INDIGNAÇÃO!


2/10/2010

INDIGNAÇÃO!

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INDIGNAÇÃO!

Faltam poucos dias para comemorarmos a Natividade do Senhor. No Advento se anuncia que o Senhor vem. Isaías sonha utopias maravilhosas, são o seu forte (só ele usa a palavra “evangelho” no Antigo Testamento!); pensa sobre a volta ao Paraíso inicial, como está nos primeiros capítulos do Gênesis (Is 11.1-10), também. Falamos de utopias sobre a natureza devastada, meio-ambiente degradado, saúde pública, habitação e favelas; falamos dos sonhos dos homens e mulheres de bem, nem sempre cristãos. Esperamos, porém, com impaciência, o dia de justiça para os despojados, os humildes e humilhados à margem da história, na favela do Alemão ou num cortiço de Bangladesh. Plenamente. Como nos símbolos bíblicos dos animais selvagens, ferozes, que convivem, comem, pastam com os animais domésticos e mansos, na visão de Isaías. Não há lugar para a violência e a guerra, nem para as lágrimas ou a dor, nessa mensagem evangélica. É tanta paz que um menino pequeno será capaz de pastorear até os animais da selva de concreto. Um sinal reunirá todos os povos reconciliados entre si. Neste tempo de Advento, essa tarefa é entregue ao povo de Deus, mais como uma oferta do que uma exigência.

Outras paisagens são também vislumbradas nesse tempo, visando a aposentadoria do Fórum Social Mundial e suas queixas: trabalho humanizado com justiça ao trabalhador, jornadas com descanso adequado; um mundo sadio, em toda parte, a fome e doenças endêmicas sob controle, médicos e hospitais para todos; paz mundial, bem-estar político, nações cooperativas entre si, para uma socialização mundial do atendimento das necessidades humanas: habitação, trabalho humanizado para todos, acesso ao lazer, acesso à cultura e ao desenvolvimento em todos os níveis. Especialmente quando a sociedade global trocou tudo isso pelo consumismo desenfreado e sem consequência. Menos para as elites privilegiadas de todos os tempos. Elas nunca se queixam de seu poder – a não ser para aumentá-lo – em todos os campos: lazer de alta qualidade, planos de saúde de alto alcance, escola, mão-de-obra doméstica barata. São prêmios que nunca lhes faltam.

Prestamos um pouco mais de atenção sobre o que realmente devemos esperar da sociedade civil, e da própria igreja que vive como ela quando um secretário de governo confirma: “comprar a justiça tornou-se o esporte preferido das elites econômicas, não há um só caso de corrupção sem que juízes, desembargadores, advogados gananciosos, estejam envolvidos”. Ministros de Estado aparecem frequentemente ligados a escândalos financeiros, políticos corruptos sempre reeleitos. Igrejas pregam a mensagem de ajuste ao sistema… privilégios para as elites econômicas (neste momento, o seguimento armado do crime organizado plebeu, no Rio de Janeiro, está merecendo a atenção da nação inteira, numa verdadeira guerra; pergunta-se sobre o setor aristocrático…).

No evangelho (Mt 3.1-12), João Batista anuncia a iminente chegada do Messias. Esta “voz no deserto” convida o povo ao batismo (batizo) da conversão, uma mudança que comporta arrependimento: “mudem de vida porque o Reino de Deus já chegou”.  Mais que moral, esperamos uma conversão ética, quando buscamos princípios que norteiem e amparem a sociedade toda, no sentido da sustentação da vida. Neste Advento devemos refletir sobre a luta contra os poderes da morte. Quando há descontrole daqueles que legislam ou governam; quando inocentes são assassinados, escravizados, vendidos; quando se destrói, ou quando alguém se apossa do bem comum, da natureza ou da economia social; quando as máfias das armas; quando traficantes de drogas, de gente, de crianças, de trabalho escravo e da prostituição infantil, se impõem como um poder dentro da sociedade inerte, seremos eticamente intolerantes e indignados?

Quando se aprovam agressões (ver os jornais do dia: violência intra e extra-familiar, jovens espancados nas ruas), em parcialidade preconceituosa contra irmãos homossexuais eticamente desprotegidos; quando mulheres, crianças, adolescentes são abusados e violentados; quando se mata alguém pela suspeita, por vingança, como na pena de morte oficial ou extra-oficial; quando pessoas são mutiladas, torturadas, em nome de preconceitos ancestrais, seremos eticamente intolerantes e indignados? No entanto, é tempo de indignação e oração, como nos inspira o Advento do Senhor Jesus Cristo. O Senhor vem para nos socorrer!

Derval Dasilio – Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

Professor no CFT-Richard Shaull/IPU

Autor do livro O DRAGÃO QUE HABITA EM NÓS (2010)

Visite:

http://www.ipu.org.br/liturgia.html

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O VOTO EVANGÉLICO É DIFERENTE DO CATÓLICO CONSERVADOR?

Paixões, como não tê-las? A questão de fundo diz respeito aos interesses do Brasil e da sociedade brasileira – Estado laico e sociedade secular, pois não temos uma teocracia, apesar das reivindicações dos líderes evangélicos Silas Malafaia, pró-Serra, e Edir Macedo, pró-Dilma, como novos apóstolos de Jesus Cristo ou do diabo (nas suas versões dos candidatos!). Somos também uma sociedade culturalmente pluralista, entre moderna e arcaica, levando em conta os muitos brasís, de norte a sul, de leste a oeste. Respeitável aos católicos é a declaração do presidente da CNBB, D.Geraldo Lyrio, com a frase  católica, partidarista: “O Estado é laico, mas o povo é profundamente religioso”. Para ele o povo católico deveria ter uma “opinião religiosa” pró-Serra, representante de Jesus Cristo, como nos folhetos e pronunciamentos dos padres da Canção Nova.

Além da opinião política sobre questões que são candentes e muito discutíveis na sociedade brasileira,desde espíritas, afroreligosos, evangélicos, protestantes históricos, a Igreja, quando fala de política, sempre é teocrática, mas sem autorização de Deus…creio eu. “Política partidária constitui divisão por excelência”. A frase é de João Heliofar. Esquecemos a história? A Igreja, desde Constantino, séc.4, quando estatizada, sempre opina a favor do Estado. Nem Calvino nem Lutero livraram-se disso, na Reforma (o primeiro sob regime republicano suíço e o segundo sob a monarquia rebelde dos príncipes alemães). O movimento separatista protestante, na Igreja Anglicana do séc.17, que gerou batistas, congregacionais, presbiterianos, libertários, tinha o foco da participação no Parlamento. Falar de um princípio divisionista na política e isentar a Igreja do momento político, como se não houvesse disputa de poder em toda ou qualquer igreja denominacional. Uma ingenuidade infantil.

As realidades são equivalentes, talvez. Evangélicos e católicos ingressam definitivamente na luta política. Onde há poder, influência política e dinheiro tem católico e evangélico farejando, como hienas. O papa ajudou sem querer a eleger Dilma, quando fez um pronunciamento a pedido da CNBB. Mas carismáticos já tinham decidido. Ligados à força da religião autoritária do pastor midiático Silas Malafaia e de Bento XVI regiram a ambos e votaram em Dilma Roussef (pesquisa recente entre jovens brasileiros também mostra o quanto Malafaia é admirado por evangélicos históricos http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/326/um-retrato-da-juventude-evangelica-crencas-valores-atitudes-e-sonhos).  É no que dá quando se apela para a teocracia. O problema está com o “deus” deles. O Mistério, contudo, é que não se pode manipular o Deus da fé.

Na história da humanidade, nenhum homem ou mulher pôde ser apontado como agente de Deus. Nenhum era indispensável, nenhum foi decisivo para o projeto libertário e salvador de Deus em Jesus Cristo. Mistério que até “os anjos queriam conhecer” (1Pd 1,12), e não lhes foi facultado. Exílios e  fraqueza política acompanham a história do povo bíblico. E o mundo segue seu caminho, apesar da arrogância evangélica, e papas e bispos que pretendam fazer a rota cristã ideal no caminho da liberdade. Ah, a Liberdade… quem a algemará e engaiolará, para depois jogar a chave no esgoto?

Dilma foi eleita com o voto laico, sem credo religioso. Brasileiros e brasileiras se encantavam com a possibilidade de uma mulher alcançar o topo do poder. Magnífico, maravilhoso, especialmente porque não foi com a ajuda da religião atrelada que Dilma se elegeu (mas a CNBB cobrou imediatamente à eleição da presidenta o que não lhe emprestou). Devemos orar agradecidos. A liberdade, que é obediência livre a Deus, encontra expressão única no ato da oração e do testemunho. A tragédia brasileira permanece em cartaz: desigualdades sociais, fome, pobreza aviltante, educação e saúde precaríssimas e sem qualidade; habitações como na idade das palafitas, domínio do homo demens, violência extra e intra-familiar (como são violentadas crianças e mulheres neste país!); meio-ambiente em degradação incontrolável. O índice de desenvolvimento humano, IDH, é de 73% — perde para Cuba, mais pobre e PIB baixíssimo, IDH em 51%. Porém, reina a esperança. Atos políticos estão sob julgamento. Sejam quais forem.  Assim, fomos às urnas.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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4 respostas a INDIGNAÇÃO!

  1. Derval Dasilio diz:
  2. Derval Dasilio diz:

    Intervenções na Ulimato Online:
    Paixões…como não tê-las?A questão de fundo diz respeito aos interesses do Brasil e da sociedade brasileira–estado laico e sociedade secular,pois não temos uma teocracia,apesar das reivindicações dos líderes evangélicos Silas Malafaia,pró-Serra,e Edir Macedo,pró-Dilma,como novos apóstolos de Jesus Cristo ou do diabo (na versão dos dois!).Somos também uma sociedade culturalmente pluralista,entre moderna e arcaica,levando em conta os muitos brasís,de norte a sul,de leste a oeste.Respeitável é a declaração do presidente da CNBB,D.Geraldo Lyrio,com a frase verdadeira,católica,partidarista:”O Estado é laico,mas o povo é profundamente religioso”.Quer dizer, para ele o povo deve ter uma “opinião religiosa” pró-Serra…Além da opinião política sobre questões que são candentes e muito discutíveis na sociedade brasileira,desde espíritas, afroreligosos, evangélicos, protestantes históricos, e etc.a Igreja, colega, quando fala de política, sempre é teocrática,mas s/ autorização de Deus…creio e opino.
    Responder
    Postado em 28/10/2010 às 12:21:16
    Derval Dasilio
    Vitória – ES

    “Um ponto: política partidária constitui divisão por excelência”.A frase é sua, colega.Esqueceu a história?A Igreja, desde Constantino,séc. 4,quando estatizada,sempre opina a favor do Estado.Nem Calvino nem Lutero livraram-se disso, na Reforma (o primeiro sob regime republicano suíço e o segundo sob a monarquia rebelde dos príncipes alemães).O movimento separatista protestante, na Igreja Anglicana do séc.17, que gerou batistas, congregacionais, presbiterianos, libertários, tinha o foco de participação no Parlamento. É isso:falar de um princípio divisionista na política e isentar a Igreja desse momento político,como se ñ houvesse disputa de poder em toda ou qualquer igreja denominacional é uma ingenuidade infantil. As realidades são equivalentes.Evangélicos e católicos ingressam definitivamente na luta política (o vice-presidente representa a IURD, sabia?).Onde há poder e dinheiro,caro amigo, tem católico e evangélico farejando, como hienas atrás de carniça.Voto na Dilma, que ñ as alimenentará.

  3. Pingback: INDIGNAÇÃO! « Derval Dasilio – Escritos&Artigos

  4. Derval Dasilio diz:

    .INDIGNAÇÃO:
    Recebi do Igor o artigo: Eu ajudei a destruir o Rio…
    Destaquei a parte abaixo, sobre a hipocrisia do “crime organizado ‘aristocrático'” (referi-me ao ‘plebeu’).
    Nada mais interessante, sobre o assunto. Leiamos:

    Quanto mais glamoroso o ambiente, quanto mais supostamente intelectualizado o grupo, mais você podia encontrar gente cheirando carreiras e carreiras do pó branco. Em uma espúria relação de cumplicidade, imprensa e classe artística (que tanto se orgulham de serem, ambas, formadoras de opinião) de fato contribuíram enormemente para que o consumo das drogas, em especial da cocaína, se disseminasse no seio da sociedade carioca – e brasileira, por extensão. Achavam o máximo; era, como se costumava dizer, um barato.
    Festa sem cocaína era ( e ainda é) festa careta. As pessoas curtiam a comodidade proporcionada pelos fornecedores: entregavam a droga em casa, sem a necessidade de inconvenientes viagens ao decaído mundo dos morros, vizinhos aos edifícios ricos do asfalto.
    Nem é preciso detalhar como essa simples relação econômica de mercado terminou. Onde há demanda, deve haver a necessária oferta. E assim, com tanta gente endinheirada disposta a cheirar ou injetar sua dose diária de cocaína, os pés-de-chinelo das favelas viraram barões das drogas.
    Há farta literatura mostrando como as conexões dos meliantes rastacuera, que só fumavam um baseado aqui e acolá, se tornaram senhores de um império, tomaram de assalto a mais linda cidade do país e agora cortam cabeças de quem ousa lhes cruzar o caminho e as exibem em bandejas, certos da impunidade.

    Qualquer mentecapto sabe que não pode persistir um sistema jurídico em que é proibida e reprimida a produção e venda da droga, porém seu consumo é, digamos assim, tolerado. São doentes os que consomem? Não sabem o que fazem? Não têm controle sobre seus atos? Destroem famílias, arrasam lares, destroçam futuros!
    Que a mídia, os artistas e os intelectuais que tanto se drogaram nas três últimas décadas venham a público assumir:

    “Eu ajudei a destruir o Rio de Janeiro.”

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