CULTO, MAGIA E ALIENAÇÃO


Que perigos se escondem debaixo deste nosso temor sobre o comportamento “carismático” presente no culto cristão? Por quê recusamos tais expressões cúlticas? Quando alguém começa a “ministrar”, tomar a frente e profetizar sem autorização, falar línguas estranhas, interromper ou interferir nas orações dos outros com aclamações, atirar-se no chão, chorar convulsivamente durante o culto, o que faremos? Há perigo para a verdadeira adoração na anarquia gospel neopentecostalista? O culto, sem que os espaços sejam preenchidos racionalmente, pode perder-se e esvaziar-se de sentido?

    Aqui, no culto gospel, se vende de tudo, discos, relíquias, e até as pessoas, em troca de bênçãos das pastoras e pastores das igrejas daquele lugar. Não só aos domingos, claro. E, então, sob projetores de luz, máquina de fumaça de gêlo, microfones de todos os tipos, instrumentos de percussão, baterias, guitarras, teclados, data show, recursos eletrônicos variados, e descobre-se que o louvorzão deixa o povo pensativo, cabeça baixa, não podendo orar, tanto é o barulho… as emoções vão substituindo os sentimentos verdadeiros e os louvoristas falam pela comunidade, microfone aberto no último volume. Antes da pregação propositista, motivadora, antes do recolhimento das ofertas. Será que o seu deus é surdo? Não se lê a Bíblia, porque os ministrantes têm frases-chaves para todos os momentos do culto, substituindo as Escrituras Sagradas. E, fazem tudo no culto, oram em voz alta, mandam o povo baixar a cabeça e humilhar-se para acompanhar sua prece ensaiada, e até dizem amém pelos fiéis assistentes Parecem acompanhar a sociedade no outro extremo, como na mídia que a auxilia numa indignação hipócrita, ignorando sua responsabilidade nos crimes hediondos simbólicos da sociedade inteira: a criança atirada pela janela, o bebê jogado na lagoa ou no esgoto, a jovem que mata os pais a pauladas, auxiliada pelo namorado, para herdar seus bens, resultado do que a mesma sociedade constrói.

    A cultura neopentecostal gospel apresenta-se, em primeiro lugar, com uma teologia ou espiritualidade egocêntrica sem distinção denominacional, individualista (dirige-se, o orante, “ao meu Deus”…). Nela afirma-se guerra e vitória certa, do sofrimento com causa. Nega-se a possibilidade de “fracasso”, que parte da cruz de cada dia que integra a caminhada cristã; de teologia centrada no sucesso pessoal do crente, na forma gospel exibida ostensivamente, prosperidade trocada pela fé bíblica no Deus que serve, que sofre, que chora, “derrotado” pelos poderes do Mal, antes da ressurreição (e de todas as ressurreições…). Para que serviria um Deus humilde, despojado, esvaziado de poder? Esse Deus não interessa ao culto gospel, (entre os bordões repetidos à exaustão, as expressões comuns no culto neoevangélico, a arrogância espiritual cobra veementemente favores pela “vida consagrada”, é incompreensível diante do exemplo de humildade do Senhor do culto). Predomina o desprezo à comunidade e à coletividade, afirmando-se o individualismo dos dirigentes; dirige-se à “massa”, o povo anônimo, ignorando a comunidade local humilhada. Esta, normalmente trabalhando com dificuldades de toda ordem, irmãos empobrecidos, doentes, desempregados, deficientes, idosos, “que não alcançaram vitória pelo louvor…”. Igrejas pobres, humildes, são apontadas como “fracassadas”, incapacitadas de apresentar “sinais de vitória” que o culto gospel proclama, são ainda mais humilhados em seu “fracasso” aparente.

    As músicas que se cantam, no culto gospel, expressariam as alegrias de ser crente, ou refletem o “louvor formatado para o consumo” de CDs e DVDs, e relíquias simbólicas, ou é separado do chamado para testemunhar a Salvação do mundo através de Jesus Cristo? A esperança do mundo é o fortalecimento do culto gospel e sua teologia intimista ou individualista? O que cantam é adoração, louvor, arrependimento pelos pecados diários contra Deus, inclusive a participação e responsabilidades no pecado contra o próximo, contra Deus e contra nós mesmos? É lamentação contra as injustiças sociais, compromisso de denúncia, ação contra as forças do mal estrural na sociedade da qual somos parte? São tristezas sobre nossos maus testemunhos, coniventes, cooperadores com o Mal existente? O que cantam destaca as lutas, os sonhos para um mundo novo, transformado por Deus?

    Expressam  o desejo de que Deus promova a restauração da criação humilhada e destruída enquanto se anuncia a reconciliação dos homens e das mulheres, através de Jesus Cristo, à luz do que a Bíblia ensina sobre a força do Reino de Deus? São anseios por salvação e libertação da parte do Senhor Jesus Cristo, objeto do louvor e glorificação no culto? É lembrado o estado profundamente deplorável da sociedade brasileira, situações de exploração, servidão, fome, desmandos nos meios que cuidam da justiça civil; crime organizado, submissão e escravidão no nosso país, direitos dos mais fracos violados a todo instante? São declarações de fé que apontam a Graça espontânea de Deus para todos os oprimidos e esmagados deste mundo? Será que essa forma de culto expressa o sacerdócio universal de todos os crentes, e sua responsabilidade de intercessão pelo mundo? Ou será que acentua somente compromissos para melhorar materialmente a vida do crente; que estimula o esforço de “vida consagrada”, que traria o prêmio da loteria espiritual, um tipo de salvação concreta: o carro novo, a casa própria, o marido ou esposa ricos, o emprego bem remunerado?

EM BUSCA DE RESPOSTAS

Precisamos de respostas. Porém no campo da prática religiosa, no culto cristão autêntico. Ou então nos conformaremos com o modelo recente, presente em muitas de nossas igrejas. Por outro lado, indignados, nos garantiremos com o Espírito, força que nos capacita para cumprir a tarefa que Deus confia às pessoas e às comunidades, na igreja. Sem o Espírito a religião e culto se transformam em magia, em espetáculo metateatral. Com o Espírito o culto se transforma em vida, alegria, comunhão de iguais. Como nossas comunidades celebram o culto cristão e os sacramentos? Com ritos mágicos? Com celebrações folclóricas, ou com “show gospel”? Há cultos gratulatórios, confortando a comunidade pela vida rica dos que são sepultados e nos deixam a rica herança da fé? Há atenção, no culto, para com deficientes, enfermos crônicos e terminais, e idosos? Temos medo do fracasso, das crises, ou preferimos celebrar a vitória da materialidade?

    Paulo apela para o culto “racional”, organizado e atento ao sofrimento do mundo e dos crentes. Cada coisa no seu lugar, para que se possa proporcionar a interação espiritual da comunidade reunida em torno da esperança, “até que o Senhor venha”. Com ordem, para que todos possam se expressar, oportunamente, quanto às lutas da vida. Denunciar com firmeza os pecados estruturais da sociedade, a sedução consumista e a ausência de solidariedade entre nós mesmos, e reacendê-la. E que todos possam ouvir. E arrepender-se de sua falta de fé (e rogar, como no Evangelho: “aumenta a nossa fé”). O povo precisa orar por si e pelo mundo. Isso diferencia o culto cristão do culto pagão, desordenado, egoísta, emocional, anárquico, inadmissível no Novo Testamento.

    Enquanto isso, o culto exige ações ordenadas (ordo litúrgico), inteligentes, para a oração, a edificação e a intercessão de todos os crentes congregados. É assim que o Salmista instrui, acompanhado pelo apóstolo Paulo: “Pois Deus é o Rei de toda a terra, cantai louvores com inteligência” (Sl 47.7). Sobre a prática dos dons: “… vou indicar-vos um caminho infinitamente superior”(…) “Mesmo que eu fale línguas… mesmo que eu tenha o dom da profecia… mesmo que eu tenha a fé mais totalizante… mesmo que eu distribua todos os meus bens… mesmo que eu me entregue à purificação do fogo… se me falta amor nada recebo por isso”; “… cantarei inspirado pelo Espírito, mas cantarei de modo que todos entendam” (cf. 1Coríntios 14.12-20; enquanto se examinam os cps. 14 e 15 por inteiro). “Carismáticos”, neoevangélicos, como que se “embriagam do Espírito”, enquanto os restantes passam sede e fome de edificação. Silêncio orante, meditação e expressão solidária nas intercessões, para muitos, não são parte importante do culto cristão. Mas deve ser para fiéis cristãos, embora humilhados, enfraquecidos, abatidos pela arrogância do novo culto, ou pelas pressões de nossos dias. Precisamos manter-nos conscientes de que, quando envolvidos pelo Espírito de Deus – sem o qual não há culto algum – é sempre possível louvar a Deus sem imitar as modas e as eclesiologias alienantes do momento. Mesmo as mais coloridas, dançantes, fulgurantes, diabolicamente atraentes…

 

 

 

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a CULTO, MAGIA E ALIENAÇÃO

  1. CHRYSTOPHER diz:

    Olá.
    Li todo seu artigo.
    Concordo em inúmeras partes, porém, não gostaria que você generalizasse tanto, até porque, não creio eu que você tenha visitado todas as igrejas néopentecostais do mundo.
    Antes de dizer coisas contra, tente imaginar o que Jesus diria, e como Ele se sentiria tendo a perspectiva que tens.
    Não digo por mal, pelo contrário, critiquei muito mais e apoiei muito mais artigos como o seu, porém, acho isso totalmente injusto.

    Se fui grosso, desculpe, mas, seu artigo não transparece Deus.

    Tenha uma boa semana.

  2. DERVAL diz:

    CHRYSTOPHER:
    É impossível satisfazer sua crítica. Você, defendendo alguma igreja neopentecostal e sua rejeição ao princípio da misericórdia espontânea de Deus, e ao apontamento bíblico de que é Deus que vem ao encontro de nossas necessidades, e a Graça é gratuita, sem exigências de méritos, obras, ações e esforços financeiros, exigiria de si mesmo uma abordagem abrangente, com o conhecimento de todas as realidades eclesiásticas contemporâneas?

    Pois é assim, caro CRYSTOPHER. Não sou conhecedor de tudo, mas escrevo comparativamente, estudando antropologias religiosas, dispendendo tempo em cima de livros especializados, examinando historicamente a vitória das heresias sobre a fidelidade dos autênticos credos, confissões de fé da Igreja de Jesus Cristo, desde a Antiguidade.

    O que diria Jesus de minhas palavras? Ou das suas, quando refuta minhas análises dizendo que meu “artigo não transparece Deus”…(ainda bem… não tenho autoridade para falar em nome de Deus, ao contrário. Tenho temor do que o juízo divino significaria, no julgamento de tantas heresias modernas, requentadas desde o tempo do povo bíblico). Impossível saber o que diria Jesus, mas presumo: Buscai primeiramente as coisas do Reino de Deus, sua justiça, sua ética de evangelização em torno das desigualdades, da exclusão de milhões, do egoísmo das sociedades ditas cristãs em busca de riqueza e felicidade material, e tudo que precisais vos será acrescentado.

    Jesus poderia dizer-nos, também: que a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à contribuição financeira e à dedicação de alguém, no esforço objetivo por algum rendimento, tirando-se proveito da vida religiosa; que a misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação de nossas necessidades de justiça; que a única prosperidade que devemos almejar é a do amor ao próximo e ao distante, a prosperidade da esperança de transformações e de justiça em todos os níveis e relacionamentos humanos; a prosperidade quanto ao bem-estar de todos os seguimentos sociais, a partir dos órfãos e viúvas, símbolos dos abandonados à sua própria sorte, relegados, quanto aos bens sociais que lhes são negados sistematicamente. Sem-terra, sem-casa, sem-trabalho, sem-escola, sem-saúde e previdência social, enfim, sem-nada! Inclusive dentro da religião que separa “crentes prósperos” dos pobres, desfavorecidos, envolvidos em grandes riscos de crime e miséria social. Jesus poderia dizer-nos que as riquezas verdadeiras são a observação e garantia de aplicação dos direitos humanos; riquezas verdadeiras são as conquistas políticas e sociais em favor da sociedade inteira, sem ignorararem-se direitos fundamentais de homens e mulheres na totalidade, como reza a Carta dos Direitos Humanos, (pouco conhecida e muito menos observada).

    Creio que Jesus diria mais: persistam na denúncia dos desmandos e dos oportunismos religiosos de todos os tempos, não finjam que a religiosidade propositista, retributivista, como a do pastor (ou pastora, que fala exatamente como você, CHYSTOPHER…), quando diz que “chegou a hora de botar Deus na parede… exigir que ele me abençôe, individualmente… que me faça prosperar… ganhar o carro, o apartamento, o emprego bem remunerado… o resto que se dane…”.

    Não, você não é grosso. Pode ser que faça parte, apenas, da legião de desonrientados que atribui às lideranças neopentecostais o direito de “colocar Deus contra a parede”, e levantar dinheiro para causas eclesiásticas particulares. Espero que você tenha observado que quem prospera são as lideranças propositistas dessas igrejas. Os necessitados continuam na mesma, enquanto circulam entrando na porta da frente e saindo pelos fundos, logo após, na direção de outra igreja neopentecostal em busca da felicidade e da prosperidade. Para quem crê, bom proveito!
    Em tempo: Você me alerta para algo importante. As igrejas históricas devem ser colocadas no mesmo patamar, creio. Mesmo negando a teologia da prosperidade, reina a inconsciência sobre a justiça de Deus; predomina o ilusionismo doutrinário medieval ou iluminista, e suas doutrinas abstratas sobre a Graça de Jesus Cristo. Sim, vive-se num mundo onde o Céu metafísico se contrapõe ao inferno existencial de cada dia. Gostaria de encontrar alguém para debatermos, também, sobre o racionalismo doutrinário que predomina em toda parte.

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