DOMÍCIO MATTOS: ESTEIO DO PRESBITERIANISMO MODERNO


De fato, os fundadores do protestantismo ecumênico estão nos deixando, para grande desagrado nosso, tão necessitados de memórias edificantes. Multidões de jovens já os substituem por outros vultos evangélicos populares, como um certo pregador da prosperidade e do sucesso a qualquer custo, desses com o prendedor de gravata ostentando um enorme cifrão atravessando uma bíblia. Jovens evangélicos pesquisados pela revista Ultimato, em dois momentos, declaram Jesus Cristo em quinto lugar, entre as personalidades que mais admiram. Na preferência jovem, Jesus perde também para a cantora gospel milionária e o pregador homofóbico obcecado com a exclusão homossexual; que apóia políticos que instigam a aprovação da redução da idade penal  e a pena de morte. Nós os apoiamos, e eles não fazem mais que confirmar que são pessoas estúpidas, egoístas, gananciosas, covardes, e têm ideias muito curtas sobre o bem comum. São preferidos da juventude evangélica. Como o povo que se corrompe por quase nada, telhas, cestas básicas, jovens se encantam com o falso moralismo.

Domício Mattos foi um dos fundadores do moderno presbiterianismo, profético, ecumênico, plural e inclusivo. Quer dizer, lutou por um protestantismo aberto à participação da mulher em todos os ministérios da igreja. Favoreceu a discussão responsável sobre os problemas da etnia afrobrasileira, afirmava e reconhecia a hipocrisia na negação do racismo  existente dentro da igreja evangélica. Não titubeou em  declarar necessária, como justa e de direito, a acolhida dos cristãos gays nas igrejas. Estimulava a discussão da homossexualidade, para capacitar as igrejas a dialogarem com outras sobre difíceis questões de sexualidade que atingem a maior parte das famílias cristãs. Foi contra a pena de morte. Discorreu sobre a biotecnologia, lembrando o quão distantes estamos do conhecimento científico recusando a pesquisa das células tronco, por exemplo. A ajuda médica que propõe a dignidade da vida humana em situações extremas.

Mas,  o que empolgou Domício vem de longe, quando jovem pastor envolvido com o movimento Igreja e Sociedade, enquanto diretor do jornal oficial da IPB, Brasil Presbiteriano. Acreditem, a presença presbiteriana na Conferência do Nordeste (1962) foi cuidadosamente relatada. Dali veio o manifesto intitulado “Compromisso Social”, arquivado pelo fundamentalismo dessa igreja. Tão assustador, porque denunciava a grave situação do Brasil, as horrendas condições sociais que envolviam a saúde, a escolarização, o trabalho escravo no campo, a urbanização de um país prestes a sofrer rápidas mudanças sociais e políticas.

O triunfo do autoritarismo parecia irrevogável em nosso país,  quando entram na história personagens despretensiosas, de qualquer poder, de arrogância ou de heroísmo exibicionista, como Domício Mattos, sem nada mais que o interesse por alcançar a verdade sobre o destino de multidões de brasileiros. Presos políticos, pessoas da oposição ao regime, sequestrados, torturados, desde o golpe de 1964, desapareciam nos porões da ditadura.

Na linha de frente do confronto, apresentavam-se aos  presidentes militares, no regime de exceção; democracia e liberdades civis cerceadas, para reclamar direitos de pessoas e famílias atingidas pelo rolo compressor da polícia política ditatorial. Uma vez, Domício escondeu-se da mesma num quartel! Substituído por Boanerges Ribeiro, o gen. Ernesto Geisel foi aclamado como primeiro presidente evangélico da nação brasileira, no Brasil Presbiteriano – que passa a orientar fieis a oferecerem  apoio à ditadura militar.

O agente da ditadura invade a casa do homem, come os seus alimentos, consome o que é do dono: – “Você me servirá”? O homem se cala, arruma a cama, cobre-o com seus lençóis, vela seu sono por vários anos. Um dia o agente morre, gordo, obeso, de tanto dormir, comer e dar ordens. O homem enrola-o no mais sujo lençol, e atira o agente da ditadura no olho da rua.  Em seguida, limpou e pintou as paredes da casa antes confiscada, e lavou tudo que o agente fascista utilizara. Respondeu então, sete anos depois de ouvir “você me servirá”? –“Não!, não te servirei…”, e voltou a falar (Hannah Arendt).

Eis a parábola que Domício ajudou a construir, no Brasil. O presbiterianismo voltou a falar, modernizou-se, assumiu sua condição histórica. Ele foi parte dessa história com todos os riscos, assim como foi um dos esteios do moderno protestantismo ecumênico no Brasil. Pode descansar. Realmente, fez jus ao epíteto do Apocalipse: “Felizes os que morrem no Senhor, diz o Espírito: descansarão de suas fadigas”.  Ninguém mereceu mais. Ele mergulhou para sempre na grande realidade de Deus, não precisa mais conviver com a terrível realidade humana do autoritarismo religioso.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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4 respostas a DOMÍCIO MATTOS: ESTEIO DO PRESBITERIANISMO MODERNO

  1. Derval Dasilio diz:

    Sobre o pastor presbiteriano Domício Pereira Mattos, falecido aos 94 anos de idade, no dia 16 de setembro de 2010.
    Rev. Derval,
    Obrigada pelo envio da correspondência. O sepultamento da D. Ceres, sua esposa, foi no dia 10.08. O Rev. Domício estava internado havia um mês (desde o falecimento da companheira de toda a vida). Ainda atuava como pastor na Igreja Presbiteriana Praia de Botafogo. Ele faria 95 anos em janeiro. Foi meu professor no Seminário Cesar Dacorso Filho. Uma grande perda para o Presbiterianismo brasileiro.
    Um forte abraço.
    Neusa
    ——

    Jovelino Ramos:
    Sei que vocês foram companheiros, incluindo Waldo César, Rubem Alves,
    sem dúvida uma grande companhia. Estou terminando este artigo (anexo),
    mas queria compartilhar com você (e com o Rubem) estas insuficientes
    palavras sobre Domício Pereira de Mattos. Sempre penso em vocês como
    interlocutores fieis à memória daqueles tempos. Quero dizer-lhe, também,
    que o historiador oficial da IPB, Alderi Mattos — nada a ver com o sobrenome
    de Domício — lembrou do seu nome, “um jovem ousado”, quando escrevia seu último livro,
    mais útil pelos registros que pelas análises comprometida com a “encomenda”.
    Fica um abraço, e o conforto, para nós da riqueza que foi a presença do
    já saudoso Domício.
    Derval

    Resposta:Obrigado Derval. Ele foi um campanheiro inesquecível.
    Um espécie de irmão mais velho de todo um grupo de pastores jóvens
    que estavam na lista dos militares e dispersos imediatamente após
    o golpe militar de 1964. Ele abriu as portas da sua Igreja Presbiteriana
    da Práia de Botafogo ao grupo, e lá íamos, toda Segunda Feira, semana após
    semana, mês após mês, e ano após ano. No início era só para apoio mútuo e
    reflexão sobre o que estava acontecendo nas igrejas e no país e também para
    busca de inspiração e direção. Pouco a pouco foi se transformando em grupo
    de reflexão e ação. O resto é história que ainda está para ser escrita.
    E Domício pertence ao núcleo central dessa história.
    Aguardo o seu artigo. O anexo não chegou.

    Aquele abraço

    Jovelino Ramos
    —-

    • derwal diz:

      A reverenda Neusa Gomes nos enviou este comentário, na ocasião. O reverendo Jovelino Ramos, por sua vez, morando há cinco décadas nos EUA, aposentado depois de servir a PC-USA por muitos anos, compõe o grupo onde estavam os muito então muito jovens pastores, como Zwínglio M. Dias e o Cunha. Sem esquecer Waldo César, o mais importante editor de teologia e sociologia religiosa, desde o ISER à Editora Paz e Terra.

  2. Igor diz:

    Derval,

    Sobre o fundamentalismo na IPB, lembrei-me imediatemente de uma reuinião de presbitério que participei no último sábado. Um de nossos representantes junto a última RO do Supremo Concílio contou-nos sobre a proposta de um presbitério paulistano (provalvelmente influenciado pelo neo-putiranismo, assim tem sido identificado um grupo dentro da IPB) para que as mulheres não mais orem ou falem nos cultos.
    Assustou-me a notícia.
    Penso que enquanto alguns insistem num “confessionalismo” a ferro e fogo, sem espaço para diferenças litúrgicas, diversidade doutrinária e diálogo ecumênico, as diferenças existentes e já gritantes dentro da IPB (se não assumidas e trabalhadas fraternalmente) farão de nós uma imensa torre de Babel.

  3. Derval, excelente o artigo, pena que o Alderi, meu conterranêo de SPS, só eu que convivi ali é que sei das coisas, não acompanhou a sua publicação no Ultimato. Lamentável que não tenha sido mais divulgado. Mas eu faço o meu trabalho de formiguinha aqui na 2ª IPU como você bem sabe. Alguém leu e com certeza, gostou e guardou e ou compartilhou com outros, o que sempre sugiro na distribuição à eles de literatura tão boa quanto essa. Vamos frente, sem desanimar.
    Resposta: Caro Lysias, a Ultimato tem sido muito gentil comigo. O artigo sobre Domício Mattos encontrou alguns problemas: eu estava ocupando o espaço Opinião com frequência exagerada. Era preciso fazer um intervalo, considerando-se artigos meus acumulados esperando publicação. Mas, no geral, tenho sido muito feliz com a Ultimato Online. Agradeço seus comentários. Quanto ao Alderi Mattos, hoje, é dos mais credenciados historiadores da IPB. Seu método, porém, não é crítico, mas descritivo. Seu último livro ajuda muito a entender o nascimento da IPU, dados precisos, informações cronológicas extremamente relevantes. Perdoe seu “cuidado”, pois está ao lado de feras fundamentalistas, e a Universidade Mackenzie (que Shaull deu de mãos beijadas para a IPB, tipo: você dá o chicote, seu algoz fazer a festa com você…). Saiba, ele não pode abrir o bico, senão…

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