PÁSCOA PROFANA COM CHOCOLATE SUÍÇO? …


Alguma coisa nos impele a manter-nos teimosamente vivos, são os valores da fé cristã, creio firmemente.  A Páscoa cristã é um desses valores, energia que move os músculos secretos da fé e da vida de um cristão em torno da vocação de Jesus, para atender à missão de Deus. Há uma origem histórica para a resistência, na Páscoa. Este mundo de agora, esta civilização do salve-se quem puder e cada qual cuide do seu, deve ressuscitar o sentido da Páscoa, sem chocolates, porém, com ervas amargas… (memórias da escravidão, na “Pessah”; agradecimento por sermos poupados…).  Ele está enfermo de amnésia profunda e perdeu o sentido da solidariedade e do comunitário. Perdeu o sentido da existência do fraco, do pobre e do oprimido. Como diz Eduardo Galeano: “Em épocas remotas, no inicio dos tempos, quando éramos os bichos mais vulneráveis entre os animais terrestres, não passávamos de almoço fácil na mesa de nossos vizinhos vorazes, sobrevivemos, contra toda evidência de que seríamos destruídos, porque soubemos nos defender  juntos, e porque soubemos compartilhar a comida”.

Memórias da Páscoa, no Credo antiga: tudo começa com a ideia da ressurreição. O jovem Jesus está entre os doutores, porque discute com eles a vida religiosa atrofiada. A religião profética fora sufocada pelo legalismo. Os preceitos, a moral que eles interpretam e representam, levam à morte, é preciso ressuscitar para a vida. É necessário ressuscitar os valores éticos universais de sustentação da vida, na fé histórica de Israel, dos quais cristãos contemporâneos são herdeiros, malgrado a indiferença. É uma forma enigmática, Jesus se entrega a uma causa e começa a enfrentar os desafios dos sistemas de pensar a religião, a política, a sociedade e a economia condutores da morte.

Negou-se isso, no garroteamento eclesiástico imposto. No entanto, desde Lutero, resgatou-se a compreensão bíblica a este respeito. Daí, os evangelhos saltam para a juventude madura de Jesus, e de novo ressurge o direcionamento para a Páscoa. Morre na cruz o mártir do Reino. A morte de Jesus se nos apresenta como uma “crise”, a ressurreição complementa  o fato, se pensamos que a ressurreição põe fim a tudo, mas dá início a tudo, ao mesmo tempo. É surpreendente que aponte um “final feliz”. Jesus foi crucificado, morreu, mas ressuscitou. A ressurreição é o fim do martírio (martyreo) inciando-se a felicidade, a salvação.  Ninguém pode falar de Jesus sem falar de sua ressurreição.

Deveríamos, também, retornar ao significado a que se refere Jesus, quando convida seus interlocutores para verem o que está acontecendo com a vida ao redor. A Páscoa proclama a ressurreição de todas as coisas, novidade de vida, como dizia Paulo. Implica em cuidar dos outros homens e mulheres. E não é uma questão para ser resolvida no oftalmologista. Ele não corrigirá esse tipo de cegueira, ou visão atrofiada. Cuidar das coisas do Pai! Podíamos lembrar a oração que Jesus ensinou: “Pai nosso! Perdoe as nossas dívidas”. Que dívidas temos com o fraco e o oprimido? Como cuidamos da fé na ressurreição, que nos é transmitida?

A sede de sentido para a vida que temos dificilmente será satisfeita com a acomodação da multidão anônima de cegos e desatentos para com o evangelho da ressurreição comendo chocolate. Ele também invoca o cuidado com os outros. E o que é isso? O Reino é uma presença revolucionária, transformadora de vidas. É a presença ativa de Deus num mundo que nega e destrói a vida que se oferece para ser partilhada, pelo perdão e a reconciliação. Vida  ressuscitada.  É presença na vida humana em renovo; é a denúncia da fome. Imaginamos uma Ceia  Pascal completa como a antecipação do banquete eucarístico que inaugura a nova era de fomes e sedes saciadas, nas novas relações entre os homens e as mulheres. Vitória sobre a morte.

A Páscoa alimenta e nutre a fé e a esperança. Por iniciativa de Deus,  um mundo ressureto, sem males, é possível.  Concretamente!, a Páscoa está na instrução da Ceia do Senhor: “Até que o Senhor venha para reinar entre nós” (1Cor 11,26), esse banquete deve ser o ensaio do “novo céu e da nova terra” (Ap 21). Nessa vinda, a Bíblia revela, nas palavras definitivas da intervenção do Senhor: “Eis que faço novas todas as coisas”.

Sobre Derval Dasilio

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