“USE E JOGUE FORA” – CONSPIRAÇÃO CONTRA O JOVEM E O VELHO


Data da impressão: 24 de novembro de 2009

 

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OPINIãO
“Use e jogue fora”: conspiração contra o jovem e o velho

Você alude à baixa qualidade do que se oferece à juventude, nas igrejas. De outro modo, completa minha denúncia de que os principais assuntos eclesiásticos sobre missão e diaconia, de fato, são solenemente ignorados nas igrejas, assim como o cuidado com a juventude no século 21 (que se expressa no culto gospel, no entretenimento, no show business). “Em verdade vos digo”, não sabemos o que fazer com os desafios desse século, quanto ao discipulado da vocação cristã (Rm 12,2).

Como prevenir o dano biográfico, psicosocial, na infância, adolescência e juventude? Drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição juvenil, gravidez de adolescentes, crack, Aids, mendicância, delinquência, antecipação da maioridade penal, são também consideradas ameaças severas para a juventude? Em que sentido pode-se colocar em risco o projeto de Deus de vida plena para esse grupo? Desde esta perspectiva, como poderemos atender demandas para uma permanente responsabilidade dos cristãos e das igrejas em relação às crianças, adolescentes, jovens, inclusive os velhos?

Como interpelar a sociedade, e a própria igreja, sobre sua responsabilidade na reconstrução das relações entre atores ativos da violência intra-familiar, a partir do reconhecimento mútuo como seres humanos iguais em dignidade, liberdade e responsabilidade? A respeito da violência contra a mulher, a criança, da hétero e homofobia, a discriminação por causa da cor da pele, do(s) sexo(s) ou gênero(s); constituímos na igreja um chamado ao serviço libertador de pessoas, famílias, grupos, entre as propostas de serviço ao outro e à outra com as quais Jesus Cristo se identifica? Se existem, me avisem. Mais perto, não tenho visto.

Pessoas da terceira-idade também não têm um lugar legítimo na igreja. Valorizados e plenamente participativas nas famílias cristãs ou não, que dizer sobre os “maracujás murchos” sentados até com mais assiduidade que os jovens nos bancos das igrejas? A presença de idosos em nosso meio se apresenta como um peso tolerado, sublimado, idealizado hipocritamente, como nos tem ensinado a cultura bíblica e religiosa cristã e protestante da qual participamos?

Em que ponto pode a diaconia social cristã ajudar no sentido de integrar o idoso e o jovem na participação dos valores da sociedade contemporânea, referentes à cidadania, direitos e dignidade humana? Levamos em conta que o Pai, na Bíblia, por si mesmo não pode ser avaliado segundo as configurações simbólicas do velho que já fez tudo, não age mais, cumpriu seu papel? Jesus disse: “Meu Pai ainda trabalha!”. Agimos como que afirmando que nada mais se precisa fazer, além de contemplar um passado ancestral? Consideramos que a velhice é a proximidade da plenitude, no entardecer da vida, ou que a velhice é o tempo em que a vida se recolhe e não pode mais brilhar e dar frutos visíveis e maduros? Problema para a igreja cristã de hoje.

A longevidade aumentada constitui um prêmio da vida moderna. Ponto. Mas não por esforço das igrejas cristãs, que olham pra gente velha, como eu, como pés-na-cova improdutivos (e nós não somos pavios queimados). Na Bíblia, via de regra, a velhice não é tempo em que a vida se recolhe, como uma lâmpada se apagando por falta de óleo. Vinho bom é vinho velho. Maracujá enrugado é o que tem mais suco e sementes. Vida longa é um presente de Deus, a velhice reclama sua participação no desenvolvimento social e espiritual da sociedade. Se reclamamos do desprezo pela vida, de valores essenciais dissolvidos na liquidez moderna (solidariedade, cuidado, amparo ao enfraquecido), no egocentrismo consumista em ofertas de vida com qualidade somente para os mais novos – porque jovens serão consumidores por mais tempo – somos saudositas?

“Use e jogue fora!”. Há uma certa conspiração, uma ilusão compartilhada, para se ocultar um segredo íntimo pensado por muitos: “nada há a fazer com os velhos”, o bem-estar depende da rapidez como são removidas as coisas velhas e usadas da vida comum. Mas esta é uma igreja que cultiva o efêmero — como na sociedade civil — e se ela soubesse disso, ostentaria lápides nas tumbas invisíveis em que enterram conteúdos e valores que assinalariam sua ignorância dos reais perigos e das misérias que a acompanham, apesar da roupagem e dos aparatos modernosos de seus altares recentes.
Kyrie eleison.
Derval Dasilio

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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