COMER O PÃO DA FÉ E DA ESPERANÇA DE TRANSFORMAÇÃO


 

O código da comida tem seus desdobramentos. Comida exprime tão bem a sociedade como a política, a economia, a religião (Mateus 22,1-14). Lévy-Strauss já falava, chamando a atenção sobre o “crú” e o “cozido”, mas não como dois estados pelos quais passam os alimentos, e sim como modalidades pelas quais dá pra falar de transformações sociais. Aqui, as associações sobre o “salgado” e o “indigesto” também apontam para o estômago, “questões viscerais” (do latim ‘viscus’, pegajoso, grudante; ‘visceral’ é algo profundo, vital, mais instintivo que intelectual). Impossível evitar a alusão à fome e sede de justiça. Há alimento para a vida integral, como envolvimento. De fato, existencialmente, para o homem bíblico, a vida é uma unidade absoluta e indivisível, ao mesmo tempo concreta e espiritual.

       

Não é a toa que movimentos libertários contra o androcentrismo cultural (o não à mulher!), ou em oposição à homofobia (o não aos homossexuais na igreja), acentuam tanto o valor do “corpo” que precisa ser alimentado. O corpo tem uma centralidade inescapável, no sentido da libertação. O que se oprime? O corpo das pessoas, claro. Os castigo aos rebeldes recai sobre o corpo dos torturados, dos civilmente desobedientes (como Gandhi, Tolstoy, Tocqueville, Luther King Jr., Helder Câmara, Jaime Wriht), exilados, despatriados, prisioneiros políticos, famintos de justiça. A descoberta do corpo oprimido está diretamente ligada à consciência da alma livre, da qual Lutero poderia dizer, debatendo com Erasmo: “O homem não poderia receber coisa alguma, se do céu não lhe fosse dado”. Por isso o pão da eucaristia, Jesus Cristo, se associa com os oprimidos deste mundo, e será lembrado como o Pão do Céu que sacia a fome do mundo. O corpo do Cristo de Deus alimenta o mundo.

 

Concepções contrárias (violência, poder, dinheiro, capital), tidas como alimento, avançam e matam o corpo e a “alma” do mundo. Brutalmente alvejado, bombardeado, estilhaçado, ainda em nosso tempo, o Pão do Céu não se esgota. Celebra-se a Ceia do Senhor no Espírito da vinda definitiva do Reino de Deus. Os profetas bíblicos jamais entenderam ‘alma’ e ‘corpo’ separados da vida plena, do ser inteiro. Para eles, alma e corpo são indivisíveis (nephesh).“Disse Jesus: temei em primeiro lugar os que destroem (sufocam e matam) a alma (e o corpo)”. Do mundo? De um povo? De uma cultura, de uma religião?

 

Acrescentaremos, para atualizar a hermenêutica (Mt 10,28), que o Reino dos Céus é o reinado da vida plena e abundante, como oferta de Deus, sem dicotomias espiritualistas que separem a vida de fé em duas bandas, como nos antigos discos long-play: no lado “A” vida espiritual, no “B” vida concreta. Quando se ouve o lado “A” não se pode ouvir o lado “B”. E todos os céus sonhados nas utopias políticas e sociais compõem os “céus” plurais de Mateus. A parábola do banquete apresenta o alimento da fé nas utopias de Jesus, que é o único caminho possível da ação rumo à salvação integral do universo inteiro. A vida está ameaçada até no espaço sideral (camada de ozônio, buracos negros…).

 

Quem aceita o convite para o banquete da vida? Quais são os convidados que vestem roupas brancas de núpcias (símbolo bíblico dos que praticam a justiça), demonstrados no Apocalipse [“Esta é a mensagem daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas. Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos. Acordem e fortaleçam aquilo que ainda está vivo, antes que morra completamente”. (…)”Aqueles que conseguirem a vitória (da justiça) serão vestidos de branco, e eu não tirarei o nome dessas pessoas do Livro da Vida. Eu declararei abertamente, na presença do meu Pai e dos seus anjos, que elas pertencem a mim. Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas” – Ap 3:1-6]? São prostitutas, deficientes, portadores de necessidades especiais, coxos, cegos, surdos, doentes. Os pobres excluídos deste mundo (cf.Lc14,16-24 par.).

 

“Um pouco além do presente/ Alegre futuro anuncia/ A nossa espera e ardor/ Transforma-se em plena alegria…” (E.Reinhardt/J.C.Gottinari). Este caminho de esperança também indica a obediência da fé, e ela mesma legitima a esperança da vida plena. Nada melhor que lembrar o teólogo e paleontólogo Teillard Chardin para entrarmos em prontidão, lembrando os desastres cósmicos, eras geológicas que nos antecederam, associadas à história das opressões e escravidões, na direção de uma escatologia verdadeira (‘eschaton’: coisas últimas; conclusão de um tempo, dando lugar ao reinado de Deus). Cristãos ainda acreditam que o mundo vai acabar, mas só para os outros 3/4 da população terrestre. Poderá ser? Será que Deus pretende, mesmo, destruir sua própria Criação?

 

Ariano Suassuna, autor de sucessos como “O Auto da Compadecida”, entre muitos outros, resolveu contar uma história sobre “as comidas que nos faltam”, usando um exemplo simples – uma história de cachorros –  sobre a grandiosidade cultural que nos cerca. “Entre o osso e o fillet, o que um cachorro prefere? Lógico que é o fillet'”. (Osso é para roer, insinuava sobre a comida cultural do fast food global contemporâneo).  Então está faltando oportunidade aos jovens brasileiros de conhecer o fillet da nossa cultura”. Entre as forças ameaçadoras, opressoras, da globalização da bobagem e das besteiras, a alienação do povo protestante-evangélico compõe a exterminação dos sentimentos culturais libertários da vida de fé autênticamente evangélica.  Com  a mistureba fundamentalista temperando tudo com condimentos que resultarão numa indigestão monumental, é preferível permanecer com fome.

 

Em Tempo: Sob os efeitos da notícia: “Dissolveram-se 4 trilhões de dólares ‘virtuais’ (mesmo!, dinheiro inexistente que só aparece nas telas dos computadores…) no mercado das bolsas mundiais até esta sexta-feira”, estejamos atentos, pois. Economias “sólidas”, como o Japão, também anunciam a quebra de instituições financeiras de alcance mundial.  O reinado financeiro do neoliberalismo, em vinte anos apenas, se desmorona rapidamente, no ritmo da internet (!?). Mas não será o fim da loucura pelo dinheiro, por bens não-essenciais, do desprezo em relação à realidade concreta de bilhões de homens, mulheres e crianças, famintos e abandonados à própria sorte. Pobreza e miséria globalizada não é privilégio da ‘globalização cultural’ que nos alcançou. Pegamos a mania de ‘ser rico a qualquer custo’, os outros que se danem! A palavra de ordem, “globalizada”, agora, porém, é: “Pânico, salve-se quem puder!”.

Sobre Derval Dasilio

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