POR QUE A IGREJA NÃO É A PORTA DO CÉU?


OPINIãO

Os sonhos da humanidade e os caminhos da Igreja

Derval Dasilio

De onde surge a cizânia na Igreja (Mt 13.24-43)? Onde se semeia a discórdia? Temos a paciência do tempo,  esperança para confiar na conversão da cizânia em trigo bom para nosso povo e nossas comunidades? Lembrando Jacó, como reconheceremos que a Igreja é o lugar de Deus e porta para os “céus”, todos os céus, formas de bem-estar disponíveis desde a economia, e na participação das lutas e dos bens sociais? E, também, a partir da paz espiritual, o que se fará para alcançar dignidade, direitos humanos, cidadania,  como o hebreu Mateus identificou o Reino dos Céus? Como reconheceremos na Igreja um lugar sagrado no qual se vislumbre que o Reino de Deus é o  lugar onde se realizam os sonhos “impossíveis” (impossible dreams) da humanidade?

Jacó, que roubara a primogenitura do irmão, consegue a bênção do pai, Isaque, após ter enganado Esaú (Gen 28,10). Jacó foge do irmão que poderia matá-lo, pelo roubo da primogenitura. O texto descreve o deslocamento de Beer-Sheva para Haran. Trata-se, como se observa na tradução dos termos, “de um lugar para outro lugar”. Logo depois, Jacó “depara-se com ‘o lugar’ e lá se deita, porque caía o sol”. A construção hebraica é inusitada: “va-ifgá ba-makon”, quer dizer: foi pego, seduzido, atraído pelo sagrado do lugar. Que lugar é esse? O texto não esclarece, o contexto não ajuda.  Mas a noção do ‘lugar’ torna-se o drama concreto. Jacó não está simplesmente ‘num lugar’, mas ‘neste lugar’ (“bá makon há-hú”). É aqui que Jacó tem seu famoso sonho, no qual vê uma escada, e por ela subindo e descendo anjos.

Quando desperta, lemos: “Acordou Jacó de seu sono e disse: Certamente ‘há Deus neste lugar’ e eu não o ‘penetrava’”. André Chouraqui, teólogo judeu interessado também na exegese do Segundo Testamento, traduz o verbo “yaddá” tanto no sentido de ‘saber’ como no de ‘penetrar’. Esse entendimento bíblico da palavra ‘penetrar’ equivale a “conhecer” uma mulher penetrando-a. Uma sondagem do mundo criador, através do mergulho no útero matricial donde tudo se origina. Em seu momento de crise Jacó “penetra” no ”lugar”, no útero gerador das intenções de Deus. Busca o fundamento de tudo, e encontrando-o compreende: “quão terrível é este lugar”! O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação, porta do céu. Mas alguém já escrevera: “em Jacó também se cumpre o duplo movimento, saindo do espaço doméstico (igreja?), penetrando no interior profundo dos grandes sonhos da humanidade” (Luther King Jr.: “eu tenho um sonho…”, justiça para todas as raças). “Bet-el” (porta do céu) é o contrário de “Bab-el” (portal dos deuses). Na Bíblia Hebraica, “Bet-el” é um centro de expansão para os quatro pontos cardeais da Terra, no olhar de Abraão: “em ti será bendita toda a tua descendência…”.  Jacó, na verdade, agora, não foge do irmão. Ao contrário, caminha para Deus; quer entender as intenções  do Alto (Shöekel).

A humanidade quer ir sempre atrás da vida, da felicidade, da liberdade, dos grandes sonhos. A Igreja, ao contrário, parece esquivar-se. Sonhar com justiça social, inclusão, dignidade e amplo bem-estar social, vida plena e abundante (nada comparável ao egoísmo e ganância da religião da prosperidade!), faz parte do que anseiam homens e mulheres, onde quer que estejam. Infelizmente, quase sempre fora da Igreja. O sonho é alguma coisa que não se pode tirar de ninguém. Escravos sempre sonham a liberdade. Oprimidos pela violência das sociedades injustas; dominados culturalmente, explorados pelas estruturas de poder, sonhamos com a libertação. Na vida de fé, cristãos permanecem em situação teológica, espiritual. Não? Pois deveriam observar as intenções libertárias de Deus. Querer o “êxodo” bíblico. Sonhar  com as transformações, vislumbrar as possibilidades de um mundo novo reconciliado com o projeto de Deus. 

O egoísmo eclesiástico, porém, frustra os esforços para alcançar a utopia, contaminado por projetos de poder. Confiar no Espírito, como Paulo ensina, ajuda a sair do subjetivismo oportunista, individualista, para se poder encontrar realmente a plenitude de vida, que todos aspiramos, certamente. A ortodoxia doutrinária, a religião  da prosperidade, estão na Igreja, e dentro de nós mesmos, confundindo jovens e maduros. Encontramo-nos deslumbrados com falsos rasgos de networker modernity, eletrônicos, midiáticos, administrativos, terapêuticos. Um contínuo contratempo para a colheita da boa semente semeada (vida em comunhão, irmão!). A cizânia que cresce no meio do trigo mistura-se, mas terá de ser separada no tempo próprio. Não prevalecerá no campo de centeio.

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Uma resposta a POR QUE A IGREJA NÃO É A PORTA DO CÉU?

  1. Anónimo diz:

    OPINIãO
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    Os sonhos da humanidade e os caminhos da Igreja
    De onde surge a cizânia na Igreja (Mt 13.24-43)? Onde se semeia a discórdia? Temos a paciência do tempo, aguardamos com esperança e confiança a conversão da cizânia em trigo bom para nosso povo e nossas comunidades? Lembrando Jacó, como reconheceremos que a Igreja é o lugar de Deus e porta para os “céus”, todos os céus, formas de bem-estar disponíveis desde a economia, e na participação das lutas e dos bens sociais? E, também, a partir da paz espiritual, o que se fará para alcançar dignidade, direitos humanos, cidadania, como o hebreu Mateus identificou o Reino dos Céus? Como reconheceremos na Igreja um lugar sagrado no qual se vislumbre que o reino de Deus é o lugar onde se realizam os sonhos “impossíveis” (impossible dreams) da humanidade?

    Jacó, que roubara a primogenitura do irmão, consegue a bênção do pai, Isaque, após ter enganado Esaú (Gn 28.10). Jacó foge do irmão que poderia matá-lo, pelo roubo da primogenitura. O texto descreve o deslocamento de Beer-Sheva para Haran. Trata-se, como se observa na tradução dos termos, “de um lugar para outro lugar”. Logo depois, Jacó “depara-se com ‘o lugar’ e lá se deita, porque caía o sol”. A construção hebraica é inusitada: “va-ifgá ba-makon”, quer dizer: foi pego, seduzido, atraído pelo sagrado do lugar. Que lugar é esse? O texto não esclarece, o contexto não ajuda. Mas a noção do ‘lugar’ torna-se o drama concreto. Jacó não está simplesmente ‘num lugar’, mas ‘neste lugar’ (“bá makon há-hú”). É aqui que Jacó tem seu famoso sonho, no qual vê uma escada, e por ela subindo e descendo anjos.

    Quando desperta, lemos: “Acordou Jacó de seu sono e disse: Certamente ‘há Deus neste lugar’ e eu não o ‘penetrava’”. André Chouraqui, teólogo judeu interessado também na exegese do Segundo Testamento, traduz o verbo “yaddá” tanto no sentido de ‘saber’ como no de ‘penetrar’. Esse entendimento bíblico da palavra ‘penetrar’ equivale a “conhecer” uma mulher penetrando-a. Uma sondagem do mundo criador, através do mergulho no útero matricial donde tudo se origina. Em seu momento de crise Jacó “penetra” no “lugar”, no útero gerador das intenções de Deus. Busca o fundamento de tudo, e encontrando-o compreende: “quão terrível é este lugar”! O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação, porta do céu.

    Mas alguém já escrevera: “em Jacó também se cumpre o duplo movimento, saindo do espaço doméstico (igreja?), penetrando no interior profundo dos grandes sonhos da humanidade” (Luther King Jr., no famoso discurso “eu tenho um sonho…”, quando defendeu os direitos de todas as raças). “Bet-el” (porta do céu) é o contrário de “Bab-el” (portal dos deuses). Na Bíblia Hebraica, “Bet-el” é um centro de expansão para os quatro pontos cardeais da Terra, no olhar de Abraão: “em ti será bendita toda a tua descendência…”. Jacó, na verdade, agora, não foge do irmão. Ao contrário, caminha para Deus; quer entender as intenções do Alto (Shöekel).

    A humanidade quer ir sempre atrás da vida, da felicidade, da liberdade, dos grandes sonhos. A Igreja, ao contrário, parece esquivar-se. Sonhar com justiça social, inclusão, dignidade e amplo bem-estar social, vida plena e abundante (nada comparável aos sonhos de poder, no egoísmo e ganância da religião da prosperidade!), faz parte do que anseiam homens e mulheres, onde quer que estejam. Infelizmente, quase sempre fora da Igreja. O sonho é alguma coisa que não se pode tirar de ninguém. Escravos sempre sonham a liberdade. Oprimidos pela violência das sociedades injustas; dominados culturalmente, explorados pelas estruturas de poder, sonhamos com a libertação. Na vida de fé, cristãos permanecem em situação teológica, espiritual. Não? Pois deveriam observar as intenções libertárias de Deus. Querer o “êxodo” bíblico. Sonhar com as transformações, vislumbrar as possibilidades de um mundo novo reconciliado com o projeto de Deus.

    O egoísmo eclesiástico, porém, frustra os esforços para alcançar a utopia, a salvação do mundo, contaminado por projetos de poder. Cada igreja quer salvar-se a si mesma. Confiar no Espírito, como Paulo ensina, ajudar a sair do subjetivismo oportunista, individualista, para se poder encontrar realmente a plenitude de vida, que todos aspiramos, certamente. A ortodoxia doutrinária, a religião da prosperidade, estão na Igreja, e dentro de nós mesmos, confundindo jovens e maduros. Encontramo-nos deslumbrados com falsos rasgos de networker modernity, eletrônicos, midiáticos, administrativos, terapêuticos. Há escuridão quanto à justiça social. Breve, também estaremos como as igrejas européias secularizadas. Um contínuo contratempo para a colheita da boa semente semeada (vida em comunhão, irmão!). A cizânia que cresce no meio do trigo mistura-se, mas terá de ser separada no tempo próprio. Não prevalecerá no campo de centeio.
    Derval Dasilio
    É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).

    Textos publicados: 45 [ver]
    Site: http://www.derv.wordpress.com

    +Espiritualidade +Ética e Comportamento +Igreja e Liderança

    16 de agosto de 2011
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