CARNAVAL: SANTA CEIA COM JESUS NA AVENIDA…


 

    Publicado na Revista Utimato online – 02 DE MARÇO 2009

Comprei “A Tribuna” – (Vitória-ES 16/02/06) –  e achei interessante o artigo “Santa Ceia com Jesus na avenida”; parece-me estranha essa mistura do religioso com o profano (Carnaval). Os símbolos da fé misturados… Como nós, cristãos protestantes, deveremos ver isso?

Abraços, Zezinho.

 

Zezinho:

Como protestantes? Protestando!

Os símbolos da fé cristã, ou como João Calvino e Lutero diriam: “meios da Graça”, como entendemos na celebração da Eucaristia, não deveriam ser tratados assim, com a leviandade das festas populares, ou na exibição de algo próprio da intimidade requerida para a comunhão com o Corpo de Cristo, alimento para a salvação do mundo. (Corpo de Cristo=carne do Senhor=identidade vital onde se expressam sentimentos e sensações solidárias). Refiro-me à intimidade comunitária dos pecadores confessos que se alimentam da fé no Crucificado, e esperam a comunhão do mundo inteiro na grande festa da libertação (o Banquete do Reino de Deus). No país do futebol e do carnaval se come feijoada, “muqueca” (particularmente, eu dobro os joelhos diante dessa iguaria, se for a muqueca capixaba), pato ao tucupi, churrasco, tambaqui… se dança samba, forró, rock, reggae, funk, gospel, e tal, mas “comunhão” da boa, nada… queremos ver é a comunhão para transformar a injustiça, acabar com a exclusão e promover a solidariedade, como a Ceia do Senhor indica (pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval…  simulam a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo ou Vasco, Coríntians ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo?). Nem sei se Jorge Amado contou esta história (No País do Carnaval)…

 

Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos e protestantes? A eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, por que a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)? Por que não se admitiriam os pecados estruturais na sociedade inteira, injusta, irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão; por que se esconde o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos e heresias gritantes, carregada de magia religosa, superstições, crendices?

 

Jesus disse, introduzindo-se paulinamente a Santa Ceia na Carta 1Coríntios (aviso aos torcedores da Fiel corintiana, novos evangélicos que desconhecem a Bíblia: não é do Coríntians Futebol Club): “O pão que eu darei é a minha carne para a vida no mundo”; (…) ”aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (João 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús também o reconheceram “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”!

 

Mário de Andrade deixou-nos uma parábola maravilhosa no livro Macunaíma. No entanto, quem viu Grande Otelo, no filme de Joaquim Pedro de Andrade, vai lembrar-se desse desgraçado símbolo cultural da alma brasileira: Macunaíma alimenta-se da própria carne! Autofagia cultural… quem sabe essa Santa Ceia no Carnaval não apontará os que comem a própria carne no meio da rua? Nas câmaras de deputados e de vereadores, no Congresso Nacional, têm “bloco evangélico”… agora teremos o “bloco dos evangélicos” desfilando na avenida, celebrando uma comunhão não se sabe com o quê? Os demônios embutidos nas ideologias religiosas estão soltos dentro de nós e no meio cultural no qual vivemos. Quem diria, evangélicos, além de bibliolatras literalistas, cultuam também os ídolos da cultura popular brasileira… É hora do “descarrego” em praça pública? Será que evangélicos também necessitariam de conversão à fé no Deus Libertador do distanciamento,  da religião alienada, reconciliação com a fé no Ressuscitado que a Eucaristia e o Partir do Pão expressam? Se assim for… Amém.

“Elevemos os nossos corações”!

(Rito da Liturgia da Ceia do Senhor Presbiteriana-Reformada)

Kyrie Eleisson (Senhor, tem piedade de nós…) 

Pastor Derval Dasilio

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a CARNAVAL: SANTA CEIA COM JESUS NA AVENIDA…

  1. Derval diz:

    Prometi ao Zezinho, meu aluno ainda hoje, que reeditaria esta crônica, já constatando que as coisas pioraram. Estão presos nos EUA os organizadores oficiais da Marcha com Jesus, em S.Paulo, que se propagou pelo Brasil (eu fui lá, entrei num bloco, vestido com clergyman, e acabei ridiculamente confundido com “Leões de Judá”, e outros babados, fantasiados a caráter como “os novos evangélicos que conquistam o Brasil para Cristo”. Procurei no Orkut e vi propaganda de boates evangélicas, e até reclamações sobre a qualidade dos produtos servidos nesses lugares… se bem que é tudo uma “droga”, no pior sentido). Esta semana, Cacá, o craque já expoente dos Atletas de Cristo, membro da Renascer, declarava que doou para obras sociais, recentemente, a pequena quantia de 200 mil reais à sua igreja, mas jamais obteve comprovante de que foram aplicados para a finalidade à qual o craque destinara.
    Derval

  2. Reedição: Derval Dasilio diz:

    A CEIA DO SENHOR EM Lc 14, 15-24
    Ainda há lugar – Ana Pinheiro dos Santos
    Mosaico – Apoio Pastoral (n.41- Ano 16)

    A Bíblia cultiva a esperança e fomenta o olhar para frente. O pão é um dos elementos que a Bíblia apresenta como fomentador de esperança. No AT o maná formula um projeto em torno do pão, quando não é acumulado, jamais falta. O NT acompanha esse projeto. O direito ao pão é a fonte de todo direito e justiça. A ênfase no pão reaparece nos momentos em que Jesus alimenta a multidão. Ele integra a oração modelo, Mt 6,11. A Bíblia não celebra a dignidade do pão, mas enfatiza a partilha e deste modo chegamos ao seu auge na eucaristia. (Projetos de Esperança: Meditações sobre Gênesis 1-1, p.14-15). No mundo que mostrava divisões sociais na refeição, Jesus proclama e instaura um mundo novo em sua forma de comer.

    Esta é a lição que Ele deixa, apresentada no capítulo 14 de Lucas. Assim como na sociedade a comida expressa a forma de os grupos sociais unirem-se, afirmarem e se fecharem diante de outros grupos, Jesus expressa uma nova ordem social a partir da comunhão na mesa.

    A atitude de Jesus é palavra profética que ex-pressa a essência do Reino e do cristianismo, presente em nossas comunidades sob a forma da eucaristia, ou seja, temos comida como metáfora do Reino de Deus. O povo esteve presente durante o mi-nistério terreno de Jesus. Eles são definidos como ‘laos’ e ‘ochlos’. O ‘laos’ é o povo comum ou povo de Deus. O ochlos é a aglomeração sem líder, sem importância política e cultural. Jesus estende ao ochlos a compaixão, a cura e sua instrução, e os transforma em seus discípulos/as.

    No texto de Lucas 14,15-24 conta-se uma parábola num grande banquete em que os convidados estão reclinados. Nos evangelhos reclinar-se sugere refeição ao ar livre ou um banquete. Nesse texto temos um banquete, os convidados são proprietários de tema e estão reclinados ao redor da mesa ao estilo greco-romano. Os camponeses declinavam-se no chão. O local é a casa de um governante rico, Lc 14,1.

    A parábola inicia no instante em que um convidado diz: bem aventurado aquele que comer pão no reino de Deus. Comer pão na Palestina significa comer uma refeição. Desta maneira, o convidado inicia o tema de comer no reino. O banquete é símbolo da salvação, que terá o seu auge no banquete messiânico. O tema do banquete está presente no AT no Sl 23.5 e Is 25.6-8.

    No período intertestamentário, o tema do banquete estava relacionado com a vinda do Messias e os gentios ficam de fora. Na comunidade de Qunram, o grande banquete também estava ligado à vinda do Messias. É estabelecida uma hierarquia e somente os perfeitos participarão deste banquete. Com isto, perdeu-se a visão abrangente do profeta Isaías. O convidado (v15) espera uma invocação piedosa de Jesus, mas ele responde iniciando uma parábola. Certo homem deu um grande banquete e convidou a muitos. Este primeiro convite é sério, o ato de aceitá-la significa compromisso. O anfitrião precisa providenciar a carne baseado no número de convidados/as. Após os preparativos, é enviado um servo dizendo: “Vinde, tudo está preparado, estamos esperando por você”. Aceitar o convite inicial obriga o convidado a responder ao chamado. E o movimento que Jesus dá à parábola surpreende, tomando ela uma direção inesperada.

    De repente, todos de uma vez começaram a desculpar-se. Isto na Palestina é considerado uma afronta para o anfitrião, ainda hoje. Quem ouvia a parábola contada por Jesus compreende, o banquete messiânico foi anunciado. Tudo está preparado e o Reino de Deus está próximo, na pessoa de Jesus. Quem quer comer pão no reino de Deus, precisa comer pão com Ele. Mas os convidados se queixam que o anfitrião come com os pecadores, as mulheres, os pobres e não guarda o sábado.

    Ao retornar o servo relatou tudo ao seu senhor, que fica içado. Mas sua reação é graça, e envia seu servo e o instrui a convidar os proscritos da aldeia: os pobres, cegos, aleijados. Estes fazem parte da cidade, embora isolados da vida comunitária. Os primeiros convidados se recusam a atender as boas noticias do banquete que foi preparado. E o servo diz: Senhor o que mandaste está feito, mas ainda há lugar. Ele é instruído novamente a sair e compeli-los a entrar. Um convite inesperado normalmente era recusado, por questão de honra. Culturalmente os convidados são constrangidos a ficar, Lc 24,28-29. Os mendigos são encontrados em aldeias e cidades onde vivem concentrações humanas. Não pertencem à comunidade do senhor. Como de costume o servo toma o convidado pelo braço e o puxa gentilmente.

    A graça é incrível. Em cada convite e encontro haverá um choque e incredulidade dos convidados/as. Outro costume era o de enviar porções do banquete aos amigos/as ausentes por motivos justos. Mas aqui, não há possibilidade de participação à distância. Quem não comparecer não provará do meu banquete. Jesus declara o banquete como sendo seu e estende o convite aos presentes. A parábola não tem epílogo. Os convidados não estão todos reunidos/as. Jesus inaugura o banquete messiânico prometido por Isaias 25.6-9, com a comunhão de mesa. E a eucaristia representa esta comunhão contínua do Cristo Ressurreto. Ela traz a dimensão da vivência comunitária e da responsabilidade social. A sociedade exclui e a eucaristia denuncia as desigualdades e injustiças (Revista Caminhando, Ano VI, Nº 8, p.33-35, E mais do que comer juntos/as, todos/as que comem são despertados/as a trabalhar, orar pela igualdade, pelo pm da fome e a abraçar todos/as. Pluralismo e a missão da Igreja na atualidade, p. 99). E mais que comer juntos/as, todos/as que comem são despertados/as a trabalhar, orar pela igualdade, pelo fim da fome e a abraçar todos/as. Há sempre o desafio após cada celebração de servir ao Senhor na Igreja e no mundo. Um convite para assumirmos a responsabilidade social a favor do ser humano, a partir do modelo deixado por Jesus. A eucaristia denuncia as desigualdades e injustiças, propõe à igreja e ao mundo que sejam um, momento em que buscamos a Deus com nossa fraternidade, amor e justiça, como prática do ministério terreno de Cristo.

    Mosaico – Apoio Pastoral (n.41- Ano 16)

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