“VOCÊ É LIVRE!”: O QUE É SER LIVRE?


“O cuidar é universalmente humano. Ninguém pode cuidar de si mesmo em todas as situações. Ninguém pode, até mesmo, falar a si próprio sem que lhe tivesse sido falado por outrem” (Paul Tillich).

“CAPTIVO: VOCÊ É LIVRE!”: O QUE É SER LIVRE?

Ronaldo Sathler-Rosa *

O musical “Captivo”, exibido nos dias 3 e 4 de junho de 2011, em São Paulo, no Auditório Rui Barbosa da Universidade Presbiteriana Mackenzie, encerra a significativa mensagem da peça com a expressão “Você é livre!”. Instigado por essa apresentação resolvi anotar algumas considerações. Qual o sentido de “ser livre” na Bíblia?Em sua acepção mais básica, livre é toda pessoa que não é propriedade de outro. Ademais, é livre toda pessoa que rejeita qualquer dominação: por outro ser humano, pela cultura, pelo poder financeiro, pelos meios de comunicação social e outras. Livre é quem não se deixa ser manipulado como se fosse peça de um amplo esquema de colonização mental.

Livre é a pessoa que exerce seu pensar e sua capacidade crítica para identificar e descartar esquemas que escravizam o ser.Somos livres enquanto buscamos refletir a imagem de Deus em nós. Criados à “imagem e semelhança” de Deus (Gênesis 1. 26-27), portamos em nós mesmos, em alguma medida, a liberdade do Criador. A substância do que somos e nossa liberdade tem sua raiz no ato livre da Criação divina e na Graça manifestada em Jesus.A liberdade, no entanto, estrutura-se em torno da “lei”. A lei, no Antigo Testamento, tem caráter educador: objetiva a formação para a prática do bem (Deuteronômio 6. 1-7).O Novo Testamento refere-se à “lei do Espírito da vida” (Romanos 8.2), à “lei da liberdade” (Tiago 1.25; 2.12) e à lei como “forma de doutrina (Romanos 6. 17).

Todavia, a Escritura reconhece que o pecado, isto é, o afastamento do Criador, impede o exercício da autêntica liberdade (Romanos 7.19). Pela Graça, através da fé, em Cristo, a capacidade para ser livre e para a comunhão com Deus é recomposta. Em Jesus é livre quem conhece a Verdade (João 8.32).Já na tradição da filosofia política, Charles de Montesquieu (1689-1755), filósofo francês, defendia que a liberdade deve ser exercida sob a obediência as leis.

Entretanto, a conformação à lei requer que ela seja justa e que favoreça existência harmoniosa entre os membros de determinada sociedade. Na mesma direção, o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) reconhece que ao ajustar-se à lei a sociedade reconhece o predomínio da vontade geral sobre a vontade individual.

Ser livre, portanto, na vida em sociedade, significa exercer vigilância sobre as leis para que, verdadeiramente, promovam o bem de todos. Além disso, ser livre implica em exercitar a capacidade de distinguir entre as mensagens que tentam neutralizar a liberdade humana – “passadas” cotidianamente em conversas informais, nos discursos, pelo mundo das finanças e, inclusive das religiões – e aquelas condizentes com a vocação humana fundamental: viver em paz com o Criador, conviver com outros, viver em harmonia com a natureza e consigo mesmo.

A mensagem proposta no musical “Captivo” mostra que todos corremos o risco de sermos controlados por forças desumanizadoras no dia-a-dia e sugere a pergunta para nossa reflexão: você é livre?


* O  Site de Ronaldo Sathler-Rosa (Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança, Aste, 2002)  é impressionante, qualificado,  necessário, e até imprescindível, em termos existênciais. Recomendo, insisto com meus leitores sobre este colega da Universidade Metodista de Rudge Ramos, em S.Paulo. Publiquei esse texto sem autorização. Ele me compreenderá. O livro “Cuidado Pastoral em Tempos de Insegurança”, ASTE, 2004,  é um grande auxílio para quem trabalha a hermenêutica da fé. O leitor encontrará, além de exegeses preciosas sobre os fundamentos do “cuidado”, temas de interesse incrível a respeito de nossa formação cultural (ethos): Impermanências, Cultura das sensações, Desemprego, A Nova Era das Desigualdades, Competição, Insegurança. Essa obra é texto obrigatório no CFTRS (Centro de Formação Teológica R. Shaull / IPU / Presbitério de Vitória). Um instrumento valioso para debates na sala de aula, tanto quanto no discipulado das igrejas locais. Espero sua atenção e reflexão, leitor. Você não se decepcionará.
Derval Dasilio
Professor / Pesquisador  do CFTRS / Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Sobre Derval Dasilio

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