O CÉU É ONDE SE RECONHECE A PRESENÇA DE DEUS


A Ascensão do Senhor foi um fato histórico, físico, espiritual, teológico? Qual é a mensagem fundamental do mistério da Ascensão? “A terra é o único caminho que temos para chegar ao céu…”, concordamos com esta frase? Superar o ranço de espiritualismo introvertido, a superstição e toda falta de fé; combinar adequadamente na vida “o céu e a terra”, o idealismo e o realismo, a utopia e o compromisso, os acontecimentos finais de uma era (escatologia) e a história, é um desafio para os cristãos que observam  a Ascensão do Senhor enquanto olham para o chão: “Estando eles olhando para o céu, enquanto Jesus subia…[…]perguntaram: porque olham para as alturas? ” (Atos 1,10-11). Deixar de olhar para cima e observar a sede de infinito que está em nós, com os pés no chão, é uma advertência evangélica a ser considerada. O céu é sinônimo de Deus. Mateus usa abundantemente esse significado quando sugere que o Reino do Céu é o lugar onde Deus reina. As mais importantes utopias humanas encontram lugar na Ressurreição de Jesus: a perfeição do “mundo ressurreto”, transformado, próximo da mais completa perfeição, ocorre neste chão terreno. Num mundo que exalte a defesa da vida, valores morais e éticos, para que a dignidade humana se sobreponha aos interesses de dominação tão mais freqüentes entre nós. Num mundo reconciliado no qual não se admita a exclusão étnica, de gênero, de sexo e de minorias; um mundo onde a convivência cotidiana seja marcada pelo desejo de paz, shalom (paz para um mundo íntegro, inteiro, tolerante do diferente, sem divisões, preconceitos), é o lugar da plenitude que todos desejamos. 

 

A linguagem bíblica para o céu desejado é, em primeiro lugar, utópica: “O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos. (…) A criança de peito brincará junto à cova da víbora, e o menino pequeno meterá a mão na toca do escorpião (Is 11,6-9). O Apocalipse promete “um novo céu e uma nova terra, onde não haverá morte nem luto, nem grito, nem dor, porque todas estas coisas acabaram”(Ap 21,4). Resposta para os que são constantemente confrontados e ameaçados pela morte, os que gritam de indignação, os torturados e os que sofrem opressão e injustiça. Quando Jesus nos mostra o céu está apresentando uma fórmula da qual gastamos quase tudo, roendo até o osso, depois de sugar o tutano: quando falamos do céu estamos falando de Deus! O céu é “aquilo que jamais penetrou no coração do homem…” (1Cor 2,9); o céu é a esperança humana de um mundo transformado, um mundo possível. O anseio de “ascensão aos céus” é a realização e chegada à vida plena. O céu é uma realidade que transcende a compreensão material do mundo. É o lugar onde Deus está, como está o ar na atmosfera. Um mundo que respira violência precisa aspirar também o sentido da justiça de Deus. Eis o céu cristão.

 

As imagens religiosas do céu, contudo, não conferem com as imagens do céu bíblico. Islâmicos imaginam um céu no gozo do Jardim das Delícias, segundo o Corão, com belas virgens e gentis rapazes, disponíveis a sobrar. Claro, para os mortos virtuosos. Aqui na terra, porém, têm regras rígidas para o relacionamento sexual, o adultério é passível de apedrejamento. Da mulher, porém. Não do homem. E a exploração homossexual de meninos, por homens, é consentida. “O Caçador de Pipas”, do livro de Kaled Housseine,  é um filme que conta a história da vida entrelaçada de dois garotos, Amir e Hassan. A vida dos dois sofre as conseqüências da mudança de comando político em Kabul, capital do Afeganistão. Sob o regime do Taliban. Dignidade humana, ética, e a luta pela liberdade ocupam o cenário, tecido principal do cenário do filme. A homossexualidade infanto-juvenil, forçada pela violência social, e a necessidade de sobrevivência humilhada, não passa despercebida, juntamente com a violência contra a mulher. O céu, daqui e do além, não é possível, em larga proporção, às mulheres. Elas sofrem de séria depressão e isolamento, e muitas têm escolhido o suicídio a aceitar as extremas circunstâncias e violências a que são submetidas.

 

Cristãos, porém, dão de ombro: não é conosco. Não somos seguidores de Alá. Mas espiritualizamos o céu, e quando o materializamos logo elegemos uma dieta de leite e mel no além. E se diz que o céu estará ao nosso dispor, segundo a tradição católica ou protestante, também amiga de benesses “aqui na terra como céu”, enquanto submete a mulher a posições secundárias e direitos limitados na sociedade. Mulheres sabem quão patriarcal e masculinista é o discurso dito normal e oficial na socialização infantil e nos discursos oficiais da cultura masculinista e até nas reflexões mais elaboradas da teologia erudita. É evidente a proximidade com o que o islamismo conservou. Nas antigas restrições, depois do cristianismo oriental (após o VI século). Representa apenas a elaboração que os homens fazem do mundo celestial, a partir de sua experiência de homens (androcentrismo), bem diversa daquela projetada pelas mulheres (ginecocentrismo). Quando confirmamos idéias cristãs vigentes: “no Paraíso os homens e as mulheres serão como irmãos” (João Paulo II), admitimos implicitamente que o céu, o além, já discrimina a mulher, no aquém (cf. Gálatas 3,26-28). Nenhuma novidade… já esquecemos o Novo Testamento.

Sobre Derval Dasilio

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