JESUS CRISTO É A RESPOSTA. MAS QUAL É MESMO A PERGUNTA?


JESUS CRISTO É A RESPOSTA.  QUAL É A PERGUNTA?                   

 

Derval Dasilio

 

Todos vimos a exposição diária, meses a fio, pela televisão, do casal que jogou a filha pela janela, enquanto se omitia a estatística macabra da violência doméstica, contra a criança, no Brasil. Segundo informações de órgãos atuantes em defesa da criança, como forma de catarse da sociedade bem-posta indignada a seu jeito, evidentemente hipócrita, juristas, juízes, autoridades do judiciário, legistas, criminologistas, antropólogos, passam sua sapiência jurídica, ou científica, para “saciar” a fome de vingança social. Não falam o essencial: há 500 mil casos de violência contra a criança, por ano. Estima-se. Não vem a público. A metade chega ao conhecimento das autoridades através de hospitais e ambulatórios. Cinco por cento, 25 mil crianças, são mortas por pais, parentes próximos, no âmbito doméstico, todos os anos.  Neste domingo de eleições, como sempre, brasileiros e brasileiras esquecer-se-ão disso? Saberemos na segunda-feira. A prudência convida ao pessimismo.

 

     Cada vez mais descobrimos que a causa de Jesus, antes que abraçada por cristãos de confissão, vem sendo interessante a quem, tantas vezes, nada tem a ver com compromissos eclesiásticos, ou que leve institucionalmente o nome “cristão” na fachada. Ao contrário, a considerar-se a atuação da sociedade organizada, em defesa dos despoderados, e da natureza, o que se observa mais freqüentemente é a apatia, o distanciamento, a indiferença das igrejas cristãs em relação às grandes lutas em favor das liberdades do homem e dos direitos sociais. Cabe um parêntesis sobre Gandhi. Lia Tolstoi e descobriu a estratégia  da não-violência no Sermão do Monte, como Luther King, que se inspirou nos dois baluartes da fé comprometida. Ah, não podemos esquecer Jaime Wright,e o projeto “Brasil: Nunca Mais”, na parceria imprescindível de dom Paulo Evaristo Arns. De fato, cristãos ecumênicos têm muito a dizer sobre isso.

 

     Predomina entre ortodoxos, evangélicos, neo-evangélicos, o esforço individualista, a vontade de ascensão social a todo custo, passada aos fiéis. Os púlpitos das igrejas ocupam-se da sustentação de doutrinas abstratas do protestantismo racionalista, citando Calvino e Lutero a torto e a direito, infiel e impropriamente. Os reformadores protestantes estiveram envolvidos profundamente em reformas sociais (cf.Richard Shaull/Leonardo Boff). Dizer que Lutero e Calvino não tiveram influência em atividades políticas e econômicas é até uma blasfêmia. Quem não lê a história comete essas heresias. Exaltam-se as qualidades da vida do convertido, dá-se um banho de alienação (alienus: estado de loucura, afastamento da realidade) no maior rigor, enquanto se aguarda o céu metafísico (que permanecerá abstrato, não-concreto, pela eternidade). Ou se apontará o valor material, imediato, da prosperidade e do sucesso (que é disso que o povo gosta!), na conversão. E das “vitórias” individuais do seguidor de um Jesus imagético e indiferente ao sofrimento humano, porém, “manso e suave” (o sofrimento com causa é substituído pelo hedonismo). Jesus é resposta, diz a mensagem. Mas, diria Gedeon Alencar, qual é mesmo a pergunta?

 

Ao relermos os ensinamentos das “dez palavras” (Ex 20,1-7), o Decálogo (DEZ MANDAMENTOS), re-descobrimos as fontes de nossa fé num acontecimento histórico onde recebemos as instruções para construir nosso próprio caminho, à parte e inconformadamente com a idolatria reinante na cultura do nosso tempo.

 

      Observando o cenário político nacional e internacional, reeleições de prefeitos e vereadores corruptos (deu no jornal de minha cidade, com base na justiça eleitoral: vereadores tiveram patrimônio aumentado em mil por cento, desde a última eleição). E Bush arrisca tudo, diante da quebra de bancos sustentadores da economia mundial… Mas a religião da prosperidade individual vai muito bem, obrigado. Terá um número ainda maior de representantes evangélicos, nestas eleições. O Rio de Janeiro, tido como a cidade “mais evangélica” do Brasil, arma o palco da cultura dos novos ídolos. As demais capitais brasileiras acompanham seu “deus”. Em nome de Jesus!

 

 

 

 

2 – HÁ UM SÓ DEUS, CRÊM TAMBÉM OS DEMÔNIOS…

Derval Dasilio

 

Para Jesus o Reino de Deus está aberto a todos os seres humanos “de boa vontade”, ou seja, que tiverem como valor primeiro de sua vida o Amor e a Justiça (Mateus 21, 33-43). O Reino é “Vida, Verdade, Justiça, Paz, Solidariedade, Gratuidade e Amor”. Jesus desafia abertamente quem condiciona sua mensagem a alguma prática religiosa, e por meio dessa comparação com a vinha, mostra que a ortodoxia doutrinária, ainda presa ao séc.XVIII, recalcitrante, também não conduz à salvação, à plenitude de vida. O Reino não é propriedade privada de  ortodoxos ou neo-evangélicos. Ninguém nem de nenhum grupo em particular tem a verdade ou as respostas sobre a pergunta do Cristo de Deus nos evangelhos: “Que dizem os homens que eu sou”?. Ninguém encontra Jesus assegurando o titulo de exclusividade a uma razão religiosa concreta, afirmando “uma religião verdadeira”. Tiago explicaria melhor: “afirmas que há um só Deus, ótimo! Lembra-te, porém, os demônios também crêem… mas eles estremecem” (Tg 2,19). Eis a diferença.

 

     O padre francês, Gabriel Maire, denunciava o crime organizado em Vitória (ES) e cidades da região metropolitana.  Envolvia policiais de alta patente, juízes e desembargadores. E políticos da Assembléia Legislativa. Foi assassinado em 1989. Minimisou-se a questão na imprensa televisiva ou escrita, que recusava-se a publicar os fatos na essência. Graúdos envolvidos, porém, obtinham páginas inteiras para desagravos. Grandes empresas pagavam. O dinheiro do crime organizado financiava muita coisa. A sociedade sentia-se beneficiada. E a polícia encontrava um bode expiatório: um rapaz favelado foi descoberto, apontado como assaltante e preso como assassino. Entrevistada, sua mulher, uma jovem grávida, chorando, proferia estas palavras: “Fomos matar nosso único defensor”. 

 

     Caco Barcelos, conhecido jornalista que se dedica à denúncia ou demonstração do crime organizado, entrevistado, quando perguntado sobre a violência dos dias de hoje, através dos grupos de extermínio, que atinge diretamente e com exclusividade as classes mais pobres da sociedade, na periferia das cidades, ou nos núcleos de miséria no coração das grandes cidades, dizia: “Não tenho dúvidas de que, se a política de extermínio atingisse a classe média alta, acabaria no dia seguinte”. E continua insinuando que a imprensa é elitista, no geral, objetivando as classes bem-postas socialmente; que juízes, desembargadores, e até autoridades do alto escalão judiciário, ignoram os bolsões de miséria social em suas necessidades de políticas públicas e aplicação de direitos fundamentais. Estão prontas a aprovar o extermínio sistemático, milícias e os novos nomes do antigo “esquadrão da morte”, no terreiro do “inimigo”. Lembra também que a repressão policial e jurídica ao crime concentra-se nas sub-sociedades marginais, enquanto desvia-se estrategicamente de objetivos que “maculem” a imagem dos altos extratos (cf. parágrafo inicial). A grande imprensa serve a quem paga.

 

     O banqueiro corrupto preso e algemado desperta indignação nas altas esferas, ministros se manifestam em favor dos “direitos” de alguém em não ser exposto publicamente entrando num camburão, cercado de policiais armados até os dentes. Mas se ri do camelô que é apanhado publicamente na contravenção, sofre violência. “Bem-feito”! O mesmo jornalista completava: “Sinto falta disso, em meu trabalho. “Em reportagens de fôlego, sentia falta de poder para dar espaço aos acusados pela sociedade dominante”. Caco Barcelos amargou dezoito processos por causa de denúncias em defesa da vida, reclamando direitos fundamentais a serem também estendidos aos empobrecidos e despoderados. Enquanto isso as igrejas cristãs se calam… Mas, quando se pronunciam, dizem: Não é conosco. Mas é conosco! Ou estamos aqui para quê?

 

      Toda a vida e ministério de Jesus refletem compromisso com a vida, e não com doutrinas religiosas. Suas ações e palavras convocam todos para partilharem de sua vida nas novas realidades humanas, e da construção do Reino de Deus; da acolhida aos excluídos e no anuncio da utopia de Deus, que abre novos horizontes de esperança no coração dos cansados e oprimidos; do cuidado com os esmagados, despoderados, pobres, enfermos. Estes e outros sinais de solidariedade são manifestações da vontade do Pai que envia Jesus para que seus filhos e filhas, em todo o universo, “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Os vinhateiros modernos, assassinos dos profetas, da ortodoxia doutrinal ou do evangelicalismo góspel, certamente não concordarão. Não restará ao dono da vinha senão arrendar seu parreiral a outros cultivadores do Reino (disse Jesus: Eu sou a videira, vós sois os ramos…). Os estranhos, diferentes, entregarão os frutos no tempo devido, já que os tradicionais e “ortodoxos”, a serviço da sociedade bem-posta, esquecidos de sua missão, desviam-se de seus deveres. Sempre preocupados com a tal “reta doutrina”. Sempre com a caixa de fósforos para acender fogueiras inquisitórias. Assim não dá…

 

3 – CONSELHOS  BÍBLICOS EM TEMPOS DE ELEIÇÕES

Derval Dasilio   

 

As origens da fé bíblica apontam o Deus que convoca para a liberdade e os direitos a serem conquistados passo a passo, diante da camaleônica cultura religiosa (já se fala em bricolagem religiosa), hoje, que quer também ser chamada de “mais cristã” que as outras tradições. Diante do henoteismo moderno (o modo de aceitar uma divindade entre outras divindades!), vigente, que passa pela bibliolatria fundamentalista, chegamos à religião neo-evangelical de mercado. O preço da liberdade da fé passa também pelos conselhos bíblicos, pedagógicos, da “shemah” (ouve, ó Israel…), e pelo Pacto da Aliança, no entanto. Ambos exigem a compreensão da natureza do pecado em sua forma histórica e social, pecado estrutural, e obediência às exigências do Deus da fé cristã.

 

     Aqui, Deus reclama, ciumento em relação à preferência idolátrica: “Sou eu o Senhor que sou teu Deus, porque eu te libertei da servidão no Egito” (Êxodo 20,1-4;7). Trata-se do direito de não ser confundido com outras divindades, quaisquer que sejam. Este é o ciúme de quem exige o reconhecimento e não admite a exclusão, do ponto de vista de quem observa o henoteísmo vigente (cf.Os 13,4). Em resumo: Yahweh  está dando o recado de que os muitos deuses que pululam na fé israelita (e cristã, sem dúvida alguma!) são inúteis, “têm corpos de ouro… mas os pés de barro (Dn 2,33-34); … não andam; …tem ouvidos; …mas não ouvem; tem olhos mas não vêem” (Jr 5,21-22). Não são eles que corrigem os nossos caminhos; não são eles que oferecem, a quem se converte, perdão, reconciliação com as intenções de Deus, amor e compaixão gratuitos.

 

      Na antiguidade, objetos também eram cultuados como divindades. Hoje, nos estádios, na política, nos púlpitos e altares; nos palcos, nas artes, nas ciências e na tecnologia, nunca aconteceu tanta “fé” nos variegados ídolos disponíveis. Comportamentalistas falam da “religião no balcão de negócios e na política partidária”. Perfeito. Quem poderá negar a presença e a predominância dessas divindades nas salas de estar, nas urnas eleitorais e nos altares transmudadas em lugar de adoração consumista, capelas onde se cultua tudo que se oferece para “ter-e-aparecer-e-se-dar-bem-a-qualquer-custo”? Não se pode conter a invasão idolátrica? Roberto DaMatta diz sobre o Brasil de hoje: “Moramos num país tropical e plural. Somos brasileiros… comemos feijoada, pato ao tucupi, churrasco, tambaqui… Dançamos samba, e ainda rock, forró, funk… somos cristãos. No entanto, não despregamos o olho das divindades que vagueiam em outros domínios…”. Completam-se os pensamentos sobre o que ocorre conosco.

 

 

Sobre Derval Dasilio

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