A EPIFANIA: UM OLHAR SOBRE A VIOLÊNCIA DE NOSSOS DIAS


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Observe-se um quadro, painel na verdade, entre os que melhor transmitem todo o desespero advindo da violência, que é intemporal numa sociedade, na guerra ou no terrorismo do crime organizado e da repressão policial inconseqüente nas favelas das nossas cidades. Inocentes, pobres, desprotegidos, são vítimas preferenciais da violência.  Guernica retrata um dia fatídico, trágico: 26 de abril de 1937. Demonstra os resultados do bombardeio nazifacista, os ditadores Franco e Hitler o haviam autorizado. Uma vila com pouco mais de sete mil habitantes teve metade de sua população morta pelas metralhadoras nazistas. Estranha coincidência com o número de inocentes mortos no fatídico 11 de setembro de 2001, no desabamento das torres gêmeas de Manhattan, Nova York. Sem esquecer, hoje, Gaza sobre o implacável bombardeio israelense.

Picasso compôs esse monumento à insanidade da violência enquanto desenha um cavalo e um touro como se quisesse compará-los à mula e ao boi dos presépios natalinos, tão débeis e frágeis em sua mansidão, mas engrandecidos na representação de sofrimento, angústia e loucura que alcançam criaturas inocentes numa guerra inexplicável. Exemplarmente: Guernica, a vila, abrigaria revoltosos e inconformados com o fascismo dominante na Espanha. A violência sufocante, explorada midiaticamente, impõe-se também pelo extermínio das sementes de liberdade enquanto se insufla o medo sem apresentar uma crítica real sobre sua origem.

Junto ao touro e ao cavalo o pintor colocou uma pomba moribunda, em estertores. Por quê? Ali está a simbologia do divino. O Espírito Santo de Deus testemunha a brutalidade da violência. Está identificado com o sofrimento humano, é vítima solidária na indústria de mortes violentas com as quais nos revoltamos ou nos conformamos. É, no entanto, Epifania: Deus se revela entre os homens e as mulheres e as crianças brutalizados pela violência imperante proclamam: Deus está no meio de nós.

Isso ocorre no testemunho de Picasso, válido para todos os tempos. Corpos mortos, almas feridas pela destruição daquilo que lhes vale mais, desde a cultura até os melhores valores éticos construídos em milênios, compõem o cenário de horror. Bem próximo da pomba, o pintor espanhol pintou raios de uma luz misteriosa, sinal de iluminação interior, protegido dos bombardeios exteriores, uma espécie de couraça garantidora da manutenção da esperança de liberdade (sperma=semente, no grego).

Exterminam-se sementes de liberdade enquanto se insufla o medo. Homens e mulheres têm medo de sair nas ruas. Mas a doutrina trinitária do Reino de Deus é a doutrina teológica da liberdade. O Filho comunica, na mútua participação da vida indestrutível, que cada homem e cada mulher se torna livre para além dos limites da sua individualidade, e descobre o espaço vital comum da sua liberdade. Esse é o aspecto essencial da liberdade. O seu nome é amor e solidariedade. Experimentamos nele a união da diversidade dos indivíduos. Nele experimentamos a união das coisas que foram separadas à força, pela violência. O Espírito Santo de Deus testemunha a violência contra a liberdade. Está no cotidiano, solidário, gemendo de dor com o sofrimento humano (Rm 8,26: “O Espírito Santo intercede por nós com gemidos inexprimíveis”).  As vítimas da fábrica de mortes violentas, com as quais nos conformamos, reclamam a indignação dos crentes, porque Deus já está indignado com o sofrimento imposto pela criatura à própria criatura.

Um Deus imóvel e apático não poderia ser colocado com fundamento da liberdade humana. Um soberano absolutista no céu não encoraja nenhuma liberdade sobre a terra. Somente o Deus sofredor e apaixonado, que vem aos homens, e por força da sua paixão pelo homem, é capaz de fazer com que exista a liberdade humana. Ele oferece à liberdade humana o seu divino espaço vital. O Deus uno e trino, que realiza o Reino da sua glória em uma história de criação, libertação e glorificação, solidariamente, deseja a liberdade humana, alicerça a liberdade humana e dispõe o homem incessantemente para a liberdade (Jürgen Moltmann). Resta-nos comemorar, nesta Epifania, a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Emmanuel. Deus está conosco para sempre.

——

Derval Dasilio

Epifania – 2009

Publicado na Revista Ultimato ON-LINE (23.jan.2009)

CRISTO EM TODOS OS HOMENS E MULHERES DA TERRA

Indiferença para com os demais, narcisismo coletivo, hedonismo, sucede à insegurança de décadas recentes, superados os medos de catástrofes nucleares. Experimentamos erosões sociais de alta monta, apesar de tudo.  Vivendo num mundo egoísta, que exacerba o individualismo, reclama-se salvação particular de pessoas e grupos,. Cristãos poderiam pensar, num contexto amplo, universal: “como atualizaremos a  Luz da Epifania nestes dias, nesta era do vazio” (Lipovetzsky)? Como afirmaremos que o “Deus conosco” deveria tornar-nos humildes e não arrogantes, triunfalistas, quanto à posse da “única” experiência possível da revelação de Deus?


Sem mutilar a soteriologia exposta nas Escrituras, testemunhar os atos de salvação na  “epifania” de Jesus, Salvador e Libertador, significará sempre afirmar a fé perene e universal que dá sentido à existência e à unidade do mundo. Hoje, ¾ de seus habitantes esperam uma resposta.  O principal tema do livro de Colossenses é a importância de Jesus Cristo, esperança para o mundo: “Cristo é tudo. Ele é nosso Senhor. A meta central e esperança do evangelho é que Cristo viva em nós (1:27); “Cristo é tudo em todos” (3:11). A sabedoria das outras tradições espirituais, portanto, tem uma percepção de Deus, em muitas situações, equivalente à dos cristãos, judeus e islâmicos, do mesmo tronco abraâmico. Não sendo assim, por que o Evangelho chamaria a atenção para os “Magos do Oriente”?

Um poema messiânico para o “cristianismo sem o messias” dos nossos dias (Isaías 60,1-6).  Cantado com desenvoltura, explodiria em harmonia, força e beleza, em esplêndidas imagens, enquanto o entusiasmo nacional se manifesta em alegria. O Coro dos Nabucos (Wagner)  festeja uma “Luz” sobre Jerusalém, destinada à peregrinação dos povos. A cidade se transforma num símbolo de longo alcance, a função da Luz é referência ao Monte de Sião, ao Sol sem ocaso,  à aurora de um brilho permanente sobre o mundo. Ocorre no meio de uma reconstrução nacional em torno da religião e da fé profética. Passa o dia, a noite não vem! O dia de luz sem fim, de vida  e  de fecundidade, não termina. Um dia mais glorioso que aquele após a travessia do Mar Vermelho; que o êxodo do Egito; que a volta do exílio na Babilônia. As portas da cidade não precisam mais ser fechadas ao anoitecer, não há mais o perigo da agressão. O trabalho continua diuturnamente, sem cansaço ou desânimo. É um tempo de “transfiguração”, a Luz orientadora permanece sobre todos. Porém, muda o algoz, poderoso, inimigo opressor do povo da terra, ironicamente. Não é comandado pelo faraó, ou por um Nabucodonozor moderno.


Há uma escuridão universal; a sentinela anuncia a aurora (“Tal qual o guarda espera pela alvorada, assim minh’alma anseia por ti, ó Deus” – Sl 129). O dia vai clareando, não no Oriente, mas sobre toda a cidade, e todos se voltam para contemplar a Luz. Esta, na prática, convoca todos para ser vista. Agora, põem-se em movimento os filhos dispersos, e os povos estrangeiros se oferecem para transportá-los; um deslizar de navios, camelos enchendo o espaço das ruas, enquanto o dia vai clareando. Algo bem diferente do que ocorre neste momento, quando a força militar do Israel moderno extermina centenas de palestinos. As imagens são de tanques de guerra e “brucutus”. Ogivas percorrem os céus noturnos da Palestina. Escrevo no momento em que a faixa de Gaza é invadida, e já se contabilizam mais de 1000 mortos no ataque israelita. A ONU é, mais uma vez, inútil e decorativa. Bush faz suas tradicionais manifestações, ofendendo inteligências diplomáticas: “Israel se defende…”.


A presença de uma estrela nos sonhos humanos pode ser uma “epifania” de Deus. Talvez não estejamos entendendo muito bem a presença de uma “estrela” nos sonhos humanos como uma manifestação libertadora, concreta, de Deus, bênção para toda a humanidade, na forma do menino da estrebaria adorado por estrangeiros obscuros do Oriente, cuja descrição, na tradição primitiva da igreja, os mostra como representantes de várias raças e povos (Mateus 2,1-12). Os Magos do Oriente devem representar nosso reconhecimento da Epifania de um Deus que se apresenta livre – “o Espírito sopra onde quer” (Jo 3,3), acima de todos os impedimentos, barreiras, muros nacionalistas ou paredes doutrinais particulares.


Mas os fatos que reproduzem a revelação de Deus em Jesus Cristo reproduzem a referência da antiguidade, de um mundo quadrado, aristotélico. Ptolomeu acrescentaria cinco planetas ao cosmo conhecido. O mundo cristão moderno permanece antigo e medieval, porém. Usa Tv digital, Ipod, mp3, internet banda-larga, mas esquece a fé que judeus, cristãos, islâmicos,  reconhecem a partir da Escritura, como a força da Paz mais viva que todas (shalom), sem equívoco algum. Alcança a Criação e o mundo inteiro: “Cristo é tudo em todos” (Cl 3:11). Esta é a doutrina dos Apóstolos contra os particularismos e exclusivismos  individualistas que defendemos com unhas e dentes, enquanto em guerra permanente uns contra os outros sobre a mais “reta doutrina” da salvação.


Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a A EPIFANIA: UM OLHAR SOBRE A VIOLÊNCIA DE NOSSOS DIAS

  1. Anónimo diz:

    Pastor Derval:
    achei muito profunda a sua mensagem, ajudou-me a refletir sobre a manifestação divina.
    Boa Ano Novo para o Senhor e sua familia.
    Ir. Lusineide.

    Resposta:
    Apreciei muito seu comentário.
    Lucia, e meus filhos, agradecemos e retribuimos os votos.
    Estimamos muito sua amizade, e o espírito
    ecumênico que une sua comunidade com nossa
    igreja.
    Derval Dasilio

  2. Igor Pires do Nascimento diz:

    É interessante o fato de algumas pessoas representarem os anseios de toda uma multidão. Pelo relato bíblico Jesus foi recebido como sinal de novos tempos por seus pais, por Isabel, pelos magos e pastores, e depois quando adulto, pelos apóstolos e vários discípulos.
    Atualmente, fazendo um perigoso paralelo, o atual presidente dos EUA também tem sido recebido com grande expectativa. Acredito que é bom termos esperança e certeza de que o mundo pode mudar, mas a questão é que mudança de mundo é sinônimo de mudanças individuais, e posso constatar em minha própria natureza que nem sempre conseguimos conciliar isso.
    Que em 2009 apareçam muitos sinais (homens e mulheres) no Espírito do Senhor promovendo o Reino para todos.

    Grande abraço Rev Derval

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