COMO PILATOS ENTROU NO CREDO…


/ ultimatoonline / opiniao / o-evangelho-e-o-falso-moralismo

OPINIãO

O Evangelho e o falso moralismo

 “A droga é como o pecado de Adão, sempre existiu”; “a ONU declarava guerra à droga estimulada pelo moralismo religioso dos EUA…” “Guerra à droga?, a paz com usuários é que deve ser buscada”, diz o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (Quebrando o Tabu).  Toda guerra favorece à indústria da morte. Envolve interesses econômicos e oportunismo político. Matar, anular, castrar, reprimir, excluir, dessocializar, é o nome da guerra à droga. Criminalizando, quem lucra são os traficantes, o crime organizado e a polícia corrupta. Não sobrevivem sem a droga, seja  crack, cocaína, ópio ou heroína.  Quem não pensa nas consequências sobre a igreja, família, a comunidade, a sociedade,  a coletividade, necessita saber da “pacificação”  diante das drogas, e não da guerra. Não é o mesmo que preparar o Rio de Janeiro para a Copa do Mundo. Paz com as drogas significa compaixão, inclusão, aceitação, cuidado, misericórdia, e não condenação abstrata. Doentes precisam de tratamento e não de cadeia (ou condenação), onde a droga é liberada e consumida à luz do dia (Dráuzio Varella). Hospitais, ambulatórios, saúde assistida, são direitos humanos que devem ser buscados.

 Muitos movimentos e grupos religiosos, igrejas e ongs, mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como “laranjas” de causas eleitoreiras, servindo políticos inescrupulosos, enquanto recebem verbas do governo com propina garantida (10, 20%, depende…). Sujam dinheiro limpo. Diante das leis de repressão e violência inaceitáveis contra pessoas doentes ou drogadas, em dez anos, Portugal reduziu drasticamente o consumo de drogas cuidando do usuário com tratamento médico, e não apontando-o como criminoso (52% deixaram a droga). Enquanto isso, reduziu-se o campo de atuação do traficante. Dizendo não aos riscos da clandestinidade, a medicina regular é aberta aos que querem ser tratados. A maioria. 

Para o Evangelho, o “locus teologicus” é o despoderado (heb. anawin; greg. ptochos), encurvado, dobrado pelas circunstâncias, perseguido, humilhado pela própria vida. Na Bíblia, é o ignorado e desprezado pela própria sociedade (e o Estado). É o perseguido pela polícia e explorado pela polícia corrupta. Mas a sociedade religiosa é a primeira a excluí-lo e  identificá-lo como pecador, e eximir-se de responsabilidade e culpa pela injustiça. Prefere sustentar o preconceito… A compaixão escapa aos regimentos e declarações doutrinais em gabinetes eclesiásticos. Devemos nos surpreender  com isso, uma vez que a sociedade, biblicamente, é casa, lar, “oikos”. O “sócio”, συνεργάτης (sunergates), é o companheiro, um irmão de grupo numa mesma sociedade. Essas duas realidades fundamentais de todos os seres humanos encontram o sofredor  no usuário de drogas, no deficiente, no portador de HIV, no oprimido pelas enfermidades físicas ou sociais (cf. tabagismo, alcoolismo, drogadismo, sexoaholismo, etc.), no meio e junto ao grupo maior, o todo, a coletividade humana.

 Como dizia alguém, “o moralismo é o último refúgio de um canalha”, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias, corrupções, protegidas, ao abrigo de um suposto interesse coletivo por justiça  ou “transparência”. O político é contra a inclusão homossexual; usa a camisa preta contra a pedofilia, na campanha. Pego pelo Ministério Público roubando do erário sem qualquer pudor, mas permanece impune.  Depois, é premiado por mais um mandato pela comunidade evangélica. Nunca se compromete com leis de responsabilidade social para com o usuário de drogas, porque vive do assistencialismo oportunista. O mais inexpugnável dos inimigos da justiça é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas existe a voracidade insaciável e destruidora de uma “aids social”, de um “câncer dos costumes” (W.Siqueira), como se diz da droga.

Jesus declarou-se abertamente contra  a idolatria da letra morta, ou seja: a lei moralista (Mc 2.7) “…o homem não foi feito para o sábado”; ninguém foi feito para a lei! Declarações condenatórias engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo que ignoram o ser humano e suas necessidades, apontando subjetividades como: “na igreja não somos assim”. Repetem a oração do fariseu (Lc 18.9-14). Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade, porque esta omitia direitos fundamentais. O povo simples se encantava com a ousadia de Jesus expondo à luz do dia a ideologia religiosa reinante.

 “Hipócritas”, “túmulos brancos por fora, podres por dentro”, “tira primeiro a trave do teu olho, antes de julgares”… são imprecações de Jesus dirigidas aos condutores da sociedade religiosa, ou civil. Precisamente por isso Jesus lutou contra os demônios que dominam a consciência social; contra as ideologias instaladas nas sinagogas (qhal ou edah: igrejas judaicas), no Templo e na sociedade. Jesus não se identificou com propósitos religiosos moralistas no combate às doenças socializadas. Jesus não aprovou oportunistas da miséria, exploradores da credulidade popular, invadidos por “espíritos imundos”: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21.5).

É lavando as mãos que Pilatos entra no Credo. O caráter normativo (referência) do Evangelho há de nos lembrar: aos perseguidos, discriminados, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado… “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc 7.23). Nesta passagem se expressa o centro vital da mensagem de Jesus. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias (cf. 31.33). “Cada um levará a Lei  no coração”. Ou seja, terá consciência da justiça, das leis de responsabilidade social. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Nenhuma “lei” ou declaração religiosa moralista terá efeito sobre o que é responsabilidade do Estado. O fruto ruim nos obriga a uma nova semeadura para um mundo novo possível.

Derval Dasilio

Livro recente: O  Dragão Que Habita em Nós

Editora Metanoia

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

7 respostas a COMO PILATOS ENTROU NO CREDO…

  1. http://www.youtube.com/watch?v=3hx_k3_KP-M&feature=related
    Fernando Henrique Cardoso dialoga com jovens, sobre drogas, no programa Altas Horas, de Serginho Groismann.
    Posições avançadas e realistas sobre o problema social jogado pra debaixo do tapete. Igrejas precisam levam
    para dentro das comunidades a discussão realista sobre drogas. Para os que não sabem, Pilatos entrou no Credo lavando as mãos.

  2. Derval Dasilio
    O Dragão Que Habita em Nós, Editora Metanoia, 2010

    Livrarias com livros da Metanoia:
    Livraria Cultura – todo o Brasil
    Livraria Nobel – Barra da Tijuca RJ
    Livraria Bolívar – Copacabana RJ
    Livraria Café com Letras – Brasília
    Livraria Café com Prosa – Minas Gerais
    Livraria do Art Plex – Botafogo RJ
    Livraria do Museu da República – Catete RJ
    Livraria da UERJ – RJ
    Livraria Suzenis – Ceará
    Livraria GLS – Salvador BA
    Livraria GLS – Porto Alegre RS
    Livraria da Travessa – Rio de Janeiro
    Estante Virtual

    • lucas diz:

      Mateus 5:17-18, Jesus disse: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas, não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo, até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.” Seria apenas uma das contradições biblicas? o Mestre parece afirmar a lei, mas continua desconstruindo varias delas…acaba com a proibição do sabado, do divorcio, do apedrejamento…
      lucas.couto@terra.com.br

  3. sergio sena diz:

    Muito bom e verdadeiro.
    Lembrei-me de Jesus metendo o azorrague nos cambistas, que incluiam escriba e sacerdotes numa combinação do inferno para desviar o objetivo do átrio dos gentios. Usurpadores do direito de se ouvir a mensagem de se fazer conhecido o Deus generoso. Como Ele ficou furioso. O pecador vinha e não conseguia o perdão dos pecados porque o dinheiro não dava, a via era obstruida. Fico pensando hoje, quantos deles, supracitados, não têm também a via obstruidada pela moralidade vazia. E a ira de Deus…

  4. sergio sena diz:

    Quando aprendemos isso “Jesus é também representante do pensamento sobre a vida. Pensamento que prevalece na Bíblia Hebraica e se estende ao Segundo Testamento. O israelita pensava que a vida não é simplesmente a existência, ou a experiência humana individual e espiritual” (Derval Dasilio). Aprendemos que não podemos viver uma espititualidade desencarnada à parte do outro, cadê o outro, o próximo? Quem é que vai ser o próximo dele; do miserável, excluido, drogado homosexual? uma vez que Jesus veio para nos salvar? Na verdade ninguém tem essa moral de condenar ninguém e qualquer discurso de tom condenativo constituí-se um terror. Essa minha poisição decorre do mandamento, ” amai-vos uns aos outros” A grande questão é saber, aceitar, refletir, sobre quem é o outro. Jesus já nos disse quem é. Os recurso da igreja devem se destinar a essa finalidade: Salvar, estaurando a dignidade do ser humano através da mensagem do evangelho, considerando que a mensagem do evangelho para o faminto é pão; para o doente é remédio, para o ignorante a educação, para o orfão a família, enfim. Se ele ( o faminto) foi incluido no Reino, ( e a visão tem que ser de Reino mesmo, por isso que temos essas misérias no que tange às relações interdenomincionais) ele tem que ser digno de produzir o seu próprio pão, e isso ranca fora o mero assistencilaismo que as igrejas fazem para” lavar” suas “miseráveis” moedas. Não há nenhum interesse nessa reintegração social.

    Eu fiz essa leitura de seu último artigo na Ultimato, e estou aprendendo sempre.

    Grato Rv. Derval.

    • lucas couto diz:

      Quando o professor pergunta quem é o “proximo”, eu creio que, terminando de ler a biblia, em toda sua crua e primitiva narrativa, como era de se esperar, por todos os motivos, somos obrigados a concluir que o proximo refere-se a outro israelita que professava a mesma fé, seguindo os preceitos do Deus de abraão. É por isso que a ordem divina descrita é escravizar os estrangeiros, os povos conquistados, no mais explicito exemplo de acepção de pessoas (“…mas ao irmão israelita, ninguem domine com dureza o irmão”, orientava Moisés com toda sua benevolência). Não somente isso, a propria escravidão, ao invés de ser proibida, é normatiza pelo proprio Deus. Seria mais divino um mandamento assim “Não tratarás outro ser humano como se fosse propriedade sua”…ao invés disso, há um mandamento com uma folga para o escravo no sábado. Uma das piores misérias humanas sendo normatizada e estimulada pelo supremo, inclusive em relação a como aplicar os castigos fisicos, mas não a orientação de que é vil e nefasta. Talvez os escravos não fossem tão “proximos” assim… Quem é que vai ser o próximo do homossexual, que é condenado a pena de morte no pentateuco? Amai-vos uns aos outros, mas é dos estrangeiros que cobrarás juros. Amai-vos, mas a noiva que nao casar virgem será apedrejada na porta da casa dos pais. Amai-vos, mas quem tem defeito fisico e/ou membro viril amputado nao poderá fazer parte da assembleia do Senhor. Amai-vos, mas nao poupe o escravo da vara… Eu esperava que Jesus, que era um desconstrutor da lei em alguns aspectos, fosse amenizar a situação, mas ele afirma que tambem aprova a lei e fala da escravidão com a naturalidade que se poderia esperar, considerando a época. Se a visão do evangelho é remedio para o doente, todo o texto biblico em sua integralidade se esforça para reiterar que o doente é quem ousa duvidar. O cético, o pagão, o ímpio, esses sim, condenados sem apelação, porque não poderão se arrepender, como o estuprador e o assassino podem faze-lo, ao final e salvarem-se. Quem está convicto de sua dúvida ou da sua descrença de nada será lembrado ou perdoado, como diz o texto. Definitivamente não creio em amor compulsório. Viva o amor de quem sabe amar.
      Lucas
      lucas.couto@terra.com.br

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s