GRAÇA E GRATUIDADE EM TEMPOS DE GANÂNCIA


No Antigo Testamento, no tempo do exílio babilônico,  nos escritos de Isaías (Segundo Isaías), nos deparamos com a comunidade exilada desfigurada pelas opressões políticas, sob a grande potência da Babilônia. O povo esmagado clama como se estivesse no fundo do poço. Mas, em meio à realidade de sofrimento e perda de suas referências, valores da tradição profética de Israel, homens e mulheres se dão as mãos, solidariamente. E assim se reavivam as experiências sobre a vida, e os atos libertadores de Deus serão lembrados. Há uma consciência acentuada de que o exílio é resultado da cobiça e da ganância, expressas na ambição dos chefes e dos pastores de Israel, entusiasmados com o modus vivendi babilônico (à semelhança da paixão por costumes importadas nos dias de hoje). Por sua aceitação dos valores egoístas, individualistas, assimilados dos opressores e dos oportunistas, as lideranças religiosas abandonaram a Aliança com Yahweh e levaram junto o seu povo à “babilonização” da vida social e religiosa (“babylonical way of life?”). Quinhentos anos depois, já influenciados pelos impérios persa e selêucida (gregos), e sob os romanos, a história nunca aprendida se repetirá. Jesus fala sob o domínio romano e debaixo do conformismo da religião oficial de seu tempo.

Jesus faz observações sobre a ganância e os excessos sobre a importância do trabalho Mateus (17,1-9) tornando-o compulsivo (workaholismo?). A ansiedade de ter, acima da necessidade de sobrevivência, traz angústia, ou denuncia enfermidades e males sociais, desnivelamentos na capacidade de consumir bens essenciais, bens sociais. Alimenta a explosão consumista do supérfluo. Sendo a maioria pobre, no tempo em que Mateus se dirige à sua comunidade, a realidade expunha, além da miséria acentuada, muitos enfermos, mendigos, desempregados, diaristas à procura de trabalho. Jesus mesmo colocava-se como os sem-terra e sem-casa: O Filho do Homem não tem onde pousar a cabeça (Mt 8,20: Cf. Paralelos nos evangelhos restantes). Mas, aqui, uma situação especial deve se destacar: muitos desses “sem-nada” haviam deixado suas famílias, preferindo o discipulado do Mestre, nas andanças desde a Galiléia. E nem imaginavam sobre o curto tempo que restava a Jesus, nesse caminho.

 O que Jesus pleiteia perturba tanto aos bem-postos quanto à multidão interesseira, à procura de uma fé quebra-galhos que solucione problemas pessoais: “vocês procuram sinais, milagres (e não justiça…), em mim, porque comeram pão com fartura. Ao contrário, vocês trabalhem não pela comida  que é digerida, mas pelo alimento da vida completa e abundante (justiça), a qual o Filho do Homem dará a vocês, conforme confirmação do Pai” (Jo 6,26-27). Evidentemente, essa resposta desagrada à maioria. A multidão vai abandoná-lo? Ao contrário, manterá o assédio imediatista, exigindo recompensas pela prática religiosa. Perseguindo o Mestre com votos disso e daquilo… Há, portanto,  inapetência ou dificuldade de digestão quanto ao recado de Jesus sobre a justiça social, já que esta não é bem o que se procura, no mais das vezes. Segundo João, Jesus é que fugirá dos interesseiros e oportunistas…

A organização econômica do grupo andarilho exigia considerável atenção, havendo entre eles mulheres e crianças, além dos já citados, como João destaca (6,2ss). No entanto, Jesus está enviando mensageiros dessa gente empobrecida para uma missão: sarar enfermos, curar leprosos, ressuscitar mortos, expulsar demônios, enquanto exercitam a gratuidade, dando sem exigir retribuição, e também recebendo o que lhes era necessário, de graça. Diante da pressão quanto a comida, a bebida, a roupa, Jesus indica a necessidade da despreocupação. E não milagres retributivistas. Há uma anotação importante quanto à saúde espiritual do grupo, algo que deve marcar sua diferença quanto aos estranhos, os gentílicos. O preço do desespero, da frustração, da angústia, da ambição desmedida, a ganância. O afã por enriquecimento, prosperidade, pode ser um preço muito alto a pagar, quanto ao equilíbrio do grupo: Não se pode servir a dois senhores! Um deles será privilegiado, inevitavelmente.

A sapiência bíblica é evocada. Profetas e sábios, na Bíblia, condenam o apoio e a segurança que se buscam nos bens e nas riquezas. O caminho de fé, a vida calcada na  esperança para a sociedade inteira, substitui tanto o conformismo quanto a ganância (cf.Salmo 62,11). O Eclesiástico ensina que nem mesmo o que se recebe em gratuidade deve ser acumulado (29,10-12). Quanto à generosidade e mesquinhez, as sutilezas nos costumes dos hebreus trazem o problema da tradução adequada. Mas a cultura popular refere-se ao famoso “olho gordo” dos invejosos, expressão que ajuda a entender a referência:“olho bom ou olho mau” traduzem generosidade ou mesquinhez (Dt 15,9; Pr 22,9; Mt 20,11). Não é a toa que a literatura rabínica alude ao “olho doente”, de modo moral (ophtalmós ponerós). Um jogo simples, para dois sentidos: o olhar simples é generoso, luminoso, permite boa visão das necessidades de outros. Já o “olho mau” refere-se ao olhar mesquinho, invejoso, ganacioso, essencialmente egoísta.

Enfim, bens terrenos, afã estressante, segurança material, devem ser desprezados, como também as demais “ênfases pagãs estranhas à comunidade dos israelitas obedientes aos ensinamentos escriturísticos”, onde se encontram inspiração de Deus. Quem cobiça, ou quem vive pela ganância, não possui… na verdade é possuído por suas ânsias, e pelos bens que julga ter amealhado por méritos próprios. Os seguidores de Jesus praticamente recordam os ensinamentos de Ben Sirac (O Eclesiástico), que refere-se às preocupações pela sobrevivência “que acabam com a saúde mental e espiritual”. Perturba a “saúde social”, enquanto outros são influenciados, marcando-se a vontade insaciável de poder. O desejo de ter nunca se esgota. Não conhece a saciedade.

Mateus está recomendando a confiança na providência divina (e não milagres), enquanto realça os valores da vida de fé. Evidentemente apela para uma economia razoável, e não para o conformismo com a miséria. Os valores do Reino de Deus e a sua justiça passam a merecer a atenção do seguidor de Jesus. O objeto da preocupação é que está no foco do texto: participantes, construtores coadjuvantes do reinado de Deus. Irão mais longe, ouvindo Jesus: Busquem primeiro o Reino e a sua justiça, e tudo o mais se lhes acrecentará. Justiça para todos, referências à dignidade de habitar seguramente, estão implícitas: saúde física e mental, direitos sociais das pessoas, dignidade em todos os níveis.

O compromisso do seguidor confiante na justiça de Deus deve estar alicerçado, em primeiro lugar, na generosidade e na gratuidade de Deus, contrapondo-se às preocupações  dos pagãos, “adoradores do deus do dinheiro”. Mamon é rival irreconciliável do Deus de Israel (Sl 21,5; 37,4; 136,25, etc.). A justiça e a misericórdia de Deus sobrepõem-se a interesses e ambições pessoais e individuais. O compromisso com a sociedade, notadamente nas causas referentes aos mais fracos, famintos, sedentos, estranhos, diferentes, desvestidos, enfermos, deficientes, prisioneiros por motivo de consciência política ou religiosa,  idosos, aqueles que estão na dependência dos que devem partilhar o que têm, inclusive as capacidades para cuidar dos mais vulneráveis socialmente. (Mt 25,31-46). A harmonia desse texto com a literatura profética e sapiencial do Primeiro Testamento praticamente  introduz o Sermão da Montanha.  Ali está a ética imperativa de Jesus.

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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