Quem sou eu? Creio que nunca não saberei…


“O ser humano concreto é a coexistência de duas curvas, unidade tensa e dialética, jamais adequadamente equilibrada. Por um lado, centra-se sobre si mesmo, no intento de conservar sua carga energética (vida biológica), vivendo o mais longamente possível. Somos uma unidade tensa e difícil, irredutível, como em duas curvas na mesma mola. O ser humano não tem um corpo, ele é um corpo, uma realidade indefinível. Uma parte do meu ser, meu eu, percebe que na totalidade nem eu mesmo sei quem sou. Mas, pelo coração sou capaz de habitar nas estrelas e buscar os confins do universo e o que está para além dele”. Com estes pensamentos, Leonardo Boff me ajuda a entender minha chegada aos 71 anos. Permaneço admirado e apaixonado pelo mistério da existência.

 A vida está em si, mas também, e permanentemente, fora de si, nos outros, na criança que nasce, no mundo, nas estrelas, no universo desde o coração de Deus. E esse crescimento na compreensão das coisas, na vontade de entrar em comunhão com elas, na busca da perfeição, do belo e do virtuoso, não tem limites nem fim. Podemos crescer indefinidamente? As realidades humanas não padecem barreiras? Essas duas curvas instigam a pergunta e atormentam. Uma delas com princípio e fim, tendo o paralelo ao horizonte físico e humano.

A curva biológica quer elevar-nos como um corpo que compartilha no espaço a presença de outros corpos, enquanto dialoga com eles. Porém, chegamos ao ápice das energias que acumulamos, no universo físico e seus determinismos, e vamos decrescendo até acabar de morrer. Fisicamente. Mas também psicologicamente. Mais cedo ou mais tarde morrerei. O corpo e o ego irão de encontro à terra. Porque voltamos à linha do horizonte: “Deus sabe do pó do qual somos feitos”, no Salmo (130). Agora, de fato, não sei onde estou, mesmo sabendo que levarei minha morte comigo (Heidegger), quando eu me for.  Não deixarei essa preocupação para os meus amigos, que talvez me quisessem com eles para sempre. “Amigos para siempre”, como na canção.

Fernando Pessoa pode me ajudar? “Entre o que vejo de um campo e que vejo de outro campo, passa um momento uma figura de homens. Os seus passos vão com ele na mesma realidade, mas eu reparo: O homem vai andando com suas idéias, falso estrangeiro. Que perfeito que é nele o que ele é: o seu corpo, a sua verdadeira realidade”.  Então, devo levar a sério o caráter indispensável, se polarizar meu corpo e meu ser. O fundamento de mim mesmo é vigorosamente transparente no projeto de Deus para todos os homens e mulheres. Kierkegaard, que beleza… me ensina a ser humilde, que não posso conceber-me; que não sou infinito. Não pertenço a mim mesmo: “A perfeição do homem é necessitar de Deus”.

Certo. Mas a outra curva é infinita, possui um raio vertical apontando sempre para cima, como dizia Tillich. Por enquanto se reinicia outra elipse, como uma sucessão de curvas superpostas seguidamente. Cada vez que uma curva termina outra se inicia. Elas podem crescer mais e mais. O céu é o limite do ser. Céu é plenitude. Buscar a plenitude é buscar a Deus onde ele está, com toda a sua beleza. E ele está no Universo, na ética, nos seres criados. Paulo, o apóstolo, disse: “…então o veremos face a face”. A segunda curva, porém, é transcendental, vai nascendo até acabar de nascer… e nasce de novo cada vez que termina. Um reinício constante na direção da plenitude.

 Entregar-me ao “pânico metafísico”, e perguntar sobre o depois? Não. Devo admirar o mistério do ser e esperar alcançar mais uma volta nas curvas da vida. Até o ápice, se a velhice me der o tempo: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Agostinho). Viverei todos os meus dias buscando repouso neste mundo de incertezas, decepções, mas também de encantamentos e exultações nas grandes conquistas além dos montes elevados das utopias. João me conforta: “Caríssimos irmãos, somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não se manifestou” (1João 3,2). E Paulo dissera, antes dele: “Agora, o meu conhecimento é limitado, mas só depois conhecerei como Deus me conhece”.

(Acabo de completar 71 anos)

Derval Dasilio

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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