IGREJA: COMUNHÃO E INCLUSÃO DE TODOS OS QUE CRÊEM


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A ressurreição de Cristo significa que o fim das exclusões já começou; que os mortos já começaram a ressuscitar; Deus já ressuscitou primeiro. Contra todos esses vaticinadores do exclusivismo, do absolutismo moralista, a salvação é esse processo iniciado com Cristo e que continua transformando o mundo em outro mundo como Deus quer. Um mundo onde Deus reine. O mesmo Espírito Santo, a mesma força de Deus que ressuscitou a Jesus, está já em nós para ir formando nosso corpo de glória. Corpo e coração ressuscitados. Alma, espiritualidade, mente, a serviço da ressurreição em Cristo Jesus. Inclusão, solidariedade, tolerância, compaixão, deveriam ser as primeiras palavras no vocabulário analítico da Igreja de Jesus Cristo. Não o contrário.

Assim há que se entender a preocupação divina para libertar o povo da “escravidão do Egito”, da opressão, da injustiça. Da mesma forma se deve entender o projeto de vida de Jesus como um serviço ao ser humano. Este estava condenado por estruturas injustas a viver uma vida sem qualidade, uma vida desumanizada. Isto acontecia não somente pela exclusão do desfrute e usufruto dos bens criados, mas também pela distorção da verdadeira imagem de Deus, graças a uma religião que ocultava o verdadeiro rosto paternal e misericordioso de Deus. João nos lembra o Deus que não exclui ninguém da vida plena(Jo 20,19-31). Lucas nos dirá, ao homem e à mulher, e à comunidade: “…não consideres igual aos outros aquilo (aquele?) que Deus purificou” (At 9,15).

Diria Karl Barth, interpretando o que escrevera Calvino em seu Catecismo: “a Igreja é humana e pecadora”. Se muitos pensam que a fé cristã é assunto de tribunais eclesiásticos, ou assunto pessoal, individual, assunto “religioso”, os textos de hoje tratariam de contradizê-los numa espécie de resumo ou de visão panorâmica da vida da igreja, já em seus inícios – dias, meses, anos – depois da ressurreição do Senhor. Outro ponto referir-se-ia aos “santos” e “pecadores”. Na Igreja haveria santos e pecadores? É possível falar de vida “santificada” e de vida “pecaminosa”, biblicamente? A comunhão dos cristãos estaria condicionada a conceitos de pureza, impureza e santificação? Poderíamos acompanhar os estudiosos que chamam estas passagens de “sumários” (Atos  2, 22-47), e nos indicam, além do que lemos hoje, outros, como Atos 4,32-25 e 5,12-16, que apontam na mesma direção.“O que faz a Igreja ser Igreja é a pregação da Palavra de Deus” (Reformada Sempre se Reformando, Eduardo Galasso, cit.Calvino). O Evangelho é a Palavra de Deus. E a questão do kérigma, Ensinamento dos Apóstolos sobre a ressurreição, permanece viva na comunidade de fé (Bultmann), acima dos costumes, da moralidade, da eleição e “predestinação”.

Curva-se a Igreja, hoje, como ocorreu em todos os tempos e ainda hoje, diante do que ela tem de mais humano e pecador, o ódio racial, a (mútua) intolerância, a homofobia, o exclusivismo, o alheamento da realidade sócio-cultural, sem autocrítica e sem vontade de “purificar-se” das influências perniciosas, pagãs ou judaicas, que a acometem, sempre, em todas as épocas? Onde encaixaremos a idéia mestra da eleição do povo de Deus no Evangelho (“não consideres igual aos outros aquilo que Deus purificou” (At 9,15)?

Devemos também concordar com Karl Barth, quando nos lembra daquilo que a Igreja deve representar, em termos do Batismo compromissado, da Comunhão e Hospitalidade Eucarística; da vida profética face às sempre presentes realidades opressoras, forças cegas que agem sobre o homem e a criação.  A humanidade e o mundo criado esperam por Redenção, pelo resgate divino que o Senhor da Igreja promete e realiza sacrificialmente.  O Senhor da Igreja é o homem Jesus Cristo, que andou pelos caminhos da terra, sempre rejeitado pelos poderes reinantes, desde a Religião, a Economia e a Política do seu tempo. Incluindo os sistemas de pensar de cada cultura. É neste mundo que os pecados de todos os homens e mulheres são perdoados, e todas as contradições ao Criador são superadas. Dentro e fora da Igreja. É nele que se torna possível a reconciliação com Deus e com suas intenções salvíficas. Anunciar esse evento é próprio da realidade eclesiástica, é agir sob a obediência da fé que movimenta a Igreja e a torna viável, visível, diante das realidades opressoras que parecem reavivar constantemente a força do paganismo idolátrico que se esconde, disfarçado, dentro e fora da Igreja.

A fé em Jesus Cristo ressuscitado e o fato de termos recebido o Espírito Santo nos incorporam necessariamente à comunidade sociológica da Igreja? À Igreja, que não se reduz, como tantas vezes pensamos e dizemos, ao que se denomina de “igreja visível”, à chamada “hierarquia”, à “autoridade dos ministérios”; à “autoridade dos conselhos e concílios”, é  constituída por todos os que crêem: homens e mulheres de todas as idades, de todas as procedências, que exercem nela diversos ministérios e experimentam diferentes formas de vida, de dons, em diversidade e pluralidade. Tem a ver com muitas coisas em comum, isto é verdade, e é precisamente isso que hoje nos apontava a leitura do livro dos Atos dos Apóstolos. O que assusta, porém, não é a permanência do legalismo judeu, juntamente com o preceitualismo ortodoxo da igreja cristã. Por que não se define o que são religiosos “ortodoxos” judeus ou cristãos e as mútuas simpatias existentes entre os dois? Na indecisão, o fundamentalismo é abraçado, e as fronteiras para a vida de fé permanecem mapeadas, e são cada vez mais altos os muros divisórios nas igrejas.

A IGREJA E O ENSINAMENTO DOS APÓSTOLOS

Na Bíblia, em primeiro lugar, prevalece a fé comum, “o Ensinamento dos Apóstolos” (kérigma), o Evangelho da ressurreição que reconstroem através dos apóstolos às palavras do próprio Jesus. Em segundo lugar, a comunhão de bens, característica bem chamativa da comunidade primitiva (koinonia), chegando-se até a vender propriedades para se repartir o resultado da venda no fundo comum, com o qual se proviam as necessidades de todos e de cada um, de forma que ninguém passasse necessidade, e ninguém fosse excluído por qualquer motivo econômico-social. Em terceiro lugar, “o partir do pão”, partilha da mesa da comunhão (eucaristia). Isto é, a celebração eucarística na partilha igualitária durante uma refeição comunitária na qual se consumiam alimentos diversos e no meio do qual se pronunciava a memória de Jesus, de sua morte e ressurreição, evocando os gestos do Cristo de Deus, bem como as palavras da “sua” Ceia, instituída na última refeição comum com os discípulos. A Ceia é do Senhor, não da Igreja, portanto. Na concepção de Lucas, a exclusão da mesa pode ser um ato reprovável da Igreja… Jesus, no entanto, nunca excluiu qualquer discípulo de “sua” Ceia, nem mesmo o traidor: (cf. Lc 14,12-23: … e, “quando deres um banquete, convida preferencialmente os pobres, aleijados, coxos, os cegos […]. Tua recompensa virá na ressurreição dos justos”.

Finalmente as “orações”, momentos especiais de preces comunitárias, possivelmente nas mesmas horas em que os religiosos judeus costumavam fazer as suas: ao amanhecer, ao meio dia e à tarde. A Igreja era, então, como está retratada nesta leitura? A resposta evidente é “não”, pois a leitura nos apresenta acima de tudo um ideal que cada um deveria atingir; cada comunidade cristã, e a Igreja de Cristo, em geral. Duvidar de que a primeiríssima comunidade cristã tenha sido tão perfeita, como se descreve na leitura, é natural. Afirmar, porém, o estilo das comunidades cristãs alicerçadas somente na experiência da moral judaica, é uma temeridade teológica. Tiago, João e Paulo, estariam lidando com comunidades que reclamariam a mesma prática contra a ética cristã.Como se denunciava existir na igreja inicial, praticando agora equivalências e paralelos, membros das igrejas, locais e nacionais, pessoas inabilitadas para o batismo, a comunhão e o arrolamento eclesiástico, como seriam classificadas? Quem as apontaria, se convidados, na instrução do batismo, da comunhão, ou do desarrolamento? Quantos sobrariam, puros e santos, em nossas comunidades?

Evocaremos, celebrantes e comungantes, para todos e todas, os pecados que nos tornariam “inabilitados” para a Eucaristia e arrolamento na membresia local ou nacional, inclusive aqueles constantes em “listas paulinas”, a partir das cartas aos cristãos das igrejas gentílicas? Mentirosos, caluniadores, impudicos, idólatras, adúlteros, depravados, travestis, gays, drag queens, transformistas, transexuais, efeminados, sodomitas, são diferentes dos blasfemos, bígamos, pedófilos, incestuosos, sexualmente imorais; de bem-postos arrogantes, patrões que exploram empregados negando-lhes direitos trabalhistas, homens públicos, políticos, empresários corruptos e corruptores, fraudadores de licitações, sonegadores de impostos, ladrões, gananciosos, avarentos, banqueiros, agiotas, bêbados do trânsito, injuriosos, quando sentados lado a lado nos bancos dos nossos templos? Por que privilegiamos o segundo grupo, e questionamos o primeiro? Mulheres continuariam inferiorizadas social e eticamente, nas igrejas, eventualmente imputadas isoladamente como adúlteras, prostitutas, “sacerdotisas” do paganismo, enquanto permanecem, sem qualquer estigma e sem punição, nesse sentido, homens que praticam as mesmas coisas nas mesmas comunidades? Por que condenamos mulheres e absolvemos os homens? Imaginamos ser capazes de separar tais irmãos com equanimidade no julgamento sobre a inclusão,  de pertença ou não-pertença à Igreja de Jesus Cristo?

Sobre Derval Dasilio

professor teólogo filósofo
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