O SOFRIMENTO DO INOCENTE


Data da impressão: 16 de abril de 2010

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OPINIãO

Buscar a felicidade sem sofrimento, todos querem. Mas será possível? Por outro prisma: é possível ser feliz sem sofrimento? O Evangelho contraria quem pensa assim. Paulo dirá mais: “Alegramo-nos, também, nos sofrimentos” (Romanos 5,3-5). Jesus Cristo inaugura novo pacto entre Deus e os homens. Seu evangelho é boa nova também diante do sofrimento. É impossível imaginar Jesus sem Seus padecimentos. De fato, “o Evangelho começa onde termina o livro de Jó” (Hans Küng). Mas a resposta evangélica, esta sim, é paradoxal e assombrosa: “A grandeza extre­ma do cristianismo provém do fato não bus­car remédio sobrenatural contra o sofrimen­to, e sim no uso sobrenatural do sofrimento” (Simone Weil).

É somente pela ótica da fé que cabe contemplar a dor, não como inimiga, mas enquanto a possibilidade terrível, mas sempre útil, de despertar nossa verdadeira condição. E diante de Deus restaurar a plenitude de nossa vocação mais verdadeira. A consequência imediata da percepção do sofrimento à luz do evangelho é seu valor pedagógico: “O sofrimento como fonte de saber”, escrevia Weil, sob experiências angustiantes sob o nazismo. Sua perplexidade acontecia face à perseguição e o extermínio pretendido de uma raça inteira, nos antecedentes e durante a Segunda Guerra Mundial: os judeus no holocausto que mais chamou a atenção, entre outros do século 20.

Ou então, dito de forma mais abrangente, para todos os tempos: “Sem sofrimento, não há sabedoria” (Larrañaga). Como se diz em inglês, do sofrimento se pode sair bitter ou better, “amargurados” ou “melhorados” e aperfeiçoados em nosso ser. Ninguém em sã consciência daria como bom a dor masoquista, mas em meio a uma comunidade pusilânime, que concebe a dor como mal-em-si-mesmo, fugindo dela custe o que custar, não é exagero recordar o fato de que o sofrimento desperta o homem de seu co­modismo e o força a pôr em jogo o mais pró­prio e oculto de si: “Sofro, logo, existo” (Unamuno). É impossível imaginar o Deus-Homem que não sofre, solidário a todas as dores do homem e da mulher. A ressurreição do Senhor reflete a vitória contra o sofrimento e a dor.

Essa vitória paradoxal se manifesta em múl­tiplas expressões. Num sentido profundo e difícil de ser comunicado fora da linguagem da fé, o cristão aceita seu sofrimento fazendo seu o testemunho do apóstolo Paulo: “Com­pleto em minha carne o que falta às tribula­ções de Cristo, por seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). A Bíblia insiste, sobre os efeitos terapêuticos do sofrimento, no cristão, por mais que em si mesmo nunca seja recebido com agrado; “refina a fé” (1Pedro 1,5-7), “contribui para a maturidade” (Tt 1,2-4), “permite ­expor as obras de Deus” (João 9,1-3), “(con)forma o homem à imagem de Cristo, que tudo sofreu” (Romanos 8,28-29), “produz a firmeza de caráter verdadeira” (Romanos 5,3-5). O Cristo de Deus sofria por uma  causa: os homens rejeitam o Reino.

Como verdadeira descarga vital, a dor sacode qualquer adormecimento, fulmina a imaturidade e leva o homem frequentemente a níveis muito mais profundos de com­preensão de si mesmo e do mundo. De onde a força da declaração cristã: “Qualquer sofrimento integrado em Cristo perde a sua desesperan­ça e até sua própria feiura” (Emmanuel Mounier). Somente a fé vital, pessoal e dinâmica em Deus tornará possível a fecundidade pedagógica da dor:”Alegramo-nos também nos sofrimentos, conscientes de que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência consolida a fidelida­de, a fidelidade consolidada produz a esperança, e a esperança não nos engana…” (Romanos 5,3-5). Até mesmo a maior dor pode ser assumida, se for “provida de sentido”; muito pior que a pior das dores é sofrê-la sem propósito que a dignifique, sem compartilhar da causa de Cristo.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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