NOS MATADOUROS DE OVELHAS…


NOS MATADOUROS DE OVELHAS

João 10,22-30/ Salmo 23

Os Salmos estão cheios de metáforas vivas.  Imagens brotam da realidade do poeta hebreu. Artifícios para vender um produto? Não. Um conceito sobre aspectos essenciais da vida de fé, sim! O ser humano está diante de um caminho, e sua jornada, para chegar incólume ao fim, depende do reconhecimento da realidade de Deus, do ser humano e da própria vida. Entre orações e poemas e hinos descobrimos um fio de esperança que tece a roupagem protetora que o crente vai vestir durante a jornada. Na senda da vida somos ovelhas que precisam de condução aos pastos e às fontes que nos alimentam e tiram a nossa sede. Há um Condutor que protege as ovelhas neste caminho. Das feras do caminho, podemos lembrar de nós mesmos, como na história do velho cacique: “Há dois lobos em luta dentro de nós. Quem vencerá? Será aquele que você alimenta”…

Contra os matadouros de ovelhas, é um escândalo, esse Bom Pastor, porque toda a vida de Jesus é um juízo contra os que pensavam que Deus devia ajustar-se à “dogmática” religiosa. Ele não se adapta! Assim, pois, o que decide de um modo definitivo o sentido deste evangelho, cotejado com o Salmo 23, é a atitude que devemos ter ante a verdade que Jesus propõe: quem se encontra para valer, com Ele, “veste a camisa” do Reino de Deus, encontra-se com Deus custe o que custar, enquanto confia sem reservas nos cuidados do Bom Pastor. Se Ele, Jesus, escuta nossas súplicas, Deus faz o mesmo. Se Ele dá a vida por nós, isso é o que faz Deus por nós. Não estamos ante uma ficção. Algo concreto se apresenta: estamos diante do Doador da Vida, que também se dá para “manter a Vida”. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas! Mesmo quando elas seguem falsários e arremedos que pretendem, na verdade, levá-las ao matadouro.

É importante relacionar este salmo com homens e mulheres “marcados para morrer”, inocentes condenados, oprimidos, vítimas da sociedade violenta, vingativa, excludente. Imaginemos pessoas fugindo da miséria e da violência brutal de nossos dias. O poeta nos despertaria para o fato de que estamos num momento de extrema gravidade para a humanidade, o mundo dos pobres, dos desempregados, dos doentes, dos sem-lar, sem-hospitalidade, dos “exilados e clandestinos”, dos sem assistência previdenciária. O Bom Pastor, em face das grandes mudanças ocorridas com a mundialização da fome, milhões de famintos, doentes e desassistidos, em sua proclamação sobre a adulteração do sentido da vida, acolheria os abandonados? Como se pode avaliar, biblicamente, a figura do pastor suscita arquétipos ancestrais ligados ao cuidado, à acolhida, à segurança, à confiança. Pastores entregues a valores inversos sempre são denunciados. Os profetas da Bíblia não dão mole para os que se corrompem. Serve-nos o exemplo?

O pastor é um companheiro. Ele liga seu destino ao destino do rebanho. Sofre a mesma sede, a mesma fome, padece sob as perseguições. É solidário, mesmo com sol ardente durante o dia e frio intenso durante a noite. Cansa-se com as ovelhas ao caminhar pela areia, debaixo de sol escaldante e sobre pedras. Corre os riscos de ser ferido e até morto pelos ladrões à beira da estrada. O pastor é diferente do mercador, dá a sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10,15). Ele mantém uma relação de afeto profundo com as ovelhas. Elas o amam: “Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem” e “elas seguem o pastor porque conhecem a sua voz”. As ovelhas sentem o bater cadenciado do cajado no chão ou nas pedras. Estão protegidas e cuidadas. Elas sabem disso.

O Bom Pastor continua cuidando de suas ovelhas, busca a ovelha ferida, trata de suas feridas. Procura  a que se extraviou, chama-a docemente ao caminho certo. Trata-a sempre com doçura e com voz carinhosa, como o boiadeiro trata o rebanho. Em regiões desérticas, a vida ou a morte do rebanho depende do cuidado do pastor. Alimentá-lo é sua função. Levar as ovelhas para campos verdes da primavera, ou para a vegetação seca comestível no verão. Nas noites escuras o pastor deve cuidar do rebanho, feras do deserto, e salteadores, rondam e podem atacá-lo. Deve estar vigilante, escutar cada pequeno ruído e manter-se em posição de defesa ou ataque, se necessário. Dá-lhes segurança ao atravessarem depressões profundas, nos terrenos difíceis ou nos caminhos cheios de pedras soltas e perigosas onde possam as ovelhas resvalar. Sabe a exata distância  entre os oásis; conhece as fontes de água onde se pode refazer as forças. Tudo isso pertence ao cuidado, ao desvelo e à prudência de todo pastor não mercenário (cf. Jo 10, 12-13), no exemplo do salmista e poeta: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”!

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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