A RELIGIÃO QUE ESQUECE AS ESCRAVIDÕES


A fé de Israel, que mais tarde se tornará a fé cristã, é eminentemente uma religião do povo oprimido, pobre, que busca a sua libertação. Parece que os cristãos recentes esqueceram-se disso. Muitas vezes e de muitos modos na história se tentou domar essa fé (e se conseguiu, tantas outras…). O Deus libertador foi emudecido na religião interesseira, na adoração intimista, particular, individual, que cala as aspirações mais profundas do pobre e do oprimido: liberdade e direitos fundamentais. As igrejas cristãs contemporâneas, parecem ter horror do pobre, do “anawin”, objeto principal do cuidado do Deus de Israel. Oferecem, no lugar da salvação real, uma redenção espiritual, abstrata. Do mesmo modo com que o judaísmo formativo esmagava a religião profética, séculos mais tarde, tratava-se de esconder a religião libertária em favor da religião da lei e dos preceitos.

 

Escravos condenados à servidão, pobres, oprimidos, claramente o grupo libertado dominante no êxodo, não interessaria mais à religião que visava fortalecer o Templo, sede da dependência e da dominação religiosa. Os cristãos, herdeiros do êxodo mais remoto, aprenderam a lição de seu profeta fundante, Jesus Cristo, na luta contra a religião formatada, conformada, propositista, retributivista? Jesus é compreendido como re-inaugurador da Aliança de Deus com o seu povo, como afirmaram os testemunhos apostólicos no Evangelho? Julgue você. Conseguiu-se manter na igreja cristã pós-apostólica um tipo de poder desligado de anseios libertários, graças à anulação da fé em Deus e o acontecimento histórico da libertação, do êxodo, inspirado e provocado por essa fé. Espiritualizou-se uma realidade concreta. A fé abstrata substituiu os anseios por libertação real, inteira, completa. A religião tomou o lugar de Deus. A Aliança, contrato bilateral entre Deus e seu povo, foi atirada num canto qualquer dos altares religiosos. Quem ousa afirmar que entre os cristãos, sem exceção, predomina a consciência da fé no “êxodo” bíblico?

 

O sistema egípcio, que fez brotar o desejo pelo êxodo libertário, toda a política do rei se baseava num “precedente religioso”: o faraó era considerado filho da divindade e, portanto, herdeiro da nação e outras regiões dominadas. Por direito divino, havia supremacia total do governante em termos políticos e econômicos. Dessa forma, o governo do faraó podia dispor tanto da terra como do povo, incluindo a força de trabalho e a produção. Com isso, o sistema tributário tornava-se arbitrário, abrindo as portas para a exploração e a dominação. Com esse precedente político-religioso tal sistema tornava agricultores e pecuaristas cada vez mais empobrecidos. Os hebreus, ainda denominados de “apiru”, progrediam nas terras férteis às margens do Nilo. Além do garrote econômico nos impostos, eram também explorados na sua força de trabalho. Nas cheias, quando a agricultura ficava impraticável, a mão de obra era requisitada pelo governo para grandes construções ou serviços públicos. Gratuitamente, claro! Com o tempo, porém, essa requisição era feita não só no período das cheias, na época de plantio e colheita o povo era obrigado a várias jornadas extras de trabalho. Isso empobreceu enormemente as populações assim situadas.

 

“Nós éramos escravos do faraó no Egito, mas Javé nos tirou do Egito com mão forte” (Dt 6,21). É assim que o povo de Deus não faz distinção entre a fé e a vida, na origem. As duas se interpenetram, a ponto do mesmo acontecimento ser o fundamento tanto de sua religião como de sua existência de fé, enquanto povo. Vemos, portanto, que o ato libertário de Deus sobre Israel torna-o povo. Um povo! Daí a importância do Êxodo em toda a Bíblia. Para a fé de Israel e para a fé do novo Israel de Deus. A liberdade é fundamental para um grupo humano realmente se tornar povo. Povo é um conjunto capaz de auto determinar seu comportamento político, econômico e cultural. Sem liberdade, um povo não é capaz de organizar suas relações econômicas para a distribuição dos bens sociais. O Êxodo não é apenas o relato de um fato passado. Nele encontramos o modelo inspirador, as virtudes do Deus bíblico, e como uma gente lutou para encontrar seu espaço e se tornar povo. Ele continua aberto para todos os tempos e lugares onde exista o mesmo anseio libertário, na exortação apostólica: (“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo conquistado – da escravidão – para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” – 1Pd 2,9). 

 

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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Uma resposta a A RELIGIÃO QUE ESQUECE AS ESCRAVIDÕES

  1. Derval diz:

    Escreveu Ricardo Gondim;
    Ultimato – n. 314 – 2008

    VERDADE X ALUCINAÇÃO
    “Concentrei-me para entender o que o pastor dizia em meio a tantos gritos. Percebi que ele literalmente dava ordens a Deus. Exigia que honrasse a sua Palavra e que não deixasse “nenhuma pessoa ali sem a bênção”.

    Enquanto os decibéis subiam, estranhei o tamanho da sua arrogância. A ousadia do líder contagiou os participantes. Todos pareciam valentes, cheios de coragem. Assombrei-me quando ouvi uma ordem vinda do púlpito: “chegou a hora de colocarmos Deus no canto da parede; vamos receber nosso milagre e exigir os nossos direitos”. Foi a gota d’água. Levantei-me e fui embora.
    Os ambientes religiosos neopentecostais se tornaram alucinatórios porque geram fascínio por poder e pela capacidade de criar um mundo protegido e previsível. Por se sentirem onipotentes, buscam produzir uma realidade fictícia. Para terem esse mundo hipotético, os sujeitos religiosos chegam ao cúmulo de se acharem gabaritados para comandar Deus. É próprio de a religião oferecer segurança, mas os neopentecostais buscam produzir garantia existencial com avidez.
    Em seus cultos, procuram eliminar as contingências, com a imprevisibilidade dos acidentes e os contratempos do mal. Acreditam-se capazes de domesticar a vida para acabar com possibilidade dos seus filhos adoecerem, das empresas que dirigem falirem e de se safarem, caso estejam no ônibus que despenca no barranco. Almejam uma religião preventiva, que se antecipa aos solavancos da vida. Imaginam-se aptos para transformar a aventura de viver em um mar de almirante ou em um céu de brigadeiro.
    Acontece que essa idéia de um mundo sem percalços não passa de alucinação. Por mais que se ore, por mais que se bata o pé dando ordens a Deus, o Eclesiastes adverte: “o que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos acontece com quem teme fazê-lo” (9.2).
    Mas a pergunta insiste: por que os cultos neopentecostais lotam auditórios e ganham força na mídia? Repito, pelo simples fato de prometerem aos fiéis o poder de controlar o amanhã; de eliminar os infortúnios e canalizar as bênçãos de Deus para o presente. Quando oram, pretendem gerar ambientes pretensiosamente capazes de antever quaisquer problemas para convertê-los em fortuna e felicidade.
    Esta premissa deve ser contestada. Pois, pedir a Deus para nunca se contrariar, ou para ser poupado de acidentes, significa exigir que Ele coloque os seus filhos em uma bolha de aço. A vida é contingente. Tudo pode ocorrer de bom e de ruim. Uma existência sem imprevisibilidade seria maçante. O perigo da tempestade, a ameaça da doença, a eminência da morte fazem, inclusive, o dia a dia interessante.
    A verdade não produz necessariamente felicidade. Verdade conduz à lucidez. O delírio, porém, tranqüiliza e gera um contentamento falso. Muitos recorrem à religião porque desejam fugir da verdade existencial e se arrasam porque a paz que a alucinação produz não se sustenta diante dos fatos.
    Cedo ou tarde, a tempestade chega, o “dia mau” se impõe e o arrazoamento do religioso cai por terra. Interessante observar que Jesus nunca fez promessas mirabolantes. Como não se alinhou aos processos alienantes da religião, Jesus não garantiu um mundo seguro para os seus seguidores. Pelo contrário, avisou que os enviaria como ovelhas para o meio dos lobos e advertiu que muitos seriam entregues à morte por seus familiares. Sem qualquer rodeio, afirmou: “no mundo vocês terão aflições”. “

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