TRINDADE: A FACE DE DEUS EM TRÊS ESPELHOS



Um colega muito perspicaz, excelente teólogo, desafiava-me a escrever sobre a Trindade Divina numa linguagem compreensível, e não a dos teólogos e filósofos. Lembrei-me de um texto de Rubem Alves, socorro sempre presente nas nossas dificuldades: “Uma velhinha perguntava ao mestre Benjamim: – Mestre, fale-nos sobre Deus… Mestre Benjamim fitou o vazio, vagarosamente, e um sorriso foi-se abrindo: – ‘Quantas pessoas aqui estão pensando no ar’?, perguntou. ‘Por favor, levantem uma das mãos…’ Ninguém levantou a mão… O ar é nossa vida e não precisamos pensar nele para respirar. E não precisamos pensar nele para que ele nos dê vida. No entanto, quem está se afogando só pensa no ar.  Deus é assim. Não é preciso pensar nele, ou pronunciar o seu nome,  para que o sintamos’”.


Quem pensa demasiadamente em Deus, ou exige explicações de sua existência, pressionando a consciência dos outros para “crer em Deus”, é porque não está respirando Deus. Está se afogando enquanto recorre às doutrinas de todos os tempos. Mais adiante, esse autor dirá mais, traduzindo a Bíblia: “Deus é como o vento, sopra em todas as direções. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos sua música nas folhas das árvores, e seu assobio ressoa nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta o vento se transforma em melodia. Mas não é possível prendê-lo numa garrafa. No entanto, nossas religiões tentam engarrafá-lo e até mesmo comprimi-lo. E dão a esses cilindros compressores o nome de ‘Casa de Deus’. Ora, vento engarrafado não sopra’”. Melhor dizendo: o Deus da Bíblia não pode ser dominado por nós. João, o evangelista do Segundo Testamento, diz: – “o Espírito sopra onde quer”. Então, a Trindade, Espírito Santo que nos comunica o Espírito do Filho e o Espírito do Pai, é o coração pulsante do universo, do cosmo, do mundo sagrado onde Deus habita e se comunica conosco. No meio das galáxias, dos astros e das estrelas, na amplidão do espaço sideral. Nos olhos do nenê recém-nascido, na gota de orvalho que brilha na flor ao sol da manhã… Ah! Ele é pura beleza. Ele está no meio de nós.


Também conhecemos, na linguagem dos salmistas, bíblica, Deus, o Pai, como o Criador do universo estelar, o céu profundo, as imensas constelações cósmicas, que fez de um fragmento desse mundo gigantesco, imensurável, um lugar para o homem e a mulher habitarem. Um lugar confortável, suprido de todo o necessário para sustentar a vida. O homem vem do pó, diz um salmista, enquanto alcança uma dignidade inigualável no universo. Um projeto perfeito, continuamente criador, incompleto, mas em recriação constante. Vemos nas flores que nascem e morrem a semente que fica e recria; o nascer de cada dia com um sol diferente, uma luz que não se iguala à de ontem, depois de cada noite. Mesmo as mais escuras. Ouvimos canários da mesma espécie que cantam diferente um do outro, sem perder a beleza do canto mavioso da espécie. A forma pura de Deus é a suprema beleza, pensa  o teólogo Jürgen Moltmann, pois a beleza reside na forma perfeita, se a medida é a essência íntima de um poder, ou de uma força criativa. Quando a forma é iluminada, e quando reflete a luz, então essa essência fica clara, brilhante. Assim é a Divina Trindade.


É a isso que Paulo refere-se, freqüentemente, a face de Deus como objeto clarificado. Vemos o Deus trinitário como num espelho. Na face de Jesus Cristo, no entanto, reflete-se o esplendor criador de Deus (2Cor 4,6). E a glória de Deus reflete-se em todos nós quando reconhecemos Deus face a face: (1Cor 13,12: “… então o veremos face a face”). O Espírito Santo é Espírito do Pai e Espírito do Filho. Aqui e agora, ainda necessitamos dos símbolos. Nossos Credos são trinitários. Credos são símbolos (Credo dos Apóstolos, Credo Niceno…). Símbolo significa “sinal” da presença de alguém. Retornando às fontes, em sentido inverso, decolando numa máquina do tempo na direção do passado, garantimos uma compreensão  fiel e contemporânea da Bíblia, e  dos Pais da Igreja Antiga, quando se necessita ver Deus como um rosto refletida em três espelhos (talvez Paulo sugirisse isso…): os rostos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A fé cristã sujeita-se e desenvolve-se dentro da cultura, defenderia o presbiteriano Richard Niebuhr. Simplifiquemos a concepção trinitária para que a Igreja seja atendida na compreensão que importa, diante da história de sua fé. É preciso pagar o preço da simplificação, para a inteligibilidade da fé. Algumas vezes. Por outro lado, a tradição e a cultura religiosa contam a história e mantém o dogma como deve ser. Sem isso, somos somente pentecostais: e ignoramos o Pai e o Filho; somos criacionistas: desprezamos o Filho e o Espírito; somos espiritualmente formalistas: afirmamos Cristo apenas como uma sombra na parede, sem carne, à vista dos homens e das mulheres deste mundo.  Isso une a Igreja em torno da Trindade, como aponta a Bíblia: Deus estava em Cristo reconciliando a humanidade com os rostos de Deus. O Filho e o Espírito representam-no no nosso meio.  Jesus Cristo disse: Não os deixarei órfãos, fica com vocês um auxiliar do Pai e do Filho: o Espírito Companheiro.


Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando às Igrejas sobre o Espírito Santo, escrevia: “O testemunho de muitos pobres e marginalizados tomou um novo sentido para mim, enquanto combatia o câncer que me tomara. Com freqüência tenho observado – com perplexidade – como mulheres e homens enfermos, ou vivendo em extrema pobreza, têm pleiteado com Deus (porque Jesus Cristo ensinou) a restauração de sua saúde ou a garantia do bem-estar econômico e social (vida plena). Porém, continuam pobres e doentes. E, nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes têm dado.  Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento. Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, podem levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. Aqueles que aparentemente não têm sustentação para qualquer esperança, pobres e esmagados, podem ajudar-nos a visionar um futuro novo e descobrir-se como seres amparados pelo Espírito na luta contra o Mal”.  Richard Shaull acreditava nesse Deus refletido em três dos mais perfeitos espelhos de cristal. E citava o profeta Habacuc, sobre estes significados: “O justo viverá pela fé”.


Paul Tillich, teólogo extraordinário, dizia também que o Espírito da Trindade não pode ser escorraçado da vida, ele é teimoso, persistente, vem na direção dos homens e das mulheres sem esperar que nos voltemos para ele. É assim que Deus está espiritualmente presente na vida do mundo, em tudo e em todos (Paulo disse isso com todas as letras). No homem, na Criação e no universo inteiro. O Espírito do Criador e o  Espírito do Filho, faz presente o Reino de Deus em todas as formas de ações e combates às muitas mortes impostas, em  toda a Criação, neste mundo devastado, poluído e sistematicamente desertificado. E também na natureza e na mente de todos nós. A Trindade Divina visa aos deserdados, despoderados, humilhados, esmagados, triturados pelos sistemas de pensar dominantes. O Espírito da Trindade faz presente o Reino de Deus na restauração da vida enquanto alimento e esperança de um “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21). O Espírito  da Trindade se apresenta, sempre, para dizer sobre a conservação a ferro e fogo das velhas estruturas injustas, e dominações opressivas, contrariando-as: “faço novas todas as coisas”! Gostamos da Trindade que os cristãos imaginam, movidos pela Fé, a Esperança e o Amor (também uma Trindade!)? Por isso nos alegramos em saudar os amigos da vida em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Reino de Deus está diante de nós! Amém.

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Derval Dasilio

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GLÓRIA À TRINDADE, GRANDEZA DE DEUS EM TODO UNIVERSO

Gênesis 1, 1-2; 4a ; Salmo: 8; 2 Coríntios 13, 11 – 13; Mateus 28, 16 – 20

Irmãos e irmãs no calendário litúrgico, a partir de 2ª feira  (12/05) que foi a primeira após Pentecostes, iniciam-se o 2º período do Tempo Comum que se prolonga até o Advento. O Domingo da Trindade é o primeiro desse tempo constitui-se de uma “solenidade maior” dentro do Tempo Comum. Trata-se de uma festa que não representa necessariamente, um evento histórico, mas uma doutrina teológica.  “Neste dia, afirmamos o Deus Trino em cujo nome somos batizados, como um só Deus revelado em três pessoas, pelas Escrituras. A celebração da doutrina da Trindade nos proporciona um olhar retrospectivo da história da salvação como um todo, pela atuação do Pai no Filho mediante o Espírito Santo. É um momento pastoral para a renovação e fortalecimento da fé do povo de Deus ”(Manual –Culto IPI).

É uma doutrina difícil para nós que temos uma forma de pensar de maneira tão concreta, fazendo com que as coisas abstratas que muitas vezes nos assuntam tornem-se mistério. Como o mistério da Trindade que não se explica, mas se experiência através da “Graça do Filho que nos reúne, do Amor do Pai que nos fala e da Comunhão do Espírito Santo que nos acompanha”. E é por isso que, mesmo com todas as limitações que temos na nossa forma de pensar e buscar entender tudo, e não achamos resposta, algo novo surge em nós quando lemos a Palavra relatada no livro de Gênesis “No começo Deus criou os céus e a terra… A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água…” (Gn 1,1-2)o Espírito de Deus se movia sobre as águas, Espírito em hebraico é RUAH, substantivo feminino que quer dizer sopro, VENTO, movimento, vida (Ez 37,9).

O teólogo e escritor Rubem Alves, também, nos fala de uma maneira poética sobre esse Espírito que se movia sobre as águas:“Parem um pouco, ponham-se a escutar… o ruído do vento, que sopra onde quer. Ouve-se a sua voz, mas não se sabe donde vem nem para onde vai. Há um mistério… O vento é pura graça, evento, coisa que chega, e só podemos acolher… Sintam os perfumes que o vento traz. Perfume de um novo mundo… muito embora tenhamos nos esquecido do nome daquilo de que temos saudade, há um vento que não o esqueceu e o diz em nosso lugar, com suspiros inefáveis, que não podem ser traduzidos em palavras” (do livro Creio na Ressurreição do Corpo ). Quando como igreja, povo de Deus reunido, cantamos:“Quando o Espírito de Deus soprou, o mundo inteiro se iluminou. A esperança deste chão brotou e um povo novo deu-se as mãos e caminhou”. Algo começa a mover dentro de nós e começamos sentir a presença deste Deus Trino. O mesmo acontece quando meditamos no que o poeta sacro diz no salmo 8: “Quando olho para o céu, que tu criaste, para a lua e para as estrelas, que puseste nos seus lugares – que é um simples ser humano para que penses nele? Que é um ser mortal para que te preocupes com ele? No entanto, fizeste o ser humano inferior somente a ti mesmo e lhe deste a glória e a honra de um rei…Ó Senhor, nosso Deus, a tua grandeza é vista no mundo inteiro”(Sl 8,3-5 e 9).

Podemos afirmar diante disto que o ser humano é muito especial estando sempre no centro do projeto do Deus Trino, basta ver a obra da criação em seus detalhes, tudo foi preparado para que fossemos feliz. “Então, a Trindade, Espírito Santo que nos comunica o Espírito do Filho e o Espírito do Pai, é o coração pulsante do universo, do cosmo, do mundo sagrado onde Deus habita e se comunica conosco. No meio das galáxias, dos astros e das estrelas, na amplidão do espaço sideral. Nos olhos do neném  recém-nascido, na gota de orvalho que brilha na flor ao sol da manhã… Ah! Ele é pura beleza. Ele está no meio de nós” (Derval Dasilio em Trindade: A face de Deus refletida em três espelhos). A liturgia de hoje nos insere no mistério insondável da Trindade. Torna-nos participantes de sua comunhão e revela-nos Deus como fonte de toda a bênção e graça, presente e atuante na história como Pai, Filho e Espírito Santo. Origem e fim de nossa caminhada. Da Trindade viemos e para ela caminhamos, seguindo o caminho do Reino.

Na segunda carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo revela que o mistério da Jesus na comunidade só se entende na relação das três pessoas da Trindade. Assim, o amor do Pai comunica-se na graça de Cristo e age na comunhão do Espírito Santo. O resultado dessa atuação é paz e a alegria. Quanto mais nos empenharmos no aperfeiçoamento pessoal e dos irmãos, quanto mais cultivarmos a fraternidade e vivermos na paz, mais próximos estaremos da comunhão que há entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.“A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a presença do Espírito Santo estejam com todos vocês!” (2 Co 13.13). É a saudação proposta por Paulo aos cristãos de Corinto nos revelando que a Trindade confere-nos a plenitude dos dons e dos bens necessários para a nossa vida cristã: a graça, o amor e a comunhão.

O Evangelho de hoje nos remete ao grande comissionamento, dado por Jesus, fazendo-nos uma recomendação: “vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Isto porque pelo batismo, somos mergulhados no mistério da Trindade que vem habitar no coração de cada batizado. Portanto, irmãos e irmãs a vida cristã, que nasce da fonte batismal, é Trinitária, por isso as palavras pronunciadas no sacramento do batismo: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Também, no Credo Apostólico, a comunidade professa sua fé em Deus Pai criador, em Jesus Cristo Filho de Deus, nosso redentor, e no Espírito Santo, o santificador. Nesse mistério somos convidados a viver, na diversidade, uma comunhão de iguais, pois, no Deus – Trino, a diversidade de pessoas não gera violência e conflito, mas, ao contrário, é a fonte maior do amor e da vida.

Celebrar a Trindade não é celebrar um mistério insondável, mas é sentir uma grande alegria, ao saber o quanto Deus nos ama, e se desdobra para nos alcançar e nos manter sempre juntos a si. Assim, como herdeiros e herdeiras da Trindade, vivamos em comunhão, participando da transformação da realidade atual, até que o mundo todo seja sinal do mistério de nosso Deus Trino. A quem, como Igreja, proclamamos e declaramos:“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo: como era no princípio, é hoje e para sempre, sempre sem fim. Amém, amém, amém.”

Revª  Izaura Márcia Venerano

Sobre Derval Dasilio

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