RETORNEMOS AO PASTOR QUE APASCENTA A VIDA


“Ainda que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum” (Salmo 23). Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, que vão declinando até morrer. A vida mesma é um grande mistério, embora seja entendida como a auto-organização da matéria. Depende do equilíbrio para reorganizar-se em situação de caos. Escrevia Leonardo Boff, recentemente: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”. Mas isso não explica a vida. Apenas descreve o processo de seu surgimento. Ela continua misteriosa, como os próprios biólogos e cosmólogos continuamente afirmam. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, a biotecnologia colocada em lugar de Deus, definiria o futuro da vida, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal, O Oitavo Dia, União Cristã, 2004).

De todas as crises (krysis), a morte é a mais decisiva da vida humana. Você se lembrará que escrevi sobre isso, no domingo da Páscoa. Isso implica também em decisão, porque até aqui ainda se podia adiar, protelar, manter em luz-e-sombra o que fazer da vida. Agora não há meio-termo. O “ethos” adoecido das nossas culturas é envolvido, inclusive, pela morte dos valores essenciais à sustentação da vida em seus direitos plenos. Mergulhadas no mais recôndito lugar, no interior de nossa humanidade, evocando o que não é consciente, individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões do que somos são expostas à clareza do sol do meio-dia. Temores profundos vêm à superfície. Caem todas as máscaras que encobrem nossa autenticidade, a realidade sai da nebulosidade: nós somos o que somos, sem mais recursos; sem maquiagens que possam esconder nosso verdadeiro rosto. Somos mortais. Homens e mulheres mortais num mundo onde a morte quer reinar.

Somos humanos, também, a ressurreição não nos tornará deuses imortais, mas homens e mulheres ressurretos, resgatados em nossa dignidade, num mundo ímpio, em que a ciência, a tecnologia, governados pela irracionalidade dos recursos medicinais restritos desenha um mundo destinado aos bem-postos. Um mundo sem solidariedade, sem ética, sem saúde, que nega o direito à vida ao resto da criação. A morte constitui sempre um drama e uma negação, de todos nós. A morte é sempre envolta em angústia. Tudo no ser clama por vida sem fim. Paulo gritava: “Quem me libertará deste corpo de morte?” E respondia: “Graças a Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nem por isso pôde deter os mecanismos da morte que se aproximavam irrefragavelmente. Estêvão, Pedro, Tiago, pregadores das nossas ressurreições, morreram como todos os homens e mulheres. Porém martirizados! Porque afirmaram a vida plena e abundante anunciada no Evangelho.

No gênesis, Deus descansou no sábado. A Bíblia não fala que a obra, o trabalho criador do Eterno recomeça no primeiro dia da semana seguinte. Jesus disse: “Meu Pai ainda trabalha”… Também nós, criaturas que lutamos pelos direitos da criação, precisamos de um sábado. Uma pausa. A criatura de Deus quer plenitude, vida completa, com todos os direitos, dignidade; vida eterna, com a presença constante de Deus, o amigo terno, cuidadoso, que chama à convivência sem fim, a seu lado. A vida biológica é tão simples! A morte também. O “ethos” de cada cultura, porém, é extremamente complexo. Mil vezes mais. Jesus ensinou a gregos e israelitas, tradições bem diferentes, sobre a simplicidade da existência humana. No entanto, insistimos em tornar complexo o que primitivamente, milhões de anos atrás, já se sabia, sem perguntar sobre qualquer mistério; sobre os fenômenos que aconteciam naturalmente. Inclusive sobre a vida e a morte, um temor sem fim. As pessoas não precisavam saber que a terra girava em torno do sol, enquanto gira em torno dela mesma; que as estrelas cintilavam em razão de uma combustão natural, e que as luzes que vemos lá no espaço sideral, numa noite estrelada, são corpos celestes que morreram há milhões de anos.

Não precisavam dessas elaborações para concluírem que todos os seres vivos brotam de sementes, que nascem, crescem, produzem frutos, e voltam para o ventre acolhedor da terra, enquanto suas sementes, dos frutos deixados sobre a terra, continuarão a expressar a vida criada. É preciso prestar atenção, também, às palavras, no Evangelho: Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo que cai na terra não morrer, ficará só, mas se morrer produzirá muito fruto (Jo 12:24). S.Francisco de Assis entendeu tão bem: “É morrendo que se vive para a vida eterna”.

As vozes da vida não necessitam de devaneios cósmicos para expressar continuamente a criação de Deus, mesmo sem ter nos lábios as palavras do catecismo: “creio no Criador do céu e da terra”. Jesus simplesmente expressa palavras sobre a “eternidade da vida”. Seus primeiros discípulos diziam, pressionados sobre o destino de cada um: “Para onde iremos, só tu tens as palavras da Vida Eterna”. William Blake, o poeta inglês, entendia o homem e a vida desse modo: “um mundo num grão de areia”! Rubem Alves expressaria isso de outra maneira: “a vida dos homens e das mulheres é como uma gota de orvalho repousando numa pétala de flor”. Nada expressaria mais fortemente a fragilidade da vida, exposta aos perigos mortais em formas de exterminação da criação. A revolução da informática, incubadeira de idéias, de projetos que devam germinar negócios e consumo, aprovaria o conhecimento universal de ontem, a conservação da ética da vida, os bancos de dados nas experiências dos povos e das culturas de todos os tempos? Ou favoreceriam os sistemas de pensar que impedem a ressurreição e realização da vida humana na direção da dignidade e da plenitude? (Euler Westphal).

“Para os que vão morrer”, Walter Rauschenbusch escreveu esta oração: “Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar… não sabemos para onde. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e para ti iremos.

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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