UM MÉDICO PARA A RELIGIÃO ENFERMA… (Mateus 9, 9-13)


 

Nas comunidades cristãs onde se observam postulados fundamentais da fé cristã sobre Deus, sobre o homem e a sociedade, o Estado, os sistemas ideológicos e políticos, sociais e econômicos, esta é uma questão fechada. Disse Jesus: “Não vim para chamar ao Reino bons religiosos, devotos, mas as vítimas da sociedade excludente”. Bem poderia estar no Evangelho… É atualíssima, essa mensagem. Necessita ser conservada para que os jovens e os cristãos recentes saibam donde originou sua fé, sem os desvios que o chamado mundo neo-evangélico recente insiste em impor às novas gerações.

 

A fé protestante vive por esse motivo, malgrado o doloroso esforço em favor da acomodação ao evangelicalismo religioso, e ao triunfalismo salvacionista, espiritualista, abstrato e falacioso, do fundamentalismo teológico. Conceitos bíblicos libertários colocaram-se acima dos conceitos medievais de uma “teologia da satisfação”, que contempla uma teologia da redenção individual, e que desembocou, desde o século das luzes (Iluminismo, séc. XVIII), no “pietismo” e no “avivalismo” fundamentalista, que também nos deram, desde o período histórico citado, o “protestantismo de missões”.

 

No Brasil, missionários presbiterianos, metodistas, batistas, apresentavam suas alternativas à Reforma Protestante, já que esta não servia aos propósitos salvacionistas que se traziam dos EUA. Eis a idéia que chegou: “A sociedade humana está previamente condenada ao inferno, por juízo divino. Aos restantes resta o juízo final, que determinará o destino de todos, no além e na eternidade. É preciso salvar os indivíduos, eles mudarão a sociedade”. Essa receita não funcionou nem mesmo na origem, no lado de cima do Equador. Daria certo aqui, no lado de baixo?

 

Na obra famosa, O Inferno, deveria estar escrito na entrada desse lugar: “Ninguém tem crédito, ninguém tem débito”, muito embora o famoso poeta Dante Alliguieri tivesse dito equivocadamente que o que estava escrito era “Deixai toda esperança vós que entrais”. Pobre Dante! Era míope e precisava de lentes corretivas, para ver mais longe…

 

A ganância propositista, eclesiologias importadas enlouquecidas pelos cálculos de crescimento a todo custo, comprando ou vendendo a salvação pragmática e  materialmente, coloca-se sempre acima de tudo isso, do bem e do mal. Esquece a misericórdia. Para os que praticam a misericórdia e não encontram sentido no culto e na religiosidade gananciosa – neste mundo evangelical impiedoso – através da fé cristã percebida na religião responsável, isenta de influências alienantes, a palavra de Jesus sobre a compaixão e a gratuidade é um conforto. É necessário escutar o que o evangelho de Jesus nos diz: “não estais longe do Reino de Deus”, que Mateus chama “dos Céus”. Quantos “céus”? Certamente todos os que se referem ao bem-estar dos homens e das mulheres que hoje sofrem fome e sede de justiça. A grande utopia da fé alcança todos os “céus”. Com a palavra o evangelista.

 

O texto de hoje é uma chamada de atenção para que possamos examinar a nossa religiosidade, e em particular a qualidade da “minha religiosidade pessoal”. O que pensamos da misericórdia ou dos sacrifícios cultuais? A dimensão religiosa de vida, de minha comunidade, local ou nacional, a minha própria, em que está centrada? Está mais nos “sacrifícios” (hoje = vida cultual, ritos devocionais, celebrações, cerimônias religiosas, atos com dimensão explicitamente religiosa, vida consagrada, busca de santificação)? A dimensão espiritual e nossa prática centralizam a “misericórdia”, a compaixão para com os outros, o amor solidário, a justiça, a participação na construção do Reino de Deus neste mundo? Para os profetas e para Jesus está claro: “Misericórdia eu quero, e não sacrifícios cultuais”. E eu? E nós? Por que gostamos tanto da adoração interesseira, do louvor propositista, de invocar a presença divina de um deus-quebra- galho?

 

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s