PÁSCOA. O SANGUE INOCENTE É DERRAMADO…


PÁSCOA. O SANGUE INOCENTE É DERRAMADO…

Não há qualquer dúvida, a centralidade do texto é a ressurreição do Senhor (João 20,1-18). O modo e o momento não são importantes. Escapam à descrição. Por quê? Certamente porque um ato de fé transcende à compreensão humana, a sensibilidade ao acontecimento da ressurreição e seus significados deve ser tudo que importa. De fato, deveríamos ser humildes e reconhecer que nada sabemos nem mesmo dos mais simples mistérios do mundo (Ferreira Gullar). Acontecimentos cada vez mais comuns, como o massacre no Realengo, Rio, nos reduzem à perplexidade. “O mundo habita na morte/pessoas armadas pra todos os lados/calibres pesados são apontados/pra sua cabeça noite e dia” (anônimo). Caem as máscaras que encobrem a falsa autenticidade, a realidade sai da nebulosidade: somos o que somos, sem mais recursos; sem maquiagens que possam esconder nosso verdadeiro rosto. Somos mortais e agentes da morte, quando coniventes com a indústria da morte (cf.Referendo sobre o desarmamento, 2005). Somos homens e mulheres num mundo onde a morte impera sob aceitação.

A concepção aceitável é que existem possibilidades, sempre, de se evitar ou prevenir o mal aleatório, interiorizado como pecado íntimo sujeito à conversão (metanóia). Como curar o mundo, porém, de enfermidades específicas onde se manifestam a morte e a violência? Sob pressupostos existenciais, é impossível ignorar irregularidades na mente e no corpo envolvidos com a destruição da vida. Elas se estendem à sociedade. O passado animal vem à tona, antes do homo sapiens, quando se reage à violência com mais violência. Todo esforço de comportamentalistas e terapeutas para superar a negatividade, a angústia, a alienação, o sentimento de culpa – ou da existência sem sentido – resulta em fracasso. São características humanas universais.

No Evangelho, o Ressuscitado se apresenta corporalmente, de modo gradual (Jo 20.1-18). Há sinais no sepulcro vazio: lençóis abandonados, o sudário deixado de lado. Há pessoas com mensagens, enquanto a descrição da cena vai crescendo, impactando; chamando mais atenção para o acontecimento inexplicável e extraordinário. O ritmo aponta o progresso da fé na ressurreição “impossível”: Jesus foi identificado, sua voz é reconhecida enquanto sua figura é seguramente visível; em seu corpo estão as marcas da paixão; os sofrimentos que o levaram à morte aparecem no corpo torturado. Jesus verdadeiramente ressuscitou, é a afirmação inquestionável do evangelista. O corpo do Cristo de Deus também exprime a liberdade contra as opressões e exploração dos corpos das pessoas, porque é visível, concreto, participante das realidades que matam os profetas da liberdade e da salvação.  

Corpos são visivelmente castigados pela prisão, pela tortura, pelo exílio, fome, doença; pelo descuido das políticas públicas (palafitas, esgotos a céu aberto; criminalidade urbana, violência contra inocentes, impunidade), sob controle de poderes mortais, forças bem visíveis que atuam nas realidades humanas. No entanto negadas por quem defende “inquestionáveis” avanços pagos com a morte. Na memória dos mártires, sabe-se que sem o corpo não se pode torturar ninguém, nem aprisionar, nem exilar, nem matar de fome, desnutrição e de doença socializada, ou qualquer outro assassinato do corpo (Günther Wolf).

As pulsões da violência e da morte não pertencem ao âmbito das decisões livres. Aí esbarramos com o realismo religioso, que almeja a conversão de pessoas e de sociedades (evangelical way) como solução. Equivocadamente. As respostas não são tão simples, quando envolvem a salvação do homem de si mesmo. A morte, no entanto, é um fenômeno mundano. A vida, ao contrário, é sagrada, propriedade exclusiva de Deus! (R.Bultmann).

Porém, de todas as crises (krysis), a morte é a mais decisiva da vida humana. Isso implica também em decisão, porque até aqui ainda se pode adiar, protelar, manter em luz-e-sombra o que fazer. Agora não há meio-termo. Não é mais possível flutuar na ambiguidade, é inevitável o desmoronamento do homem exterior (L.Boff). Mergulhadas no mais recôndito lugar, no interior obscuro de nossa humanidade, evocando o que não é consciente, individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões do que somos são expostas à clareza do sol do meio-dia. Produzimos a morte todos os dias. Somos coniventes.

Em Cristo, porém, homens e mulheres experimentam a ressurreição. A própria fé na ressurreição já é uma força que levanta os mortos e liberta de “ressuscitações”, falsas ressurreições no tempo provisório de todos nós. Assim, a ressurreição do Senhor Jesus Cristo é também a nossa ressurreição. Nós a comemoramos desde o Domingo da Páscoa.

Derval Dasilio

 

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a PÁSCOA. O SANGUE INOCENTE É DERRAMADO…

  1. Derval é sempre maravilhoso te ler… Que mensagem profunda. Nos faz pensar no quanto mudaram as posturas evangelicas nos ultimos anos… a total alteraçao do papel do amor, da paciencia e da esperança … dando lugar a Mamon… ao dinheiro e à cobiça pelo status quor… vaidade… Que o Cristo ressurreto possa fazer o amor resurgir em nosso meio…

    Mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho e obrigado por sua vida!

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