MUNDO INFERNAL E SOBRENATURAL NO ADVENTO



Perguntavam-me: Você crê em demônios? Crê no diabo e seus anjos? Eu respondia: – “Claro que creio. Sua pergunta também pode ser respondida quando se observa a realidade concreta da miséria, do abandono e do esquecimento dos fracos, dos despoderados, dos esmagados pela injustiça predominante, tão perto de todos nós. Nada é mais demoníaco que essa realidade”. Sob uma visão de abismo, um mundo dominado pelo Mal sobrenatural, um universo catastrófico dominado pelo Mal irreversível; “demônios” por toda parte, como entenderemos que Deus, Todo-poderoso, se entregue e abdique de toda  capacidade de se sobrepor e superar o sofrimento sem agir diretamente no terreno das crenças no sobrenatural, nas crendices, nas superstições?


Ao assumir a condição humana, um certo Jesus de Nazaré, um homem como qualquer outro, a ponto de esvaziar-se para ser julgado pelos homens, ingressa na esfera terrena, desce aos infernos humanos emergindo vitorioso sobre a morte, inclusive no inferno da alienação mental de seu tempo (Karl Barth, comentando o Credo Apostólico).  O que norteia o imaginário religioso quando os demônios contemporâneos se apresentam na complexidade dos sistemas de pensar que os denunciam, é deveras interessante à pregação e ao púlpito cristão. Trata-se do reconhecimento pagão de que Deus não tem nada a dizer sobre a irreversibilidade do Mal sobrenatural. Cristãos paganizados condicionam sua fé à superstição que envolve o sobrenatural, dominado através da magia: “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”.


No tempo de Jesus dominava um forte temor, até extraordinário, em relação a demônios. O que ocorre com a Palestina islâmica ainda hoje serve de parâmetro para o que ocorria dois mil anos atrás.  Doenças, em muitas manifestações, eram atribuídas a demônios, particularmente as doenças psíquicas, que externamente acusavam vítimas, pessoas enfermas que não mais tinham controle de si mesmas. Nada incomum, como ocorre em templos evangélicos e católicos de hoje, sob influência “carismática”, quando doentes mentais escolhiam sinagogas e diante delas começavam a vociferar. Nossos hospitais deixam pouco espaço para os doentes mentais, para perturbados psiquicamente. Assim entendemos a dimensão do grande medo de demônios.  Não menos quando os corredores dos ambulatórios dos hospitais públicos amontoam pacientes em estado grave aguardando atendimento. Muitos morrem.


É preciso compreender e estabelecer que as questões estão condicionadas às nossas crenças. Tiago, abordando a questão de fé, diz: “Tu acreditas que há um Deus. Fazes muito bem. Os demônios também acreditam. E estremecem ao ouvir o seu nome” (Tg 2,19). Nesse ponto, questionaríamos o mundo virtual que se faz como mundo real? Então, caímos noutra questão: é o ser humano que inventa o Mal?  É o ser que  se angustia, como o aprendiz de feiticeiro que não sabe desfazer o feitiço? O ser humano alcança o álibi que o inocenta diante das decisões necessárias, quando poderes humanos demoníacos se impõem em seu lugar?


Pior ainda, atribuindo a poderes terceiros, diabo, demônios, forças do mal, a escolha, que, finalmente, é sua, nega-se o domínio de Deus diante das forças cegas que dominam o universo de muitos. Ao finalizarmos o tempo do Advento, já na proximidade da Natalidade do Senhor, seguimos ouvindo vozes e ecos proféticos, enquanto os acontecimentos da vida humana persistem em reclamar dignidade para a vida, paz, comunhão, solidariedade, especialmente entre os que crêem em Jesus. Ou não, enquanto localizamos demônios  sobrenaturais acima da realidade concreta. Demônios verdadeiros, em carne e osso, são impedimentos ao reinado de Deus. Contra Deus estão aqueles que negam direitos fundamentais à pessoa humana; que negam dignidade através dos direitos sociais; que recusam comunhão e partilha de bens sociais; que se entregam à indiferença ou à ausência, quanto à solidariedade evangélica devida aos deserdados, sem-terra, sem-casa, sem-habitação, sem-educação formativa, sem-saúde e previdência social.


O Advento do Senhor é tempo de salvação (kayrós). O Reino de Justiça e Paz chega aos homens e mulheres que clamam por libertação do espírito egoísta, particularista, exclusivista, discriminador, preconceituoso, desse tempo diabólico inclinado a explicar-se através do Mal sobrenatural, do destino, do fatalismo, do determinismo espiritual de uma época. Como ocorre nos nossos dias, a céu aberto para quem quiser ver. A presença de Jesus Cristo, nesta “parousia”,  “adventum”,  alcança o povo da fé libertária e libertadora. Temos Esperança! O Senhor vem.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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Uma resposta a MUNDO INFERNAL E SOBRENATURAL NO ADVENTO

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