ASCENSÃO: ERA JESUS UM ASTRONAUTA PERDIDO NO ESPAÇO?


Por falar em ascensão, há alguns anos um livro do jornalista Erich von Daniken foi sucesso: “Eram os deuses astronautas?”. Recentemente, um astronauta brasileiro foi elevado ao espaço numa viagem que teria custado cerca de 10 milhões de dólares aos cofres da nação, e não importa se foi menos ou mais. Acompanhado de outros, o aeronauta sorridente se encantava com as estrelas, ao mesmo tempo em que, distante das realidades terrenas, via a terra “a partir do céu”. Quando voltou, coroado herói nacional, ganhou aposentadoria perpétua sem ter completado sequer 40 anos.

Quem desejaria mais? De certo modo muitos se imaginam como futuros astronautas celestiais, que um dia percorrerão as distâncias em anos luz, os quais nos separariam do “céu”, e chegarão a um lugar onde supostamente diz-se que está Deus. Então, sem alternativas, recorro a Fernando Pessoa, para falar do mistério da Ascensão do Senhor: “Sempre que olho para as cousas / e penso no que os homens pensam delas,/ rio como um regato que soa fresco numa pedra./ Porque o único sentido oculto das cousas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”.

Como se poderia calcular, como ferrenhos fundamentalistas, o fim dos tempos e classificar “quem poderá entrar no céu?”. Na opacidade do mundo, faltam instrumentos para medir o tempo da eternidade? Lentes telescópicas que capacitem qualquer um de nós para tanto, são impedimentos definitivos para esses anseios? A razão quer explicar a fé, diríamos. Anselmo de Cantuária (1150) estabelecia que a fé requer inteligência, fides quaerens intelectus, enquanto falava deste assunto. Referia-se ao que a carta petrina apontava: “… estejais sempre preparados a todos que vos pedirem a razão da esperança que há em vós ”(1Pd 3,15)?

Karl Barth dissertou sobre Anselmo, no seu doutoramento. Agora, a fé sem inteligência, crença em tudo que a tecnologia produz, é exigida para darmos como verdadeiros os argumentos cinzentos do racionalismo fundamentalista. A Billy Grahan Evangelistic Association, Minneapolis, USA, influencia significativamente os caminhos do imperialismo fundamentalista norte-americano, se acha capaz de medir o céu: “o Paraíso celestial mede 1.500 milhas quadradas”. Muçulmanos, cujas escrituras sagradas estão no Alcorão, que proíbe o uso do vinho aqui na terra, porém, garantiriam tonéis do precioso produto vinícola no céu (gaúchos brasileiros exultariam: Caxias do Sul fará parte da Jerusalém Celestial!). Condenam o adultério aqui, mas prometem belas virgens, ninfetas e mancebos, gays em quantidade, para quem chegar, por merecimento, ao “Paraíso”. Mas cristãos acham que hetero, homo, bi e transsexualidade, serão substituídas por um estado celestial esquisito, como disse o papa João Paulo II: “No céu, homens e mulheres não terão vida sexual”. Cantares de Salomão, no cânon bíblico cristão tornar-se-á apócrifo!

Mas não ficamos nisso, o anti-céu também existe no imaginário religioso das religiões; cristãos, muçulmanos, hindus, budistas, muçulmanos, jainistas e taoístas acreditam em algum tipo de inferno, se diz por aí. Dois cientistas do Departamento de Física Aplicada, na Universidade de Santiago de Compostela, garantem que o inferno tem a exata temperatura de 279º centígrados, embora não se possa saber como fizeram a pesquisa local (Eduardo Galeano). Estamos, portanto, diante de um grave dilema de salvação. Não desanimemos, no entanto.

Nos evangelhos, Cristo, na Ascensão, foi entronizado na esfera divina, além das estrelas, das galáxias. Muito acima do cosmo e de todas as realidades espaciais e temporais, para além do mundo físico e suas possibilidades. A fé observa o mundo de Deus livre das corrupções e falibilidades humanas. Um céu exemplar sobre “todos os céus imagináveis”. O céu bíblico é o lugar natural da justiça de Deus, da perfeição, da ubiqüidade, da atemporalidade do cuidado divino, dos espaços infinitos e imensuráveis ocupados pelo amor ensinado por Jesus Cristo. Na misericórdia e compaixão, no cuidado e na solidariedade, ali está a glória de Deus, plenitude. Luz, felicidade, beleza, bem-estar em todos os níveis. Quando proclamamos que Cristo subiu ao céu, singularizamos a pluralidade celestial do reinado pleno de Deus, na expressão de Paulo: “Cristo é tudo em todos. Nada nos separará do amor de Deus”. Logo, Cristo não ficou “lá em cima”: “Ele está no meio de nós”, como proclama a liturgia cristã.

Sobre Derval Dasilio

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