CREIO EM DEUS!


Ultimato Online – OPINIãO

Creio em Deus!

O Deus no qual eu  que creio não se deixa aprisionar pela religião ou alguma igreja, mesmo quando ela o afirma como seu símbolo maior; quando batiza, celebra a eucaristia, faz casamentos, promove profissões de fé, ensina sistematicamente “doutrinas fundamentais” conservadas em formol. O divino transformado num pássaro empalhado. Creio, porém, no Deus que pousa como um pássaro vivo, livre no coração de todos os homens e mulheres, e que, principalmente, encanta as crianças, como os meninos e as meninas que o chamam de “Abbá” e “Paínho”. Deus que se oferece gratuitamente a filhos bons e maus, aos que se acreditam “salvos para sempre”, e aos que, sem saber de quê são salvos, por que são salvos, para quê são salvos, não perguntam sobre enquadramentos, fé eclesiástica ou doutrinária, mas recebem o Salvador e sua ternura gratuita.


Creio no Deus que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, na reforma no ser humano. Deus que existe no começo de uma utopia, um sonho novo, uma esperança, um devaneio libertário. Creio, como Jesus (Jo 3,3): é preciso desmontar a doutrina “ortodoxa” vigente, racionalizada, parafuso por parafuso, e construir tudo de outra maneira, nascer de novo; que, para compreender o Deus desafiador, imprevisível, irônico quanto ao saber humano, é preciso rasgar os projetos de dominação em seu nome; chutar as latas do lixo doutrinário, rir dos que querem engaiolá-lo, e debruçar-nos de novo sobre projetos libertários, de transformação do homem, da mulher e do mundo, seguir Jesus e a essência cristocêntrica que não está escrita em nenhum lugar.

Creio em Deus: “é preciso crer, sim, ninguém conseguirá ouvir ou ver, ou falar de Deus a não ser como pessoa libertada para a fé” (Karl Barth); que a fé é uma história nova a cada dia; que “a fé liberta homens e mulheres, juntos, pois ninguém se liberta sozinho” (Paulo Freire). Creio no Deus dos miseráveis, e mesmo dos pecadores que se acreditam perdidos e impotentes diante dos pecados do mundo, de todos, dos bem-postos, dos explorados, dos dominados pelo fatalismo supersticioso, dos que crêem na irreversibilidade do mal. Deus dos que demoram, dos indecisos, dos que adiam o que fazer da vida; dos que se mantém tristemente no meio-termo, em luz-e-sombra, na alienação; dos perdidos e tomados pelos abismos misteriosos da morte.

Creio no Deus que traz meus temores profundos à superfície,  e mostra as máscaras que encobrem minha falsa autenticidade; que me faz sair da nebulosidade; que me faz ver que sou o que sou, sem mais recursos, sem maquiagens que possam esconder meu verdadeiro rosto. Que você e eu somos mortais, num mundo que sufoca a vida e onde a morte parece querer reinar, com violência, preconceito, intolerância, injustiça, opressão e exclusão.

Creio no Deus que vem aos homens e às mulheres; que atrai, abraça, une nas suas causas da liberdade, de direitos e dignidade para todos os viventes. Creio que qualquer pessoa sensível que leia um jornal, sentirá angústia diante do panorama desenhado com os horrores que estão sobre nós; com os temores que nos tomam quando temos conhecimento de guerra nas favelas, violência doméstica, abuso e abandono da criança, crime organizado, fome no mundo, narcotráfico, meio ambiente degradado e entregue à ganância do capital. Creio na solidariedade de Deus com o oprimido, enquanto observamos pobreza e injustiça em níveis que extravasam a compreensão; enquanto mergulhamos no pior dos pessimismos, impermeáveis e céticos ao amor, ignorando o outro e a outra. Creio que precisamos de Deus, para reagir e acreditarmos num mundo novo possível.

Creio no Deus que se aninha no ventre da mulher sem-teto grávida, morta a tiros numa madrugada, entre outros que incomodam a sociedade com sua miséria, ou na mãe soterrada com os filhos nos deslizamentos de terra, resultado dos desmandos do mundo cada vez mais irresponsável e violento. Creio que Deus extrapola a nossa fé, discorda de juízos sobre “assassinatos necessários” (limpeza étnica, social, ideológica), e ri das pretensões humanas de conhecer e manipular a verdade e a justiça; que Deus vomita com os maus odores dos sermões moralistas, que tornam a salvação uma abstração desprezível, mas que se diverte com os vôos rasantes de urubus eclesiásticos em busca de carne podre, enquanto encobrem seus pecados por corporativismo.

Creio no Deus do profeta enlouquecido em razão da esquizofrenia alucinada de nossos dias. Deus da beleza ética que desnuda o realismo  áspero, pragmático, oportunista, propositista, e faz o amor brotar em densidade nos melhores valores éticos e estéticos que sustentam nossa espiritualidade. Que Deus está em tudo que é belo, inclusive a ética da vida. Que Deus nos torna capazes de saltos-mortais nas alturas, na corda-bamba; de  caminhar sobre o cordão invisível da vida real, sem duvidar das coisas que vêm depois do salto final.

Creio que Deus é um vento bravo que vira vendaval, que se anuncia como um grito de vida na terra dos mortos; não vai se acalmar enquanto se insistir em destruir a vida na terra. Deus é como correnteza de águas brotando dos mananciais subterrâneos: Água da Vida, símbolo da presença amorosa, do cuidado com a terra e com o rio da vida, que é manifestação da Fonte do grande Amor pela criatura e o mundo criado. Creio no que Jesus ensina, na relação intima com a vida, abrindo o caminho humano para a busca do Divino, e nos põe em comunhão com todas as coisas e com todos os seres do Universo. Água que é relacionada com o que há de mais sagrado: a vida, o todo, no profundo mundo interior de cada um de nós. Creio, é preciso ouvir o que disse Jesus sobre um futuro possível, a plenos pulmões: “Deus amou, ama e amará o mundo a quem criou, e tudo que nele habita!”.

Derval Dasilio

Livro recente: O Dragão Que Está Em Nós

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a CREIO EM DEUS!

  1. Lysias Garcia da Costa Junior diz:

    Se esse artigo tá assim tão bom, como não estará o livro? Ainda não o tenho, mas já está na lista para ser aquirido e comido à semelhança do profeta. Muito bom.

  2. Derval Dasilio diz:

    Obrigado. Você lerá o original antes da publicação.
    Serão algo em torno de 40 temas, em pequenas crônicas
    de uns 4.000 caracteres.

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