DO PODER EVANGÉLICO



O Brasil é um país tropical, como diz Jorge Ben Jor: “abençoado por Deus, e bonito por natureza. Mas que beleza!”. Carnaval, brasileiros, como tudo que há de diferente entre nós, comemos feijoada, vatapá, caruru, muqueca, pato ao tucupi, churrasco, tambaqui… e literalmente “dançamos”,  o ano inteiro. No resto do ano tem forró, rock, funk, gospel; somos católicos, protestantes, evangélicos, graças a “deus”. Continuamos dançando. Um paraíso! Mas só para os que acreditam. No entanto, não despregamos o olho das divindades que comandam esse modo cultural de agir. Aquelas que vagam em outros domínios espirituais e dirigem os sistemas de pensar, elegendo ou proclamando santos e puros… Acabou a CPI da Pedofilia… qual será a próxima?

Alugamos nossas mentes para a religiosidade que vê os males do mundo como castigo divino; que vê com naturalidade a legitimação e consolidação do poder dos fortes, aceitação das desigualdades, e a fraqueza dos empobrecidos. Não entenderemos a religião como expressão de sofrimento real em favor de causas justas; que a religião pode ser protesto contra as dores impostas por sistemas de pensar ajustados às opressões. A religião poderia ser o suspiro das criaturas oprimidas, inclusive nas manifestações populares. Mas teremos a Caminhada com Jesus, criada e comandada pelo bispo da Renascer, algemado eletronicamente nos EUA por crime fazendário. Doce prisão, Boca de Raton, Flórida, um refúgio de ricaços. Elegemos notórios corruptos para o Congresso. O “bloco evangélico” cresceu. Como diz Chico Buarque, somos “mascarados, amanhã tudo volta ao normal; deixa o barco correr…”.

Futebol, samba, carnaval e comida, fazem parte da vida do povo: “Pegue um punhado de feijão fradinho, acrescente cebola, pimenta e coentro”, temos os ingredientes para o acarajé. Inspiração africana que torna a vida mais saborosa. Caymi sabia das coisas: “todo mundo gosta de acarajé,/mas o trabalho que dá…”. Políticos e pastores evangélicos milionários o aplaudiriam? Conquistar esse povo não dá muito trabalho. Associar evangélicos recentes com o mercado da fé aberto à conversão religiosa é a maior moleza. Candomblé, pagode, samba, carnaval e suas irradiações, comparecem. Especialmente quando se disputa o poder nas urnas. Os mesmos que dormiram no ponto, firmados numa abstrata “reta doutrina”, sabem que não falo abobrinhas. O mundo evangélico mudou com as rupturas protestantes desde a década de 70.

Entre evangélicos convertidos na Bahia, o universo plurireligioso absorve culturas às quais se associam personagens e situações bíblicas. Filhas de Iansã – deusa do vento, esposa de Xangô, dono do fogo e do trovão – aderem aos simbolismos do Pentecostes, cultural e religiosamente, novidade evangélica das últimas décadas. Deus passa a ser concebido como no candomblé, em intimidades com orixás e simpatias para se obter dinheiro, quebrar tensões matrimoniais e resolver paixões impossíveis. No protestantismo conservador, ou progressista, ninguém pode influenciar o favor divino. Mas o novo evangélico inculturado na religiosidade pluralista nem está aí… Importa o diálogo profundo entre as divindades populares e o deus cristão ocidental (Roberto DaMatta). Simbolismos, amuletos, danças, descarregos, oferendas sacrificiais: dinheiro, residências, automóveis, jóias, caem muito bem aos evangélicos de hoje. A Igreja Universal evangélica acaba de ser condenada a indenizar uma fiel, acrescida de uma sentença de pensão vitalícia, por abuso religioso (A Tribuna, 25.02.11). Uma merreca. Tiram de letra…

Göethe, no Fausto, mostra o ser humano que vende sua alma a Mephisto. Os evangelhos apresentam Jesus fazendo o contrário, salvando o ser inteiro, inclusive a alma. Somos governados por gigantes interiores, uma fome interior insaciável; desejos reprimidos; medo de viver; ódio homófobo ao diferente; agressividade cega diante de obstáculos reais ou fictícios; paixão desenfreada em expressões degradantes. Avaliemos o tesouro íntimo que deve ser resgatado. Mas esse depósito pode ser um vulcão inativo pronto a irromper no mundo do crente tomado pelos poderes da morte. Não aprendemos as lições.

Das tentações infligidas ao próprio Jesus (Mt 4,9: “…terás tudo se ajoelhares diante de mim, e me adorares”), poder e riqueza não são mais manifestações que convidam à adoração do diabo. Não são poucos os crentes contemporâneos, evangélicos, que admiram pregadores que apóiam corrupção política, roubo, expropriação de direitos fundamentais, violência, crime contra o erário, acúmulo ilegal de riquezas, enquanto desprezam o resto da comunidade. Por que se interessariam pelas questões discutidas aqui, num tempo em que a fé e a ganância se confundem?

Derval Dasilio

Livro recente: O Dragão Que Está Em Nós

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Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a DO PODER EVANGÉLICO

  1. JUAREZ NICOLAU FILHO diz:

    PARABENS MESTRE DERVAL PELO SEU ESCRITO EM RELAÇÃO AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER,,PUDE OBSERVAR A PROFUNDIDADE DA REFLEXÃO. PAZ MEU AMIGO

  2. JUAREZ NICOLAU FILHO diz:

    BOA TARDE MESTRE DERVAL…SAUDADES DO SR°

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