AS RAÍZES PODRES E OS FRUTOS INDIGESTOS DA RELIGIÃO FUNDAMENTALISTA


 A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, nas  eras mais recentes, na Antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, os modos de organização, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a religião nunca se dissocia dos meios de produção econômica (João Décio Passos). Narrativas supra-históricas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam  homens e mulheres face a face com o transcendente. Este é um ponto. O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vai-se racionalizar origens e fins.  O pentecostalismo, assim como as demais tendências cristãs, emergiu da dinâmica histórica, desde Abraão, por exemplo. Se no primeiro momento evoca sua origem primordial, no segundo desencadeia-se dentro do contexto histórico. Se a teologia pentecostal fundamentalista prefere a narrativa linear, atemporal e não histórica, são outros quinhentos. Quando a narrativa é sacralizada (como ocorre no biblicismo fundamentalista, excessivamente freqüente nas igrejas históricas), o resultado será estruturado numa religião autoritária, com poder religioso especializado, restrito a uma hierarquia, inteiramente montada na objetividade e finalidade. A fé, elemento transcendente, é dispensável nesse momento.

 

O cristianismo ocidental traz também a marca da pretensão de gerenciar o mundo em lugar de Deus. Na mundialização do capitalismo econômico, nas “globalizações” que se impõem, e na monocultura consumista que se impõe ao planeta, sofre-se, hoje dia, a substituição do próprio Deus. Melhor, os favores de Deus são vendidos nos templos transformados em mercados. E não só no Brasil. Roger Garaudy, marxista convertido ao cristianismo, faz a pergunta: “Dentro do cristianismo, o homem ainda precisa de Deus”? Podemos perguntar mais: – Quanto custa o passe do deus neopentecostal? Cristãos históricos se habilitam? Enquanto isso, o homem declara-se como mestre e senhor da natureza, além de dominar outros homens, e os continentes, através das ciências e da técnica. O rosto do homem ocidental é visto no espelho dos cristãos pluralistas e no surgimento de novas religiões, nas últimas décadas, (neo-evangélicos e neopentecostais oferecem excelentes dados a essa pesquisa), sob a bandeira do cristianismo religioso pós-moderno. O mesmo espírito mercador do mundo dos negócios está aqui, na religião neo-evangélica.  Neste mundo não se conhece uma única proposta que não envolva sucesso financeiro pessoal (panacéia salvacionista do mundo contemporâneo). E cristãos históricos aderem, sem perguntar muito, às novas –  pero muy viejas” propostas mercantilistas na igreja.

 

A religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim, porém, brevemente. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo Testamento que se assenta e  chega até nós vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico, e depois cananita, palestiniano, enseja uma abordagem diferenciada, notável por isso mesmo. O israelita crê numa religião revelada, e não na religião natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo geográfico, astrológico, meteorológico. No segundo caso, os fenômenos físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. A experiência humana com a procriação e a fertilidade; com os fenômenos naturais, é determinante. A aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas, medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como acontece ainda hoje em áreas rurais, quando um camponês recusa-se a tocar na madeira carbonizada e exposta; acrescentemos, ainda, a observação de ciclones, furacões, maremotos (Geoffrey Blainey). Como explicar um vulcão em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas em grandes distâncias, num mundo limitado ao que um grupo de pessoas conhecia (a terra que pisavam era a Terra toda…)? 

 

Pensemos no céu noturno, em forma de cúpula, em estrelas cadentes, debaixo do qual as pessoas armavam suas tendas. Como era intrigante a marcha regular das estrelas, os céus cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de estrelas estendidos nas noites limpas… Criaturas poderosas deveriam viver no firmamento… Nasce a religião! Magos, videntes, curandeiros, feiticeiros, conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam sacrifícios. Podiam manipular a religião, por causa de seus atributos e competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a respeito dessa religiosidade: condena-a. Mas o homem bíblico não é diferente dos outros, denuncia imediatamente. A guinada na direção da religião revelada, que ocorrerá gradativamente.

 

O primeiro êxodo ocorrerá com a introdução do monoteísmo ético, atribuído a Moisés. A dessacralização da natureza atinge fragorosamente essa religião, de tal maneira que nem o lugar do túmulo de Moisés  poderá ser conhecido, na posteridade (“E ninguém soube, até hoje, o lugar de sua sepultura”: Dt 34:6 – Torah). Moisés morreu, mas morre como um ser humano. Seus despojos não podem ser adorados, quem sabe venerados, como relíquias. Uma grande verdade pode vir de rabinos observantes do Midrash Lecav Tov: “Para que jamais se mesclassem o domínio humano e o domínio divino do Deus sobre o povo de Israel; para que não fossem embaçadas as diferenças que transformam a religião, o meio, em objetivos, desfigurando a própria religião”. Será que Edir Macedo, R.R.Soares, Robson Rodovalho, Márcio Valadão, o casal Hernandes, leram sobre isso alguma vez, tirando proveito invertidamente? São mestres respeitadíssimos no ambiente neo-evangélico. Admirados em toda parte, faça-se justiça.

 

Os surtos neo-evangélicos recentes, são contaminados por uma estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, restrito, hierárquico, autoritário, objetivo. Os fiéis tramitam essencialmente no ambiente urbano, marcado pelo anonimato, por relações indiretas; pela massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade,  em reação estrondosa às condições sociais e econômicas. Nada de anormal que o lado de baixo da Linha do Equador abrigue a nova religião neopentecostal em seu cenário. O narcisismo e as desigualdades sociais, a dissolução da ética solidária e da partilha, compõem o ambiente perfeito dessa coreografia. Deus, aqui, além de assemelhar-se ao “deus ex machina”  da teatrologia da  Grécia Antiga, é bem brasileiro: Deus é um serviçal; um “deus-quebra-galho”, como num receituário doméstico, onde se encontrará todas as soluções possíveis para alguém se dar bem na vida. Os ministros oram e ordenam à divindade, depois das ofertas compulsórias: -“Fizemos a nossa parte, agora faças a tua…”.

 

A religião exposta na Bíblia Hebraica, e no Segundo Testamento, é profundamente diferente.  Deus é respeitado em sua grandiosidade, o homem também é respeitado dentro do princípio da decisão livre, não manipulada. Cada homem  pode chegar a Deus através do microcosmo e do macrocosmo, dirá o holandês H.Renkens (A Religião de Israel). O homem está incluído numa graça geral, uma dádiva divina, pois é como uma enciclopédia que alcança o universo inteiro; ele próprio é o “universo num grão de areia ”. É como “uma gota d’água numa pétala de flor ” (Rubem Alves), no seu interior cabe o mundo inteiro. Mas nem esse mundo pode contê-lo em si mesmo, tal a transcendência do ser humano criado (Sl 8:4-5: que é o filho de Adão, para que te lembres dele, e o filho do homem, para que o visites? Contudo, pouco abaixo de um deus o fizeste; de glória e de honra o coroaste). Consciente de si mesmo, o homem percebe seu direito à plenitude dos bens sociais, enquanto possui consciência ética sobre a justiça, a partilha e a solidariedade. As insaciáveis profundezas do seu próprio interior tornam-no um ser inquieto, um peregrino sem um travesseiro para pousar a cabeça, inconformado com possíveis limites (Lucas 9,58: “…As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”). Na voz de S.Paulo, esse testemunho interior será expressado assim: “mostram-lhes a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos”, (Rm2,15). A voz da consciência é dos mais notáveis indícios da religiosidade bíblica, que se manifesta no testemunho exterior, nos compromissos com o grande universo fora do homem: o macrocosmo não-manipulável. A religião bíblica, então, passa a ser compreendida como uma “Religião da Consciência”. Não é possível ficar em cima do muro.

Sobre Derval Dasilio

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