IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!


Igreja: decifra-me ou devoro-te!
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Derval Dasilio

Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional. Águia: vida mental e intelectual. Touro: vida instintiva e vegetativa. Homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente. Assírios, babilônicos, persas, gregos e romanos, não são esquecidos como influência literária.

Poderíamos visualizar, na Igreja, um lugar para “comer junto”, comunhão em torno da mesa? Externamente, vive-se mentirosamente sob uma ideia comum de comunhão (igreja de Cristo), porém são diversos os sentidos que damos aos sacramentos e à missão na diversidade anárquica. Comer na mesma “mesa”, comunhão de diferentes nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Continua sendo. De fato, cristãos mediterrânicos adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade por força do ensinamento apostólico.

O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma, fundamentalista católica ou protestante. Os perseguidores estão também no meio da comunidade. Apontam o fracasso, aguçam o desespero, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Cristo, porém, na fé apostólica primitiva, é concreto, não é um produto de mercado, nem um símbolo salvacionista abstrato. Não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. Mesmo que seja um “cristo” como esparadrapo e analgésico. A magia, o curandeirismo e a superstição constituem um perigo tempestuoso que leva ao naufrágio.

A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação, são elementos que permeiam o culto cristão. Papiros de magia contendo orações e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuam em práticas supersticiosas repulsivas. Qual a diferença, hoje?

A fé da igreja apostólica, “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador(a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47), extinguiu-se? Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos; que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal. Idealização absurda, irreal. Não houve jamais eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformemente (impossível dedução, diante da diversidade mediterrânica). Missão e sacramentos são compartilhados em recomendação apostólica: a Igreja é missão e ministérios, em totalidade (Joaquim Beato).

Falta-nos examinar estes pontos e contradições. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém é apostólica, ecumênica, missionária e diaconal.

A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.13), Spener (séc.17) e mais tarde John Wesley (séc.18). Mais recentemente, Bonhoeffer, Luther King, Romero, Hélder Câmara, Jaime Wright, Mandela, Desmond Tuto. A questão das desigualdades desinteressava a comunidade cristã enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois pobres e oprimidos, como tais, são temas permanentes do evangelho de Jesus Cristo, entre diferentes e vítimas das desigualdades. O “Reino de Deus e sua justiça” deveriam ser uma bandeira da Igreja. Enfim, o que é mesmo a Igreja, se temos em conta as deformações do momento? Decifra-me ou devoro-te…

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!

  1. sr. Derval
    eu sabia que o sr. era evangelico, pastor, mas eu não sabia que o sr. era um intelectual de primeira. também sou ecumenista e acredito que Jesus é maior que toda produção literaria e todos os templos humanos. o restante é a gente se unir em torno Dele.
    sds – parabens pelo blog

    jose americo (pai da Paula, amiga de Ludmila)

    • Derval Dasilio diz:

      Caro José Américo:
      Obrigado por seu comentário.
      Sim, sou visceralmente ligado ao ecumenismo,
      como cristão e como pastor. Com a defesa do exclusivismo
      fugimos do que foi a Igreja original, aberta, universal,
      abrangente, apostólica e católica (o termo grego é “catholikos”).
      Prezo muito a amizade de sua família, Mequinho, da Paula e Maria Helena.
      Vocês fazem falta em nosso condomínio. Muita falta…
      Abraço forte.
      Derval

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