DESAFIOS NO PENTECOSTES HIPERMODERNO


DESAFIOS NO PENTECOSTES HIPERMODERNO

 

Cada vez mais enfrentamos em nossas igrejas este ou aquele grupo que se diz “pentecostal”, ou irmãos que se declaram, agressivamente até, espiritualistas “carismáticos”, porém, ignorando o sentido bíblico do Pentecostes. Perdemos o verdadeiro Espírito da Igreja quando nos entregamos ao comum carismático, ao mundo mercadológico da fé neopentecostal, que parece ignorar que o Reino precede a tudo: aos exorcismos, às curas, à prosperidade, aos propósitos, à vida consagrada aos bens materiais, e outras ênfases. Pior, assumimos o “pentecostalismo religioso” que ignora que o Reino de Deus é tudo que temos, numa igreja “possuída” por muitos símbolos materiais imediatos, pragmáticos, mercadológicos. Não diferem muito os “históricos” tradicionais, combatentes da religião pentecostal, especialmente quanto à incapacidade demonstrada para se entender a pentecostalidade da Igreja, as transformações e os novos indicadores do mundo sagrado e seu universo simbólico em tempos de “hipermodernidade” relativa. Voltamos à igreja urbana, e descobrimos que a vida no Espírito, na cidade do homem, tem muitas faces. Harvey Cox reconsiderou suas posições, e diz agora, sobre a mesma cidade, que “aqui reside o que muitos especialistas definem como a revanche do sagrado”.

 

Quer dizer, o empenho em favor de uma “teologia da secularização” perde força, enquanto a busca do mundo sagrado recrudesce. A teologia europeizada do mundo religioso sofre o necessário abalo. Muitos de nós reconhecemos, com Henrique Dussel, que a modernidade nem chegou no terceiro mundo, e estamos discutindo a pós-modernidade. Mas a questão da religiosidade pentecostal vai mostrar que sobrevivem fatores onde estão presentes sonoridades e vozes carnavalescas, espelhos e máscaras representativas de diferentes e ancestrais tradições  do mundo abaixo da linha do Equador, no Brasil, no Caribe. Tradições ameríndias, africanas, européias colonizadas ou não, e outras, pré-colombianas. Estas vozes representam sentimentos de esperança e ambição de conquista religiosa. São elas legados na busca do “novo céu e da nova terra”, numa questão que reconhece vários deslocamentos “diaspóricos” da fé, fragmentos de raízes ancestrais colidindo no mundo latino-americano, e no espaço caribenho, manifestando-se posteriormente como conseqüências da conquista exterminadora da cultura. Conseqüências da escravidão, da colonização, da recente globalização cultural, e da economia mundial imposta sobre tradições milenares.

 

Religiosidade, comunhão eclesiástica, ministérios ordenados, instituições doutrinais, não podem sufocar o suspiro dos oprimidos (R.Alves), com os quais se identifica o Espírito: “… também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, no aguardo da redenção do nosso ‘corpo’; (…) o mesmo Espírito intercede por nós em gemidos inexprimíveis” (Rm 8,2-3a;26b), para libertar-nos. A massa de oprimidos no pentecostalismo religioso bem poderia buscar uma aproximação com o Pentecostes neotestamentário, pois a preferência ao Reino de Deus está nos pobres e despoderados deste mundo. Eis porque a Igreja deve assumir sua verdadeira pentecostalidade. Hoje, o Espírito do Senhor está anunciando a Salvação. Jesus promete a companhia do Espírito na comunidade de fé, e cumpre. No mundo e nos confins do universo. Não há lugares exclusivos, nem pessoas escolhidas para receber o Espírito (João 14,15-21). Ele se revela a todos, e está em tudo, no mundo criado; Ele conduzirá à verdade completa e graças a Ele não ficaremos órfãos, ou abandonados, como lemos no Evangelho do Pentecostes, e aconselhados na Sem,ana de Oração pela Unidade dos Cristãos: “Orai sem cessar” (1Tess 5,12a).

 

O PENTECOSTES LEVA AO MAIS PROFUNDO CONHECIMENTO DE DEUS

 

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele consagrou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação dos presos aos sistemas de pensar e, aos que vivem em cegueira, a recuperação da visão clara das coisas; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano jubilar  de remissão por Graça do Senhor” (Lc 4,18 /rf.Is 61,1). Assim, Jesus Cristo inicia seu ministério numa sinagoga da Galiléia. A interrupção brusca, no martírio e na morte, também testemunhados por Lucas, não impedirá a Ressurreição do Cristo de Deus, e com ela as aparições pascais. O próprio Jesus se manifesta como o Cristo vivo, ele e sua causa prosseguem na história dos homens. Atos dos Apóstolos apresenta outra visão sobre a manifestação histórica, aumentando nossa confiança: quando o nome de Jesus Cristo é invocado, ele passa a agir como força mediadora da Graça, da parte de Deus (2,1-13). Ao mesmo tempo, dele emana o Espírito de Deus que se apossa dos discípulos, para que o evangelho da Graça seja pregado.  É o Reino de Deus que se instala, só depois vem a Igreja (Goppelt). Assim é a teologia de Lucas, no evangelho e no livro de Atos.

 

Na referência a Pentecostes, o Espírito Santo quase sempre era “lembrado pela ausência” no palco da vida de fé, substituído por elaborações doutrinárias tradicionais. Um paradoxo. A Trindade incompleta refletia a rejeição ao pentecostalismo que sugeria uma experiência religiosa voltada para o Espírito Santo, com exclusividade. Porém, essa forma esquecia o essencial, omitia a relação com o Deus da Vida e o Deus Salvador e Libertador enquanto se concentrava no Espírito Consolador, tão somente. Duas visões, dois equívocos! O Espírito Santo não é uma força coadjuvante na reserva da fé, dirá a boa exegese. Como podemos explicar este esquecimento do Espírito em nossa experiência cristã, nas Igrejas Históricas? Tertuliano, na Igreja Antiga, ao fim do II século, adere ao pentecostalismo montanista, apocalíptico, acompanhado por duas profetisas: Priscila e Maximila, sustentado pelo próprio Montano (170 d.C.). O grande apologista, pai apostólico, já experimentava as contradições da fé e da vida no Espírito. E, depois, Francisco de Assis, Meister Eckard, e Tereza D’Ávila. Que conseqüências trouxe para a Igreja e para nós, hoje e individualmente?

 

Richard Shaull, precursor e introdutor da Teologia da Libertação na América Latina, despedindo-se de nós, alertando as Igrejas Históricas, escrevia: “O testemunho de muitos pentecostais pobres e marginalizados tomou um novo sentido para mim, enquanto combatia o câncer que me tomara. Com freqüência tenho observado – com perplexidade – como mulheres e homens enfermos, ou vivendo em extrema pobreza, têm pleiteado com Deus a restauração de sua saúde ou a garantia do bem-estar econômico e social. Porém, continuam pobres e doentes. E, nesta situação, cantam hinos alegremente, em louvor a Deus, pelo que Ele lhes têm dado.  Em seu meio, no passado, também reconheci que sabiam que suas vidas haviam sido transformadas, mas não alcancei o que isso significava, naquele momento. Agora, tenho a compreensão. Entendo porque o pobre, o marginalizado, o enfermo, o povo arruinado, pode levar-nos a um mais profundo conhecimento de Deus e à rica experiência de uma vida abundante. Aqueles que aparentemente não têm sustentação para qualquer esperança, pobres e esmagados, podem ajudar-nos a visionar um futuro novo e descobrir-se como seres amparados pelo Espírito na luta contra o Mal”. R.Shaull finalizava: “A chave para se compreender tudo isso, que esboçamos como a luta angustiante para sustentar a fé e a confiança em Deus, em meio de tremenda violência e destruição, foi apresentada no final do livro do profeta Habacuc: o justo viverá pela fé!”.

 

Como “consolar” os órfãos da utopia do Cristo de Deus quando a Igreja se apresenta como quem tomou posse do Espírito, senão com a garantia da solidariedade de Deus? Como garantir um final feliz no drama da salvação, ideais transformadores, revolucionários, a justiça de Deus, a vida eterna, sem fim, a morada com Deus, a pátria celestial, cidadania dos céus, no sentido bíblico? Como alimentar os que padecem das fomes deste mundo? Como aplacar a sede que temos nos caminhos desérticos onde secaram as fontes da vida? A resposta está no que disse Jesus: “Pedirei ao Pai que vos envie ‘outro parákletos’, companheiro e ajudador, a fim de que esteja ‘sempre’ convosco”; “o Ajudador, o Espírito Santo, (…) esse vos ensinará todas as coisas e ‘vos fará lembrar’  de tudo que eu vos tenho dito” (cf.: Jo 14,16 – No grego, o termo parákletos oferece extensas possibilidade para o tradutor: defensor, advogado, companheiro, protetor e ajudador; Jesus chama-o também de Espírito da Verdade, referindo-se à divina revelação do Espírito de Deus. É indispensável o complemento (14,18-19): “não vos deixo órfãos”,[orfanús: des-validos, des-protegidos, des-amparados]). O Reino se destina aos órfãos, acolhe os despojados, despoderados, sem-casa, sem-teto, sem-cidadania, sem-dignidade, sem-tudo. Em primeiro lugar os que estão sob risco de sobrevivência. Os que padecem de fome e sede; os que estão nus, desprevenidos dos perigos, vulneráveis ao mal permanente; os que estão encarcerados nas prisões dos pensamentos que admitem opressão, justificados os fins, e com ela a exclusão, a exploração e a submissão. O Reino se destina aos despoderados e oprimidos, também, os que vêem libertação para prisioneiros do fatalismo histórico, do Mal permanente que se acredita irreversível, sempre presente na fraqueza da fé sem esperança. Incluem-se os que necessitam  de livramento quanto ao mundo violento, dito como imutável e inevitável. Está com eles o  Parákletos, e eles crêem na libertação dos que se entregam sem resistência ao mal sistêmico, reféns do conformismo e da indiferença, entregues à conivência com os poderes deste mundo. O Espírito é esperança de salvação. 

Sobre Derval Dasilio

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