IGREJA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE


Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã inicial e atual, em razão da imagem total da esfinge, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem  – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional; águia: vida mental e intelectual; touro: vida instintiva e vegetativa; homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, os símbolos são outros, biblicamente (dominadores tradicionais de Israel: assírios, babilônios, persas, gregos e romanos, conforme a literatura apocalíptica intertestamentária). Os egípcios, porém, não são esquecidos.

Na igreja, quem sabe?, poderíamos visualizar um lugar para “comer junto”, partir o pão eucarístico, em torno da mesa. Um lugar que centraliza emoções coletivas; um lugar de organização da mente religiosa; lugar onde as situações se misturam, na consciência da totalidade humana, de suas contradições e de experiências paradoxais. Vive-se sob uma ideia comum (“somos a igreja de Cristo”), externamente, porém são diversos os sentidos que damos aos ministérios ordenados, aos sacramentos e à missão (diversidade). Uma visão sociológica ajudaria a por algumas questões no lugar, reconsiderando o início da Igreja.  Por exemplo: a situação de judeus cristãos que conservariam uma tradição que remonta à Torah, mas também habituada ao Halakah: Thalmud, Mishnah, Midrashes, como orientadores da vida de fé.

A posição dos prosélitos, conhecedores do Deus de Israel, mas gentílicos, na questão da ceia eucarística (ação de graças e o partir do pão), não pode ser esquecida.  Comer na mesma “mesa”, comunhão de judeus e gentílicos nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. A igreja se identificava como comunidade étnica, preferencialmente. Contradições quanto aos costumes e tradições tornam esse problema bastante relevante. De fato, cristãos não judeus adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia (eucaristein) e a diversidade dos ministérios, enquanto ignoravam na totalidade o sentido sacerdotal hierárquico do Templo de Jerusalém, bem como a cultura igreja/sinagoga da terra onde nasceram Jesus e seus apóstolos (exceção para o turco Paulo de Tarso). 

Mas a mensagem está no símbolo que se adotou, a igreja como um frágil barco à deriva num mar perigoso, enfrentando as hostilidades naturais à sua pregação. O Reino de Deus não se confunde com igreja alguma; a justiça do Reino não equivale ao legalismo ou doutrinarismo religioso exclusivista ou triunfalista. Os perseguidores estão também no meio da comunidade de fé. Apontam o fracasso, aguçam o desespero dos fracos, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Usam até a agressão nos questionamentos sobre missão e prioridades, evangelismo metodológico acima da evangelização integral, como anúncio da chegada do Reino de Deus. É quando se torna necessário recordar Jesus.

Cristo, na fé primitiva, não é um produto de mercado, nem um símbolo do salvacionismo abstrato. E não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”. A magia ritual e a superstição constituem um perigo tempestuoso. A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nessas práticas, aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras, vulgares, de satisfação física e material (H.H.Rowdon&C.K.Barret: The New Testament Background). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação são elementos que permeiam o culto cristão no mundo helênico. Papiros de magia contendo orações  e hinos “libertadores” são elementos que circulam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos, o kérigma (Atos 19,19).   Maldições e pragas invadiam o culto intercessório da igreja inicial, concomitantemente se insinuam práticas supersticiosas repulsivas.  Qual a diferença do mundo evangélico contemporâneo?

Mas o Jesus dos Evangelhos não abandona o barco, dá a certeza de sua presença como timoneiro da fé; Jesus capaz de vencer a tempestade, enquanto fortalece as certezas quanto à sua permanência e sobrevivência junto aos discípulos e seguidores. Marcos é transmissor fiel da fé apostólica no Cristo de Deus: “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador (a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47). Mensagem para a igreja gentílica. O Evangelho do Reino de Deus é essencialmente a missão de Deus.

Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos (Marcos 4,35-41); que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal; eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformes (impossível dedução, diante do congregacionalismo, presbiterianismo e episcopalismo, ou sistemas mistos, bíblicos); que a missão e os sacramentos da igreja  são compartilhados igualmente. Idealização absurda, irreal. Falta-nos examinar estes pontos em suas contradições (por quê o próprio Paulo, e discípulos, apresentaria eclesiologias tão dispares entre si?). Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimisando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém não é episcopal, presbiteriana, congregacional. Ela é apostólica e diaconal, na forma de governo. Ponto.

A questão dos pobres, dos excluídos na igreja, também estava em relevo (Atos 2,42-47; 4,32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (séc.XIII), Spener (séc.XVII) e mais tarde John Wesley (séc.XVIII), essa questão desinteressava a comunidade cristã, enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois os pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do evangelho de Jesus Cristo; o “Reino de Deus e sua justiça”. Enfim, o que é mesmo a igreja, teológica e sistematicamente? É preciso decifrar, se temos em conta o protestantismo pentecostal e suas ramificações.

Oração: “Deus, em tua graça  transforma o mundo. Damos graças por Tuas bênçãos e sinais de esperança que já estão presentes no mundo, entre pessoas de todas as idades e nas que antes de nós andaram na fé; nos movimentos de superação da violência em todas as suas formas, não apenas por uma década, mas para sempre; nos diálogos profundos e abertos que começaram tanto em nossas próprias igrejas e com gente de outra fé, na busca por compreensão e respeito mútuos: em todas as pessoas que trabalham juntas por justiça e paz – tanto em circunstâncias excepcionais quanto no dia a dia. Agradecemos-te pela Boa Nova de Jesus Cristo e pela certeza da ressurreição. Amém” (CMI – Assembléia de Porto Alegre).

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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