UM CAUSO BÍBLICO: NOÉ, A TROMBA D’ÁGUA E A IRRESPONSABILIDADE


 

Derval Dasilio

 

Fala-se, hoje em dia, que há um retorno significativo de forças eclipsadas,  desde a ética protestante, evidentemente quando pensamos em Max Weber e sua análise do puritanismo calvinista, no que se refere à ética do trabalho e da produção, visando acima de tudo a acumulação do capital.  Avançam a longos passos o cuidado excessivo com o corpo, por exemplo. A palavra de ordem é ter um corpo “turbinado”, artificial ou através de meios clínicos ou cirúrgicos. Com a palavra as academias de ginástica e as clínicas de modelagem estética. Nesse ritmo, marcado pela superficialidade, salvarão o mundo. Autoridades do alto escalão fazem propaganda do “botox”, o presidente aparece facialmente rejuvenescido, atrizes presentes na mídia televisiva alardeiam a modelagem estética…

 

Enfim, o hedonismo desregrado é explicado, agora, como hedonismo prudente! Trata-se da saúde física com muito afinco, porém externamente, para não fugir à regra. Tecnologias destinadas à forma física, medicina alternativa, alimentos e produtos dietéticos, técnicas orientais de relaxamento, produtos cosméticos em profusão, alimentos “light” e embalagens biodegradáveis, cruzadas anti-tabagismo, esportes leves e progressivos, “of-road”, “on-street”, mostram que uma forma individualista do cuidado suplanta de longe os interesses sobre o cuidado essencial com a sociedade humana, em seu todo. No modo de pensar “pós-moderno”, aspirações ao bem-viver confortavelmente são presas do consumismo contemporâneo do lazer, do tipo “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”.

 

Dos 6,5 bilhões de habitantes do planeta Terra, cerca de 2 bilhões vivem em estado de pobreza e de fome. Menos de 1/6 dos habitantes desse planeta gozam vantagens das novas tecnologias medicinais, alimentares, habitacionais. Qualquer diagnóstico, neste e noutros sentidos, mostram o quanto a sociedade mundial contemporânea foge de suas responsabilidades sociais. Desastres sísmicos e metereológicos comparam-se à irresponsabilidade e corrupção humanas, na Bíblia (cf. Gênesis e Apocalipse). Dilúvio (hebr: “mabbul”) é também um modo no qual se arrasa uma geração inteira. Só no século XX, experimentamos esse fenômeno em duas guerras mundiais, enquanto estivemos à beira de uma hecatombe nuclear universal. A corrupção moral da sociedade humana, na totalidade, do ponto de vista bíblico, tão somente, faz com que Deus “se arrependa” momentaneamente de ter criado o homem. Tratamos aqui do pecado da irresponsabilidade social, pecado estrutural, no sentido de que outros dependem das atitudes de indignação e combate à irresponsabilidade coletiva e corrupção no meio humano (R.Feuillet).

 

Noé fez exatamente o que Deus lhe havia prescrito, tem fé na salvação e na justiça; (Hb 11,7: Noé, divinamente avisado do que ainda não se via, e tomado de temor religioso, construiu uma arca para salvar sua família). A arca é como um santuário, mas é também a “casa/abrigo/símbolo” do homem obediente a Deus. O micro-cosmo da salvação está representado ali: a arca tem três andares, como se descrevia o universo na antiguidade. Deus fez com Noé o que faz com a humanidade inteira, por sua própria iniciativa: uma Aliança, um pacto de Salvação unilateral, que não permitirá a destruição de sua própria obra (Gn 6,22). Deus não desanimou, enquanto retoma seu trabalho de reconstrução do mundo.

 

Mesmo a contragosto, o Deus bíblico castiga a humanidade social e estruturalmente culpada com o Dilúvio, enquanto a mesma evoca direitos a uma falsa liberdade, sem respeito e sem cuidado com seus semelhantes (desumanização). O castigo chega onde não existe solidariedade ou cuidado pela Criação. Em síntese, o homem e a mulher desprezam a justiça. Pecam, em razão de sua injustiça. O “caso Noé” difere completamente de outras situações narradas, a partir dos mitos babilônicos e suas divindades, as quais se comportam muito mal, constituindo-se elas próprias um mau exemplo para a humanidade. Não se julgam responsáveis pelo mundo criado.

 

Culpa individual e culpa coletiva se mesclam (Westermann). Acontece que os pecados dos indivíduos refletem os sistemas de pensar embutidos na história humana. É inegável que a  intimidade dos indivíduos humanos é avaliada em relação a uma espiritualidade na qual a experiência de Deus vai determinar a transgressão. Nas proximidades da era cristã, antes dos apóstolos de Jesus, no judaísmo formativo, a partir do século IV a.C., os judeus já refletiam profundamente sobre a má inclinação e a deformação da natureza humana. E o quanto essa deformação (pecado) impregnava uma sociedade inteira, estruturalmente. Noé seria meramente um símbolo de obediência a Deus? Sua fé é religiosa ou simplesmente teológica? Uma vez mais nos enganaremos, se pensamos que alguma obra humana, como a prática religiosa, constitui abrigo moral diante da impiedade dos homens (Gn 6,9-22). Noé, não por seus méritos, é agraciado pela escolha e eleição de Deus. Tem fé e obedece, enquanto sofre toda sorte de deboche e abuso de consciência. A “arca”, construída na obediência, abriga a criação de Deus, enquanto a Bíblia Hebraica anuncia a vitória dos descendentes do primeiro casal sobre as forças do mal. O espírito religioso da narrativa bíblica do Dilúvio é infinitamente adiantado em relação a outras tradições babilônicas, e fenícias, que falam de deuses briguentos que resolvem aniquilar a humanidade por simples capricho. A possibilidade de divinização da natureza também existe, ali.

 

É uma perfeita bobagem julgar as cidades e hecatombes mitológicas como Sodoma e Gomorra, e o Dilúvio, quanto a possíveis licenciosidades sexuais e imoralidades explícitas. O quadro do conjunto se refere à justiça ética, exclusão social, violência sistemática aos direitos fundamentais do homem e da mulher. “A violência contra e entre os meninos e meninas, e a violência contra a mulher têm origem em padrões culturais, em que o poder é exercido pelo homem adulto. Além disso, a sexualidade precoce e os casos de gravidez prematura constituem outros desafios à educação ética enfocados sobre relações afetivas, como respeito, tolerância, empatia e reconciliação”, diziam representantes da Rede Global de Religiões pela Infância (GNRC- sigla inglesa), reunidos recentemente no Japão. Acrescentavam:

 

“Não se pode equiparar as palavras pobreza e violência, no entanto. Embora a pobreza crie grandes possibilidades para que os jovens se tornem pessoas violentas, a maior parte dos pobres sofre a violência de sua pobreza sem responder com violência à sociedade dos bem-postos economicamente”. Sofrem, lutam, e esperam por melhores dias, pois não podem dar-se ao luxo de perder a esperança e este resquício de esperança é um espaço privilegiado para o trabalho das igrejas, das organizações, dos cristãos, que se expressam em diaconias, e em grupos de pressão na direção de políticas sociais adequadas ao momento onde a ruína das instâncias éticas se evidencia. O trabalho na promoção dos direitos fundamentais, uma educação de qualidade, eticamente, representariam alguma coisa semelhante à construção da arca de Noé.

 

Sobre Derval Dasilio

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4 respostas a UM CAUSO BÍBLICO: NOÉ, A TROMBA D’ÁGUA E A IRRESPONSABILIDADE

  1. Samuel diz:

    Excelente artigo, precisamos de pessoas assim que falem a verdade, outro site com questões polêmicas é o http://www.contradicoesbiblicas.com.br

  2. Derval Dasilio diz:

    Obrigado, Samuel.
    Vi as bobagens do site indicado. Puro racionalismo
    religioso, inútil por si mesmo. A Bíblia precisa ser entendida,
    não defendida por literalistas que consideram-na um ídolo irretocável.
    Abraços,
    Derval

  3. Marco Antonio Belmont Sanches diz:

    Grato pr. Derval; nas informações atuais a pop. mundial alcançou 6,892 bilhões e estimam q se chegarmos a 2050 atingiremos 10 bilhões, neste ritimo q prosseguimos só por DEUS mesmo, um abraço do amigo de SP.

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