PÃO DA COMUNHÃO JOGADO NO LIXO


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Santa Ceia com Jesus na Avenida. Escrevi uma crônica, a pretexto de um anúncio de jornal convocando evangélicos a desfilarem, unidos, no Carnaval. Ceia do Senhor indica comunhão e unidade. Pobres e ricos dançam juntos os três, quatro dias do Carnaval… simula-se a superação das diferenças. E depois? Depois vão torcer pelo Flamengo, Coríntians, Vasco ou Palmeiras, Grêmio ou Internacional, Atlético ou Cruzeiro… não é mesmo? Como expressar no meio da rua uma comunhão que não existe nem mesmo entre evangélicos e protestantes? A Eucaristia não é privativa de indivíduos nem é um espetáculo de falsa comunhão, creio. Se fosse assim, comunhão de “massa”, porque a “massa” não comungaria com as transformações propostas na missa e no culto, na “eucaristia” (ação de graças pela presença do Ressuscitado na vida do povo)?

Por que não se admitiriam pecados estruturais na sociedade inteira, injusta, irresponsável, impiedosa, sem misericórdia e compaixão; por que não se considera o pecado ideológico na cultura religiosa protestante e “evangélica”, também chamada cristã, com todos os seus abusos? Jesus disse, introduzindo a Santa Ceia: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”; (…) “aquele que não come da minha carne não tem parte comigo”. Melhor traduzindo: “… aquele que não se alimenta de mim, da minha causa, não tem comunhão comigo”, esforço-me no sentido (Jo 6,51-58). Calvino disse que temos, “realmente”, a presença do Cristo Ressurreto na Santa Ceia. Os discípulos de Emaús reconheceram, “no partir do pão”: – “Ele está no meio de nós”! O anonimato obrigatório, as máscaras, a folia, a alegria da ignorância, comporão as intruções da Eucaristia: – Reconheceram-no no partir do pão ou no pão jogado no lixo?

“E uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o depois partiu e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. Que significa reconhecer Jesus Cristo presente nas dádivas da mesa da comunhão, senão que o caminho de Emaús também faz parte da caminhada dos que não conseguem ver, ainda hoje, a presença real do Cristo ressuscitado? Não creio que possamos falar de hospitalidade eucarística sem considerar essa passagem. Desde os anos 70, se instalava a negação das mais antigas tradições da Igreja, inclusive a não confiabilidade dos sacramentos transmitidos pela Igreja Apostólica, a partir  dos séculos iniciais. Falava, nessa década, sobre a maturidade do cristão moderno livre de simbologias religiosas, do misticismo e do racionalismo doutrinal ortodoxo. A explosão carismática pentecostalista fazia despontar uma “religiosidade nova” – como se fora novidade o maniqueísmo polarizador do Bem e do Mal, ou como se o “pelagianismo” contra o qual debateu Agostinho na defesa da “gratuidade” de Deus, da Graça sem preço, nunca tivesse existido – enquanto a difusão de seitas orientais, new age, hare krishna¸ meditação transcendental, seita do reverendo Moon, ganhavam espaço no hipermoderno arquipélago cultural religioso chamado Brasil.

A Ceia do Senhor começa quando se lê a Bíblia para se ouvir a Palavra de Deus, e se canta o hino da Igreja preparando a comunhão do povo. Somente depois que se alimentou do Pão da Vida a comunidade se reúne para receber o pão terreno, das mãos de Deus, o pão da vida física. Com gratidão e pedindo a bênção de Deus para as oferendas, a comunidade cristã recebe o pão de cada dia das mãos do Senhor. Desde que Jesus Cristo sentou à mesa na companhia de seus discípulos a comunhão de mesa de sua comunidade é abençoada com sua presença. Presença real, verdadeira (Claude Labrunie). Significa, em primeiro lugar, reconhecê-lo, no partir do pão, como doador de todas as dádivas, como Senhor e Criador desse nosso mundo juntamente com o Pai e o Espírito Santo.

A comunidade de Jesus crê que ele quer se fazer presente quando ela lhe pede isso. Por isso ora: “Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado na unidade” – e assim confessa a graciosa onipresença do Filho de Deus. Jesus Cristo. Toda comunhão de mesa enche os cristãos de gratidão para com o Senhor e Deus Jesus Cristo. Com isso não se busca uma espiritualização enfermiça das dádivas materiais. Pelo contrário, é justamente na alegria plena, por causa das boas dádivas dessa vida corporal, que os cristãos reconhecem seu Senhor como o verdadeiro doador de toda boa dádiva e, além disso, como a dádiva verdadeira, autodoação real, o verdadeiro Pão da Vida.

Por fim, como aquele que os chama para a ceia da alegria no Reino de Deus (Bonhoeffer). Desse modo, a comunhão de mesa une os cristãos de modo especial entre si e com o Senhor. Reunidos à mesa, reconhecem o Senhor como “aquele que lhes parte o pão”. Os olhos da fé foram abertos. Dietrich Bonhoefer dirá: isso é motivo de celebração. A pessoa cristã não deve comer o pão em espírito de ansiedade (Salmo 127.2), mas “com alegria” (Eclesiastes 9.7). Em Eclesiastes 8.15 se diz: “E eu exalto a alegria, pois não existe felicidade para o homem debaixo do sol, a não ser o comer, o beber e o alegrar-se”, no entanto, “quem pode comer e beber sem que isso venha de Deus?” (Ecles 2.25).

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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2 respostas a PÃO DA COMUNHÃO JOGADO NO LIXO

  1. Lysias Jr diz:

    Derval, amei esta reflexão. Com sua autorização a estarei compartilhando com o Povo de Deus, na comunidade onde hoje eu tenho a liberdade cristã de ser eu e de poder compartilhar suas reflexões e de muitos outros teólogos bons que temos por ai e que os chamados “santos” não conhecem e às vezes até mesmo por não terem acesso aos seus escritos. Parabens, meu mestre! E o livro, quando estará pronto? Quero estar na noite de autógrafos.

  2. Derval Dasilio diz:

    Grato, colega.
    Abandonei a teologia
    ortodoxa, escolástica,
    por opção. Não vejo, no entanto,
    como descartar a Teologia da Libertação
    nos meus escritos. Você percebeu. Alegro-me
    em tê-lo me apoiando.
    Obrigado,
    Derval

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