DEPRECIAR O CORPO E ENALTECER O ESPÍRITO…


DEPRECIAR O CORPO E ENALTECER O ESPÍRITO

Salmo 30 – Que proveito terá meu corpo entregue à morte?

1Coríntios 9,24-27; 10,31-11 – Submeto meu corpo… para a glória de Deus

O centro da fé cristã é a ressurreição do corpo, não da alma, ou do espírito. O NT faria implodir a crença posterior da supremacia do espírito (nous), se assim fosse lembrado. Ressurreição é libertação da morte do corpo. Esta centralidade proporciona uma descoberta de renovo, de vida nova, de transformações das coisas submissas ao domínio da morte. O corpo exprime a liberdade contra as opressões e exploração dos corpos das pessoas. Corpos que são castigados pela tortura, pela prisão, pelo exílio, fome, morte pelo descuido nas políticas públicas (dengue, hepatite, esgotos a céu aberto; criminalidade urbana, impunidade…). Sob controle de poderes mortais, forças bem visíveis atuam nas realidades humanas. Na memória de Zulu, Tiradentes, Calabar, sabe-se que sem o corpo não se pode torturar ninguém, nem aprisionar, nem exilar, nem matar de fome e de doença socializada, ou qualquer outro assassinato do corpo (Günther Wolf). Para sufocar a liberdade é preciso torturar, esquartejar, carbonizar os corpos sob inquisição. Sem o corpo, também, não se pode explorar o homem! É o corpo da pessoa que é explorado como mercadoria, seja no Big Brother, na prostituição adulta ou infantil, tanto na produção como na mercantilização do trabalho ou do esporte de massas (na transação fracassada entre o Milan e o Manchester United, Cacá revelou-se um escravo branco e não sabe…).

O corpo está sempre na linha de montagem de máquinas exploradoras. O corpo é matéria, e João acentuará: “A Palavra se fez carne” (logos, davar), e habitou no mundo como corpo, e não como “templo”, porque o Templo estava a serviço da opressão política desde o modo tributário de Salomão (cf.Jo 1,2ss; 2Cr 8,1-8). Mas é impossível dissociar o corpo de outras opressões, desde a sexualidade reprimida, homofobia, o sexismo, androcentrismo, ao direito de ir e vir que a União Europeia quer controlar, e como o “muro de seis metros” californiano pretendido por Bush e Shwarzenegger para impedir a entrada de “xicanos” e “ilegais” nos EUA. Podemos interpretar assim o pensamento religioso que prevalece ainda nos dias hoje, equivocadamente, até nas pessoas mais simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”.

A depreciação do corpo prossegue. Equivocadamente! Para encerrar a discussão, precisamos lembrar-nos de que o modelo antropológico dualista (espírito separado do corpo) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico. A Bíblia, por sua vez, não absorve essas razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas. A concepção bíblica refere-se ao ser total, que é corpo, é alma, é espírito, finalmente. E isso no Segundo Testamento, porque no Primeiro já haviam descoberto, os exegetas do século XIX, que a palavra “Espírito” (pneuma, na Septuaginta, AT) refere-se somente ao Espírito de Deus. O hebreu não conhece outra forma de identificar o ser humano senão através do “corpo que é alma, e da alma que é corpo inseparável da alma”. Corpo e alma são indissociáveis (R.Martin-Achard).

A discussão refere-se à integridade espiritual do crente. Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego da palavra “espiritualidade”. O que tem ela a ver com o corpo, ou a corporalidade das pessoas. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como filósofos gregos, que imaginavam possível um estado de perfeição do espírito somente quando o corpo não interfere na abstração espiritual, fora do corpo e das realidades humanas. Quer dizer, o melhor estado espiritual é aquele alcançado pela mortificação do corpo. Os monges gregos ainda no começo da Idade Média já diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (espírito é nous, soma é corpo, no grego). Mas isto não corresponde ao pensamento paulino (E.Käsemann). Nenhuma escola rabínica ensinaria tal coisa, e ele foi instruído na concepção rabínica. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu na igreja não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século VII a.C. chamada “Religião Órfica da Trácia”, capaz de admitir uma dicotomia, e até tricotomia, do ser religioso.

Desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo, e mesmo o judaísmo de Jesus e dos apóstolos desconhecia tal entendimento (Renold Blank). Paulo prossegue nesta linha: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com a espiritualidade, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos, “…porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17; 10,31-11). Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a comunidade, a sociedade e o crente. Somos o que somos porque somos um corpo. Um corpo é parte de outros corpos, na igreja, na comunidade, na sociedade. Ludwig Feuerbach disse, escandalosamente: “O homem é o que come…” Desse modo, parece que os cristãos estão convencidos de que estamos diante de um fato proveniente da revelação divina. Mário de Andrade e Macunaíma com a palavra, diante da antropofagia reinante entre os próprios cristãos.

Kyrie Eleison

Derval Dasilio

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a DEPRECIAR O CORPO E ENALTECER O ESPÍRITO…

  1. Anónimo diz:

    eu so quero saber que e enaltecer

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