O MAIOR PREDADOR DA TERRA


Alguma coisa, que foi descoberta por Galileo (1564), através de lentes telescópicas precárias, compartilhada por Nicolau Kopérnico (1473), sob ameaças das fogueiras da Inquisição, vai favorecendo a concepção de amplitude do Universo. Ainda perturba, mesmo dispondo-se de um telescópio espacial como o Hubble. E já perguntamos sobre modernidade (pós-modernidade é um mito!), ecologia e sustentabilidade. Giordano Bruno (1548) – sacrificado como herético – e Kepler (1571) também faziam suas observações. Pensadores “perigosos” à fé escolástica, fonte do fundamentalismo moderno, descobriam que é preciso pensar sobre o Universo de outra maneira. Quando a Terra era imaginada como o centro de um universo ridiculamente ínfimo, limitado, como a astrofísica recente demonstra.

São quase 2.500 anos de questões levantadas sobre a infinitude do Universo, desde pensadores como Sócrates – sacrificado nos primeiros momentos do fundamentalismo histórico – e se descobriria que o uni|verso já não mais correspondia ao pluri|verso. O conceito de infinito na comunidade científica perturbaria o mundo religioso fechado, dogmático. Realçava uma grandeza maior para a Criação.

Porém, há medo no planeta. Desequilíbrios industriais, aumento da temperatura, bactérias poderosas aparecendo sem controle, doenças incuráveis, epidemias cíclicas. O planeta descobre-se como um imenso depósito  de lixo, dejetos e resíduos tóxicos, águas contaminadas. Milhões de pessoas são exterminadas por causa do desequilíbrio ambiental. Por que temer um meteoro como o que caiu há 65 milhões de anos exterminando os dinossauros? Que certeza temos sobre uma eventual dizimação da espécie humana, quando na era atual se ignora o direito à vida da Criação? Os riscos do momento, inegavelmente, pertencem à ganância dos projetos humanos. O homem é o maior predador existente no planeta. Precisamos absolver os demais. Voltaire (1694) diria: “Se é verdade que o homem é a imagem de Deus, é também verdade que Deus é a imagem do homem”. Quem vê no Criador um ditador implacável, que odeia o mundo criado, absoluto sobre a natureza, vê-se a si mesmo negando o amor uterino (rahamin) de Deus pela Criação, ignorando sua compaixão e solidariedade para com o Planeta violentado.

Medidas por meio da luz, analisando as emissões provenientes das distantes galáxias desde o ponto de observação do planeta Terra, a origem deste Universo vem de 13,7 bilhões de anos luz a nos separar do início de tudo, no kosmos. Cálculos fisico-quânticos aplicados tem sido comprovados com impressionante exatidão nas sondagens e viagens interplanetárias desde 1969, quando astronautas pisaram no solo da lua. Inúmeros fatos posteriores confirmam o acerto sobre o que se pensa do Universo  também imaginado por Einstein e Planck (teoria da relatividade e física quântica). Estamos de frente para os céus infinitos. Contudo, não temos provas empíricas e completas do universo plural. Mas, do que tem acontecido no planeta, sobram as provas. Do homem, desde o salto da animalidade para a humanidade, pouco se pode esperar. É o maior dos predadores.

O Ocidente prossegue na globalização da miséria enquanto sustenta a acumulação de bens para privilegiados no uso das riquezas existentes (dos 6.3 bilhões de pessoas, apenas 1.6). Oferece bem-estar localizado para ricos; tecnologias eletrônicas avançadas, saúde e medicina de alto preço, educação para postos de trabalho privilegiados; lazer de alto custo e alcance. Porém, há 4.7 bilhões de deserdados ameaçados pela barbárie tecnocrática, 2 bilhões morrem de fome e brevemente perecerão de sede, se a contaminação ou esgotamento de mananciais formados através de milhões de anos prosseguirem no ritmo atual.

O Éden do capital permitiu prevalecer a sedução da serpente. Ignora-se a amizade de Deus, e sua insistência em salvar a Criação e salvar-nos. O resgate da grande utopia está no anúncio de Jesus: “liberdade para os cativos”; “vida plena e abundante” (Lc 4,16; Jo 10,10). Discípulos de João Batista perguntaram: És o Salvador? E ouviram: Vão, e lhe digam o que viram: os cegos vêem, os coxos andam, os mortos ressuscitam. Hoje, é muito mais difícil compreender a profunda experiência de mudança radical, no Evangelho de Jesus – um verdadeiro sobressalto nas ordens do Universo.

A imagem do mundo em sua totalidade já não autoriza a opinião da centralidade do homem e da religião. A visão antropocêntrica ainda está em eclipse. Mas, o amor de Deus é que assombra. Dante Alighieri estava certo: “O amor é que move o sol e as estrelas” (Queiruga).  Os poetas dos salmos sabiam que a majestade do céu, a vida da terra, faz crescer a erva dos campos, alimenta os pássaro do céu e os animais da selva, e anima o trabalho dos homens: “envias o teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.30). Há esperança para a Criação.

[É imprescindível ler este artigo à luz da maior tragédia ambiental ocorrida recentemente nas Serras do Rio de Janeiro. Leia tb Leonardo Boff na Adital, artigo deste momento. As postagens q acrescentei nos comentários abaixo demonstram o q pensamos sobre o assunto: talvez a Teologia tenha mais a dizer do q as ciências ambientais].

Confira os comentários abaixo: Leonardo Boff fala sobre os rumos do planeta terra e do ser humano
Rogéria Araújo (ADITAL)

Derval Dasilio – ARTIGOS NA ULTIMATO ONLINE

Livro : O Dragão Que Está Em Nós (Metanoia – 2010)

Post Scriptum:

TSUNAMIS MOSTRAM QUE O HOMEM TAMBÉM NÃO PODE SALVAR-SE DE SI MESMO?

Quando acontecem catástrofes , como observamos agora mesmo no Japão, o que se tem de fazer? É escolher como fazer para minimiza-las, e não sucumbir ao medo, ao terror diante das forças naturais. As escolhas são variadas e abundantes. Nenhuma delas excluirá a esperança de reconstrução do mundo tendo em vista os seres que sobrevivem. A despeito de todo e qualquer obstáculo que se interponha. É durante do inesperado que nossas consciências  se envolvem com a intuição de humanidade comum. Todos os seres dependem de nossas atitudes  para com o planeta e o universo. O impacto de um tsunami faz-nos lembrar que a Mãe Terra não suporta tudo que a natureza adversa impõe sobre ela (John Perkins). Imaginemos se suportará o que temos imposto a ela, depredando-a e aviltando-a com a ganância.

Na verdade, passamos por um teste feito pela própria Terra. Nessas circunstâncias, somos lembrados de que não está sobre  nosso controle certas grandezas que atuam no Universo, acima de nossas capacidades de auto proteção e salvação. Mas podemos ponderar sobre como reconstruir nossas relações com a Terra, respeitando-a, e não explorando ou destruindo-a. Podemos reconstruir os sonhos que a dignificam, redefinir nossa interação com o mundo natural e redirecionar nossas energias, fazendo um balanço sobre o futuro que nos espera, em conjunto. Redefinir as regras de convivência com o mundo criado faz parte desse planejamento do futuro. Podemos sonhar, mas não é o bastante. É preciso agir agora, antes do que pode vir, e do que insistimos em ignorar.

“Há medo de algum cataclismo da natureza, mas dos provocados pelos desequilíbrios produzidos industrialmente. Sinais indicam desastres em curso, como o aumento da temperatura do planeta, a crescente poluição do ar e a contaminação acelerada das águas e dos solos cultiváveis. Quem poderá impedir que um eventual meteoro caia sobre a Terra, semelhante àquele que dizimou os dinossauros há 65 milhões de anos? Há medo generalizado de que os bilhões de famintos e excluídos não aceitem mais passivamente o veredicto de morte que pesa sobre eles. Quem nos garante que não venham forçar a criação rápida de uma outra ordem mundial que inclua a todos e  doenças incuráveis, de epidemias mundiais e do aparecimento de bactérias poderosas que podem exterminar milhões e milhões de pessoas”, escrevia  Leonardo Boff (O Senhor é meu Pastor, Sextante, 2004).

QUARESMA

Vitória, 12 de março de 2011


Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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6 respostas a O MAIOR PREDADOR DA TERRA

  1. Derval Dasilio diz:

    Ação social cristã — a humildade amorosa*
    Paul Freston

    Na edição anterior abordei a necessidade de “realismo teológico” e de “realismo sociológico” no exercício da ação social evangélica. Agora veremos o terceiro elemento: a “humildade amorosa”.

    Há anos leio os comentários dos autores patrísticos (os Pais da Igreja dos primeiros séculos da era cristã) sobre os evangelhos. Leio também os romances de um dos maiores escritores russos de todos os tempos, cuja visão de mundo é essencialmente cristã: Fiodor Dostoievski. Usarei frases de autores patrísticos e trechos de Dostoievski para uma melhor compreensão do texto dos evangelhos conhecido como “O Rico e Lázaro” (Lc 16.19-26).

    Gregório, o Grande, observa que “o Senhor menciona o nome do pobre, mas não o do rico; pois Deus conhece e aprova o humilde, mas não o orgulhoso”. Gregório associa “pobre” a “humilde” e “rico” a “orgulhoso”. Ambrósio, bispo de Milão, fala da “insolência e orgulho dos ricos, tão indiferentes à condição da humanidade, como se eles pairassem acima da natureza”. Ele ironiza o comportamento dos ricos que agem como se não fizessem parte da raça humana. Agostinho acrescenta que “a cobiça dos ricos é insaciável”. Há uma semelhança com a Teologia da Libertação.

    Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla, exilado por não desistir de criticar a corte do imperador bizantino, comenta que “o rico morreu, como diz o texto, mas sua alma já havia morrido. Assim como deitar fora do portão do rico aumentou a aflição do pobre, o desespero do rico no inferno é maior porque ele vê a felicidade de Lázaro”. Há um paralelismo: em vida, Lázaro sofria ainda mais, pois via todos os dias o contraste entre sua situação e a do rico. Agora, porém, está tudo invertido. Os tormentos do rico são maiores porque ele consegue ver o bem-estar de Lázaro. Ou seja, é um inferno apropriado, feito sob medida. “Estando o rico totalmente atormentado, somente os seus olhos estão livres”, diz Crisóstomo. E eles só conseguem ver a felicidade de Lázaro, o que apenas aumenta o tormento. “Veja agora o rico necessitando do pobre!” Evidentemente, estamos acostumados com outra situação. “E agora todos percebem quem era verdadeiramente rico e verdadeiramente pobre.” As máscaras foram tiradas e Crisóstomo faz até uma analogia: “Quando termina a peça, os atores retiram os trajes; da mesma forma, quando vem a morte, o espetáculo acaba e as máscaras da pobreza e da riqueza são tiradas, então os homens são julgados somente por suas ações”.

    Gregório diz ainda: “O rico no inferno busca uma gota d’água, ele que em vida nem queria dar uma migalha de pão. Porém, ele recebe uma retribuição justa — o fogo do desejo intenso”. Novamente a ideia de um inferno feito sob medida. Como frisa Crisóstomo, “ele não está no inferno porque era rico (afinal, Abraão era riquíssimo), mas porque não era misericordioso. E como sua língua havia falado muitas coisas orgulhosas, ele pede que Lázaro seja enviado para refrescar a ponta dela com o dedo molhado em água”. E a conclusão de Crisóstomo é que “onde está o pecado, aí está o castigo”.

    Gregório de Nissa confirma essa perspectiva: “O juízo de Deus é adaptado às nossas disposições. Como o rico não teve piedade do pobre, ele não é ouvido quando precisa de misericórdia”. Porém, diz Gregório: “Quando você se lembra de ter feito uma boa ação, tenha cuidado, porque existe o perigo de que a recompensa presente seja tudo o que você vai receber de recompensa!”. E ainda: “O justo pode até receber coisas boas aqui, em troca da sua bondade (embora nem sempre aconteça). Porém, ele não as recebe como recompensa, pois busca algo melhor, que é a recompensa eterna”.

    Finalmente, o texto afirma que entre o rico e Lázaro há um grande abismo, que simboliza a distância entre o justo e o pecador, entre suas disposições interiores. E tal abismo é descrito como “fixo”. É preciso entender a parábola como uma mensagem para a vida presente, não como uma descrição literal e detalhada da vida futura. Porém, como combinar isso com a crença num Deus que certamente é muito mais misericordioso do que nós? Se nós sabemos ser misericordiosos (às vezes e até certo ponto), quanto mais Deus! Além disso, ele é muito mais capaz de pesar os fatores psicológicos e sociológicos na biografia de cada pessoa. Ele conhece a fundo todos os fatores que influenciaram a vida de cada um e tiveram um peso em suas ações. Por isso, “o juiz de toda a terra fará justiça”.

    Há dois textos de Dostoievski em “Os Irmãos Karamazov” que também exemplificam isso. O primeiro é o comentário sobre essa parábola, feito por um dos personagens centrais do livro, que é um monge e conselheiro espiritual. Diz ele: “Eu pergunto a mim mesmo o que é o inferno. E defino assim: o inferno é o sofrimento por não poder mais amar. Uma vez [fazendo referência ao rico da parábola] um ser teve a possibilidade de dizer “eu sou e eu amo”. Uma vez somente foi-lhe concedido um momento de amor ativo e vivo. Para isso lhe foi dada a vida terrestre [que bela descrição do sentido da vida!]. Porém, esse ser repeliu esse dom inestimável e ficou insensível. E esse ser, tendo deixado a terra, vê de longe o seio de Abraão. Ele contempla o paraíso de longe. Porém, o que o atormenta precisamente é que se apresenta sem ter amado. E diz: “Agora a minha sede ardente de amor espiritual me abrasa”. O que abrasa o rico é justamente o desejo de amar, mas a impossibilidade de fazê-lo porque passou o momento. Ele desdenhou a possibilidade de amar na terra, quando era a hora de amar. “A vida que se podia sacrificar pelo amor já decorreu.”

    O segundo texto é a lenda da cebolinha, um relato russo contado por uma das personagens femininas de “Os Irmãos Karamazov”:

    Era uma vez uma mulher muito má, que morreu sem deixar atrás de si uma única boa ação. Os demônios a pegaram e partiram em desabalada carreira para o lago de fogo. Porém, seu anjo da guarda pensava: “Se ao menos eu pudesse me lembrar de uma boa ação que ela tivesse feito, iria contar a Deus!”. Recordou-se e disse a Deus: “Ela arrancou uma cebola na horta e a deu a uma pedinte”. Deus lhe respondeu: “Tente dar-lhe essa cebola no lago para que ela a agarre; se você a retirar, concordo que entre no paraíso; mas, se a cebola romper-se, então que fique onde está”. O anjo correu em direção à mulher e lhe apresentou a cebola: “Pegue-a”, disse ele, “e segure bem!”. Pôs-se a puxar com cuidado e a mulher emergia toda. Os outros culpados que estavam no lago, vendo que ela estava sendo retirada, agarraram-se a ela para poder sair também. Porém, a mulher era muito má e debateu-se para dar-lhes pontapés: “Sou eu que estou sendo retirada, não vocês!”. No mesmo instante em que lhes lançava essa observação, a cebola rompeu-se. A mulher caiu no lago e ainda está queimando. O anjo foi-se chorando.

    Certo livro acadêmico, ao comentar a obra de Dostoievski, diz que, “em última análise, o que selou o destino da mulher não foi a longa série de transgressões pessoais, mas seu egoísmo e o fato de ter se colocado contra os outros pecadores, ou seja, seu desejo de alcançar uma salvação individual, que abrangesse apenas ela e não os outros”. O autor ainda diz que Dostoievski iguala a mulher má da lenda e o monge citado, que era um grande santo. Pois o monge, já morto, aparece em sonho a um dos irmãos Karamazov e lhe diz que está no paraíso somente porque um dia ele também “deu uma cebolinha”.

    Walter Hilton, um grande místico cristão inglês do século 14, fala muito sobre humildade e amor. Sobre humildade, ele diz: “Quem possui essa única virtude, possui todas as outras”. A humildade é a chave; nada vale possuir todas as outras virtudes sem ela. Aliás, a ênfase nas virtudes soa estranha aos nossos ouvidos. Os pregadores dificilmente abordam a questão, e é por isso que a igreja evangélica nos causa tanta vergonha, pois não ensinamos o cultivo das virtudes. Walter Hilton acrescenta: “Se quiser construir um edifício alto de virtudes, coloque primeiro um alicerce profundo de humildade. Ela preserva e guarda todas as outras virtudes”. Ou seja, se não houver humildade, você pode até construir um edifício alto de virtudes; porém, no primeiro tremor de terra, seu edifício ruirá. Já vimos muitos exemplos disso e muitas vezes percebemos a mesma tendência em nós. “Sem a humildade, quem tenta servir a Deus tropeçará como um cego”. Há aqui uma mensagem para o cristão envolvido em ação social: “Meditar constantemente na humildade de Cristo ajuda a destruir os pecados graves e implantar as virtudes”. Isto é, ler constantemente sobre a humanidade humilde de Cristo nos evangelhos. “Vista a semelhança de Cristo, ou seja, a humildade e o amor. Sem isso, nenhuma obra o fará semelhante ao Senhor.” “Aprenda comigo”, diz Cristo, “não a andar descalço, ou a jejuar quarenta dias no deserto, ou a escolher discípulos, mas aprenda comigo a humildade. Este é o meu mandamento, que se amem uns aos outros como eu os amei. Nisso os homens saberão que vocês são meus discípulos, não porque operam milagres, expulsam demônios ou pregam e ensinam.”

    Concluindo, mais uma frase do monge de Dostoievski: “Pergunta-se por vezes, sobretudo em presença do pecado: ‘É preciso recorrer à força ou ao amor humilde?’. Não empregueis jamais senão esse amor; podereis assim submeter o mundo inteiro. A humildade cheia de amor é uma força tremenda, sem nenhuma outra igual”. O alicerce profundo da humildade amorosa é uma força tremenda! Que a identidade evangélica seja cada vez mais marcada por essa característica.
    (Nota: Artigo publicado na Ultimato Online. Paul Freston merece atenção. Suas análises do protestantismo brasileiro e da Igreja no Brasil são de alto interesse. Principalmente pela situação atual, onde nomes de grande importância na sociologia da religião têm debandado e, de alguma maneira, desistido de comparecer no debate “conservador” tradicional. Parece-me que é justamente aí que reside a esperança de transformações. O assunto Ação Social pareceria anacrônico, porque refletiria uma questão aparentemente vencida nos anos anteriores à explosão pentecostal, nas décadas 60,70 e 80 do séc.20? Para mim, Freston usa bem a linguagem tradicional, intelectualismo histórico, como Richard Niebuhr… Este anda esquecido. Ninguém reedita seu Cristo e Cultura, mas não houve obra maior, ainda, na abordagem da temática que ele desenvolveu. Leiam e meditem. Acho, porém, perda de tempo repetir os chavões da teologia protestante, inclusive o anacronismo do termo Ação Social, diante das tragédias ambientais do momento, no quintal de nossa casa… – Derval Dasilio).


    Créditos: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/acao-social-crista-a-humildade-amorosa/Paul+Freston

  2. Marcos Alexandre:
    Não consegui localizar seu artigo: “Mendigando uma migalha d’água…”
    Por favor, visite meu blog https://derv.wordpress.com/wp-admin/comment.php?action=editcomment&c=281
    Transcreva-o, por favor. Tenho muito interesse.
    Derval

  3. PARA ORAR:
    “O Deus, nós te damos graças por este universo, nosso lar; e pela sua vastidão e riqueza, pela exuberância da vida que o enche e de que somos parte. Nós te louvamos pela abóbada celeste e pelos ventos, grávidos de bênçãos; pelas nuvens que navegam e pelas constelações, lá no alto. Nós te louvamos pelos oceanos e pelas correntes frescas, pelas montanhas que não se acabam, pelas árvores, pelo capim sob nossos pés. Nós te louvamos pelos nossos sentidos: poder ver o esplendor da manhã, ouvir as canções dos namorados, sentir o hálito bom das flores da primavera. Dá-nos, rogamos-te, um coração aberto a toda esta alegria e a toda esta beleza, e livra as nossas almas da cegueira que vem da preocupação com as coisas da vida e das sombras das paixões, ao ponto de passar sem ver e sem ouvir, mesmo quando a sarça, ao lado do caminho, se incendeia com a glória de Deus. Alarga em nós o senso de comunhão com todas as coisas vivas, nossas irmãs, a quem deste a terra por lar, juntamente conosco. Lembramo-nos, com vergonha, que no passado nos aproveitamos do nosso poder maior e dele fizemos uso com crueldade sem limites, tanto assim que a voz da Terra, que deveria ter subido a ti numa canção, tomou-se um gemido de dor. Que aprendamos que as coisas vivas não vivem só para nós, que elas vivem para si mesmas e para ti, e que elas amam a doçura da vida tanto quanto nós, e te servem, no seu lugar, melhor que nós no nosso. Quando chegar o nosso fim e não mais pudermos fazer uso deste mundo, e tivermos de dar nosso lugar a outros, que não deixemos coisa alguma destruída pela nossa ambição ou deformada por nossa ignorância, mas que passemos adiante nossa herança comum mais bela e mais doce, sem que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade e alegria, e que assim nossos corpos possam retomar em paz para o ventre da grande mãe que os nutriu e que os nossos espíritos possam gozar da vida perfeita em ti.”

    Walter Rauschenbusch
    Trad. Rubem Alves

  4. Derval Dasilio diz:

    Leonardo Boff fala sobre os rumos do planeta terra e do ser humano
    Rogéria Araújo (ADITAL)

    As mobilizações sociais e os alardes sobre os prejuízos que a ação humana vem causando ao meio ambiente não foram suficientes para garantir o fechamento de acordos eficazes durante a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), concluída sexta-feira (18) em Copenhague, na Dinamarca.

    Os líderes mundiais demonstraram mais uma vez preferência pelo desenvolvimento do capital em detrimento da vida. Ainda assim, a postura de desdém para com os problemas climáticos do planeta não está engessando as ações da população na luta por pequenas mudanças. A evidência dada à causa ambiental tem servido para gerar consciência e, aos poucos, mudar maus hábitos de consumo. “O lugar mais imediato é começar com cada um”, acredita Leonardo Boff.

    Leonardo Boff – Chegamos a um ponto em que todos seremos afetados pelas mudanças climáticas. Todos corremos riscos, inclusive de grande parte da humanidade ter que desaparecer por não conseguir se adaptar nem mitigar os efeitos maléficos do aquecimento global. Não podemos confiar nosso destino a representantes políticos que, na verdade, não representam seus povos mas os capitais com seus interesses presentes em seus povos. Precisamos nós mesmos assumir uma tarefa salvadora. Cada um em seu lugar, cada comunidade, cada entidade, enfim, todos devem começar a fazer alguma coisa para dar um outro rumo à nossa presença neste planeta. Se não podemos mudar o mundo, podemos mudar este pedaço do mundo que somos cada um de nós.

    Sabemos pela nova biologia e pela física das energias que toda atividade positiva, que vai na direção da lógica da vida, produz uma ressonância morfogenética, como se diz. Em outras palavras, o bem que fazemos não fica reduzido ao nosso espaço pessoal. Ele se ressoa longe, irradia e entra nas redes de energia que ligam todos com todos e reforçam o sentido profundo da vida.

    Daí podem ocorrer emergências surpreendentes que apontam para um novo modo de habitar o planeta e novas relações pessoais e sociais mais inclusivas, solidárias e compassivas. Efetivamente, se nota por todas as partes que a humanidade não está parada nem enrijecida pelas perplexidades. Milhares de movimentos estão buscando formas novas de produção e alternativas que respondem aos desafios.

    Somente em ONG existem mais de um milhão no mundo inteiro. É da base e não da cúpula que sempre irrompem as mudanças.

    Adital – Nunca as questões ambientais estiveram tão em evidência como nos últimos anos. Termos como aquecimento global, mudanças climáticas apesar de vários alertas feitos há bem mais tempo, hoje fazem parte do cotidiano de muita gente em todo o planeta. Nessa “crise civilizatória” ainda há tempo para se fazer algo? De onde poderá vir essa “salvação”?

    Leonardo Boff – Se trabalharmos com os parâmetros da física clássica, aquela inaugurada por Newton, Galileo Galilei e Francis Bacon, orientada pela relação causa-efeito, estamos perdidos. Não temos tempo suficiente para introduzir mudanças, nem sabedoria para aplicá-las. Iríamos fatalmente ao encontro do pior. Mas se trocarmos de registro e pensarmos em termos do processo evolucionário, cuja lógica vem descrita pela física quântica que já não trabalha com matéria mas com energia (a matéria, pela fórmula de Einstein, é energia altamente condensada) aí o cenário muda de figura.

    Do caos nasce uma nova ordem. As turbulências atuais prenunciam uma emergência nova, vinda daquele transfundo de Energia que subjaz ao universo e a cada ser (chamada também de Vazio Quântico ou Fonte Originária de todo ser). As emergências introduzem uma ruptura e inauguram algo novo ainda não ensaiado. Assim não seria de se admirar se, de repente, os seres humanos caiam em si e pensem numa articulação central da humanidade para atender as demandas de todos com os recursos da Terra que, quando racionalmente gerenciados, são suficientes para nós humanos e para toda a comunidade de vida (animais,plantas e outros seres vivos).

    Possivelmente, chegaríamos a isso face um perigo iminente ou após um desastre de grandes proporções. Bem dizia Hegel: o ser humano aprende da história que não aprende nada da história, mas aprende tudo do sofrimento. Prefiro Santo Agostinho que nas Confissões ponderava: o ser humano aprende a partir de duas fontes de experiência: o sofrimento e o amor. O sofrimento pela Mãe Terra e por seus filhos e filhas e o amor por nossa própria vida e sobrevivência irão ainda nos salvar.

    Então não estaríamos face a um cenário de tragédia cujo fim é fatal mas de uma crise que nos acrisola e purifica e nos cria a chance de um salto rumo a um novo ensaio civilizatório, este sim, caracterizado pelo cuidado e pela responsabilidade coletiva pela única Casa Comum e por todos os seus habitantes.
    [Extrato: Derval Dasilio – leia na íntegra na ADITAL; observe o q escrevi acima, no artigo, sobre a Física histórica, seus vultos, e o momento presente, sob a tragédia das Serras do Rio de Janeiro: sustentabilidade e políticas ambientais tornam-se urgentes]

  5. Derval Dasilio diz:

    O preço de não escutar a natureza
    por Leonardo Boff

    O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

    Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

    A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrário, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

    Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

    Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam.

    Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d’água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

    No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

    Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

    Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

    Leonardo Boff é filósofo/teólogo
    Site:http://www.leonardoboff.com.br

  6. Derval Dasilio diz:

    Justiça social-Justiça ecológica
    Leonardo Boff

    Entre os muitos problemas que assolam a humanidade, dois são de especial gravidade: a injustiça social e a injustiça ecológica. Ambos devem ser enfrentados conjuntamente se quisermos pôr em rota segura a humanidade e o planeta Terra.

    A injustiça social é coisa antiga, derivada do modelo econômico que, além de depredar a natureza, gera mais pobreza que pode gerenciar e superar. Ele implica grande acúmulo de bens e serviços de um lado à custa de clamorosa pobreza e miséria de outro. Os dados falam por si: há um bilhão de pessoas que vive no limite da sobrevivência com apenas um dólar ao dia. E há, 2,6 bilhões (40% da humanidade) que vive com menos de dois dólares diários. As consequências são perversas. Basta citar um fato: contam-se entre 350-500 milhões de casos de malária com um milhão de vítimas anuais, evitáveis.

    Essa anti-realidade foi por muito tempo mantida invisível para ocultar o fracasso do modelo econômico capitalista feito para criar riqueza para poucos e não bem-estar para a humanidade.

    A segunda injustiça, a ecológica está ligada à primeira. A devastação da natureza e o atual aquecimento global afetam todos os países, não respeitando os limites nacionais nem os níveis de riqueza ou de pobreza. Logicamente, os ricos têm mais condições de adaptar-se e mitigar os efeitos danosos das mudanças climáticas. Face aos eventos extremos, possuem refrigeradores ou aquecedores e podem criar defesas contra inundações que assolam regiões inteiras. Mas os pobres não têm como se defender. Sofrem os danos de um problema que não criaram. Fred Pierce, autor de “O terremoto populacional” escreveu no New Scientist de novembro de 2009: “os 500 milhões dos mais ricos (7% da população mundial) respondem por 50% das emissões de gases produtores de aquecimento, enquanto 50% dos pais mais pobres (3,4 bilhões da população) são responsáveis por apenas 7% das emissões”.

    Esta injustiça ecológica dificilmente pode ser tornada invisível como a outra, porque os sinais estão em todas as partes, nem pode ser resolvida só pelos ricos, pois ela é global e atinge também a eles. A solução deve nascer da colaboração de todos, de forma diferenciada: os ricos, por serem mais responsáveis no passado e no presente, devem contribuir muito mais com investimentos e com a transferência de tecnologias e os pobres têm o direito a um desenvolvimento ecologicamente sustentável, que os tire da miséria.

    Seguramente, não podemos negligenciar soluções técnicas. Mas sozinhas são insuficientes, pois a solução global remete a uma questão prévia: ao paradigma de sociedade que se reflete na dificuldade de mudar estilos de vida e hábitos de consumo. Precisamos da solidariedade universal, da responsabilidade coletiva e do cuidado por tudo o que vive e existe (não somos os únicos a viver neste planeta nem a usar a biosfera). É fundamental a consciência da interdependência entre todos e da unidade Terra e humanidade. Pode-se pedir às gerações atuais que se rejam por tais valores se nunca antes foram vividos globalmente? Como operar essa mudança que deve ser urgente e rápida?

    Talvez somente após uma grande catástrofe que afligiria milhões e milhões de pessoas poder-se-ia contar com esta radical mudança, até por instinto de sobrevivência. A metáfora que me ocorre é esta: nosso pais é invadido e ameaçado de destruição por alguma força externa. Diante desta iminência, todos se uniriam, para além das diferenças. Como numa economia de guerra, todos se mostrariam cooperativos e solidários, aceitariam renúncias e sacrifícios a fim de salvar a pátria e a vida. Hoje a pátria é a vida e a Terra ameaçadas. Temos que fazer tudo para salvá-las.

    Leonardo Boff é autor de Opção-Terra: a solução para a Terra não cai do céu, Record (2008).

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