LUTANDO COM DEUS POR UMA TERRA SEM MALES…


 

Derval Dasilio

Jacó é o símbolo bíblico do homem que busca a Deus enquanto se empenha nas grandes lutas por um mundo novo. A terra sem males nem dores do Apocalipse. O homem deve sempre voltar-se para a solidão com Deus, sugere o texto (Gênesis 32,22-31), e lutar de novo. Deve insistir em nova escuta do nome de Deus no meio da luta, como quem procura um “personal training”, forçando-o a revelar-se com instruções estratégicas. Atualizando seguidamente o nome que se pronuncia, limpamente, os desgastes são evitados (como o abuso dos nomes de Deus no teísmo corroído da fé evangélica iluminista, propositista, racionalizada, empírica, prática: fé no sucesso e na prosperidade).

 

Uma idéia se levanta desse recorte, na história da formação do Israel bíblico, uma narração primitiva: os projetos humanos não têm força suficiente, em si mesmos. É preciso lutar com Deus, e desse embate marcas profundas resultarão. Este é um relato de suma importância, ao mesmo tempo decisivo. Antes de tudo, denuncia que Jacó vive num mundo politeísta, e seu Deus, Bet-El, é o Deus daquele lugar. No entanto, arrisca-se num ato valente, no terreno dominado pelo irmão Esaú, seu adversário (panim). A luta com Deus é algo impressionante (Os 12,2: “Deus em pessoa, um anjo, luta com o homem…”), em tons misteriosos, Jacó vence, mas sai com marcas profundas. No relato da travessia do Jaboq (32,29), Deus é reconhecido entre os nomes do Deus de Israel, tão somente. E não entre as divindades do mundo pagão.

 

Perguntam-se mutuamente pelo nome, os dois personagens. Mas Deus recusa-se a dar o seu, que é o modo de resguardar seu próprio mistério (Yahweh, “sou o que sou”, para Moisés; mas, para Jacó é El-Shaddai, “Deus que conduziu os patriarcas”; no entanto, os profetas deuteronômicos conheciam-no como Há-Elohim, “Deus único”). Deus acaba por conceder a bênção a Jacó. A luta atravessa a noite e avança pela aurora. É dia, ao final do combate (Shöekel). O sentido geral é de mistério, um encontro secreto, como os dos profetas de Israel, Moisés e Elias (Ex 33,34; 1Rs 19). Desse modo, o narrador quer demonstrar que Deus estaria se revelando enquanto também se esconde, ao mesmo tempo.

 

Jacó ouve a palavra, depois de ter sentido aquele com o qual teve contato, e que já se deixou descobrir presencialmente.  É freqüente no folclore de todas as culturas que o raiar da aurora quebre o encanto, ou deixe impotente o personagem sobre-humano. Como na canção: “Amanheceu, peguei a viola e fui viajar”… De nome mudado para Israel, Jacó chama aquele lugar de “Fanu-El” (onde se pode ver o rosto de Deus), dizendo: “Vi Deus face a face e sobrevivi!”. Grande é o mistério da fé, dirá a liturgia reformada que reconhece “a presença real do Senhor” na mesa da comunhão (Calvino).

 

O sol despontava quando ele atravessava Fanuel (Gn32,32). A bênção de Deus, alvo para todo empreendimento de fé, é alcançada ao raiar  do dia, depois da noite tenebrosa, depois da luta para que Deus se revele, e participe das lutas humanas, pelos direitos, pela dignidade, em favor do bem-estar para todos.  Lutas em situações de risco, de desproteção, faltando de garantias; lutas contra a morte, pela liberdade e contra a opressão, onde quer que o homem esteja. Então, Deus se pronuncia no mistério abscondito, lugar oculto ao entendimento humano. Abençoa e se recolhe ao mistério calando-se novamente.

Sobre Derval Dasilio

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