desloca para a insegurança e a deficiência destes, uma vez que falta o essencial, que é a plena confiança interior (pisteuo). “Deus não vê como os homens, que vêem a aparência. O Senhor vê o coração”, isto é: Deus vê o íntimo do homem e das coisas (Pr 15,11; 1Sam 16,7; Sl 139,1-4). Nicodemos não parece um hebreu nato, e sim um gentílico afeito às categorias do pensamento dos antigos gregos. João retruca como um bom hebreu: Jesus discorre sobre as questões que se referem à origem da vida, o que há de mais fundamental pertencente ao homem, o ser-humano.

    Perguntas importantes, implícitas, ou subentendidas: “O que eras antes do nascimento? Qual o lugar de onde tu vens? Que fazes, agora, para dar sentido à tua origem?”. Importa não pararmos os questionamentos sobre o sentido da vida, desde o primeiro sopro. Conhecendo as nossas origens, os lugares existenciais desde o início, inevitavelmente conheceremos nosso fim e quem somos realmente (“pois ele conhece a nossa origem, sabe que viemos do pó” – Sl 103,14). Portanto, é “necessário nascer de novo!”, é preciso tomar uma nova consciência. Paulo sugerirá outra maneira, no sentido do mundo principial reiniciado: “A fé é uma história nova a cada dia… ” (4,1-5).

    Aqui está, praticamente uma discussão rabínica: “bereshit” e também “en arché” (no princípio). Uma entrada no mundo temporal. Mas há algo de novo no recomeço de nossos atos, na origem dos pensamentos, de nossas sensibilidades quanto ao sentimento de estar-no-mundo? O que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, de uma reforma no ser primal? O que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, um devaneio libertário (Bachelard)? A proposta de Jesus a Nicodemos é radical: ver tudo de novo, desde a origem, coloca-nos em uma situação peculiar diante da vida.

    Jesus responde rigorosamente à objeção de Nicodemos. Tão comum em tantas culturas: a Água. E o seio materno é fonte de vida, água batismal. Porém, água fecundada pelo Espírito, nos escritos bíblicos. A figura do ventre materno, também comum noutras culturas, na tradição bíblica evocará a feminilidade criadora da mulher (no Gênesis, o Espírito é “rûah”, que no hebraico é uma palavra feminina; o ventre criador de Deus tem atributos femininos e maternais). Também a mulher que gera é como um poço ou manancial (Pr 5,15 e 18; Cantares 4,12 e 15). A função do Espírito (rûah) é essencial, justifica o paralelismo água/espírito/fertilidade. Desde o Êxodo, ainda no exílio, a função “principial” do Espírito é uma indicação de liberdade criadora.

    3.0 – A TERRA: PRIMEIROS MOMENTOS NA BÍBLIA HEBRAICA

    “Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1), assim a Bíblia Hebraica abre suas páginas, a expressão é contundente: origem da vida, primeiro o céu e depois a terra, em uma perspectiva aparentemente hierárquica, aponta o que vem “do alto”. Ou seja, Yahweh, Deus, que através de sua Palavra (davar) tudo realiza no cosmo inteiro. No entanto, mais adiante, a ordem se modifica para assinalar que “Yahweh Deus criou a terra e os céus” (Gn 2,4b). Outra vertente, nova interpretação da vida. Agora, tudo vem da Terra, tudo brota “de baixo”. Adamah, a terra, é a mãe de Adam. Terra e Humanidade se fundem. Os termos que incluem os seres sexuados virão depois, dentro do mesmo capítulo (Gn 2): Ao lado de ish, ser-masculino, o ser-feminino ishah, homem e mulher “lado a lado” (selah) [a controvérsia sobre a palavra “selah” cada vez mais se aproxima do consenso entre especialistas: o termo “costela” vem sendo abandonado em favor da palavra semítica original “lado”; o termo é relegado como interpretação “recopiada” em função de critérios talvez ideológicos]. Do ventre da Terra nasce a humanidade.

    Esta é a história, orientada para a salvação, ou promessa de salvação, em todo o desenvolvimento, desdobrada incessantemente na Bíblia. A terra é um tema recorrente não só como cenário de salvação. É o “locus teologicus” da ação de Deus em favor do ser criado, e vai desdobrar no chamado à colaboração da parte do povo eleito. O conteúdo das promessas de Deus está nas respostas às lutas deste povo contra as forças destruidadoras da morte. No AT, a aliança com Deus acarreta a dádiva e a conquista da “terra que mana leite e mel” (Ex 3,17). O Povo de Deus não pode realizar nem ver realizadas as promessas, se não acontecerem na Terra Prometida. Quando Bíblia termina com o livro do Apocalipse, no Novo Testamento, o estabelecimento dos “novos céus e da nova terra […]; sim, venho muito em breve” (Ap 21,1; 22,20), chamam a atenção para os fundamentos “realizáveis” da esperança política, ambiental, ecológica, auto-sustentação definitiva e inarredável, como o triunfo definitivo do projeto do reinado de Deus. Na terra, prevalece a vida e cessam os poderes alienantes da morte, da opressão, da injustiça, do cerceamento da liberdade em todos os níveis [consenso inevitável sobre o assunto, da parte de especialistas notórios, como Von Rad, Conzelman, Noth, Westermann, Rolf Rendtorff, que não varia, em geral].

    No plano divino, a terra tem a finalidade de ser fecunda e produzir, fazer gerar os demais seres vivos (Gn 1,24). Nos salmos, afirma-se que a terra proclama constantemente – às vezes de maneira estrondosa, outras vezes sem voz alguma – a grandeza de Deus (cf. Sl 19,4). Por causa da vinculação profunda com Deus, pode-se dizer: “de Yahweh é a terra e o que nela existe […]; ele fundou-a sobre os mares e formou-a sobre os rios” (Salmo 95).

    O ser humano é formado por Deus “com adamáh, terra fecunda” (Gn 1,7). Por isso, o primeiro ser humano se chama Adám, porque é filho de Adamáh, a Terra Fecunda. Fle é a síntese da Terra e do Céu, feito de terra fecunda, o ser humano recebeu em suas narinas o sopro ou hálito de Deus. Vida. Ele é chamado, por isso mesmo, a ser fecundo e a encher a terra de vida (Gn 1,28).

    Mas, há um acidente nesse percurso, a terra é amaldiçoada por causa do pecado e se torna estéril e agressiva contra seu filho Adão (Gn 3,17). Quando a humanidade se cansa com trabalho, e não obtém o fruto do mesmo, há sinal de pecado. Por causa do pecado, a violência é introduzida, a ganância de Cain leva-o ao assassinato do irmão, Abel. O sangue derramado, do justo, clama a Deus a partir da terra (Gn 4,10). O texto informa que a terra reclama justiça, por causa do assassinato de seus filhos.

    A experiência de Deus na Bíblia Hebraica recorda a origem primigênia, quando Jó lança terra sobre seu corpo em sinal de conversão (Jó 2,12; 1,20). A grandeza e a humildade humanas procedem do fato de que “da terra saímos e para ela voltaremos” (Gn 3,19). É a terra que dá vida e identidade a cada porção da humanidade e a todos os povos (Gn 10,32).

    3.2 – A TERRA NAS PRIMEIRAS NARRATIVAS NEOTESTAMENTÁRIAS

    No NT, Jesus nasce trazendo “glória a Deus nos céus e paz aos homens na Lterra” (Lc 2,14). Ele é identificado por sua terra de origem: chamam-no de Jesus de Nazaré como honra e vitupério (Lc 2,32; 4,16; Jo 1,42). Ele vai ao deserto e convoca os pobres da terra (Mc 1,39; 4,1), que são as ovelhas perdidas de Israel (Mt 15,24). E proclama que deles é o Reino dos céus e que herdarão a terra (Mt 5,4); conectando sua proposta nova com o jubileu antigo, Jesus inaugura o ano da graça como libertação dos pobres e também como descanso da terra e retorno dela a seus donos legítimos (Lc 4,18ss; Is 61,7) Ele ensina seus discípulos a orar pedindo que se faça a vontade Deus assim na terra como no céu (Mt 6,10). E, lançando mão de elementos da terra – faz lama com sua saliva –, cura as enfermidades o povo (Jo 9,6).

    Pode-se concluir que, do princípio ao fim, a terra aparece na vida e pregação de Jesus, ocupando um espaço muito grande em seu pensamento, palavras e ações. A terra é razão de ser de sua identidade cultural e religiosa; é recurso pedagógico constante para seus ensinamentos; também é conteúdo de fundo de sua proposta de vida em abundância, para que se façam realidade esse “céu novo e essa terra nova” do evangelho de Cristo e essa “terra sem males”.

    As igrejas de Jerusalém, Antioquia, Éfeso, Corinto, Tessalônica… todas vêem Jesus como a Palavra que veio ao mundo, como o Logus que colocou sua morada na terra (Jo 1,10.14). Sabemos que as primeiras comunidades cristãs eram reconhecidas pela terra em que estavam assentadas. Os relatos paulinos dizem imediatamente: “Foi ele é quem reconciliou todas as coisas do céu e da terra (Cl 1,20), tornando-se cabeça de tudo (Ef 1,10). Por sua encarnação e sua ressurreição, ele é o primogênito de toda a Criação (Cl 1,15; Ap 1,5). Por ele a terra sofre dores de parto até que se manifeste nela o Homem Perfeito (Rm 8,22). A obra redentora de Cristo culmina nos “novos céus e na nova terra” (Ap 21,1), os quais chegarão no final dos tempos: “Compraste para Deus, por teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e nação e fizeste deles, para nosso Deus, uma realeza de sacerdotes, e eles reinarão sobre a terra” (Ap 5,9-10).

    A terra, como semeadouro ou horto, é um recurso pedagógico muito frequente nos discursos de Jesus (cf. Lc 8,5-8; Mc 4,1-9). Assim como a terra, bem ou mal preparada, é que dá maior ou menor fecundidade à semente espalhada sobre ela, também o coração humano torna fecunda a Palavra de Deus se abrir e aderir à proposta do Reino, proclamado por Jesus (cf. Lc 8,11-15). Ao defender uma mulher acusada de adultério, Jesus escreve na terra as poucas coisas que sabemos que registrou por escrito (Jo 8,6). E, depois de sua morte na cruz, seu corpo é posto sobre a terra em um sepulcro novo (Jo 19,42; Lc 23,54; Mc 15,46; Mt 27,60). O projeto evangelizador de Jesus se realiza justamente em todo o mundo (a Terra, o Universo) e em todos os povos (cf. Mt 28).

    A filosofia grega (maniqueísta e neoplatônica) introduziu na Igreja a oposição irreconciliável de Céu e Terra, espírito e matéria, Deus e mundo, impulsionando uma espiritualidade para aspirar aos bens do céu, não aos bens da terra. Profundamente dualista, influenciada pela concepção iraniana absorvida pelo helenismo. Depois dos dois primeiros séculos de cristianismo, a ocidentalização mediterrânica se completaria, e se estenderia idade média afora, até a conquista do Novo Mundo, preparando a Modernidade racionalista. Nessa perspectiva, a terra não faz parte do Plano de Deus. A catequese existente mostra desinteresse pela Terra, enquanto conquistadores poderosos se apoderavam dela, abusavam e violentavam seus recursos, e introduziam o trabalho escravo e o camponês acreditava que dela poderia usufruir, às últimas consequências, enquanto o trabalho por dominá-la se constituía num “sofrimento” contínuo. Por isso, a Terra não é mais do que um “vale de lágrimas”, um lugar de passagem para o céu, um cárcere de que devemos nos livrar para alcançar a perfeição. Daí surgiu a ideia de escapar do mundo. As ordens monásticas e os anacoretas representam essa dicotomia. A Terra era inimiga do Céu, adversária da perfeição cristã; este é plenitude espiritual que se deve buscar além desta realidade, praticamente de maneira a fugir das exigências do corpo e ignorar a história (Mário Péres Pérez, 2011).

    Esta tendência dualista/maniqueísta permeou por muito tempo a vivência cristã, afastando-a de uma visão realista do corpo, das realidades da terra, quando cientes de serem componentes integrais também comprometidos com as realidades humanas. Associadas aos meios de produção econômica e organização do mundo, e das relações obrigatórias que ocorrem com os agentes que transformam a história, a Terra é devastada. A libertação da Humanidade, portanto, exige a libertação da Terra oprimida pela degradação ambiental e pela depreciação mental histórica no cristianismo. A Terra é oprimida pelo próprio homem.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Alguma coisa, que foi descoberta por Galileo (1564), através de lentes telescópicas precárias, compartilhada por Nicolau Kopérnico (1473), sob ameaças das fogueiras da Inquisição, vai favorecendo a concepção de amplitude do Universo. Ainda perturba, mesmo dispondo-se de um telescópio espacial como o Hubble. E já perguntamos sobre modernidade (pós-modernidade é um mito!), ecologia e sustentabilidade. Giordano Bruno (1548) – sacrificado como herético – e Kepler (1571) também faziam suas observações. Pensadores “perigosos” à fé escolástica, fonte do fundamentalismo moderno, descobriam que é preciso pensar sobre o Universo de outra maneira, quando a Terra era imaginada como o centro de um universo ridiculamente ínfimo, limitado, como a astrofísica recente demonstra.

    São quase 2.500 anos de questões levantadas sobre a infinitude do Universo, desde pensadores como Sócrates – sacrificado nos primeiros momentos do fundamentalismo histórico – e se descobriria que o universo já não mais correspondia ao pluriverso. O conceito de infinito na comunidade científica perturbaria o mundo religioso fechado, dogmático. Realçava uma grandeza maior para a Criação.

    Porém, há medo no planeta. Desequilíbrios industriais, aumento da temperatura, bactérias poderosas aparecendo sem controle, doenças incuráveis, epidemias cíclicas. O planeta descobre-se como um imenso depósito de lixo, dejetos e resíduos tóxicos, águas contaminadas. Milhões de pessoas são exterminadas por causa do desequilíbrio ambiental. Por que temer um meteoro como o que caiu há 65 milhões de anos exterminando os dinossauros? Que certeza temos sobre uma eventual dizimação da espécie humana, quando na era atual se ignora o direito à vida da Criação?

    Os riscos do momento, inegavelmente, pertencem à ganância dos projetos humanos. O homem é o maior predador existente no planeta. Precisamos absolver os demais. Voltaire (1694) diria: “Se é verdade que o homem é a imagem de Deus, é também verdade que Deus é a imagem do homem”. Quem vê no Criador um ditador implacável, que odeia o mundo criado, absoluto sobre a natureza, vê-se a si mesmo negando o amor uterino (“rahamin”) de Deus pela Criação, ignorando sua compaixão e solidariedade para com o Planeta violentado.

    Medidas por meio da luz, analisando as emissões provenientes das distantes galáxias desde o ponto de observação do planeta Terra, a origem deste Universo vem de 13,7 bilhões de anos luz a nos separar do início de tudo, no “kosmos”. Cálculos físico-quânticos aplicados, tem sido comprovados com impressionante exatidão nas sondagens e viagens interplanetárias desde 1969, quando astronautas pisaram no solo da lua. Inúmeros fatos posteriores confirmam o acerto sobre o que se pensa do Universo também imaginado por Einstein e Planck (teoria da relatividade e física quântica). Estamos de frente para os céus infinitos. Contudo, não temos provas empíricas e completas do universo plural. Mas, do que tem acontecido no planeta, sobram as provas. Do homem, desde o salto da animalidade para a humanidade, pouco se pode esperar. É o maior dos predadores.

    Impressiona o terror ecológico? Muito pouco. Mas levanta perguntas. Por exemplo, o que se ouve sobre o clima já não corresponde às clássicas regras das estações do ano. Calor insuportável, uma vez, outra gelando regiões não afeitas ao frio. Que estaria acontecendo com o clima? São muitas as respostas. As interpretações variam tanto quanto as alternâncias. Refazem-se mapas da evolução do Planeta, para dizer que esses frios e calores excessivos não ameaçam a sobrevivência da humanidade. Será? Apóiam-se em dados indiscutíveis, os intérpretes. Nada a temer, dizem. Continuemos, o Planeta aguenta. Recursos tecnológicos em desenvolvimento garantirão a sobrevida na Terra.

    Mas outros, apocalipticos ecológicos, dizem: “a situação caminha para a irreversível destruição de toda a vida”. Se crescerem para além desse limite, as mudanças escaparão de nosso controle. Fim da linha, entramos em perigosa escalada no caminho da sustentabilidade do planeta Terra. Também se buscam pareceres de autoridades científicas, colocando-se acima dos dados de pesquisas otimistas, cercando-se de cientificidade, demonstrando a hecatombe ambiental para breve, se não houver uma “conversão” científica realista quanto ao destino do Homem e do Planeta.

    CATÁSTROFES, DIANTE DA ARROGÂNCIA TECNOLÓGICA

    As perguntas, contudo, são: O que é seguro? Que posição ética devemos tomar diante do imponderável, ou do que é realmente imprevisivel? Quando acontecem catástrofes – como as que vimos recentemente no Japão – o que se tem de fazer? Escolher minimizá-las e não sucumbir ao medo, ao terror diante das forças naturais. Há escolhas. Nenhuma delas excluirá a esperança da reconstrução, tendo em vista os seres que devem sobreviver, a despeito de todo obstáculo que se interponha entre a ganância do capital e a arrogância da técnica, desmoralizadas nesses eventos. Elas nada podem fazer. Nessas circunstâncias, somos lembrados das forças que atuam no Universo, não alcançáveis pela tecnologia ou pelo capital.

    De fato, há energias que estão acima de nossas capacidades de controle. Todavia, podemos ponderar sobre a Terra e reconstruir nossas relações com o planeta, de modo a respeitá-lo. Podemos reconstruir os sonhos que dignificam e redefinem a casa da humanidade. Devemos observar nossa interação com o mundo natural e redirecionar nossos esforços.

    Estrelas explodem, galáxias devoram umas às outras. Há 15 bilhões de anos, dizem os geólogos, a Terra se ajusta num constante desorganizar para organizar, regida por leis naturais. As mesmas que nos permitem observar as mudanças das estações. Os canais de televisão mostram cenas e memórias de outras catástrofes naturais igualmente devastadoras. O fio dessas calamidades naturais é longo. No Oceano Índico, em 2005, usou-se pela primeira vez a palavra “tsunami”.

    O impacto de um tsunami faz lembrar que a mãe Terra não suporta tudo o que se impõe a ela (J.Perkins). Imaginem se ela resistirá ao que temos imposto ao planeta, depredando-o e aviltando-o com a ganância que nos é peculiar! Porém, buscamos esclarecimentos racionais para o imponderável. Queremos entender os fatos perguntando sobre a cumplicidade de Deus. Uma inversão radical da questão. Por que Deus criou um mundo finito, vulnerável, que sofre? Por que o destino de cada astro ou estrela é desaparecer? Por que uma estrela morta há milhões de anos luz ainda brilha no céu? Por que existem terremotos e tsunamis? Deveríamos perguntar sobre o tratamento que damos ao planeta criado, quando o submetemos a danos irreparáveis.

    Insistimos em manter o mundo à espera, aguardando possíveis desastres nucleares e não assumimos nossas responsabilidades quanto ao futuro da Terra e a devastação ecológica de todos os dias. Podemos fazer um balanço do que temos feito e planejar ações para o futuro que nos espera, além das denúncias em relação ao que vem transformando o planeta num imenso depósito de lixo (Fukushima operava com lixo nuclear reciclado!). Não há nada que escape à voracidade do capital.

    O assunto pareceria anacrônico, se refletisse uma questão vencida anos anteriores à explosão religiosa carismática. É perda de tempo repetir os chavões da teologia intimista, salvacionista, conservadora ou fundamentalista. A compreensão negativa sobre Deus não pode apagar tudo, como juízo indesejável. Na Bíblia, há uma legião de fantasmas e monstruosidades atribuídas a Deus: o mandato (herem) justificado e expresso para o genocídio de povos inteiros, sem levar em conta inocentes, anciãos, enfermos, inválidos, mulheres e crianças; castigos coletivos até a “terceira e quarta gerações”, por autores que apresentam-se sob o “aval de Deus”. É assombroso que o rosto misericordioso do Deus Salvador seja escondido no esforço humano da vingança contra o semelhante. Envergonhamos Deus. Condenamos a história da fé e da salvação aos pântanos históricos do planeta.

    O horror de Hiroshima e Chernobyl são fantasmas da ameaça nuclear; Auschwitz, Ruanda, Timor Leste, Bálcans, da “limpeza” étnica, das sombras da crueldade humana. Tratam das profundas experiências da dor, encravada na consciência moderna. São milhões de mortos. Mas, onde está a Palavra de Deus para a salvação, ali está o Espírito. Deus cria por meio da Palavra (davar). Tudo é precedido da energia vibrante que traz a salvação. O mundo criado pelo fôlego de Deus estimula respeito e comunhão com os seres da criação. Deus respira por meio de toda criação (Moltmann), seres, raças, povos.

    A crise ecológica não deve ser separada da concepção do universo concreto: todos somos destinados ao mundo recriado (Ap 21). A Igreja e os crentes, como representantes da fé bíblica, não podem se esquecer que, no momento, “a criação geme (…) em dores do parto” (Rm 8.22, NVI) para uma nova realidade. O mundo do lucro, da exploração e da ganância, introduziu-nos num círculo vicioso, atraindo ou criando dívidas sociais e ecológicas ao mesmo tempo (2 bilhões de pessoas experimentam fome e endemias; 4 bilhões estão à margem dos recursos tecnológicos garantidores de melhor qualidade de vida, no planeta). Os limites das condições de equilíbrio chegam a uma situação drástica. A catástrofe maior da miséria, que atinge o fraco por deferência, também denuncia o descaso no qual vivemos. Faz parte da indiferença de toda a humanidade quanto ao seu futuro. Reflitamos.

    UM PARAÍSO INFERNAL!

    O Éden do capital permitiu prevalecer à sedução da serpente. Ignora-se a amizade de Deus, e sua insistência em salvar a Criação e salvar-nos. O resgate da grande utopia está no anúncio de Jesus: “liberdade para os cativos”; “vida plena e abundante” (Lc 4,16; Jo 10,10). Discípulos de João Batista perguntaram: És o Salvador? E ouviram: Vão, e lhe digam o que viram: os cegos vêem, os coxos andam, os mortos ressuscitam. Hoje, é muito mais difícil compreender a profunda experiência de mudança radical, no Evangelho de Jesus – um verdadeiro sobressalto nas ordens do Universo. A imagem do mundo em sua totalidade já não autoriza a opinião da centralidade do homem e da religião.

    De fato, os argumentos de todos os lados são duros e pesados. Nenhum nega os riscos existentes para a sobrevivência humana, e concomitantemente a manutenção da vida sobre o planeta inteiro. Alto lá, porém. Ainda não podemos falar em termos de Universo. Questão aberta desde Giordano Bruno, Copérnico, Galileu Galilei. O aquecimento global, porém, existe. E ninguém ignora suas causas, por exemplo. O modelo de desenvolvimento econômico desumaniza e ao mesmo tempo adoece a natureza toda. Inclusive a natureza humana. Estamos diante de exigências éticas, as quais devem ser consideradas agora, em relação ao presente e ao futuro imediato. Se a visão antropocêntrica ainda está em eclipse, o amor de Deus é que assombra. Dante Alighieri estava certo: “O amor é que move o sol e as estrelas” (Andrés Queiruga). Os poetas dos salmos sabiam que a majestade do céu, a vida da terra, faz crescer a erva dos campos, alimenta os pássaro do céu e os animais da selva, e anima o trabalho dos homens: “envias o teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.30). Há esperança para a Criação.

    O momento teológico tem conotações proféticas. O objetivo é debruçar-nos teologicamente sobre a ecologia, na perspectiva de uma ecoteologia. Proclamava-se em Belém (FSM): toda teologia contextualizada começa articulando seu discurso pelo “pré-teológico” ou pré-igreja cristã. Uma ecoteologia é necessária, valorando a Natureza em primeiro lugar, é a palavra de ordem? Não cremos. Observando a Criação por inteiro, o desafio é conhecer o complexo mundo da Natureza ou da Criação, sendo o Homem uma das peças desse Universo, servindo-se da mediação das ciências. Consequentemente, escutar a palavra da Biologia, da Física, da Antropologia e, mais indiretamente, da Sociologia, da Economia, da Geografia. Em resumo, em um primeiro momento, estiveram com a palavra os ecologistas, ambientalistas, os cientistas da natureza. Hoje, a Teologia tem o dever de assumir sua parte no debate.

    A ótica míope das ciências pode ser ampliada no diálogo com outros saberes, como a sabedoria popular, história da tradições pré-colombianas, também dotada de um logus, uma crítica inteligente não anticientífica. Como ler a realidade da ecologia? A leitura deve ser política, social, mental e integral. O diagnóstico que se espera se desdobra em paradigmas intrínsecos e inter-relacionados. As mesmas ciências que contribuíram para a destruição da natureza podem ajudar a salvar o planeta.

    A diminuição dos índices de biodiversidade diz respeito ao desaparecimento de espécies da fauna, da flora e de seus habitats, especialmente nas zonas tropicais e equatoriais, fruto da agressão humana sobre os ecossistemas terrestres e aquáticos. Por biodiversidade se entende: diversidade de espécies, diversidade de ecossistemas e diversidade genética. As cifras, neste campo, são aterradoras. Tudo o que existe merece existir, e tudo o que vive merece viver. Sem falar de outros sérios problemas ecológicos como a poluição das águas, do solo e do envenenamento dos alimentos, que afetam diretamente a saúde. Ou, então, da poluição visual, auditiva, do lixo, dos transgênicos. Já soou o sinal de alerta ao homo sapiens ou mais propriamente homo demens (Edgar Morin), como consta no relatório final do Fórum Social Mundial em Belém (2009).

    Vem-nos a mesa de trabalho a urgência teológica que induz ao exame de como o ser humano se relaciona com o planeta. As perguntas se fazem, a partir da busca das causas perturbadoras dos problemas ecológicos e ambientais através do clamor da própria natureza violentada. Uma causa próxima são as novas tecnologias, cada vez mais sofisticadas, numa relação de exploração irresponsável dos recursos naturais ou de uso indevido de novos produtos, como no caso dos descobrimentos da termodinâmica aplicados à refrigeração (cf. Relatórios do FSM em Belém).

    COMPETIÇÃO DE TECNOLOGIAS OU DE QUEM TEM MAIS FOME?

    A ponta da agulha se introduz no tecido para costurar outras questões, referente à tecnologia. Em princípio, ela é não é neutra, como querem alguns. Ao contrário, a tecnologia é instrumento do saber humano no controle das forças naturais. É exacerbada sua importância, quando desviada para o bem-estar artificial. Por que necessitamos de celulares multifuncionais, capazes de fotografar belezas incríveis no meio da floresta, se eles não atendem às necessidades dos milhões que padecem da fome, das endemias, da exclusão? Lemos revistas sobre informes científicos, e só vemos deslumbramento sobre a era pós-tecnológica. O Ocidente, campeão das novas tecnologias, prossegue na globalização da miséria enquanto sustenta a acumulação de bens para privilegiados no uso das riquezas existentes (dos 6,3 bilhões de pessoas, apenas 1,6). Oferece bem-estar localizado para ricos; tecnologias eletrônicas avançadas, saúde e medicina de alto preço, educação para postos de trabalho privilegiados; lazer de alto custo e alcance territorial. Porém, há 4,7 bilhões de deserdados ameaçados pela barbárie tecnocrática, 2 bilhões morrem de fome e brevemente perecerão de sede, se a contaminação ou esgotamento de mananciais formados através de milhões de anos prosseguirem no ritmo atual.

    Noutro sentido, por que valorizar a natureza como estática e intocável, se ela própria pode ser objeto participante das transformações na produção, com capacidade para a produção de energia e de alimentos para os tantos milhões de famintos e reclamantes de integração no moderno mundo das tecnologias do bem-estar? Voltadas para as necessidades que precisam ser atendidas quanto à produção de alimentos, habitação, urbanização humanizada, medicina de ponta socializada, até os mais baixos níveis de consumidores, não há o desvio de finalidade, quando ela só se justifica por oferecer lucro e capital? O assunto é vasto, uma vez que o mundo não pode retroceder à era pré-tecnológica, como já nos lembrava Jacques Ellul (A Técnica e o Desafio do Século, 1998). Sem dúvida estamos diante da necessidade de novos modelos de desenvolvimento e de novos sistemas econômicos, enquanto se buscam sustentabilidade e estabilidade social, face à extrema rapidez dos insumos tecnológicos.

    Leonardo Boff já lembrava (FSM de Belém), que o sistema entrou em profunda crise, pois já foi dado o alarme de que estamos consumindo 30% a mais do que o planeta Terra pode produzir. Hoje, 20% da humanidade consome 80% dos recursos do planeta, enquanto os demais 80% têm acesso a somente 20% dos bens. Segundo a FAO, hoje, há no mundo 930 milhões de pobres (pobreza absoluta: desproteção habitacional, sanitária, desnutrição famélica, etc.). O capitalismo alcançou a água, mas cooptou, como sempre, na história do mundo, a religião que defende o lucro e resultados financeiros. Tudo é produto de mercado. Tudo se vende. Tudo é feito mercadoria. Tudo é consumível. Faz-se muito dinheiro com a religião. Tudo é lucro, ganância, propositismo de sucesso numérico, como se a parábola das moedas escondidas resumisse o Reino de Deus. Não é a toa que a recente força evangélica que mais influencia o mundo protestante histórico dedica-se tão intensamente à mídia e ao potencial mercadológico das multidões.

    Crentes mercantilizam a religião. Há muito abandonaram a Reforma, a fé dos reformadores. Outros defendem-na sob ênfase ortodoxa, doutrinarista, iluminista, ou fundamentalista, sem dispensar o passado escolástico. Fogem da modernidade com discussões abstratas sobre princípios de fé. Parecem querer voltar ao século 16, pré-moderno, sem abdicar de templos climatizados, aparatos eletrônicos, comodidades e luxo modernoso. O consumo apresenta-se como irrefreável nos templos conservadores.

    É preciso olhar para o chão, portanto. O Planeta se torna cada vez mais inviável. O atual modelo de desenvolvimento, apoiado no sistema liberal capitalista e na orientação que se dá aos conhecimentos científicos, aponta para uma determinada visão de homem, da natureza e da razão. Em última instância, a causa primeira está no antropocentrismo ocidental, certamente ajudado por uma inadequada interpretação da tradição judaico-cristã, que tende a fazer do ser humano mais um “dominador” e explorador da Criação do que seu “guardião”.

    A vida que produz excluídos, tratada como “capital” (se não der lucro, deve ser desprezada; se útil para alguma coisa, “usela y tirela”). Abandona-se a austeridade, o uso racional dos recursos do planeta. Cada dia mais vai –se inviabilizando a vida humana, e com ela os ecossistemas. A lei suprema do mercado é a concorrência. Já a lei suprema do Universo é da cooperação entre todos. Solidariedade. A Natureza não pode competir com o Homem, porém, serve-o como escrava desde todas as eras. A não ser quanto às circunstâncias paleontológicas, geológicas, quando somos lembrados das forças que atuam no Universo, não alcançáveis pela tecnologia ou pelo capital. A ecologia mental nos remete, entretanto, às causas remotas da crise ecológica (cf. FSM de Belém).

    Do que mais incomoda, parques industriais estão lado a lado com universidades que pesquisam a biodiversidade. A razão instrumental técnica, antropocêntrica, ignora o ser humano como representante da vida natural e sua dependência da natureza. A prepotência da técnica prevalece, não defende o homem, mas os instrumentos que este criou para gerenciar o Planeta confirmam o dito: “comemos o que terminará por nos comer”. Lembramo-nos da parábola antiga, helênica: “O sábio, deslumbrava-se refletindo sobre o universo infinito; olhando para o céu enquanto caminhava, tropeçava e caía no abismo”. É preciso olhar para o chão, portanto. Evidentemente, porque o projeto do homo tecnologicus está ligado às conquistas técnicas, e não ao que poderia fazer pelo Homem, se assumisse a humanização contida na esperança.

    O valor utilitarista, use e jogue fora, alcança o ser humano em toda parte. Pragmatismo consumista. O que assistimos está longe de ser um mundo novo, reconciliado com o projeto de vida planetária reconhecido nas Escrituras. É preciso falar, também, de uma “ecologia dos sistemas de pensar”, o que nos devolvera a uma transcendência ao estilo do que sugeria Wittgenstein: “o fundamento do mundo que está fora (deste) do mundo”. A questão, portanto, não pertence ao mundo da técnica, mas ao mundo da ética. Estamos diante de uma questão antropológica. A sobrevivência do homem está na pauta das lutas ecológico-ambientais.

    Nas palavras de Luis Carlos Sussin (cit. Edgar Morin): “urge uma nova Antropologia, bem como uma nova Teologia, capaz de restaurar o ser humano no conjunto da obra da Criação”. Uma nova racionalidade que integre as ciências, inclusive a Teologia, e outros tipos de razão, é bem-vinda. A Humanidade e a Criação total agradecerão. A cordialidade, o cuidado com o ser humano total e o mundo criado, estão na pauta teológica em absoluta prioridade.

    *Texto sem revisão. A Revista, sob autorização, enxugou e publicou o texto. Agradeci o bom trabalho de Eduardo Galasso [ eduardogalasso@uol.com.br ].

    Referências Bibliográficas:
    Relatórios sobre o Fórum Social Mundial de Belém (Publicações disponíveis)
    Darcy Ribeiro, A América e a Civilização, Companhia das Letras, 2007
    Edgar Morin, La Via para el futuro de la humanidad, Paidós, 2011
    Jacques Ellul, A Técnica e o Desafio do Século, Paz e Terra, 1998
    Werner H.Schmidt, Introdução ao Antigo Testamento, Sinodal, 2004
    Walter Saas, Teologia Amazônica, Ecologia e Libertação, in: Nosso Planeta Nossa Vida, Paulinas, 2011.
    Mário Péres Pérez, A Terra, mãe da Humanidade, in: Nosso Planeta Nossa Vida,
    Paulinas, 2011.
    Mario Liverani, Para além da Bíblia, Loyola/Paulus, 2008
    Marcelo Barros, O Encanto das Águas, in: Água e Vida, Paulus, 2003

  2. lucas couto diz:

    Professor,
    o senhor considera que o velho testamento refere-se a fatos históricos e verídicos e a bíblia é um documento absolutamente inerrante? Porque? Se sim, como conciliar a ideia de um Deus de amor com a extrema violência presente na bíblia e a orientação divina sobre escravidão humana?
    Lucas Couto
    odontologo

    • NB – Ia me esquecendo de agradecer a importante pergunta. Vc é um leitor especial, deu-se ao trabalho de ler esse longo artigo e ocorreu-lhe perguntar (como são boas as perguntas num diálogo!…) sobre os fundamentamentos da teologia que abraçamos. Obrigadíssimo. Volte sempre e continue a perguntar.
      Derval

      • Lucas diz:

        Professor, sempre tão didático e profundo nas suas reflexões…parabens e obrigado. Entendo que nao és um fundamentalista, não reconhece o livro como documento inerrante, compreende todos os fatores e influencias culturais implícitas na narrativa e tudo isso é absolutamente ignorado ou relevado pela imensa maioria dos fiéis, que entendem o livro como a palavra de Deus e esse Deus é descrito como infinitamente benevolente.A interpretação do que seriam as ações divinas no AT retratam, na minha visão, uma moral absolutamente contrária a nossa, em nossa sociedade, em muitos aspectos. É por isso que no texto estão descritos genocídio, preconceito, guerra santa, disputa tribal, escravidão, intolerancia religiosa, violência extrema, etc. No entanto muitos desses absurdos são relatados como orientados pelo proóprio Deus, ações essas que nao podem, no meu universo moral, ser coerentes com a noção de um Deus de amor. E a visão do imenso “rebanho” de seguidores da fé judaico-cristã é de que, ao inverso, esse Deus é puro amor e maravilhoso em todos os aspectos. É por isso que esse assunto me fascina. Eu terminei de ler a biblia e a minha impressão é de que as proprias escrituras depoem contra esse Deus. Como atravessar séculos e continuar com a noção de um Deus de amor, se esse mesmo Deus é o realizador de desgraças e injustiças, a não ser com o uso de muita propaganda e estando ao lado do poder, como foi o caso da igreja catolica? O senhor crê no Deus de abraão? Ademais, nao entendo como um fiel, um religioso pode nao ser um fundamentalista. Não que eu apoie fundamentalismo religioso, eu o regeito, no entanto nao posso aceitar um judeu que come carne de porco. Não pode ser judeu se nao cumpre as regras do livro. Se desconstrói as escrituras, pode desacreditar de qualquer coisa. Por outro lado, nao é possivel que o fundamentalismo realmente ocorra em todos os aspectos…qualquer pessoa que seguisse ipsis literis todas as normas e condutas do AT estaria na cadeia. Religiao como objeto de estudo é fascinante, mas acho que já avançamos o suficiente para um debate aberto sobre a racionalidade e a lógica de continuarmos optando por crer em deuses.

        Lucas Couto
        lucas.couto@terra.com.br

        Resposta:
        Você ainda tem problema para resolver. Leu a Bíblia sem orientação teológica, parece-me. Se fez assim, agiu como fundamentalistas gostam, impondo conceitos como verdade particular: “a Bíblia se explica por si mesma”(no seu caso é um fundamentalismo às avessas, vc analisa a Bíblia com preconceitos, lendo-a de trás para diante, isto é: do conhecimento presumido, que certamente não tem – porque suas perguntas são inicialmente preconceituosas). É falso, o conceito, pois pressupõe, em primeiro lugar que o “sobrenatural” se encarregue a dar-lhe a interpretação “correta”, reforçando “doutrinas” racionalizadas pela escolástica agnóstica. Em segundo, que a leitura de superfície não é suficiente para que o leitor “conheça” a verdade… Então, conhecer um pouco da história de cada documento, nas suas discrepâncias, exigências literárias e filológicas, é inútil. Esse tipo de leitura ignora a “teologia” (consciência do agir de Deus e os modos como age, ou agiu, na história humana). E vc não discute o artigo em questão, usa-o como pretexto.

  3. RESPOSTA: Você parte de um preconceito. Nega uma tradição que vc não conhece, e parece nunca ter estudado. Claro que eu considero verdadeiros os escritos bíblicos, há provas arqueológicas, as comparações entre registros históricos são examinadas às centenas ou milhares, quanto às civilizações ou culturas contemporâneas aos períodos e autores bíblicos. Você não aceita a cronologia religiosa em Israel, descrita na Bíblia, porque não quer. Talvez por preconceito ou por uma ideia fixa sobre a não-existência de Deus (que eu não discuto aqui, em lugar nenhum; sou um crente, sou sociólogo da religião e teólogo, e não parto de qualquer princípio racionalista, filosófico, para examinar o assunto DEUS. Você fala de “bíblia”, eu falo de BÍBLIA – uma biblioteca sagrada de escritos autênticos, verdadeiros, com comprovação científica sobre as autorias, que o mundo acadêmico e as ciências bíblicas reconhecem. Se não é assim, porque vc perde seu tempo comigo?

    Há mulheres, sim, participando dos registros documentais na Bíblia, comprovam cientistas bíblicos, filólogos, linguistas, através exames comprobatórios em várias linhas de pesquisa documental; pesquisa cultural, concreta e material, por exemplo, dos textos massoréticos e especialmente as descobertas materiais denominadas “escritos do Mar Morto”, ou de Qunran), e de quantidades consideráveis de outros documentos da época. As versões contemporâneas da formação da Bíblia Hebraica, a Septuaginta em grego; o Targum em aramaico; a Pechitta; a Bíblia Siríaca dos séculos VI e VII, os Evangelhos de Rebula, e outros documentos também acrescentam conhecimento sobre a antiguidade e autenticidade da Bíblia.

    Supostas escrituras? Você não sabe nada do assunto, concluindo sozinho sobre grandezas acima de sua experiência ou intuição. Prova do divino? Que bobagem… Quem quer provar sobre a existência do divino, se o conceito refere-se a transcendências e grandezas espirituais acima da intuição racional. A honestidade da Bíblia é inegável, e ela não deixa de considerar a insensatez, a rebeldia humana quanto a um projeto acima da compreensão humana, de perdão, de misericórdia e reconciliação. Em nenhum momento nega a crueldade, a impiedade, a insensibilidade e ausência de compaixão entre os homens e mulheres. Os autores bíblicos, em boa parte dos escritos, recordam que o homem precisa ser salvo de si mesmo, de sua ganância e ambição de poder.

    Sim, em muitos momentos atos impiedosos, cruéis, buscam o “aval” de Deus, e até a justificação do mal que homens e mulheres praticam contra si mesmos. Vc não vislumbra a honestidade de quem observou isso no passado e não nega que, se há o mal, ele não procede de Deus. É uma afirmação grosseira, má interpretação, possivelmente desconhecimento de conteúdos literários constituintes da Bíblia, afirmar que a única fonte de afirmação sobre Deus é a Bíblia. Todas as tradições cristãs, desde o cristianismo da antiguidade, testemunham com excedentes que as realizações de Deus, reconhecidas pela fé, jamais poderiam ser “anti-éticas” ou “nefandas”. É preciso conhecer melhor a história das ideias, mesmo as que não procedem do Ocidente cristão, para se fazer esse julgamento com justiça e consistência. Lamento o falso apoio intelectual de quem afirma o contrário.

    • lucas diz:

      Professor,
      Toda ciência moderna do século XXI é unânime em desconsiderar como verdadeiros os eventos fantásticos e os milagres bíblicos…onde seriam necessário a suspensão das leis do universo para que acontecessem…a ciência é negadora da bíblia. Ciencia e religião são incompatíveis. O mestre afirma que a ciência corrobora com milagres? Se é isso que você considera, ficarei chocado, verdadeiramente. Voce pergunta porque perco tempo contigo…ora…o entendimento humano surge da discussão, do dialogo. Quão pouco filosófico você pode ser com esse questionamento…
      Autenticidade bíblica…? não questionei isso. Um texto escrito por parte de uma população basicamente do oriente médio, ignorante sobre todas as coisas relativas aos eventos da natureza, regida por dogmatismos selvagens, descrevendo sobre os mitos de sua cultura…e dai? Ademais, que são Mateus, marcos, Lucas e João? Ninguem sabe. E certamente eles não são testemunhas oculares.
      Depois você descarta a prova do divino como sem importância alguma. Não se importa que seu objeto de estudo possa ser inexistente. E tem fé…que é justamente a crença mesmo na ausência de evidencias. Porque acima do conhecimento humano? Voce teria que justamente provar que a bíblia não é um projeto totalmente humano para partir dessa premissa. Requer provas, evidencias. O que é um projeto de redenção, reconciliação, salvação acima da compreensão humana? Isso é subestimar a capacidade humana a respeito dos conceitos criados por ela mesma…se não for, precisa de provas. E não espere essas provas da ciência, ela é negadora do transcendental. Voce diz que o texto não nega a violência humana…o amigo não esta entendendo que o cerne de meu argumento é que os COMANDOS E ORIENTAÇÕES SOBRE VIOLÊNCIA SÃO DADOS POR DEUS, em grande parte. Ou aceitamos isso, ou rejeitamos as escrituras. Não é buscar aval de Deus, é o próprio Supremo que manda dizer ao povo como será executada a ordem.
      O amigo poderia citar fontes de informação sobre o Deus de Abraão e sobre Jesus fora da bíblia?
      Historias que não fazem parte do Ocidente Cristão? Bom, nos temos provas suficientes para aceitar que, ao contrario, na bíblia há eventos e crenças justamente importadas de outras culturas. Pascoa, por exemplo…vinda de costumes pagãos.
      Mas quando você diz que a mente de Deus não é imoral ou nefanda, é preciso contrapor isso com argumentos convincentes, porque as sagradas escrituras afirmam que ele é o idealizador de desgraças, genocídio e preconceito. Repito: se lá ele orienta sobre como punir e escravizar, porque não é anti-etico? Qual o contexto que você precisa pra aceitar seres humanos tratados como se fossem propriedade, sob ordem divina?
      Lucas

      Resposta:”O cerne de meu argumento é que os COMANDOS E ORIENTAÇÕES SOBRE VIOLÊNCIA SÃO DADOS POR DEUS, em grande parte”. ‘Como um agnóstico, como alguém pode dizer: Deus comanda orientações sobre violência?’ Pergunto eu e prossigo: É impossível responder a um racionalista não crente e satisfazê-lo. Principalmente se for agnóstico ou ateu, direitos de crença que não nego, que não devem interessar nesse debate. Vou resumir e encerrar a discussão, sem querer satisfazer o perguntante. Não presumo coisa nenhuma, como vc propõe. Nem parto de algum preconceito, intuição ou conceito não-científico ou filosófico sobre a Bíblia. Meu trabalho é teológico, amigo. Não faço especulações, lido com materiais existentes e devidamente analisados. Não discuto aqui uma doutrina de Deus, do homem ou do mundo. Quando me refiro a ciências bíblicas estou falando de história social, história da religião, linguagem, crítica textual, filologia, do povo referência da Bíblia e sua história cultural. Se vc lesse meus escritos sem preconceito ou conhecimento presumido (posso acrescentar: “sem presunção”), saberia o quanto considero as civilizações e as culturas paralelas até mais antigas que Israel. A propósito, “ciência moderna e filosofia unânimes contra a Bíblia é um disparate”, apenas mostram o primarismo de quem afirma essa bobagem arrogante e triunfalista. Acredito que vc deva sair do surto pseudo-conhecedor de assuntos que nunca estudou com seriedade. E aprender sobre o que quer discutir, principalmente no nível que quer alcançar.

      O que levo em consideração já está na introdução do artigo em questão, não em seus questionamentos, os quais não me interessam mais, visto que a repetição apenas reproduz preconceitos históricos, a partir do Iluminismo, séc.18. Com um agravante: não têm fundamento adequado.

      Devo dizer que não sou escolástico, nem ortodoxo, mas um pesquisador da teologia em todas as épocas. Aceito o criticismo histórico (crítica da forma), e insisto no necessário conhecimento histórico-linguístico-filológico da Bíblia, do ponto de vista das ciências bíblicas e das civilizações antigas, contemporâneas à formação documental da Bíblia. Também não sou criacionista, ao contrário, estou na contra-mão dessa tendência. Não me confunda. A fé não carece de provas. E chega.

      Suas perguntas e seus argumentos, que não são qualquer novidade, são primários. Até irrisórios, por falta de fundamentos bibliográficos adequados. Chega de intuições, não me interessam. A propósito, no artigo aqui comentado apresento uma bibliografia parcial, segundo as exigências dos editores. Se vc contesta meus conceitos, usa o seu direito, deve responder com igual teor metodológico (metodologia científica). Paz e Bem.

      Observação: Se vc escrever um artigo resposta será publicado aqui. Desde que realizado com a mesma metodologia científica da publicação aqui discutida. Farei com prazer.

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