DEUS E A RELIGIÃO FUNDAMENTALISTA: NENHUMA COMPATIBILIDADE


DEUS E A RELIGIÃO FUNDAMENTALISTA

Derval Dasilio

         

A religião fala da experiência humana com o sagrado, o mundo imediato que quer explicar-se diante do inusitado: a experiência de Deus na vida e na sociedade humana. A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, nas eras mais recentes, na Antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, os modos de organização, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a religião se aproxima da transcendência humana. Narrativas supra-históricas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o mundo sagrado inexplicável, como já me referi recentemente.

 

Esse conceito corre perigo, poderíamos apenas analisá-lo como manifestação cultural, expressão humana, de certo modo prisioneira do que a antropologia poderia dizer sobre uma religião estática e vendável (religião de mercado). Mas poderíamos buscar outro enfoque, como sendo o “suspiro do oprimido” (Rubem Alves), onde os sonhos de libertação se apresentam em utopias (ou, em grego: não; topos: lugar; utopia é lugar nenhum já visto pelo homem). Nesse caso, a experiência religiosa representa o sonho de estarmos ligados à experiência de Deus que dá sentido à vida. A vida faz sentido, com a religião. Então, Deus não é uma ilusão religiosa, como queria Feurbach, e depois Marx, e mais tarde Freud (O Futuro de uma Ilusão). 

 

O ascetismo do passado, o pietismo avivalista, moralista, trouxeram muitos problemas ao entendimento da espiritualidade de Jesus. Envolvidos com a ambigüidade, com ambivalências referentes à vida de fé, o “eu” humano perde-se na mortificação da carne, no mais das vezes. Porque se entendia que corpo e “carne” são a mesma coisa. Fonte de desejos espúrios e sentimentos inimigos do “espírito”. O verdadeiro “eu” exige bastante honestidade para conosco mesmos.

 

A vida humana reflete uma realidade diferente, uma vez que nele estão contidas imagens reveladoras da essência humana, dos prazeres e desprazeres da vida. O amor é uma espécie de amigo invisível e imaginário através do qual o homem vê a si mesmo e o mundo em sua totalidade. A exclusividade ressurge sempre de um modo maravilhoso; e então você pode agir por amor, ajudar, curar, educar, elevar, salvar o seu próximo e a sua próxima.

 

Amor é responsabilidade de um “Eu” para com um “Tu”, nisto consiste a igualdade daqueles que amam. Por se ter podido vencer o egoísmo individualista e ousado algo inacreditável: amar. Assim, ele credita na simples magia no serviço, no universo, e lhe será esclarecido o que significa cada espera, cada olhar da criatura, cada reclame de cuidado, na direção do amor (cf. Martin Buber).  É preciso, portanto, aprender a amar o próximo como Deus ama os homens e as mulheres deste mundo.

 

Somos alertados no sentido de observar a linguagem da religião para distingui-la da linguagem da fé. Tarefa praticamente impossível, a não ser que o Espírito Santo nos ajude, diante do surto neoreligioso que nos acometeu nas últimas três décadas. O racionalismo fundamentalista encontrou a válvula de escape, considerando-se que o liberalismo teológico resolveu-se por si mesmo, quando descobria a religiosidade pietista/individualista/amorosa/emocional/intimista, em Schleiermacher (1768-1834). Este valorizou os “sentimentos piedosos”, dizendo que equivaliam ao senso de consciência absoluta de Deus. Quem se disporia a afirmar que o “fundamentalismo pietista e moralista, cultural e capitalista”, invadiu o Brasil com o protestantismo de missões, e nos  brindou com um racionalismo metafísico religioso, “evangélico”, com instrumentações que transmudaram o pensamento evangélico original? Dá o que pensar, a religião sem amor que se prega, assim. Pietismo fundamentalista sem compaixão. O conversionismo moral e  nada tem a ver com o Pietismo original desde Spener. Quem concorda?

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s