ELOÁ: TRAGÉDIA E SENSACIONALISMO NA TV


ELOÁ: TRAGÉDIA E SENSACIONALISMO NA TV

Derval Dasilio

A nova ótica do mundo, em sua ênfase individualista e egoísta, premia o mundo competitivo, enquanto sufoca os sonhos de transformação social. Enquanto esconde os desafios ambientais  (o planeta sistematicamente violentado e assassinado!). A janelinha eletrônica é ofuscante. Camufla o que está acontecendo com a sociedade inteira com gritarias sobre quebra da bolsa, “vacas loucas”, febre aftosa, gripe das galinhas. A mídia televisiva colabora, faz um circo sobre seqüestro de adolescentes, estimulando outros assassinatos frente à telinha, enquanto o país pára e retrocede convidado a opinar sobre o direito de ter uma arma mortal em casa ou na gaveta do veículo que se dirige.

Interessa-nos o que ocorreu com Eloá, adolescente protagonista de uma morte anunciada, ajudada pela Tv Globo. Seu assassinato só não foi visto ao vivo porque as objetivas das câmeras não atravessam paredes de concreto.  Quem refletirá, agora, sobre os 2 milhões de reais que o advogado de Nayara, sobrevivente do seqüestro, pede de indenização por sua participação testemunhando o crime hediondo? Exige-se do Estado, enquanto os depoimentos originais são maquiados, inclusive informações sobre os momentos que antecederam ao assassinato de Eloá.  E o meio suicídio do jovem Lindemberg. O rosto da menina contratada com exclusividade pelo canal televisivo citado, devidamente glamourizado, sob script bem decorado, em nada lembrava a tragédia recente. Uma tragédia sensacionalista. Os esforços interligados, sensacionalismo e ocultação da verdade dos fatos, apresentam uma visibilidade estranha sobre o que acontece com a sociedade, no todo. A memória curta está do lado dos oportunistas e aproveitadores do drama alheio. A mídia encontrará outra menina para estimular a catarse social.  Eloá será esquecida em poucos dias. Vive-se furiosamente o consumo de tragédias…

Thomas Skidmore, brasilianista conceituado, que nos acostumamos a ler desde a ditadura militar, dizia no Roda Viva da TV Cultura, pouco tempo atrás: “Do jeito que as coisas vão, os historiadores terão pouca coisa para contar, no futuro próximo, mas os antropólogos e arqueólogos estarão bem interessados no que teria acontecido com uma sociedade tão promissora que se entregou ao projeto do Brasil… ”, referindo-se  ao desinteresse de hoje pela realidade visível, e os resultados das escavações arqueológicas no futuro, quando se analisarem os resultados políticos do que se produz hoje. Disse mais: “… a sociedade brasileira não está disposta a sacrificar-se pelo desenvolvimento  que alcançaria toda a população”. Kant escreveu, no século XVIII, a Crítica da Razão Pura. Combatia o racionalismo cristão do momento. Se estivesse vivo, teria que escrever outro libelo: uma Crítica à Insensatez Absoluta. Hoje.

Vive-se furiosamente em função do consumo, por um lado. Por outro, todos se esforçam em aparecer como pessoas bem-sucedidas. As palavras de ordem são eficiência, qualidade total, inteligência emocional, possuir bens aparentes e exibi-los como prova de “capacidade”. Ser indivíduos vencedores é estímulo quase inevitável, para uma geração inteira. Temos uma visão do mundo como se fora um supermercado. Tudo se vende e tudo se compra. As igrejas imitam supermercados… O shopping center possui o deslumbramento incrível do acessível, mas desnecessário.

Outra menina, acho que não a matariam por isso, escrevia na internet: “Vocês já notaram como 10 reais é tão pouco no shopping, e tão ‘demais’ na hora do ofertório no  culto cristão”? Dentro da igreja, por outro lado, “a seleção natural do dinheiro”, da prosperidade, dá visibilidade aos bem-postos, bem-sucedidos, que ditam regras para o sucesso da legião de fracassados em contínuas competições. O futuro das igrejas evangélicas será construído com freqüentadores de shoppings que vêm aos cultos dominicais exibir seu sucesso e suas vitórias?


Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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4 respostas a ELOÁ: TRAGÉDIA E SENSACIONALISMO NA TV

  1. Adriana Neumann diz:

    Muito bom texto. Parabéns pela bravura em escrevê-lo!

    Abraço,

    Adriana Neumann

  2. ana diz:

    Texto bom início ótimo, com final pessímo, a única instituição q nunca faliu e nunca ira falir são as igreja, muitas vz com seus membro iguais a esse Derval…Meu amigo vc abriu um assundo e se descolou para outro sem nexo…por favor vc já escreveu melhor, vamos combinar…pelo título, pensei q iria ser o artigo + tudo bem fica p próxima
    From: anaelisie@hotmail.com

  3. Derval diz:

    Ana:
    Não sei se é Ana mesmo, ou se é algum fundamentalista adversário que não sai do meu pé…
    Faltou identificação clara, peço desculpas se for uma amiga na internet, como a Adriana, que comentou meu texto em primeiro lugar. Meu provedor informa seu e-mail: anaelisie@hotmail.com
    Não vejo a Igreja Evangélica como você, creio. Vejo, sim, muita infildelidade ao Evangelho e extraordanariamente voltada para o pragmatismo religioso de nossos dias. Não sei porque você aceita a crítica à “sociedade” cristã, e, corporativamente declare, parece-me, a Igreja Evangélica como intocável. A boa teologia, Karl Barth por exemplo, lembrando Calvino, nos dirá que “a Igreja é humana e pecadora”…

    Escrevi, citando a menina anônima na internet, que mostrava a diferença entre “gastar” com a igreja e “consumir” no shopping:

    “Dentro da igreja, por outro lado, ‘a seleção natural do dinheiro’, da prosperidade, dá visibilidade aos bem-postos, bem-sucedidos, que ditam regras para o sucesso da legião de fracassados em contínuas competições. O futuro das igrejas evangélicas será construído com freqüentadores de shoppings que vêm aos cultos dominicais exibir seu sucesso e suas vitórias?”

    Você não concorda com isso, parece. Que se critique a Igreja Evangélica e sua tendência pelo “evangelho do mercado religioso”. Por que isso incomoda? Observamos que igrejas históricas são invadidas diariamente pelas eclesiologias “com propósito”; que a busca de “sucesso empresarial”, prosperidade individual e conquistas que vão de uma vitória sobre alguma doença física (menos a mental, ou a doença social…) à aquisição, “em nome de Jesus”, do carro zero quilômetro ou do apartamento na Zona Sul (para quem é do Rio?), predominam em todas as comunidades que conheço. E os adeptos da nova igreja evangélica torcem o nariz para quem denuncia os desvios e heresias dos evangélicos, ou quaisquer cristãos e cristãs de nossos dias.

    Obrigado pela correção dos meus textos. Mas, por favor, ajude-me com boa ortografia e gramática, também. Ficarei agradecido. Afinal, como disse Sócrates, o filósofo, não o ex-craque da seleção: “o que sei é que nada sei…”.
    Um respeitoso abraço,
    Derval

  4. Igor Pires do Nascimento diz:

    “…a única instituição q nunca faliu e nunca ira falir são as igreja,…”

    Será que a Ana já ouviu falar em Reforma Protestante? E que o princípio “a igreja está sempre em reforma” é abraçado por muitos cristãos sinceros dentro de várias denominações cristãs, católicas, protestantes, evangélicas…?
    Para tomarmos atitudes reformistas temos que admitir que existem falhas, não concordam? É ter a sinceridade de confessar que em muitos aspéctos como a denúncia profética das injustiças, a luta pelos direitos fundamentais dos seres humanos, a conduta ética como instituição, o cuidado com pobres, necessitados e explorados são alguns exemplos de onde a igreja tem falhado, ou faliu. Pelo menos, esta é uma constatação que podemos fazer da maioria das denominações, ou melhor, da maioria dos membros que as constituem.

    Sempre tenho o maior prazer em ler os escritos do Derval por causa de sua luta contra o projeto egoísta de “prosperidade, conquistas e vitórias” individualista que está sendo sistematicamente proposto e abraçado pela igreja evangélica brasileira, onde o outro é esquecido, ou estigmatizado pela falta de fé, pela maldição hereditária…, e onde a falta de inciativas para o bem-estar e a dignidade de todos é respaldada por uma “teologia da desesperança” com base em passagens isoladas como “os pobres sempre tereis convosco” ou “nos últimos dias o amor de muitos esfriaria”, esquecendo-se que essas são advertências e não sentenças de fracasso ao Reino de Deus. E por falar em Reino de Deus, é seu triunfo que me enche de esperança, donde concluo que não irá falir a denominação que estiver em sintonia, harmonia com ele, e firme na promoção dele.

    Um fraterno abraço,
    Igor

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