PÁSCOA GOSPEL: CRENTES VENDIDOS COMO GADO…


 

                                                                                                                PUBLICADO EM  ULTIMATO ONLINEMARÇO/2009

 

À véspera da Páscoa aconteceu que Jesus encontra no templo (hieros) a religião transformada em comércio, diz o Evangelho. Chegamos ao ponto nevrálgico da revolta de Jesus. O templo é secretaria fazendária, comitê político-partidário servindo ao poder dominador, banco e loja religiosa, emporion de clientela cativa, a religião é compulsiva ou indutiva. É quando bem-aventurança passa a ser vendida no altar, e lideranças se esforçam na pregação do deus subornável, deus ex machina, capaz de resolver qualquer problema financeiro, emocional, existencial.

 

Hoje, tempo pascal, o público evangélico é “freguês” das lideranças evangélicas carismáticas. A religião de mercado se impõe. Pragmáticos e gananciosos, ideólogos da “prosperidade comprada no altar”, imaginam que são cabos eleitorais,  empresários e mercadores, orientam o povo para a ganância, com muita diversão: o evangelho até dá samba! E o pessoal se diverte muito. O verão é comemorado, a festa atravanca o trânsito de sexta a domingo: Viva Verão! O deus Sol é exaltado novamente, na praia. Bandas gospel, divas e “divos” da música carismática cantam um Jesus coberto de melado, fazendo propaganda eleitoral. A fina flor evangélica comparece, estacionando seus carros bacanas nas ruas próximas, gozo de flanelinhas. Candidatos à reconversão vêm da periferia, também, aos borbotões. De ônibus, claro. Porque as comunidades pobres, sem brilho moderno, desqualificadas pelo conversionismo de luxo, também não conseguem fixá-los na vida de fé. Os pastores da igreja milionária encarregam-se da bricolagem evangélica.

 

Três dias de “conversões” e “vidas transformadas”. Claro, não se pode exigir que hinos clássicos comovam jovens sentados na areia, agarradinhos. Hinos como o do protestante Johann Sebastian Bach não são viáveis para a cultura gospel (Jesus, alegria dos homens): harmonia complexas, contrapontos marcados, litania envolvente, profunda, proclamando a fé, enquanto o povo congregado responde in toto o que ouviu. É Jesus minha alegria, meu prazer, consolo e paz!. “Muito clássico! Meu  prazer é a Aline Barros e a Oficina G-3”, fala a jovem carismática e lacrimosa.

 

Pastores e psicanalistas, em barracas montadas nas proximidades, atendem a garotada em estado de êxtase, aos prantos, pele arrepiada e tremida: jovens acabaram de conhecer Jesus pelas visceras! Recebem conselhos, e são cadastrados. Que não ousem aparecer os totens da MPB, como Milton Nascimento. Seriam vaiados, como representantes de música profana, do mesmo modo que chiques e famosos vaiaram João Gilberto no Credicard Hall. Não cabem no marketing das diversões evangélicas. Rappers, sim.

 

Caricaturas protestantes, praias famosas, centros de convenções, são alugados ou cedidos ao público especial. Comparece a elite evangélica, o prefeito, o deputado, o senador, e até o governador nem morno nem quente, não importa se comprometidos, expondo-se no cenário do crime organizado. O advogado acusado de roubar 300 milhões do erário preso com a Bíblia em punho; o juiz processado por assassinato do colega que o investigava por venda de sentenças em conluio com desembargadores, presos e soltos pela “justiça”, pastores e lideranças evangélicas peso-pesado, marcam presença. Perderam o trem da história, dedicando-se à luta inglória pela “doutrina protestante”, e à propagação do fundamentalismo do protestantismo de missões, instrumentalizado no serviço das eclesiologias recentes. Banqueiros, supermercadistas, agiotas, financistas, comerciantes, corruptos, bem-vindos! São bem divertidas as festas gospel. O proselitismo, agora, é prático. Entre os próprios evangélicos. O novo rosto evangélico marketeiro e político elege  políticos evangélicos, vende discos e relíquias em CD. Ninguém é bobo. Protestantes históricos permanecem perplexos, mas apóiam a modernidade gospel.  É pra rir ou pra chorar?

 

Derval Dasilio

 

 

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

3 respostas a PÁSCOA GOSPEL: CRENTES VENDIDOS COMO GADO…

  1. Igor diz:

    “A primeira vontade que dá é de rir. Mas realmente é lastimosa a situação”.

    Obrigado pelo comentário, Igor. Acrescento o email que você me enviou sobre o assunto:

    Comentário sobre a mensagem de Domingo de Ramos.

    “Estou acabando de ler um livro de Hans Küng em colaboração com outro autor, onde há “Uma Declaração das Responsabilidades Humanas” e um documento sobre “uma ética global” do Parlamento das Religiões do Mundo. Lembrei-me muito desse livro enquanto lia seu comentário. Realmente não pode haver Paz sem Justiça.
    Especialmente hoje estou sentindo meu coração muito pesado de tristeza, pois é uma semana muito significativa pra nós – tudo o que Jesus viveu e ensinou parece ecoar como um clamor que me chama à uma outra realidade”.

    Grande abraço, meu estimado pastor!

    RESPOSTA:
    Outra observação, meu caro irmão e interlocutor. Hans Küng é uma grande leitura.
    O ecumenismo teológico, na proposta que prossegue além do diálogo
    inter-religioso, Küng se supera. Quem o lê deve lembrar-se de que Karl Barth
    influenciou-o sobremaneira. E quem pensa que Karl Barth foi superado por Paul
    Tillich, (que confessara sua “conversão” ao diálogo entre religiões como uma
    necessidade de compreender os mais misteriosos aspectos da revelação de Deus,
    muito acima da insistência protestante em manter a Bíblia como parâmetro orientador
    de toda e qualquer diálogo doutrinal a partir do Cristianismo), engana-se. O último
    livro de Karl Barth, Introdução à Teologia Evangélica é um bálsamo. Barth renovava-se
    mais numa vez, para ser consagrado, com todos os méritos, o dogmático mais “antidogmático”
    que a Igreja viu no século XX.
    Derval

  2. Derval Dasilio diz:

    JESUS – O MÁRTIR DO REINO
    A Paixão e a morte de Jesus são a maior revelação da manifestação da misericórdia do Pai. Parece incompatível com a fé a idéia de um Deus insensível que sacrifica Seu Filho como o Cordeiro ofertado para aplacar Sua divindade ferida e irada. Como admitir Deus como uma fera acuada pelo pecado da humanidade? Por isso este relato é um convite ao leitor a aproximar-se do Senhor, a seguí-Lo, a levar com Ele a “cruz” de cada dia (9,23). Também nos convida a prestar atenção no sangue dos mártires que acompanharam o exemplo de Jesus na história humana. O esvaziamento (kenosis), até a humanidade total, o sofrimento com causa, em solidariedade extrema, nos fazem reconhecer um Jesus que não foge à Sua condição humana.

    Na palavra que dirige na cruz ao malfeitor arrependido: “hoje mesmo estarás Comigo no paraíso”, lembramos esse ‘hoje’ que nos transporta a Lucas 4,21, quando na sinagoga de Nazaré, Jesus declara que “hoje se cumpriu” a passagem de Isaías 61,1-2, que acabava de ler. O tempo se cumpriu e Ele, que veio para anunciar a liberdade aos cativos e a vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e para proclamar o ano da Graça do Senhor, aí está. Cumpriu Sua missão, porque morreu pendurado da cruz, como Mártir do Reino de Deus, mas seguirá vivendo entre nós, ressurreto, e nós o reconheceremos. O testemunho (martyria), mais chocante da causa do Reino de Deus, na missão de Deus cumprida sem o uso dos atributos divinos, é encontrado em Jesus. O mesmo que foi chamado pelos pais da Igreja Antiga (primeiros líderes), de “verdadeiro homem e verdadeiro Deus” (Credos e Confissões da Igreja Antiga).

    O Reino e a salvação não se conquistam sem a cruz. É o que nos diz a Páscoa, ou o que deveria dizer! A páscoa dos cristãos é a Páscoa da Ressurreição. A morte, assim, é a ressurreição conquistada, a Vida brota das sepulturas. “Eu sou a Ressurreição e a Vida…”. A Paixão, finalmente, nos convida a refletir sobre a causa do Homem de Nazaré, Mártir do Reino, morto, ressuscitado e glorificado pelo Pai. Tomé duvidou da ressurreição, (João 20,24), Jesus lhe disse, quando o mesmo conferiu Suas feridas: “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!”.

    NA CRUZ: REDENÇÃO E SOLIDARIEDADE

    A Paixão é ocasião propícia para se anunciar que o tempo das palavras e dos sinais está chegando ao seu fim, pois se aproxima a “hora” do “sinal” maior: paixão e morte de cruz ao mártir da causa de Deus, para a redenção do mundo. A Graça sucede ao sofrimento, à experiência das tantas “des-graças” das maiorias do mundo. As realidades do desemprego, da fome e da miséria, das enfermidades endêmicas, da violência política, dos direitos fundamentais negados, da opressão diária nas notícias trazidas à exaustão; a realidade da dissolução de valores humanos e sociais nos meios urbanos, continuamente gerando morte, são sofrimentos cruciante que apontam a necessidade da redenção. Cerne do afeto e do cuidado de Deus. Jesus sofre o sofrimento dos sofredores deste mundo propondo a convergência paradoxal do sofrimento e da dor redentora. Homem desprezado e rejeitado por todos, um homem de dores, um homem oprimido e humilhado. Cristo seria tipologicamente um Servo Sofredor. Aquele que “derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores”. (Isaías 53:3-7;12).

    O sofrimento solidário representado na cruz e no martírio de Cristo nos sensibiliza, especialmente quando encontramos o profundo e verdadeiro sentido da remissão dos pecados, enquanto redefinimos também o pecado da sociedade e dos homens, indistintamente. Homens e mulheres são também vitimados pelos pecados das estruturas de poder, políticas, econômicas, religiosas. Somos alcançados pela solidariedade de Deus; o sofrimento solidário nas mortes violentas dos mártires da fé, que a história testemunha desde o início, reproduzem a crucificação. O sofrimento faz parte do discipulado oferecido por aquEle que se dispôs a sofrer para denunciar as torpezas de um mundo sem piedade e sem compaixão, entregando-se pelos que deveriam ser salvos. Porém, na certeza de que o Pai concederá a ressurreição exemplar de todas as ressurreições. Feridas cuidadas, machucados acariciados, misturam-se à luta contra a compulsão para a morte, o constrangimento do sepultamento das esperanças de transformação de um mundo sem piedade e sem compaixão pelos derrubados à beira da estrada.

    O autor desconhecido da Mensagem aos Hebreus (5.5,10), nos faz sacerdotes universais para todos os homens e mulheres deste mundo, destacando as atitudes de Jesus no cumprimento da vontade do Pai. À aproximação do sofrimento Jesus o assume como prova de sua obediência aos desígnios do Pai. Oração e sofrimento são sinais concretos da solidariedade que Jesus compartilha com toda a humanidade o testemunho de uma grande causa (martyria)! É necessário mostrar a “cara” do Reino, que não é nenhuma moleza. Exige-se dedicação e entrega, coroas de espinho, além do esvaziamento do nosso interior personalista e centralizado egoisticamente. A passagem recorda a cena do Horto das Oliveiras, quando Jesus ora ao Pai diante da possibilidade de ficar livre da morte. A oração teve como efeito fortalecer a Jesus para que pudesse levar adiante a sua missão. Os cristãos têm muito que aprender neste sentido. Infelizmente, na maioria das vezes nossas palavras, mais que orações ou súplicas, nossas orações parecem ordens dadas a Deus para livrar-nos dos compromissos…
    Rev. Derval Dasílio

    A PAIXÃO DO MUNDO: CRISE E ESPERANÇA
    Roberto Zwetsch
    Quarta-feira, 8 de abril de 2009 (ALC) –
    Pasolini, comunista italiano, marcou época no cinema daquele país. Fez filmes antológicos como Teorema e outros. Mas o que mais me impressionou foi O evangelho segundo São Mateus (1964). Nele um Jesus magrinho e sem glamour percorre as poeirentas estradas da Palestina espalhando sua mensagem sem alarde, mas resolutamente. Como é possível que um intelectual como este tenha feito um dos filmes mais lancinantes a respeito de Cristo?

    Pasolini admirava Cristo! Um poema dele sobre o Cristo na cruz é simplesmente desconcertante: “Todas as suas feridas estão abertas ao sol/ e Ele morre sob os olhos/ de todos: inclusive Sua mãe/ sob Seu peito, ventre e joelhos/ observa Seu corpo sofrer./ O alvorecer e o crepúsculo lançam luz/ sobre Seus braços abertos e abril/ abranda Sua exibição de morte/ a olhares que O queimam. Por que Cristo foi EXPOSTO na Cruz? […]”.

    A cruz na história e no centro da fé cristã é algo que desconcerta. Ela é e continuará a ser a crise do cristianismo, das igrejas, do mundo que crucificou o justo e compassivo profeta de Nazaré. Ela é o mais radical questionamento deste mundo mau e corrupto, do qual todos nós fazemos parte. Ela nos convida não apenas a um mea culpa. Atitudes meramente piedosas diante da cruz podem desviar-nos do que realmente está em questão: reconhecimento e conversão ou mudança de vida radical.

    A cruz foi um escândalo para judeus, gregos, romanos e cristãos. O oficial romano que assistiu à morte aos pés da cruz (Marcos 15.39) fez uma declaração que ainda hoje ressoa no mundo: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus”. Ele não só fala do pobre crucificado. Ele diz muito mais. “Ver-se naquela máscara tornou-se para o centurião aquela ‘transparência espelhante’ que lhe mostrou sua própria condição. Ele reconheceu a si mesmo no momento em que reconheceu Deus e reconheceu Deus porque veio a conhecer quem ele era” (Vítor Westhelle).

    Na semana da Paixão de Cristo temos um convite a nos olharmos no espelho da cruz. Ali está quem Deus escolheu para anunciar uma nova realidade: o reino de Deus. Mas “os seus não o receberam”. E no decorrer da história o dilema continua. É difícil aceitar que Deus se mostre através dessa máscara de fraqueza, ignomínia e pobreza. O apóstolo Paulo afirmou que aquela cruz é “loucura e escândalo” (1 Coríntios 1). Mas justamente naquele que não parece ser Deus, aí mesmo Deus se oculta e se revela. E quem quiser compreendê-lo e amá-lo deverá passar antes pela cruz!

    A crise que vivemos no mundo no início do século 21 compromete a vida de milhões de pessoas. Estas são as pessoas crucificadas dos nossos dias. Nelas Deus se oculta e se revela como também se ocultou na cruz de Cristo. Haverá esperança? É o que muitos se perguntam e anseiam. Acredito que sim, desde que, como as mulheres seguidoras de Jesus, saibamos acompanhá-lo na morte e no caminho do túmulo para que então, com ele, saibamos viver hoje gestos de Ressurreição. Na aurora da manhã de Páscoa ressurge com Cristo a Esperança. Mas é bom dar-se conta que não existe Páscoa sem Cruz. E o compromisso de caminhar com o crucificado junto aos desvalidos deste mundo.
    ——-
    Roberto Zwetsch tem doutorado em Teologia e é professor na Faculdades EST, de São Leopoldo.

  3. Abner diz:

    Acesse nosso site na internet, Radio, Curso de Teclado Gratis, Papeis de Parede Lindos, Mensagens, Livros Interessantes Grátis e muito mais…

    http://www.assembleiabelem.br22.com

    Assista o video que fala sobre a ira de Deus sobre o Brasil, por causa do pecado, e a futura destruição.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s