A MULHER DOMINADA E OPRIMIDA NA IGREJA


É preciso dizer que o Novo Testamento incorporou a ideologia patriarcal herdada do judaísmo e da cultura greco-romana nos chamados códigos de conduta doméstica (Col 3,18-19; Ef 5,22-24; 1Pd 2,13). Na Primeira Carta aos Coríntios (14,34-35) há o intento de calar as mulheres reduzindo-as ao direito de apenas profetizar. As proibições para as mulheres, relativas a ensinar, batizar, dirigir a Ceia do Senhor, continuaram em documentos posteriores. No período pós-apostólico, ou na segunda geração da igreja inicial, as mulheres, no oficialato, tinham funções consideravelmente diminuídas em importância (Elza Tamez). O bispo eliminava até a autorização de profetizar. A igreja se institucionaliza.  Deve-se isso à forte pressão da cultura patriarcal greco-romana. A comunidade local, casa-igreja, é comparável a um aparelho subversivo na igreja patriarcal posterior. Porém, onde estariam as mulheres judias do movimento de Jesus?  Inventa-se, depois, uma forma de domínio para submeter a mulher ao que se chamaria “patriarcado amoroso”. Sabiamente, Elza Tamez recusa esse eufemismo sugerindo: “patriarcalismo de amor é uma denominação que não diz nada, porque não deixa de ser patriarcalismo”. 

O androcentrismo eclesiástico faz parte da dubiedade e duplicidade de pesos e medidas a que nos acostumamos. Afirmações sobre o homem como ser humano padrão não levam em conta um pensamento libertador “ginocêntrico” (gnecos = mulher, no grego). Pergunta-se com justiça por que só os contextos de vida e as experiências masculinas são levados em conta, dando-lhes “validade universal”.  Nem é preciso imaginar muito para ver como demora à mulher oprimida a chegada dos direitos humanos universais. Nenhuma novidade dentro da igreja, para todos, uma vez que outras questões afins aos direitos humanos, como racismo, homofobia, direitos sociais, direitos cidadãos, socialização da economia, também são ignoradas. Questões que se referem ao “todo” da sociedade humana também não entram na maioria das comunidades cristãs. Direitos dos pobres, dos explorados e marginalizados, relação de justiça com a natureza e o mundo criado, violência estrutural, fazem parte do círculo vicioso onde está inserida a mulher com suas responsabilidade e atribuições negadas. Aqui, tantas vezes, com a mulher fazendo parte, ou sendo solidária com o explorador e dominador. Mulheres vestindo a pele do predador. Conseqüência da contaminação cultural da qual não se isenta a igreja. Nem a mulher na sociedade.

É duríssimo para a mulher libertária que o preconceito androcêntrico onipresente a exclua da velocidade necessária, e só lhe concedam o alcance gota-a-gota dos direitos fundamentais, no trabalho, na transmissão cultural, nas lutas por direitos humanos e sociais, por exemplo. Dentro da Igreja, é preciso tirar as máscaras da objetividade do masculino contra a subjetividade feminina, aparentemente harmonizadas no culto e no serviço. Principalmente quando se evidencia a presença do divino sem exclusividade de gênero. A presença visível, perceptível, theofania, comunicação de Deus em Jesus Cristo, clama por justiça através de relações recíprocas de justiça entre homens e mulheres. Nada mais forte, nessa teologia, que a medida do humano alcançando o homem e a mulher nas dimensões mais profundas do ser libertário, na luta contra o sofrimento da humanidade.

Perigos de guerra, riscos sociais, violência e opressão, perseguição por causa da busca da liberdade, ocasionam sofrimento a homens e mulheres. Indistintamente. Não há sentido algum na discriminação da mulher, não há isenção feminina nestas situações, especialmente porque seu sofrimento é ainda maior que o do homem, nestes cenários. Quando Paulo fala do sofrimento como synodínei, “dores de parto” (Rm 8,18-25), refere-se ao “presente” de todos os seres criados, porém, na esperança: “um dia o Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo”. A mulher sabe muito bem o que é “dor de parto” (Helen Shüngel-Straumann). Sabe que dessas dores não nasce a morte, mas sim a vida diante de Deus. Vida para toda a Criação.

Hoje, o desafio é trazer à teologia ierusalemita dos ministérios – uma vez que os 15 primeiros capítulos de Atos se apegam aos acontecimentos iniciais da comunidade espiritual de Jerusalém – o que foi incorporado pela teologia paulina das liberdades e dos direitos na comunidade dos fiéis à concepção de inclusão de gênero:“…não há homem ou mulher… pois todos vós sois um em Cristo Jesus”(Gl 3,26-29). Isso sem esquecer que o “sacerdócio real de todos os crentes” não exclui a mulher dos ministérios e da vida de serviço da Igreja de Cristo. Pela Graça de Deus.

NA CASA DE MEU PAI HÁ MUITAS MORADAS… (João 14,1-14 )

Jesus diz a seus discípulos que vai partir e isto não deve perturbá-los porque vai para poder depois levá-los e tê-los sempre consigo, para preparar-lhes um lugar na casa do Pai, uma “grande casa” onde cabem todos, homens, mulheres, crianças. Sobretudo os mais pobres, que “nunca tiveram uma casa própria”, sem-teto; filhos e filhas pródigos e pródigas. Os que desejam regressar ao acolhimento do Pai. Fiéis que souberam carregar o peso do trabalho e as cargas da vida, encontram repouso. Escorraçados, despoderados, abandonados pelos poderes humanos e pela religião, têm “uma casa para abrigá-los, protegê-los e dar-lhes segurança”. Para chegarem à casa paterna precisam, homens e mulheres, de um caminho, de uma lâmpada quando chegar a noite.

A meta desta viagem que se fará com Jesus, no discipulado de cada dia, não é somente de chegar à casa, mas de obter, também, o abraço do Pai que espera, que mostra seu rosto amoroso, benigno, confiável. “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2; Sl 23). Todas as virtudes da hospitalidade do Pai estão no acolhimento afirmado por Jesus. Aos homens e às mulheres, igualitariamente. Não há nenhuma possibilidade de associarmos o Deus fundamentalista – Deus “andromórfico”, macho rancoroso, tenebroso, irado, vingativo – com o Deus de Jesus: Deus acolhedor que hospeda os desprotegidos de tudo, com ternura, em “sua casa”: “Abre a mão ao aflito, e ainda a estende ao necessitado” (Pr 31,20); que diz: “Vinde, os que estais cansados e oprimidos…” (Mt 11,28).  Deus que se reflete no cuidado que a mulher tem com os desprotegidos, oprimidos, atropelados e esmagados pelos demais.

O Deus da gratuidade é exemplar. Nele identificamos também o desejo de perdão, ao invés da vingança, ou da represália, quanto aos pecados cometidos na estrada da vida. Assim, homens e mulheres mostramo-nos deslumbrados por esse Deus das muitas moradas,  quedamo-nos perplexos pela grandeza do céu estrelado, o Reino de Deus. No seu acolhimento existe interioridade e fascinação indescritíveis. O Salmo 36 (8-10) expressa com segurança essa certeza: “Ó Deus, quão preciosa é a tua graça. Os filhos e filhas dos homens e das mulheres se refugiam à sombra das tuas asas. Saciam-se da abundância da tua casa”.   

Sobre Derval Dasilio

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Uma resposta a A MULHER DOMINADA E OPRIMIDA NA IGREJA

  1. Derval Dasilio diz:

    BRASIL
    Para a mulher agredida, lar é lugar mais perigoso para ela ficar

    Quarta-feira, 30 de abril de 2008 (ALC) – As mulheres precisam se convencer que, na prevenção do femicídio, o lar é o lugar mais perigoso que elas dispõem. A maioria dos atos de violência que mulheres sofrem é cometida dentro das quatro paredes do lar e os principais perpetradores são homens próximos a elas. No Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é agredida no âmbito doméstico.

    O alerta, registrado pela revista IHU, do Instituto Humanitas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), é da professora Montserrat Sagot, da Universidade da Costa Rica, especializada em Sociologia de Gênero pela American University, de Washington.

    Embora ela aponte um avanço considerável em todos os países da América Latina na atenção da violência contra as mulheres, que deixou de ser um assunto privado e passou a ser entendido como um problema público, ainda é uma minoria de agredidas que recorre a algum dos serviços existentes em seu apoio ou denuncia a violência sofrida, disse.

    A coordenadora do Centro Jacobina de Atendimento e Apoio à Mulher da Prefeitura Municipal de São Leopoldo, Regina Stockmanns, afirmou que muitas mulheres vítimas de violência sofrem pressões familiares, religiosas e sociais para manter o relacionamento. Elas “se sentem responsáveis pela preservação da unidade familiar”, disse a artista plástica ao IHU.

    No âmbito da violência doméstica, arrolou a psicóloga e psicoterapeuta Martha Narvaz, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que se dá entre parceiros afetivos, o sujeito, geralmente o sujeito masculino, considera-se dono, “proprietário da sua companheira, mulher, esposa ou namorada”.

    Trata-se de uma relação de sujeitos “coisificados”, no caso as mulheres agredidas, na qual o “dono” não gosta das tentativas de autonomia que as parceiras buscam, ameaçando-as e praticando toda forma de violência física.

    “Sabemos, pelas estatísticas, que a maioria dos casos de femicídio ocorre justamente quando as mulheres estão tentando se separar. O sujeito que se acha dono não aceita perder a sua escrava”, analisou Narvaz ao IHU.

    Pesquisa do DataSenado, de 2005, mostrou que, entre as vítimas domésticas, 66% apontaram o marido ou companheiro como autor das agressões. Para o universo de mulheres pesquisadas, as agressões físicas, com 58%, são a principal forma de violência doméstica, seguida pela violência psicológica (24%), violência moral (14%) e sexual (7%).

    Das mulheres agredidas, a pesquisa levantou que 25,2% silenciaram sobre as agressões sofridas e 22,3% procuraram apenas a ajuda da família, mencionou a promotora de justiça de Alagoas, Stela Soares de Farias Cavalcanti.

    “Elas sofrem uma série de formas de discriminação e uma das questões que dificulta muitas vezes a denúncia é a vergonha. Essas mulheres têm vergonha de denunciar, porque ser uma mulher vítima de violência traz sentimentos de vergonha e de culpa. Ainda circulam na sociedade algumas idéias preconcebidas de que se a mulher apanhou é porque ela fez algo para merecer isso”, afirmou Narvaz.

    Por isso, é preciso “desconstruir os estereótipos de gênero”, defendeu a psicóloga. O perfil da mulher vítima de violência aparece em todas as classes sociais e todas as faixas etárias, mas é a mulher pobre a que mais denuncia, lembrou Regina Stockmanns, do Centro Jacobina.

    O professor e pesquisador Romeu Gomes, da Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, disse, em entrevista ao IHU, que as relações entre homens e mulheres, no âmbito familiar, são reproduzidas e produzidas a partir de modelos culturais de gênero, nos quais a mulher deve se subordinar ao homem. Daí, muitas vezes, a dificuldade da agredida denunciar o agressor, porque a mulher tem medo.

    “Se ela foi socializada no sentido de depender do homem, o medo de romper com essa dependência poderá ocorrer. São vários medos. Medo de a denúncia trazer conseqüências mais violentas, medo de não conseguir sobreviver sem o seu parceiro, medo de não conseguir outro parceiro, medo de iniciar outro relacionamento que poderá também ser violentou”, arrolou Gomes.

    Para o professor Lupicínio Iñiguez, da Universidade Autônoma de Barcelona, as sociedades contemporâneas, de uma maneira geral, são patriarcais e machistas em sua maioria, apesar das importantes transformações já ocorridas.

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